sábado, 20 de novembro de 2010

Pitadas de teoria, história e lágrimas secas

A respeito da performance “Não alimente o escritor”

A um artista é vetada toda tentativa de explicação da sua obra. A arte, por ser arte, sempre resta inexplicável a quem quer que seja, ainda que as variedades interpretativas sejam infinitas. É fácil perceber que um mesmo poema de amor pode ter duas recepções completamente díspares para quem está apaixonado ou desiludido, e um mesmo verso pode causar ao leitor duas reações diferentes dependendo da sua idade, estado civil, humor ou dia da semana. Pretender que uma das muitas interpretações possíveis seja absoluta ou verdadeira é cometer o desvanecimento da arte. Ela existe na medida em que suscita novas interpretações, ela sempre revela essas diferenças.

A riqueza das teorias, a fortuna das críticas são instrumentos que nos auxiliam a enriquecer nosso background, tanto para o artista quanto para o apreciador. Nesse sentido, sempre é válido recorrer à tradição para compreender o presente através do passado. É preciso prestar atenção ao que foi dito por aqueles homens cujas palavras conseguiram perdurar durante os séculos, ainda que algumas das vozes mais elucidativas possam ter sido caladas em definitivo ou em determinados períodos da história.

Se uma das interpretações possíveis de uma obra é fornecida como exemplar em uma situação específica (na academia, por exemplo), pela sua fundamentação e coerência, é apenas para suscitar reflexões e nunca para cercear a multiplicidade de leituras, que reside na natureza da matéria artística.

O artista, ele mesmo, jamais poderá ser essa voz elucidativa a respeito da sua própria arte. Ele está tão misturado com as intenções afetivas do seu fazer, com as tensões do seu processo criativo, que dificilmente terá o distanciamento necessário. Alguns dizem que o escritor nunca funciona como leitor do seu trabalho (como Sartre, em O que é literatura).

Ainda assim, ao artista é concedido o direito de fornecer um depoimento a respeito do seu processo criativo e referências, pela regra do bom-senso e para a construção do conhecimento. Esse ato, em alguns casos, pode ser um dever.

Neste texto, pretendo fornecer o meu conjunto de referências na criação e motivações da performance Não Alimente o Escritor, realizada na Praça da Alfândega no dia 12.11. Esse trabalho desencadeou inúmeras e mordazes conseqüências e tem sido alvo de uma intensa polêmica nos últimos dias. Meu ponto de vista é o de que toda a reflexão é válida e o debate, necessário, ainda que eu mesma não concorde com muito do que tem sido dito e veiculado. Para o artista, mais importante do que o concordar é o incitar questionamentos.

Oscar Wilde escreveu no prefácio ao seu romance O retrato de Dorian Gray: “Toda arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que buscam sob a superfície fazem-no por seu próprio risco. Os que procuram decifrar o símbolo correm também seu próprio risco. Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida.”

Minha literatura sempre partiu das zonas viscerais, inquietantes, às vezes mórbidas dos sentimentos humanos. Abordo conflitos e temáticas consideradas polêmicas na maior parte da minha poesia, desde a primeira aparição no meio literário, em 1998, na revista Porto & Vírgula. Essa primeira publicação foi, como o próprio Charles Kiefer disse enquanto passava pela Praça da Alfândega durante a minha performance do dia 12, resultado de uma leitura do então coordenador do Livro e da Literatura da Prefeitura de Porto Alegre e realizada por intermédio dele, do que sou grata.

Era então o início da minha carreira. Desde lá, felizmente, tive outras oportunidades de dar a conhecer a minha poesia - que, de lirismo, romantismo e levezas sempre imaginei ter pouco e muito pouco. Tive dois projetos aprovados no Fumproarte (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre), um livro publicado pela editora carioca 7 Letras e outro pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul.

Não considero a publicação uma prioridade. Os amantes de poesia em Porto Alegre tiveram acesso à minha presença e produção durante os sete anos de realização do Sarau Aberto Teia de Poesia, por exemplo, que organizei junto com os colegas Diego Petrarca e Lorenzo Ribas em espaços como o Museu Joaquim José Felizardo e a Casa de Cultura Mario Quintana. O público do interior tem tido contato comigo através de inúmeras participações em Feiras do Livro e no circuito SESC de Literatura e felizmente já pude realizar performances em festivais e encontros no Rio de Janeiro, em Minas e no Uruguai. Para a Feira do Livro de Porto Alegre, realizei oficinas e saraus desde 2oo2, e tive ampla participação nas últimas quatro edições. Na 56ª estive contratada para realizar performances através do Feira Fora da Feira, atividade da Câmara do Livro que acontece durante o evento nas comunidades da cidade.

Durante essa trajetória, desenvolvi a poesia através da performance e a performance a partir da poesia. Minha literatura sempre esteve ligada a outras linguagens da arte (principalmente o teatro) desde o seu surgimento. Ainda que, a exemplo de muitos mestres, tenha um tom confessional e parta de vivências cotidianas íntimas e desconcertantes, ela é exibida em praça pública desde há muito. As performances de poesia falada antecedem os meus livros e são mais difundidas do que eles, desde sempre.

