Chovia e eu tentava restabelecer a calma. Era impossível revisar meu romance pois cada palavra do meu texto era uma gaveta abrindo uma a uma as más lembranças dos últimos acontecimentos, como se as palavras fossem as pétalas dessa primavera. Deixavam aquele perfume (não o perfume, a alergia) inundando todos os poros. Que remédio? Fui ler Antonin Artaud. Um ensaio chamado Van Gogh: o suicida da sociedade. Lindo.
“Também sou como o pobre Van Gogh, já não penso, mas governo cada dia com mais proximidade as formidáveis ebulições internas e seria estranho que um médico qualquer viesse censurar-me por eu me cansar.”
Ele, Artaud, cuja poesia os psicanalistas tentaram "consertar". Ele que esteve internado durante 9 anos em um asilo para loucos - ele compreendeu como ninguém os motivos do pintor, a crueldade do Dr. Gachet, a cólera estampada em todas as estrelas.
“Nunca ninguém escreveu ou pintou, esculpiu, construiu, inventou, a não ser para sair do inferno.”
O pior, ou melhor, é que me identifiquei. Pago, sim, o Fisco da Vaidade. Eu me vi em Artaud, em Van Gogh, pelo desprezo e para os muxoxos dos doutores e suas sanidades compradas a drogas, diplomas e adesões às indústrias farmacêuticas. Indústrias da normalidade.
Há uma zona de diversidades nesse grau - o grau zero da escritura ou mesmo o grau das lentes que nós mesmos municiamos, para vermos a verdade. Nenhuma realidade escapa à armação, ou mesmo a essa limitação da urdidura.
“Foi assim que calaram Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval e o impensável conde de Lautréamont. Porque tiveram medo de que suas poesias saíssem dos livros e revertessem a realidade.”
Então lembrei de novo, dele, do Piva. Do bom leitor de Lautréamont. Do último poeta sincero. Do beat brasileiro que lá de cima, ou lá de baixo, deve estar vendo tudo o que acontece comigo.
Vendo, troco, dou, alisto, arrasto para o meu lençol essa palavra maldita: poesia. Piva, meu querido Piva, não publiquei ainda o poema que fiz para você.
Sabem o que é? Ele tem três páginas. E dúzias de palavrões. E ainda não passou dentro de mim aquele tremor, a vontade de falar mais (ou menos) do que todos os pintores.