sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Old woman reading - a mãe de Rembrandt. A mãe é morada do artista que conhece de cor os Evangelhos, cuja leitura era concedida até mesmo às mulheres naquele século XVII.
Segundo o lindíssimo filme de Alexander Korda, de 1936, intitulado apenas "Rembrandt", o jovem inconforme é o mesmo que, velho e duas vezes viúvo, investe seus últimos xelings em material, passando ao largo do açouge.
Cortinas pesadas eram abertas frente ao olhar da alta sociedade que comparecia à inauguração da pintura da Guarda Civil. Os aplausos que começaram antes da visualização cessaram assim que o todo apareceu aos convivas. As mulheres foram as primeiras a compreender e a rir alto do modo como os soldados foram pintados.
Uma boa forma de representar essa polícia galante: narizes tortos. Almas mofadas. Rembrandt não conseguia pintar "propriamente". Jamais conseguiria fazer sucesso entre os compradores daquela Holanda tão rica (e tão pobre). O artista diz de cor os versos do Eclesiastes.
Vaidade, vaidade, tudo é vaidade. A dos guardas cujo chapéu é sua única honra, a dos pintores cuja fortuna surgia de pintar gente "elegante", a dos credores que insistiam em surrupiar todos os bens de Rembrandt, inclusive as obras futuras.
Apenas Saskia, a mulher que morre cedo, não é julgada no filme de Korda, que passa ao largo das figuras de bois mortos representados por Rembrandt. Apenas Hendrickje, a jovem criada que passa a esposa e mecenas para morrer jovem, também, sob o olhar do gênio, é apenas bela e boa.
Apenas as mulheres-musas sobrevivem. Elas vivem na imagem que tem nascimento no outro, esse filho que as espia enquanto leem os Evangelhos. Jamais podem falar. A fala das mulheres-musas é a morte. Porque o olhar mata. E as mata, mesmo mudas.
