quinta-feira, 23 de março de 2017











se  há salas escuras no meu corpo, recônditos nos quais se escondem vícios e verdades, salas fechadas, portas estanques onde o sangue é mais denso, se há veias poeirentas como a velha biblioteca, se há sussurros macios que a gente não ouve, e ali, nesse canto desencanto, se esconde a voz de algumas andorinhas, então é hora de retroceder um pouco. e chegar talvez ao tambor, talvez à terra. minha língua queria lamber uma voz, devagar, sugar cada pedaço de vento que surge do lado de dentro de outro corpo para abrir ao menos uma dessas grossas janelas.














cada lugar
é meu não-corpo,
precipício provável
onde me ponho
à prova,
onde revisito
meu próprio corpo
em sua virtude de limiar

cada lugar é de si mesmo
e de quem se desabitua
do seu próprio ser próprio

cada lugar me atravessa
num tropeço do meu corpo todo

todo lugar é impróprio

só eu sou meu próprio corpo
só eu não caibo em mim

sou cada lugar onde não moro
sou uma coleção vazia
dos espaços que me fazem corpo
sou um corpo não um lugar,
sou um ser de tempos
em tempos.