domingo, 19 de fevereiro de 2012

Largo das Letras

Os pássaros respondem porque sabem, os pássaros regem porque voam, eles não precisam de flauta. Sabem ficar parados com dores de muito menos. Sofrem nas cabanas sem lago, sem mar. Cantam porque choram. Não importa o que aconteça, é na sala 43, dentro de grades, que está o meu agrado. Estou fechado. O riso largo do largo sem letras me fere de algemas e outros negócios. Doo mínimos salários e soslaios diversos para ares de saias más e mais justas causas. Não me importam correntes nem os corrosivos aumentos de tormentos que possam surgir quando você e quando eu nadamos juntos; eu me apresso na outra face, e me zelo no doar. É sem lugar o meu tormento pois se aguento o sussurrar é porque quero falar do silêncio das águas, daquele silêncio que não quer, daquela água que não forja seu mistério - é minério do teu olhar, esse fundo escuro onde reside todo preconceito, que não gosta de criar asas sobre Santa Tereza. Mas é assim, não é, meu bem? Essa escorregança, esse manolerar. Ter que ser simpático me é tão desimportante quanto ter anéis para vestir quando estou nua. Essa cidade abençoada pelo Cristo é o momento de estar livre em gaviões de lumiar, preso pela boca, preso pelo pescoço, preso preso. Só porque eu sinto seu abafamento que não melhora em brisas de mar, só porque eu sinto seu assalto em flores, só porque eu sinto os dissabores do ócio e dos ofícios, a dança dos orifícios de arma, alarmes e correntes, anéis de ranger dentes, coisas de escorregar, de suar calado quieto tanto. Oh Deus! Por que só acendes o teu céu pela manhã?
É na intensidade que o sumo dos fantasmas se arrebenta. É na tensão que a bolha de sabão aumenta e aumenta e quebra e de repente se desfaz em ar, a coisa transparente, imaterial e bela, a coisa que atropela meu pensar e me faz dissuadir do pecado. Há coisas jamais faladas e que caladas só fazem atrapalhar, como um avançar na rua e nunca encontrar o ser amado e nem vizinho para cumprimentar, como tentar ser alado sem conseguir se desfazer em chuva, de acordo como as árvores fazem o verão sem beijar a terra, só no deixar-se molhar e refazer um sol como se fosse o suor do amor ou o colo quente ao chegar em casa depois de um dia ruim de creche, de trânsito ou de escola má. Como se fazer chegar mais perto sem sair do lugar e de repente ver que já estava ali, desde o anoitecer até o ser mais tarde e mais e mais e mais até clarear o ar e explodir vulcão de manhã nesse céu que beija o sol surgindo grande até desvanecer, ao contrário de nós humanos que nascemos cão e depois vamos nos desfazendo em colo e suor de amor, vamos fazendo flor no dia ruim e deixando escorregar em nosso corpo toda oração, amém.