Não sou a única. O poeta contemporâneo (o artista contemporâneo) reflete sobre o suporte, não reduz sua arte nem se limita pela classificação do seu fazer, testa e pratica múltiplas formas de apresentação e invade novamente os espaços de sociabilidade, cada vez mais.

Acredito na força da poesia falada, cantada ou visualmente reinventada através do corpo do autor, em performance, tanto como uma realização literária mais completa e abrangente do que o livro quanto como uma poderosa ferramenta de sedução de novos leitores e incentivo à leitura. Pude comprová-lo em anos de trabalho na senda da sensibilização literária e formação de leitores, que teve início no projeto Descentralização da Cultura em 2oo4, após a finalização do meu mestrado, e foi contratada por diversas instituições, entre elas a Coordenação do Livro da nossa prefeitura, o SESC/SC e o SESC/RS.

Tanto para as oficinas que ministro quanto para a formulação das minhas performances utilizo a seguinte compreensão: uma performance de poesia é uma imagem poética materializada em vários suportes (em três dimensões) e percebida pelo espectador através de vários sentidos, preferencialmente com o corpo do poeta em cena. A imagem poética tem seu núcleo expandido para as três dimensões e os cinco sentidos do espectador. Um poema falado já é um terceiro nível de poesia, pois o espectador, ao ouvi-lo e percebê-lo, além dos dados verbais, as palavras, terá também acesso aos dados sonoros (timbre e ritmo da fala do performer), visuais (forma como está vestido, objetos cênicos) e quaisquer outros artifícios que o poeta puder escolher para que façam parte da sua performance. Podem ser elementos de expressão corporal, silêncios, instrumentos musicais, objetos manipulados, situação em que a performance acontece, interação com o público, etc.

Trata-se de uma senda criativa muito comum e que remonta aos inícios da arte literária, quando toda literatura era feita em versos, cantada e se fazia presente nos espaços de sociabilidade e rituais coletivos. A performance como a conhecemos hoje também teve destaque na tradição literária durante os movimentos de vanguarda dos inícios do século XX e tem sido desenvolvida por inúmeros poetas mundo afora.

A performance, como happening que é, como acontecimento, está intimamente ligada ao seu transcorrer no tempo: é um evento, lida com o risco de tudo o que transcorre naquele limite de tempo e espaço ao qual está sujeita. Todos os elementos que a compõem tem sua eleição definida e limitada por esse conceito. Conforme ela se desenvolve, altera-se a sua situação inicial: a dimensão da temporalidade faz parte da sua constituição.

Falta explicitar que quer dizer essa “imagem poética” que, numa explosão lingüística, sai dos limites da palavra escrita para ser formada pelas imagens, sons, expressão corporal, temporalidade da performance.

Octavio Paz, no artigo A Imagem, presente nos seus Signos em rotação, oferece uma boa definição. A imagem poética é um assalto à lógica, ela desafia o princípio de não contradição e, por isso, jamais poderá ser dita por outras palavras. Permanece inexplicável. Pode ser sentida, absorvida pelos leitores. Pode ser intepretada de inúmeras e variadíssimas maneiras.

Nesse jogo lingüístico que chamamos de imagem poética, “as pedras são plumas”. Se para o cientista, o comunicador, a professora ou o transeunte em seu cotidiano as pedras são pedras, pesadas e duras; para o poeta, em sua formulação plurissignificativa, sim, “as pedras são plumas”. Costumamos aceitar que um terno seja caro, barato, cinzento, amassado, etc.; mas no poema José de Carlos Drummond de Andrade há um “terno de vidro”. Só as palavras “terno de vidro” expressam o que quer dizer “terno de vidro”, pois a significação dessa imagem reside no íntimo de cada leitor. E pode hoje significar algo para mim diferente do que para você; e ainda pode mudar o sentido que lhe confiro hoje caso eu tenha recém voltado de um enterro, de uma loja fina de um shopping, de um lixão ou de uma vidraçaria. Tudo o que me ocorre, enquanto leitora, influencia minha leitura das imagens poéticas às quais sou exposta.

Quando um poeta, em performance, utiliza o seu corpo, seus elementos expressivos, visuais ou sonoros, cada um destes é como “vidro” em “terno de vidro”: está disposto em uma cena/acontecimento de modo a formar uma imagem poética ampliada, complexa, radicalmente plurissignificativa.

São conceitos simples e importantes, cuja afirmação talvez não se fizesse necessária em um contexto de leitores e escritores. Ainda assim, face aos últimos acontecimentos, tive vontade de escrevê-los.

Um dos meus poetas favoritos, como de milhões de leitores mundo afora, é o português Fernando Pessoa. Ao morrer − de cirrose − aos 47 anos, ele deixou a maior parte da sua obra inédita, dentro de um baú. Forneceu inúmeros motivos de reflexão e acabou sendo, para mim, sim, um exemplo.

Um dos mais famosos e irretocáveis poemas pessoanos termina com o verso: “Sentir? Sinta quem lê!”.

Em um sentido, ao menos, estou feliz com a minha performance. Esse, de motivar a reflexão, o debate, a espinhosa conversa no meio literário. Até mesmo da minha parte, posso afirmá-lo - pois assim que me retornou a calma pus-me a escrever este texto quase desnecessário, que ofereço aqui com as lágrimas secas e essas pitadas de fria teoria.