terça-feira, 22 de novembro de 2011

Piss factory e o preço do desejo

Devo ao professor Larry Wizniewsky conhecer o trabalho da poeta Patti Smith. Em uma das minhas visitas a Ijuí dentro do circuito literário do Sesc-RS, ganhei dele o livro de memórias Só garotos, publicado em 2010 pela Companhia das Letras. Um presente e tanto para quem nunca tinha sequer ouvido falar da Madrina do Punk. É de estranhar que nenhum dos livros de poesia dela esteja disponível em nossas livrarias, novo ou usado, no original ou traduzido, nada. Só importando ou lendo da internet. Tomara essa publicação do livro em que ela conta seus primeiros anos em Nova Iorque ao lado de Robert Mapplethorpe acabe chamando a atenção de muitos para o resto de sua obra, tanto quanto chamou a minha.

Artista visual e performer, ela deixou as fábricas de New Jersey para se tornar roqueira décadas mais tarde, a coroação de Grande Precursora recebida após a construção de uma longa carreira nas linguagens que exercitou. Na mala que ela levou a Nova Iorque, sem emprego e com algumas esperanças, estavam as Illuminations, referência que a sua arte nunca protelou. À frente do Patti Smith Group, novo sopro de um rock'n'roll puro e poético, ela produziu uma série de letras e discos conceituais a partir da leitura de Rimbaud. Outro poeta sempre próximo a ela é William Blake, na melhor linha dos bardos proféticos da tradição.

Gostei especialmente de ler em suas memórias o testemunho sobre as performances de poesia falada que ela empreendeu em bares como bicos no início da carreira: "Embora eu não fosse recebida com muito entusiasmo, aquilo aguçou minhas habilidades de lidar com uma plateia hostil". Fazia abertura para bandas, contratada pela produtora Jane Friedman: "Depois de cada apresentação, Jane tirava uma nota de cinco dólares do próprio bolso, dizendo que era nossa parte da féria. (...) Eu costumava encerrar cada apresentação com "Piss Factory", um poema em prosa que eu improvisara, falando da minha fuga do emprego sem carteira em uma linha de montagem rumo à liberdade de Nova York."

Recomendo ouvir essa faixa  aqui. O texto está disponível na descrição do vídeo.

"Nós nos víamos como os Filhos da Liberdade com uma missão de preservar, proteger e projetar o espírito revolucionário do rock and roll. Temíamos que a música que sempre nos sustentara estivesse correndo o risco de subnutrição espiritual. Temíamos que perdesse seu propósito, temíamos que caísse em mãos aburguesadas, temíamos que patinasse no lodo do espetáculo, das finanças e da complexidade técnica insossa. Vinha-nos a lembrança da imagem de Paul Revere, cavalgando pela noite americana, acordando as pesoas, incitando a que pegasem em armas. Nós também pegaríamos em armas, as armas da nossa geração, a guitarra elétrica e o microfone."