terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Conversa

Mais uma vez nos encontramos.
Você, atrás da tela fria.
Eu aqui, sozinha.
Sabe, público,
ainda acredito em você.
Apesar de tudo.

Agora dizem muitas coisas
a nosso respeito.
As pessoas desse meio
gostam de se difamar,
é um ninho de cobras.
Para cada ovo,
uma Obra.

Você só quer os caros,
de quinhentas páginas,
traduzidos?
Disso eu duvido.

Meus livros são tão baratos,
vivo nos sebos da cidade.
Desde que nos vimos
entre chopps e baratas
nos bares da Cidade Baixa,
você sempre
pagou a conta.

E sempre que conversamos
sobre Homero e sobre Sócrates
eu falo a você de Aristófanes,
e você fica nas nuvens.

Você nunca me disse
que no fundo
quisesse Paulos Coelhos
entre outros drincks e bocejos;
ou pastiches de ralas memórias
e livros de vampiros.

Não.

E olha que já dividimos
mais do que algumas cervejas.
Essas baixezas que dizem
(eles não sabem o que dizem)
vêm de esgotos e impurezas.
Não as guardo na memória.

Eu sei que você sabe.
Você mesmo procura
meus livros e meus suspiros
e eu fico apaixonada.
Nunca nos cobramos nada.

Eu conheço os seus gemidos,
as suas delicadezas;
− afinal,
faço até mais
do que uma namorada.

Posso não ser
a sua musa preferida,
e também não quero
(nunca quis)
ser das mais vendidas.

Você sabe que os meus gritos
são os mesmos das cigarras,
de prazer e de amor.
Declarações,
mais nada.

A paixão nos leva às vezes
a atos insensatos,
mas daí dizerem
que nós quebramos os pratos,
não não não.

Público, público,
eles não leem poesia
e pensam em traição.
Dizem que eu deveria
pensar na Tradição,
e me dedicar a donos
mais edificantes −
marketing, medicina,
uma certa engenharia.

Se te traí em cartilhas,
sem versos e sem rimas,
em gestos desleais?
Não. Nunca passei por cima,
nem esqueci teus ais.

O país precisa
de novos produtos.
Não interessam mais
os nossos sentimentos,
e muito menos
os mitos nacionais.

Público!
Parece que a hora agora
é a de ser um Vendedor.
Estar sempre ocupado
com planilhas e traslados
e não prestar atenção
à dor.

Depois tratar o tédio
com rimas cor de rosa,
comprar mais um remédio
para ser um Vencedor.

Virou ordem, agora,
o Pensamento Positivo,
e ninguém mais namora.
O progresso preservativo
faz as casas e o altar
e é feio falar
de coisas inadequadas
como contas não pagas,
e desejos reprimidos,
vontades de ver o mundo
em bolhas de sabão.
Agora o mundo Todo
cabe dentro da sua mão
e com o seu i-pod,
sim, você pode.

Ai, público!
Você moderno, você feliz.
Estou por um triz!
A felicidade, essa felicidade
exuberante
tomou conta do país,
posso vê-la saltitando
de dentro dos outdoors
para dentro das cabeças,
e as famílias, e as igrejas,
tão bonito,
os moleques batizados,
uniformizados,
as mocinhas tão casadas e
tudo isso, dizem,
festas, negócios, celulares chiques
− sem espaço para chiliques.

Quando nos vemos no escuro,
eu beijo a sua boca.
Você diz no meu ouvido
que não quer aproveitar a promoção.
Não quer um novo plano
e nem ganhou aquele desconto
e juro para você,
público,
eles não entendem nada.
Eles não estão entendendo nada.
Se é que você já me esqueceu,
se se assumiu ou virou um Perdedor,
não sei, público, não sei.

Dizem também
que tudo isso vai passar,
que é apenas um mau momento.

Público,
eu penso em você
a todo tempo.



Observação quase inútil: Este poema ilustra o mesmo acontecimento que se pode conhecer também através do vídeo presente aqui. Se ele tem sentido fora deste contexto, desconheço. Uma das coisas que esse acontecimento gerou em mim foi um interesse redobrado pelos poemas de amor.