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Estive na homenagem que a banda Dionysios fez ao poeta Roberto Piva, em Porto Alegre. Apresentei um poema que escrevi na noite em que ele morreu, há poucos meses atrás.
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Nos últimos tempos, era comum receber emails e tweets com o número de uma conta bancária. O único beat brasileiro andava em lençóis de hospitais.
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Confesso que quando recebi a notícia da sua morte (que correu rápida pelo twitter), tive uma intuição: a de que aquele era um momento fulcral para a nossa história, apesar da quase invisibilidade. Eu seria uma das antenas que captariam a Catástrofe. Já não seria possível, nunca, no futuro, rever aqueles anos 70 e 80 e ver surgir um poeta experimental com vida experimental de fato. Poucos chorariam, poucos gritariam; mas sim, seria assim.
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Como um movimento mudo, a morte de Roberto Piva alteraria o cenário da poesia nacional à margem de cachês, capas duras e outras babaquices necessárias. À margem das hipocrisias do mercado, suas visibilidades extravagantes e burras.
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Sumira o último poeta sincero, não contaminado pelo Profissionalismo, cuja poesia vazava a partir dos hemisférios profundos, dos ecos visionários de uma legião contestadora, ainda não capturada pelo mercado e seus afluentes vampíricos. Porque o Piva foi coerente na sua incoerência, não se traiu para ser o Intelectual do Ano, preferiu chamar-se de Intelectual do Ânus e viver íntegro na sua vertente socrática, rebelde e muito bem realizada. Construiu sua poesia em doses xamânicas, turbilhonantes e avessas a todo Ismo.
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Naquela noite, eu pensava em "O século XXI me dará razão" e aquilo me atormentava.
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Aquele era assunto sentimental demais, não adiantava chamar amigos para conversar. Era mais de meia-noite quando saí de casa e fui caminhando pelo centro até a Cidade Baixa, onde busquei o bar certo para beber sozinha três cervejas pretas em homenagem a ele. Entrei no Vila Acústica, onde a cerveja é barata e onde adolescentes, cabeludos do passado, marginais e outros sedentos heteros e gays não encontravam melhor para fazer. E lá fiz a primeira versão do poema que apresentei na homenagem dos Dionysios.
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Foi difícil falar esse poema de três páginas, muitos palavrões e purezas, íntimo como um suspiro, feito para me aliviar. Falei com tanta verdade que agora, dois dias depois, já passou. Passou esse tremor interno que a gente esconde por timidez e também pode ser chamado, às vezes, de felicidade. E quase sempre vem de uma indignação. Ou de um amor cortante. Agora, só de falar nisso, um pouco desse tremor voltou. Quando ele passar, eu posto aqui o poema.