Deus me livre de uma desgovernadora que deixa a Casa do poeta vazia e sem poesia. Deus nos livre dessa decadência e dessa falta de decência com as coisas dos artistas. Deus me livre da fome espiritual que ronda as nossas esquinas, onde um dia havia bom cinema, onde um dia havia papos, trovas e profecias, e hoje só o sussurro lesado dos sonsos. Deus me livre da parede rosa e branca das Casas dos artistas cada vez mais brancos e Deus nos livre dos parasitas da cultura que fazem negócio do ócio dos outros. Porque as cabeças, parece-me, vão ficando cada vez mais brancas, também, quando não há melodias e quando Deus não nos livra de nós mesmos. E só a arte nos livra de nós mesmos. Deus me livre de minha ignorância, mas me livre ainda e antes de uma desgovernança sem confiança nenhuma em ternurinhas. Sim, em ternurinhas. Como é que vão crescer as ternuras das crianças, sem o riso dos palhaços? Como é que vão nascer novos poetas se até os mais velhinhos viram alma penada em sua ex-Casa de Cultura? Perambulando pelas ruas desse país dos Andrades, na eterna Rua da Praia, às vezes paro e pretendo não pensar.