Acordo, no domingo ensolarado, com ganas de ler em voz alta "America", de Allen Ginsberg. Pego o meu livro surrado, com a tradução de Cláudio Willer, coleção Alma Beat da L&PM. Sim, eu preciso dessa Alma, às vezes, ao meu lado.
Procuro. Não sei onde anda, porque só encontro Profissionais. Meus pares estão todos trabalhando muito. As almas que não cabem em portifólio, que não calculam juros, que decidiram viver por conta & pelas coisas simples e nuas do coração - onde estão?
Talvez se tratando com aqueles remédios tarja preta & ficando dóceis para doutorados, casamentos, concursos públicos, viagens pelo mundo inteiro & viagens para dentro de si mesmos portando revistas, currículos, malas caras de cacoetes e falsos salários.
Ginsberg. Eu ainda me sinto perfeitamente aquilo. Eu me sinto isso, ainda mais. "América eu lhe dei tudo e agora não sou nada. América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro, 1956".
Porque antes a minha Alma Beat era um símbolo difuso. Algo como: o desejável. Eu achava bonito ser poeta & marginal. Hoje eu sou bem isso em vários sentidos. E não acho bonito. Não acho nem feio nem bonito. Não sei não ser.
Leio "América" em voz alta, e a minha voz fica tremida. Eu me vejo de novo nesse poema que lia aos berros quando era uma estudante de Filosofia nos saraus da extinta Teia e tudo estava pela frente. Nos porões das festas da Casa do Estudante. Nos porões do velho museu. Naquela época eu não conhecia quase nada do que seria e esse poema era assim, uma beleza quase turística.
"É verdade que não quero me alistar no Exército ou girar tornos em fábricas de peças de precisão. De qualquer forma sou míope e psicopata."
Todo dia eu me admiro do sol e das Belezas que há e dispenso uma ligação de cobrança; e ontem minha amiga de infância perguntou por que não faço um concurso público e "aí tu dedica as horas vagas para fazer as coisas que tu gosta".
Tentei explicar a ela que não faço poesia porque gosto e que aliás detesto me dedicar a isso e não conseguir não fazer. Ela disse que compreendia perfeitamente. Estou certa que não. Eu não tenho televisão há mais de dez anos e quando assisto aos jogos do Brasil, confesso, sinto uma certa dor de estar ali, à vontade com a classe média burra & bêbada, não dando a mínima para o que virá nas eleições.
Eu estou ficando burra ou apenas preciso de um produtor? ;-) "Recuso-me a abrir mão das minhas obsessões. América pare de me empurrar sei o que estou fazendo."
A L&PM publicou muita coisa da geração Beat nos anos 80 e 90. Percebo muito menos espaço para isso hoje porque todos temos que ser tão politicamente corretos para não nos prejudicarmos na próxima seleção, para não ferirmos as leis de uma paz comprada à força e vazio e um amor às diferenças traduzido pela afirmação da Indiferença como regra, e tanto.
Eu morro de medo do politicamente correto porque cria o Padrão, e essa padronização dos seres humanos me dá arrepios. Eu chamo a nossa era de Ditadura da Felicidade e o nosso sistema de Totalitarismo da Simpatia.
Por favor, me chamem o Ginsberg, já.
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Leia "América" na mesma tradução aqui.
Leia em inglês para perceber a perfeição sonora do poema - e ouça o poeta falando o texto em público aqui.
Aqui em Porto Alegre o Marcelo Noah fundou o Dia Mundial do Poeta Marginal em 17 de janeiro, em homenagem a esse poema.