domingo, 23 de maio de 2010
Não me Safo
Trouxe pra te mostrar
uma pérola do mar,
só ostra.
Sou moça.
Pesco e pago, a prestações,
o Processo:
Kafka na esquina,
quimeras com meninos,
a bela do Bells.
A fuga da Cidade Baixa.
Virgem vaga
morando numa caixa.
Bailarina suja, nas calçadas,
no escuro,
na fumaça cu de mundo.
Tão imundo
meu olhar.
Há facas nesse fosso?
Ou só osso desprezado,
botas, lixo, pedaços de pau
no cinza da tarrafa.
Uma santa? Preta?
Ou um soco?
Trouxe pra te mostrar
um lado teu só anjo,
lago sem mistério, céu
do céu profundo.
Imundo.
Peço e pago, a prestações,
informações difusas:
ando no fuso da
dúvida. Firme e nua
debaixo do véu preto.
Divido vidas?
Rateio a teia?
Tonta, tonta, tanto não.
Não me quiseram Deus.
Não me quiseram peixe.
Apareci.
Sou preta.
Sou presa na pressa do patife.
Xerife, I’m not so glad.
Glass inside me.
Sai, sai, sai,
boa noite, meus senhores.
Sou santa. Sou madeira.
Pesco barbas.
Ando em beiras.
Estou presa na tarrafa desse espelho.
Espalho dicas e dizeres vários.
Sou preta na pressa da Cidade Baixa.
Sou preta na ponta da Rua da Praia.
Sou puta!
O gasto deste arrasto
em barracão de pescador
no bafo do trovador
sozinha, na ira da manhã
sou minha. Misturo vidas.
Costuro cútis de cadáveres.
Apodreci.
Apareci, e já, já,
Iemanjá, apodreci.
Nossa senhora do mar
Nossa senhora do peixe
prenda, prenda
aprenda meu pedido.
Dou por tudo. Dou
pra todos. Sou boa com
homens ocos –
cato socos no fosso do assombro
e me querem casada
em cemitério.
Não sobro na sombra, meu velho.
Sei que não asso teu ócio.
Sou boa em divórcio.
E disfarço essa farsa
de príncipe nu:
Hamlet difuso
distorcendo tudo:
Põe véu e grinalda, põe flor
na minha mão de puro osso.
Caçoa de mim, caçoa.
Fiz de tudo, e ainda que doa
sou boa.
Um musgo me invade: que alarde,
que alarde,
quero o dedo dele
e trazem-me a cabeça!
Deleite do enfado.
Ah sim, sou fada.
Não, não me Safo.