O livro é apenas um dos suportes possíveis para o poema.
Falar poesia é mais importante do que publicar poesia.
Vivemos em um país de analfabetos poéticos, em um mundo de analfabetos poéticos (e tanto mais quanto maior o acesso às ciências).
Antes mesmo da minha primeira publicação (Desconjunto, 2002), eu procurava investigar como compor, através de um poema (que para mim não é um objeto exclusivamente verbal), algo como um acontecimento poético, que não se restringe a uma só camada de informação: visual, sonora, táctil, olfativa, rítmica.
Nunca imaginei o ato de falar poesia como desprovido de aspectos (constitutivos e tão essenciais quanto o próprio texto) que excitam todos os sentidos de quem assiste.
Incomoda-me demais o “desleixo” daqueles “declamadores” que não parecem conscientes da sua presença diante da platéia e dos níveis linguísticos de formação de uma imagem poética complexa.
Gostaria de utilizar todos os recursos de uma apresentação de poesia com o mesmo cuidado com que eu arranjo as palavras dentro de um poema. Essa é uma pesquisa, um estudo e uma evolução constantes.
No início, fiz a relação entre performance de poesia e teatro, com muita movimentação cênica e suor (a performance Rumor da Casa). Agora, com o estudo da música, penso o acontecimento nos seus detalhes em termos de produção melódica, cadência, andamento, articulação e outras nuances sonoras de interpretação. E sinto que já tenho um novo caminho autoral, resultante disso.
O primeiro poema que apresento em Depois da Água, minha performance mais recente, é justamente o último do livro Rumor da Casa. Onde um trabalho termina, há de começar sempre o próximo.
A meu ver, é uma pena que ainda nos contratem muito mais para falar sobre poesia do que para apresentar poemas para o leitor. Esse é um sintoma do império da razão. A educação da sensibilidade só se dá pelo contato.
De qualquer modo, considero um privilégio poder oferecer a minha energia para proliferar leituras. É um dos maiores motivos de sorriso que já conheci.