sexta-feira, 21 de abril de 2017






















Telma tu é louca grita na rua não sabe por que foi presa Telma tu abandonou a família tem cocô no teu nariz o teu cabelo tá estranho por que é que chegou a essa hora Telma tu é nojenta as mulheres só pensam em sexo tu ainda não entendeu que é genitivo aqui tu vai comer mais um pedaço quantos tu já comeu não sabe a tabela de cor Telma tua boca tá fedendo não passou o fio dental tu e os teus amigos pegou o madrugadão aquele lugar imundo eu não tou com fome tou cansado não vê que eu tou ocupado tu é louca não vai me convencer aumentou a tua barriga só pensa nisso decora a declinação se acham grandes artistas tu já leu ou não leu por que é que não pegou o original Telma tuas manchas cresceram é por isso que eu não quero tu vai ficar velha e sozinha não coloca mais pão pra mim não tenho fome de manhã tu sabe que eu não gosto tu tá lendo em português tu só pensa em sexo comprei um chocolatinho pra ti Telma aqui tá pingando tua xícara vai sujar tudo cuidado não pisa desse lado Telma tu já escovou os dentes por que é que não compra uns tênis tua bicicleta tá um lixo olha esses pés sujos não entra em casa de chinelo Telma tu vai comer mais um pegou chuva depois reclama eu tou lendo não tá vendo que eu tou cansado me deixa em paz Telma tu vai com essa roupa tu vai vir pra casa depois a gente podia jantar tem que passar pano no chão tu e teus amigos só porque eu não quis ir tu vai mesmo de bicicleta Telma para de beber quantas tu já bebeu por que é que a gente não compra tem na loja que te falei por que é que tu não para eu fui na palestra hoje tenho encontro com meu grupo não quero mais pão não bota café pra mim já sabe que eu não tou com fome Telma tua blusa tá abrindo tem cocô no teu nariz depois volta às quatro horas ainda quer que eu te abrace por que não mandou mensagem olha teus cabelos brancos pra que é que tem telefone Telma compra uma nova tu pegou o madrugadão por que não pegou um táxi tu sempre deixa os potes abertos vive reclamando olha tu lavou o umbigo tua boca tá fedendo tu passou fio dental se acham grandes artistas não não quero mais pão




segunda-feira, 27 de março de 2017










A cobra, de manhã, despencou desde os meus bushes mais altos e parou bem na frente do portão. Que que aquela cobra tava fazendo há mais de dois metros do chão, tava caçando instantes esperando que ninguém passasse meus olhos olham a cobra quero sair de casa não posso parar de olhar fingir que não existe ali parada com a cabeça no caminho a cobra armada como um bote para nada como se jogou lá de cima como foi parar lá em cima a cobra anda escalando a cerca a cobra desce a cobra sobe a cobra se esconde nos arbustos a cobra espera um momento em que não seja mais nada mas o momento não vem estou aqui olhando-a estou aqui devorando a sua carne fria que brilha no sol da manhã eu quero sair quero ir para a praia a cobra não deixa a cobra não me olha mas ela sabe que estou aqui a cobra cobra de mim uma atitude que não quero ter nem sombra de tirar a cobra dali nem sombra de coisa na mão quero acariciar o sol a cobra sabe que não sei como ela foi parar ali ela sobre ela desce ela navega entre as duas faces do portão se enrosca em grades ela aquece um pouco o momento no qual quase penso em falar para alguém que há uma cobra e procuro me distrair  dizendo para mim mesma que é melhor não me cobrar e vou colocar roupa para lavar na máquina




quinta-feira, 23 de março de 2017











se  há salas escuras no meu corpo, recônditos nos quais se escondem vícios e verdades, salas fechadas, portas estanques onde o sangue é mais denso, se há veias poeirentas como a velha biblioteca, se há sussurros macios que a gente não ouve, e ali, nesse canto desencanto, se esconde a voz de algumas andorinhas, então é hora de retroceder um pouco. e chegar talvez ao tambor, talvez à terra. minha língua queria lamber uma voz, devagar, sugar cada pedaço de vento que surge do lado de dentro de outro corpo para abrir ao menos uma dessas grossas janelas.














cada lugar
é meu não-corpo,
precipício provável
onde me ponho
à prova,
onde revisito
meu próprio corpo
em sua virtude de limiar

cada lugar é de si mesmo
e de quem se desabitua
do seu próprio ser próprio

cada lugar me atravessa
num tropeço do meu corpo todo

todo lugar é impróprio

só eu sou meu próprio corpo
só eu não caibo em mim

sou cada lugar onde não moro
sou uma coleção vazia
dos espaços que me fazem corpo
sou um corpo não um lugar,
sou um ser de tempos
em tempos.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017






