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terça-feira, 1 de setembro de 2015
o diabo à solta no Jardim das Virtudes, o diabo desce a colina ao lado do Largo do Viriato e se esconde entre glicínias, à espreita. quando anoitece sai, como os outros visitantes, pelos buracos da cerca.
o diabo cerca o Cerco do Porto e abre suas portas para todos os marroquinos. e alveja nossos azulejos de quatrocentos anos atrás. o diabo está sempre detrás do cedro, e cai com as folhas, sem estrépito, quando passam os guardinhas. o diabo sempre tem vizinhas na árvore ao lado com seus livros e os cães enamorados que só veem grana no Jardim das Virtudes, aqui ao lado, onde ninguém nunca tem nada para fazer. o diabo come bom bocados aos montes e dá recados para a velha gorda com seus filhos e afilhados
- estamos por todos os lados, nos solados e nos seus pés, nos vidros nos gramados, aos cacos, para machucar as raparigas. o diabo sempre está danado e mora nas abelhas de bom humor. e por isso tantos são picados debaixo dos telhados, nos canteiros, longe dos bueiros, das eiras e beiras das bordadeiras que só vêm ao Jardim depois da missa. o diabo nunca se abisma mas às vezes a criança o joga ao sopé do rio, e o diabo boia pelo Douro até o matadouro da Foz.
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Banzé da luz
Salmo do sol, de manhã
A lua toda, alvorada
No mundo mora a cunhã
Banzé da luz, madrugada
Batuque, banzo brejeiro
Estouro, estalo, estalido
Cantiga, fogo e pandeiro
Batuta, brado, bramido
No labirinto do ouvido
Faz festa do seu lamento
Fanfarra a pele e o zunido
Lampeja a todo momento
A primeira versão dessa letra, fiz a partir do incentivo da Tereza Virgínia de Almeida, que além de ser minha cantora preferida, é também (sorte a minha) orientadora de doutorado.
Na ocasião, ela estava compondo uma série de canções que estarão no seu próximo e terceiro disco, em parceira com o violonista Júlio Córdoba. Aquele Banzé nascedouro ficou inconcluso, pois acabei criando outra letra, "A luz e a voz", mais afinada ao som delicado e denso de plurissignificações do trabalho da dupla. A música ficou linda.
Eis que alguns meses depois recebi um convite do Frederico Alabarse para criar uma letra para o novo disco da FairyCats, uma banda que une influências dos quatros ventos para compor música do mundo. Eis que saiu há pouco o novo álbum no qual se pode ouvir esse maracatu desentranhado, lá em Paris, da minha letrinha.
A FairyCats nasceu do encontro de Frederico Alabarse e Irina Guldt, que uniram suas melodias e harmonias com gosto de Brasil e de Leste Europeu à percussão gravada por Douglas Marcolino, Paulo Madureira, Leonardo Pereira, Wendell Bara, Damien Lecchi e Erik Moura.
Estou pegando gosto por esse ofício ainda insipiente de letrista. Quem sabe o que há de soar a partir da vontade de abrir novas páginas aos ouvidos?
sábado, 13 de junho de 2015
gaga portugália
os capas-pretas
por todos os lados
ladeiras de fogueiras apagadas
dentro das togas e batinas
cobertas
pela capa suja e gasta
das urinas e de cuspes
e de beijos escondidos
porque todos os morcegos
são fodidos
e os do sexo feminino
aglutinam suas coxas
dentro
do tubo insofismável das saias
e quase até os joelhos
se ajoelham
com seus sapatos de convento
para a cara apática de toda a tradição
e os do sexo masculino
são gosmentos
e riem e sonham com
soldados e henriques
e todos têm chiliques às cinco da manhã
quando saem de festas
onde não falam e não dançam
só contam causos
sem acasos
segunda-feira, 8 de junho de 2015
domingo, 31 de maio de 2015
terça-feira, 12 de maio de 2015
comprei uma barcelona só para mim
carrego a sacola por todas as calçadas
engraçada, como viúva avulsa das vulvas desengonçadas
vou de golfo em golfo de garça em garça
sem nenhuma nota, às tontas
respiro as bordas da suma sangria
paguei a conta do cordel de gaudisney
e me esperam nas praças os seus elefantes
meu teto é de lona e se ergue sobre as
bordas de copacabana oh minha barcelona
se alimenta de bares abandonados
e sob o sol a pino na rambla rombuda
dos mares nunca dantes embriagados
sambo todo o dia na cara da polícia
e apanho na bunda a cada subida do metrô
quinta-feira, 30 de abril de 2015
a terra que o bailarino revolve
a terra densa a terra mansa no ar
do estrato esférico
a terra manca de minutos
histérica
dissolvida em seus mistérios
de si perché la guerra na goela di
chi non si manca nesse céu dappertutto così improbabile
quando o véu travesti das vociferações faz miséria
e a todo diamante o seu dinamite
segunda-feira, 27 de abril de 2015
a verdade é que essa face, a da foz, a que ofusca, não fui eu nem foi deus - ninguém fez a festa mor do rio que já tenha visto a fossa vera na cara do vinho do porto.
