domingo, 14 de maio de 2017




Um aquário escorre pelos seus cabelos enquanto as teclas não dão conta de mostrar como é que se impermanece. Você também é professor, à sua maneira, mas não precisa registrar  notas no sistema. Deixo os dígitos dançarem para lá e para cá, como em Debussy, cada vez que a umidade reaparece desde os rios da sua voz. Já fui uma daquelas que apreciavam o presente e não saberiam contê-lo, mas também não se dispersavam. Agora não. Assim, com a voz, com os braços, e gritando ritmadas essas coisas meio não, meio talvez, e meio seiva, sou bem isso que escorre pela sua voz. A plenitude do som vive no seu rosto que some a cada partícula de segundo, eu me misturo, sou todo esse não tempo que se difunde como se fosse um último. Você selva e todo índio, tão fora de toda ordem, também, tem uma forma de estar à prova e é sem tropeçar. Não registro a sua nota. Você essa voz veludosa que acorda os espíritos da crianças. Avalio os peixes de tantas cores que escorrem, peixes fuga, rios sonata, peixe-espada e peixe-mulher salpicam pelo prumo da cachoeira que em você me rebrilhou. Mas ainda me pergunto e me cutuco por que você só mora no azul. Não tem onde?





quarta-feira, 3 de maio de 2017

















aquele dia o gambá na cama
cinza insólito e feroz como um bicho sabe ser
- e se cai de repente de uma madeira solta
de um furo no forro despenca para o meio do macio -
sim
o gambá na cama, nunca antes vimos essa coisa acontecer
nós deitados
e sendo ele um filhote fedorento
indefensável, indefeso, tão colado à vida que não queria perder
e diferente de nós
simples como a saracura que nos acorda na manhã
e não se sabe saracura
e grita

mas era noite e o gambá trepidante seus dentes percebiam outros bichos grandes
nossos olhos rangiam sem saber o que fazer
alçamos as cobertas cobrimos o corpo dele
que não escapou

jogamos tudo pela janela
e lá embaixo, no pátio, de repente nossos lençóis sujos e o silêncio da escuridão
o gambá solto do seio de sua própria intimidade
e colado ainda à vida que não queria, nosso sonho

sei que aos olhos do cidadão, é certo que essa cena nem nunca aconteceu
mas naquele dia, depois do gambá na cama, alguma coisa nunca mais adormeceu