Desconjunto


  Desconjunto foi publicado pelo Instituto Estadual do Livro/RS em 2002, com projeto gráfico de Marco Cena e prefácio de Jane Tutikian.






Do som da palavra
      ao som do sentido: ler ouvindo

o cantar que não existe

  − ainda não existe

Passar os olhos sobre um papel líquido
  − sólido!
  − líquido!

Líquido e cheio de artimanhas, virando papel-gelatina
que aí sim
não escorre já.

As palavras antes ainda escorriam líquidas
molhavam pílulas e
estancavam jorros em pétala.



Mas hoje
             adensaram-se
             mudaram de cara
                                              casa
                     cabelos
      Foi-se a água.

De cacho em cacho o nó se adensa:
− adestra-se? Vira coisa e pelos: ente.

Então música vibrante de cordas
masturbação
arcos
A palavra vira som
e fúria

Sentindo-se assim nua a palavra se
completa

 Faz giros de borboleta.

 Voavaga vaga lume.

          Ela luzeiro: luzerna contra a proa do navio.





No silêncio negro das árvores
no mato além / desmembrado
em fulgores de folhas que estalam
por baixo de pés errôneos
errantes

cinzas barulhos chinelos e cheiros

Todos os bichos gemem
e não conseguem dormir
esperando
a hora solitária
em que a mata será penetrada
por fantasmas em carne viva

Eles fumarão cigarros escondidos
dançarão ao redor de chamas
depois espantarão demônios

E voltando ao urbano macio
deixarão as corujas arregaladas
com seu merecido sono



ØEm parceria com a atriz Carina Sehn, fiz Poiesis-desconjunto, um trabalho performático que estreou em 2001 no Teatro de Arena/Porto Alegre.  Fizemos nova temporada no ano seguinte e participamos da da Feira do Livro de 2002.

ØNossa ideia era criar um ambiente, através dos recursos do teatro, que recuperasse o tom que existia antes da escrita dos poemas. Os figurinos foram criados por Cristiano Lenhardt e a maquiagem foi de Paula Lix.






Seria mais de meia-noite
haveria livros pelo chão
todos abertos:

ela abre a página
mói o livro
joga o livro −

e vem sentar-te ao meu lado, Lídia

− ela vigia o branco
pelos espaços de folhas
entre linhas tão correlacionadas

ela saboreia relações, depois:
joga.

Joga fora
no chão acarpetado
do apartamento, joga e ri.

E vem sentar-te à minha frente, Lídia
não sou tão máquina
que não possa causar
no teu ventre
um espasmo cheio de palavras




Sarau Cênico



Performance teatral junto ao grupo de pesquisa Laboratório de Atuação, que tinha sede nos espaços do Hospital Psiquiátrico São Pedro.
O Sarau Cênico fazia um percurso dentro dos espaços do Hospital, sem divisão entre palco e plateia.

Performei um poema de Desconjunto sobre uma cama de parto pertencente ao espaço.
Sarau    Cênico 2004


por onde desce o filho morno-quente-queimando? escorrega? demora pra sair. de onde vem a carne mole rósea água que será sexo, que será músculos, roubos? por onde vai o filho novo-velho que ora revém resendo o sendo, sexto empírico, o corte cordão.

vem tudo do umbigo. da música.

dói pra sair. quem é essa esponja por entre a qual as coisas saem entram envenenam, depois separam-se sugam
sugam aquecem por vezes?

coisas com reflexos espasmos depois pérolas frias: os olhos em adeus. eu vou estou indo, cético sexto abstrato, agora longe névoa, diferente.

ser aquilo pelo qual a coisa jorra brota cheira? fraudada pelas núpcias, fraldas, palavras amenas sempre má.
macbeth.

ser com bandeira?
adélia na floresta sabia que era, que erra ela, com vestido branco pés assim sóbria e ressabiada. ser com medo dos bichos da floresta, muda quebradiça entre os cem mil ruídos, sussurros.

paninhos e lençóis sujos. imunda de sangue, fértil! como carregar bandeira?