e nunca aqui vi meu jorge ben de mãos dadas com alguém, assim, meu bem anjo para essas sãs joelheiras
meu bem anão na beira do rio, na ribeira, o hein hein hein e tem tem tem tem e as garrafas do vinho do horto quebradas no porto torto da montanha, as garras para os pés da liv ullmann, ao vivo, no passeio das virtudes. as vísceras e a mente e aos cacos, facilmente se vendo vasos, plantas, vinhas, assim, sim, vísceras de viscos profundos e
não que aqui em casa alguém venere venere e erre e é claro que ninguém profere (a senhora que o diga) o perrengue dos pedaços frios dos aços dos bondes entristecidos na beira do rio a vulva rachada a queimada em sopro e o horto absorto depois deste deleuze que a terra há de comer e
se vira a norma argila e depois, depois dessa foto do precipício, depois do pé cortado, depois do vidro quebrado já não há pés, quando os amos largados fazem nem hein nem tem e sim trick treck track longe de toda cachoeira
porque as caixas de recolha dessas garrafas zarolhas são quadradas por todas as calçadas, e quando se larga uma garrafa no fundo verde da caixa trick track trock os mendigos saem aos gritos e as rolhas das garrafas tão garridas ao modo de nossa senhora que só a desatadora de nós, só mesmo a senhora nossa aparecida para saber o sabor da sidra para colher a flor que humildemente lhe ofereço,
oh pureza de segundo se formando mais um sério de minuto no passeio sem virtudes, ah minuto mudo de minuit mistério et la nuit la nuit se nutre só com falsas flores
essa face que fenece entre tece o triste rim, o rio que ri lá embaixo dos estéreis, dos carros quebrados, o ih da vida da verdade & não fui eu nem tem tem hein hein no calendário o sangue coagulado
sábado, 25 de abril de 2015
sexta-feira, 24 de abril de 2015
como ficar Odara com a língua de Lara cortada
para o coro do café da manhã
onde a banda não passa, nonde não há
nem um fio filo de corrupção no calção
nem caça e nem aquele u do dejá-vu-do
-visto, já visto + as burocracias
de gente comprando e urrando a cor currupira do cação
com o vento no muco da mão,
e a rampa e a ripa daquela madeira nunca acabada de lixar
porque o buraco é mais barraco que o vento do vulcão chileno
e para o barro barroco de três mil anteontens
quem se lixa? e quem se bixa? e quem se lusca e fusca
para o vis-à-vis da revista para o mar?
e quem consegue amar
sem os embustes do basta de balaustradas
de lustres e de lambuzes
e serve mujica límpido e longe das moscas
com as mucamas moucas e as lindas loucas no café já de manhã?
sim, ó o óh roberto piva
com suas pias de presídio, onde foi parar
o sacrifício à tarkovski? xamãs isolados nas selvas,
pero no tanto, só pistas de pó da fossa fosforescente
e a bossa que não me deixa duvidar
quinta-feira, 16 de abril de 2015
com esta fome que morde a orelha do carcereiro
verônica viu
na vulva do ouvido
o veneno e saiu de si.
não sei se viu, ouviu
ou repetiu o que se deve repetir
quando não se vê porque há
sangue no olho
- e verônica ainda a sanguessuga da família brasileira.
