sexta-feira, 11 de junho de 2010



Sangue

em mesas de parto.

Ligaduras.
Estilhaços.

Um aborto
gera despesa
e paz.

Dia de nuvens
no parque:

um domingo
passado a ferro

e o sol
queimando

para os namorados.



Comentários desnecessários:

O poema do ladrão é o penúltimo do livro Rumor da Casa. Fosse republicá-lo, situaria o poema em outro local. O que às vezes me choca é o fato de ele ter sido escrito pouco antes de um incidente, em Florianópolis, quando a casa onde eu residia foi arrombada e me roubaram o laptop (com isso perdi, na época, boa parte da minha produção recente. Eu morava no meio do mato e escrevia muito). Bom, águas passadas, que hoje não deixam de soar um pouco cômicas, também.

Já este poema do aborto, o
fiz pensando em uma experiência que tive no Hospital Psiquiátrico São Pedro, em cujos prédios desativados tive a oportunidade de conviver com um grupo de teatro, em 2004. Na época, montamos um trabalho chamado Sarau Cênico, e nele apresentei um
poema do Desconjunto, que fala sobre maternidade.

Entre os móveis do lixo hospitalar que ainda residiam no nosso local de trabalho, havia uma velha mesa de parto. Antiga, alta, metálica, com uma gaveta para colocar a placenta, e tudo mais. Pus-me a pensar: que tipo de partos ocorrem dentro de um Hospital Psiquiátrico? Sabemos que antigamente muitas mulheres iam parar por lá por temas matrimoniais ou gravidez indesejada, levadas por seus familiares. Sabemos também que os internos namoram, tem os seus amores nos corredores de hospitais. Minha imaginação rolou, rolou, rolou. E fiz uma performance utilizando a dita mesa.