quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Arte anestésica para gaúcho ver


─ Tu estuda Artes?
─ Não, Direito.
─ Na UFRGS?
─ Na PUC. Não gosto da UFRGS.
Este um fragmento de conversa entre um visitante da Artemosfera e a mediadora que acompanhava o grupo durante a visita às obras do roteiro Norte.
─ Não me leve a mal, não gosto da UFRGS como não gosto de cerveja quente...
O encontro com as obras de arte, embalado por discussões como essas, parece mesmo um passeio de domingo. Não culpem a mediadora se lhe faltou formação e informação. Naquela tarde, fiquei me perguntando quanto ela estaria ganhando para trocar o seu tempo livre pelo acompanhamento desgastante desses visitantes às vezes malas a uma atividade que pouco tem a ver com seus estudos e quiçá seus interesses pessoais. Falar de arte no Rio Grande do Sul implica reconhecer ao menos um pouquinho do legado da universidade cujo Instituto de Artes constitui o principal centro acadêmico formador e propagador de pensamento teórico e crítico sobre Artes Visuais.
Arte também não pode ser questão de gosto no mesmo sentido em que se gosta de um time ou de outro. O despreparo da mediação acusa o despreparo do seu preparador, que acusa a pouca vontade do seu contratante e do patrocinador em oferecer ao público informações relevantes sobre processos criativos, contextos da arte contemporânea, e menos ainda suscitar reflexões.  
A visita às 11 obras faz-nos suspeitar de que estamos a bordo da Nau Sorriso, não em uma atividade cultural. Quando descemos do ônibus há música sendo executada ao vivo, não há tempo para divagações nem questionamentos. A visita guiada não colabora em nada para uma apreensão crítica, propondo apenas a momentânea alegria perceptiva.
─ É uma obra bem feliz...
Foi o que ouvimos ao chegar em frente à obra de Lou Borguetti, uma escadaria pintada com as cores primárias e circundada com imensos lápis de cor, mais uma mesinha e cadeira também berrantemente coloridas. Primárias não são apenas as cores, infelizmente. Uma cidade cinzenta e decadente sorri frente a qualquer manifestação lúdica em seus espaços públicos. É preciso colorir, pois a Ditadura da felicidade a qualquer preço faz-nos gentis e consumistas.
Para que tudo se reduza às diferenças entre o Grêmio e o Inter, o Laçador está de vermelho e azul, tão de braços abertos quanto o Cristo Redentor, já que o artista achava o monumento muito sério e sisudo, no falar da mediadora. Arte anestésica para erradicar toda a forma de seriedade. A começar por aquela que é devida à arte como arte.
O jeito RBS de produzir uma grande mostra artística a céu aberto na cidade de Porto Alegre só podia ser assim. Ficou fácil e lucrativo explorar a decadência dos espaços públicos com patrocinadores bonzinhos e tão multinacionais quanto o próprio orgulho de ser gaúcho. Porta aberta aos extratores por esses governos que sucessivamente concedem desprezo e abandono a tudo que for belo e brilho, e não obra-para-voto.
O pior é quando o texto do curador, fixado na entrada da obra, logo se revela nitidamente tendencioso, limitando e induzindo a uma possibilidade interpretativa que realce a alegria de se morar em Porto Alegre – isso, é claro, em detrimento da própria obra exibida, cuja criticidade e inconformismo são relevantes. Quem ganha é o patrocinador.