- e verônica ainda a sanguessuga da família brasileira.
a voraz herdeira
do pau a pique
do pau de arara
do pau brasil da puta que o pariu.
a vaca avoada
nem voo nem vociferação
disse não, não, e não.
nem voo nem vociferação
disse não, não, e não.
inversos para verônica
na volúpia da estória
sem memória, os versos
na volúpia da estória
sem memória, os versos
na moral do verso oral
na voz do vão da porta que
sempre dá
para a horta do vizinho.
na voz do vão da porta que
sempre dá
para a horta do vizinho.
verônica, a velha ferida fria que se
come com salada nas horas namoradas
noticiário nacional.
come com salada nas horas namoradas
noticiário nacional.
verônica, você mordeu a velocidade do ouvir
o tubo vestibular
o nervo coclear?
o tubo vestibular
o nervo coclear?
van gogh, você
as veias abertas desse caldo que não cala
a cloaca da vertigem
vítima sem igual.
as veias abertas desse caldo que não cala
a cloaca da vertigem
vítima sem igual.
sábado, 21 de março de 2015
quarta-feira, 18 de março de 2015
ogan
toca pra Ogun
que a barra pesou outra vez
ogan
toca pra Ogun
que o branco subiu no cacete
fez o dez três a sete
e pagou sua sede
na faca vazia
toca pra Ogun
pra mais um e mais um
que a garra é aguda e agora é a hora
e a conta demora
pra pagar e apagar
e eu não quero ver meu quintal
cheio de verde-oliva
cheiro dessa briga viva outra vez
cega punhal
pra não ter cassetete
que eu não quero ver tête-à-tête
entre o homem e o céu
então toca pra Ogun
e toca pra Ogun
outra vez
que eu quero ver
o que vai acontecer
toca pra Ogun
que a barra pesou outra vez
ogan
toca pra Ogun
que o branco subiu no cacete
fez o dez três a sete
e pagou sua sede
na faca vazia
toca pra Ogun
pra mais um e mais um
que a garra é aguda e agora é a hora
e a conta demora
pra pagar e apagar
e eu não quero ver meu quintal
cheio de verde-oliva
cheiro dessa briga viva outra vez
cega punhal
pra não ter cassetete
que eu não quero ver tête-à-tête
entre o homem e o céu
então toca pra Ogun
e toca pra Ogun
outra vez
que eu quero ver
o que vai acontecer
terça-feira, 10 de março de 2015
a boca de Clara, a boca rara que entoa e não urra
a boca escura, fervendo
e sendo pura
como panela de santo
ela
a boca santa na tristeza da municipalidade.
a boca do cidadão, a boca boa, a boca limpa
de antes do café
de antes da manhã com notícias de malícias
e milícias de panela.
a boca dela,
a boca das três raças
a boca de argamassa
tijolo sobre tijolo, a boca de fumo.
o apuro das novas
de boca em boca, o aprumo das noivas,
do cidadão de bem, do veja bem,
a boca que vê mais que ouve, a boca louca
louca para ser pouca e pouca
como a boca de padres e patrícios.
mas não há comícios no largo ao largo,
e a boca é de Clara, de canela
a boca dela
boa de beijar de batom vermelho e unhas
a boca que entoa e não urra
a boca pura
do canto do candomblé
para a bruma da municipalidade.
a boca escura, fervendo
e sendo pura
como panela de santo
ela
a boca santa na tristeza da municipalidade.
a boca do cidadão, a boca boa, a boca limpa
de antes do café
de antes da manhã com notícias de malícias
e milícias de panela.
a boca dela,
a boca das três raças
a boca de argamassa
tijolo sobre tijolo, a boca de fumo.
o apuro das novas
de boca em boca, o aprumo das noivas,
do cidadão de bem, do veja bem,
a boca que vê mais que ouve, a boca louca
louca para ser pouca e pouca
como a boca de padres e patrícios.
mas não há comícios no largo ao largo,
e a boca é de Clara, de canela
a boca dela
boa de beijar de batom vermelho e unhas
a boca que entoa e não urra
a boca pura
do canto do candomblé
para a bruma da municipalidade.
