"Não alimente o escritor" é o nome da performance que farei na próxima sexta-feira, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre. O trabalho não integra a programação da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre. Consiste na apresentação de uma imagem poética em três dimensões, com meu corpo em cena - uma manifestação artística espontânea e muito afetiva. A idéia dessa performance surgiu do meu desejo de compartilhar com os leitores alguns aspectos e circunstâncias polêmicas da criação literária.
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A partir de acontecimentos de minha própria vida e reflexões pautadas nas experiências que vivo como escritora, criei um conjunto de símbolos que serão oferecidos para reflexão e debate com o público. Estarei disponível para conversar com todos os passantes a respeito da proposta da performance, suas motivações e possibilidades interpretativas.
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Ao chegar em uma das muitas cidades do interior onde realizo saraus ou palestras, é muito comum ouvir: "Tu que és a escritora? Ah! Eu tinha imaginado alguém bem diferente!". Talvez pelo fato de ser uma jovem mulher sem óculos, de cabelos fartos e olhos verdes, minha presença física gera um estranhamento (às vezes, um pouco suspeito) entre as platéias. Que imagem os leitores comuns têm do escritor? A quais aspectos do sistema literário eles tem acesso? Como mostrar a distância entre o mercado do livro e o processo criativo? Sobre essas questões compus meu trabalho, que aborda contextos do fazer literário que podem ser estendidos às outras artes.
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Somarei à minha presença corporal outros elementos recolhidos de vivências cotidianas, pautando minha ação no confronto do público com a figura do escritor, seus possíveis choques e aproximações. Estarei atada a uma pequena casa de cachorro repleta de contas de aluguel e telefone (todas em meu nome). Outros elementos cênicos como uma coleira, um espelho e uma garrafa de conhaque e suas manipulações formarão a imagem poética. A cena será aberta e plurissignificativa, oferecida a todos os que passarem pela Praça da Alfândega das 18h às 20h da próxima sexta-feira.
Sobre a performance:
As vidas dos autores são relatadas ao público apenas quando, após a morte, eles se transformam em mito. Criam-se falsas celebridades e a ilusão de que a vida do escritor é muito distante daquela do cidadão comum. Na contramão desse movimento, procuro aproximar o processo criativo aos acontecimentos cotidianos, desfazendo pré-conceitos a respeito de quem é o escritor e suas reais necessidades. Iluminar o processo criativo, oferecendo seus aspectos ao público, é uma tendência da arte contemporânea, assim como a quebra de barreiras entre as linguagens da arte. Meu trabalho literário está muito ligado às interfaces com as linguagens do teatro e da música, desde a minha primeira publicação. Nessa esteira, penso a arte literária mais como acontecimento e menos como produto, posicionando-me como escritora em um mercado voltado à educação da sensibilidade, formação e qualificação de leitores. Minha performance é uma crítica à visão reducionista da literatura, que transforma leitores em consumidores padronizados e valoriza apenas a compra e venda de produtos (os livros) sem abordar a questão central: seus conteúdos, a pressão que sobre estes exerce o sistema literário e a invisibilidade do processo criativo.
Serviço:
O que - Performance poética "Não alimente o escritor", com Telma Scherer
Onde - Praça da Alfândega, transitando pelos seguintes pontos: centro da Praça (próx. ao guichê de Informações da Feira) e Rua dos Andradas (próx. à banca da BesouroBox).
Quando - sexta-feira, dia 12, das 18h às 20h.