domingo, 23 de maio de 2010

Porque o meu samba - é assim

Há pouco mais de um mês, fiz uma visita ao Afrosul Odomodê por convite das alunas de percussão do mestre Paulo Romeu. Elas me convidaram para falar uma poesia durante as apresentações que elas fariam agora na semana da Biodiversidade.

Porque tudo que se relaciona à percussão me interessa, porque "lugar de poesia é na calçada" (Sérgio Sampaio) e porque me chamaram, lá fui eu. Disse o mestre Bashô: "Não mostre seus versos, se não for socilitado. Solicitado, nunca recuse".

Em certo sentido, traí o conselho do mestre haikaista, oferecido aos seus aprendizes do século XVII. Para não faltar com a verdade, devo dizer que a idéia inicial delas era a de inserir no repertório uma poesia de cordel - eu é que explicitei meus motivos e pedi para apresentar um poema meu. A sugestão inicial era a de usar versos nordestinos, cujo ritmo acaba sendo violentado quando eles são vocalizados com o nosso sotaque gaúcho - algo que, a meu ver, não fica bem.

Contrafiz a proposta e mostrei um poema meu, inédito, feito no verão do ano passado. Há tempos eu andava com vontade de apresentar esse poema assim, num solo, e fora de um contexto performático em que ele dialogasse com outros poemas meus. É longo. Foi linda a receptividade do grupo e do mestre, pois não precisei mostrar um segundo. Poucas vezes senti minha poesia tão valorizada e compreendida por um grupo de pessoas - e também pelo público das apresentações. Assim, dita entre os baiões, afoxés e sambas tocados por oito mulheres. Foi lindo.

No poema, as referências estão armadas em torno da sexualidade feminina: o poema é bem explícito em alguns trechos. Cita as calçadas da Cidade Baixa (bairro boêmio daqui), os orixás que nos protegem, a Nossa Senhora Aparecida, a poeta Safo e símbolos de confrontos entre gêneros. Foi muito bacana sentir que as referências, antes de tornarem o texto fechado, facilitaram, nesse caso, a relação afetiva com o contexto. Consegui dizer "sou puta" em praça pública, sem me sentir violentada ou violentando, graças à presença das meninas e ao contexto da apresentação.

O poema foi encaixado no contexto musical de um ponto de Oxum lindamente cantado por elas, e teve acompanhamento de sonorizações, produzidas com tambores, apitos e outros objetos sonoros que costumo utilizar e dos quais elas se apropriaram super bem. Em breve teremos vídeos no youtube para mostrar a vocês.

Fiquei muito feliz com as duas performances do poema, realizadas dentro do show das Gurias da Percussão, nos eventos da Biodiversidade: um no Largo Glênio Peres (em frente ao Mercado Público) e outro no Parque da Harmonia, na festa final do evento.

Espero que essas oito musicistas sigam pesquisando, tocando e apresentando o seu trabalho, que é encantador. Elas merecem. Ao mestre Paulo Romeu, também, meus parabéns. Agradeço a oportunidade e deixo aqui, para quem quiser ler, o poema.