a cachopa da Esperanza para um lado e outro lado e outro e outro: outro, desenhando no ar formas barrocas ocas com a talha que rei nenhum sonhou: uma cachopa no ar, uma coroa, a cor dos séculos de sol e areia assim fundidos em pedra dura de minutos passados percussivamente em cordas transparentes
que balançam para um lado e outro lado e ouro e outro ouro: um altar que começa sempre onde a árvore de jessé prospera em capão redondo, rotundo e firme para o céu, sem galhos grossos suficientes para nenhuma corda se esticar ao peso do corpo morto
mas matando
a cabeça sem Esperanza
que balançam para um lado e outro lado e ouro e outro ouro: um altar que começa sempre onde a árvore de jessé prospera em capão redondo, rotundo e firme para o céu, sem galhos grossos suficientes para nenhuma corda se esticar ao peso do corpo morto
mas matando
a cabeça sem Esperanza
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
você disse que há na mastigação algo mais do que o devir-grama parado na paisagem. há um devir-tempo-bom, você disse, uma oportunidade de sorrir cores de diferentes papeis no mesmo plano. você falou e mastigou as palavras como se a língua não estivesse na boca, mas fosse partilhada, limpa, bidimensional. e no entanto a cavidade chamada céu é também a caverna de Platão. e como abri-la? a luz é cega, aquosa, bucal, mole gelatina entre os dentes. você não disse algo mais, demente. você disse que é tudo uma questão de sucessão dos meses, que uma linha em ângulo reto e mais uma linha em ângulo reto produzem o cronograma. e que não há mais que grama, sol e que o pasto é amargo na boca dos maus, enquanto que o deslizamento do sentido sempre converge para um livro. o livro dos bons, afixado cemitério... o livro dos puros, das túnicas, dos pés descalços. porque anjo sobre anjo sobre anjo, uva sobre uva sobre uva, folha sobre folha sobre folha (sem quadriculados) são as sobras, sombras, lados, sítios sem a luz opaca que é a da talha dourada à distância. por que não limpam os vitrais? por que não abrem as janelas? dali se vê o espaço, o pasto, a vida às margens das quatro linhas retas. uma janela em cruz, preto no branco, a vida boa da goma de mascar é ternura nos olhos seus, de vaca, de lesar. há sim uma mastigação que empaca, tem tempo, tempo, tempo. e estou sempre a colocar mais uma coisinha, a colar mais uma figurinha, a jogar mais um vômito de tinta sobre o prado implano e sem papel, minha paisagem.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
e os re-signos de sinos bombardeando amanhã. e os muros e os cadafalsos fáceis de desfazer. e as rés de rés do chão, não de goivas, de cumes, de facas, de moitas - de gonzos alardeando tudo o que não presta. e as prestações das palavras alardeadas em falso. e os fundos e os cadafalsos, e os de-novos, e os novos, e os noivos, e os devotos, e esse anoitecer sem medidas que as tias e as primas tocam como os sinos, chamando para as missas, as messes, as muitas remessas de postais para não estar em tais momentos juntos, porque boçais, porque argumentos bastam. e basta de cadafalsos, de fusos horários, de estampas, de estrume de vitrines e de muitos grandes vidros que não quebram pra jamais.
coração cheio de guetos, que nunca cessa de transbordar. coração cheio de linhas, linhas retas para incomodar, linhas brandas para beijos furtos, linhas plúmbeas para lembranças, linhas anchas, melosas, melodiosas, linhas meio a meio e linhas sem freio. e as manchas. manchas dom quixote, linhas sancho pança. manchas para trás e ao revés. vizinhos e tios e primos, não, colagens. colagens para as paragens mais difíceis de resolver. e o revólver das manhãs para refazer.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
ensaio de rascunho, parte por parte.
alarde.
sumos e duomos de rascunho, que as unhas ferem.
domesticadas as feras e as ferragens,
há um fuzil em cada anil
e há um vértice em cada verde,
um vermelho para o mergulho,
um orgulho de tudo o que não presta,
um prego, uma placa, uma sisma, um sussurro,
um urro.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
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