quarta-feira, 9 de novembro de 2016






eu não sei escrever a máquina
a máquina com a qual escrevo
é meu próprio corpo

escrever é ser sua própria máquina
todo o ser é sua própria máquina

eu não sei maquinar
o sistema judiciário de mim mesma
onde não há provas, nem calendário

eu só sei desescrever
meu próprio estado de mim mesma
eu mim mesma má
eu mim mesma máquina

eu mim mesma o eterno calendário
de meses se sucedendo
com dias abertos, dias fechados
dias azuis de pés burilados

e dias para balanço
para coleta de sangue e de provas
onde eu mesma me saúdo e me rasuro

como se fosse
uma sala toda branca




o sistema de arte
tem horror à sala branca

eu sou branca
não toda branca
meus lábios não são brancos
meus pés tampouco
minha voz, meus tornozelos não são brancos
eu sou

a sala é branca
o sistema de arte tem horror à sala branca

tenho horror ao sistema judiciário do
sistema de arte de mim mesma


mas pensando bem
toda sala é branca

toda sala é branca
e eu meu próprio espaço aberto
com redes lançadas ao mar

todo espaço poderia ser aberto
mas as salas
brancas
também se fecham sobre si mesmas


uma sala é um espaço com limites
todo suporte é um limite

há quem suporte o seu próprio corpo,
sua própria sala
sua própria rede e sede de peixe


não faço sala para mim mesma

sou também minha própria sombra
meu próprio insuportável
meu próprio céu
eu sou
minha própria não-sala

- que às vezes é sala
quando não quer -
e também tem seus limites

eu sou
minhas próprias paredes
sou
minha própria pele
branca
meu próprio refletor
meu próprio calendário




o sistema de arte
não tem horror à pele branca


o sistema de arte
tem horror à pele
a tudo o que cheira e goza
a tudo o que sabe a sua própria sala




eu não sou um espaço confortável
sou poros, pele, suor e riso

e saem sangue e sede
dos meus hemisférios