A arte poética não está limitada à materialidade do livro como seu único espaço de presença e atuação. Pelo contrário. Durante toda tradição ocidental, a poesia atuou junto aos espaços de sociabilidade (desde os primórdios da literatura até as trovas da Idade Média, a poesia popular, as canções, o cordel, as orações e até mesmo, atualmente, o Rap). Via de regra, nessa interface com a comunicação social, a poesia sempre estabeleceu diálogos com outras linguagens da arte.
A tradição em teoria da literatura apontou inúmeras vezes essas relações e o entrosamento da poesia com diferentes suportes. Variadas vertentes criativas investigaram esse tipo de relação (o simbolismo praticou a musicalidade dos versos, o concretismo buscou sua interface visual, p.ex.). Contemporaneamente, essa caracterítica tem tomado acirrado crescimento através do desenvolvimento de muitas linhas de atuação, como a poesia visual, a poesia sonora, a poesia eletroacústica, poemas animados, videoperformance e performance. Só o ímpeto classificatório se preocupa com as divisões das gavetas em detrimento da promoção da arte, da fruição estética e do enriquecimento que o contato com ela pode gerar. A sensibilização promovida pelo encontro afetivo entre texto e público é uma ferramenta poderosa em prol da leitura. Em experiências com poesia falada realizadas por mim há cerca de dez anos, tenho recebido inúmeros retornos que atestam a importância dessas atividades como promotoras de incentivo à leitura, formação e qualificação de leitores; além de enriquecerem a minha produção e pesquisa estética. Reduzir a poesia à sua materialidade livresca é amputá-la.