terça-feira, 23 de março de 2010

Poema de Gerci Oliveira Godoy


DESESPERANÇA

O barco
que não vi passar
é a gota seca
das manhãs de estio

O campo
verde que já não existe
esconde a ilusão
de flores imaturas

Já não há prece
no asfalto morto
abre-se o ventre
na lágrima da noite

Na agonia
de amargos inventos
jazem vísceras apodrecidas
abutres perderam a fome.


Conheci a Gerci em 2004, em uma oficina de Descentralização que ministrei no Parque Ararigbóia. Naquelas sextas-feiras iluminadas, de maio a novembro, tive a bênção de conviver com uma turma muito boa. Nessa época, a Gerci trazia poemas de Haroldo de Campos, por exemplo, e sobre eles criava suas coisas, chegando a resultados interessantes. Por sorte nos reencontramos em diversas outras oportunidades, e acabou que ficamos amigas.

Completados seus 70 anos, creio que ela está mais jovem do que nunca. Fez da costura profissão por largos anos; incentivou os filhos ao estudo e ela mesma voltou para as classes escolares depois dos 60, quando terminou o secundário.

Sua relação com a poesia tem uma verdade que escapa a muita gente que fez dela profissão ou que habita a academia. A Gerci cria o seu texto costurando com a vida as suas manhãs, e de trapos ou de aviamentos faz o seu voo poético, intenso, preciso.

Semana passada, ela me enviou dois textos por email. Não pude resistir à tentação de pedir autorização para divulgá-los; e posto aqui no blog, excepcionalmente, esse poema que não é de minha autoria. Coisa rara.