Decidi ficar aqui a tarde inteira, na semicor e na semiluz do salão de piso frio. O teto é amparado por colunas grossas e na frente delas põem as plantas artificiais. Nas outras mesas há outros desamparados que dormem por fora e por dentro acho que também falam de amor.  Uma senhora esfrega o chão sem dificuldade. Alguém diz alô-teste-testando enquanto passa sem pressa nenhuma. Um homem trajado de regata azul lembra que é possível a gente fazer esportes. Mas eu decidi ficar aqui, nesse lugar sem cheiro, quase vazio. Ouço que a língua é uma piranha. A pira da lua se reflete no chão liso. Há saídas de emergência. Ouro. Os extintores estão aí, no único poste. Agora outro homem, em outra regata azul, passa empurrando o carrinho do bebê. Os que pedem, têm. Os que não têm, esperam. A caverna é ruidosa e nela se põem defeitos. As plantas artificiais sorriem aos que passam e piscam cochichando coisas. Tudo se reflete no chão frio. Como fazer metade quando só se sabe ser inteiro? É para não ter desejos e esperar a tarde inteira, entre pessoas que passam, que se é. E que se erra. Então nada desperta o corpo de antanho. E havia aqui e ali alguma satisfação. Ela se desprende da fotografia. São os gonzos, são os gonzos ocos que atravessam o salão. Assim como é possível acordar o corpo morto com qualquer desejo, também se pode sem mesura permanecer sentado. Há até quem durma com a cabeça enconstada numa mesa de granito. Dormir é desistência. E se pode ir e vir, mas convém levar seu corpo. Porque a gente finalmente se esquece que a terra faz poente. E de que há plantas, há sim, há elas; e até as há não artificiais. E que a caverna é plástica e provisória. Mora a memória na fotografia. Um dia a gente dançou, dançará sempre. Na luz da praia logo ao alvorecer. No dentro do mato quando recém anoiteceu. No olho. Na obra. No copo, no sussurro. Na planta do pé, na palma da mão. No gesto do braço de repente aberto. Da cabeça recentemente erguida. Decidi ficar aqui, mas não. Não se sacode o pensamento num salão de piso frio. É tempo de saber morrer, e o melhor sempre é saber morrer dançando.











terça-feira, 31 de janeiro de 2017




Amo Kokoschka 
e um caderno sem linhas.
Por isso, desespero de dúvidas
e não sei recomeçar.

A mão pesada das manhãs
o vacilo da imagem
a nudez e a exasperação
sempre pesam.

Amo a boneca de pano
que Kokoschka encomendou
como trunfo e tropeço
para a sua solidão.
Amo cada silêncio
que a sombra de Rilke, o rival,
provocou
na sua pequena Alma.

Amo a alma pouca
e namorada 
dos homens traídos
que não cabem em si,
como o desenho 
não quer caber na página.

Amo os ruídos das motos vizinhas
que acompanham o fluxo
de um caderno sem linhas
que não ouso nem riscar.

Com Kokoschka, é tudo 
zonzo assim, é tudo gonzos.
Há pedaços de nuvem
guardados em algum lugar 
de antes do amanhecer.

Começa o dia
e pulsa
essa ardência de gizes,
de lápis, pastéis
sempre poucos para a minha fome.

Kokoschka pinta no céu 
o avião que recém passou.

As espátulas estão limpas, 
o cavalete quebrado,
o caderno acariciado 
como se fosse deus.

Só quem sabe reclamar das bombas
– só quem manda a guerra
um pouquinho mais para lá
pra não riscar um Rubens –
sabe morrer decentemente.

A coragem de Kokoschka é brumas
de um nunca permanecer.

Que barba nenhuma danifique
as cores de um certo quadro
que eu guardo na memória

entre dutches e dunas, 
perfumado de sonho.

Já Kokoschka 
não preciso nem lembrar 
nem lamber.
Ele vive
em cada galho, 
em cada gole de café.

É um mago de mãos brandas, 
o dia, a amanhecer
apesar das tintas.
Kokoschka me diz, de leve:
quem sabe rosnar é o leão
que nunca se olhou no espelho.



domingo, 22 de janeiro de 2017



tiraram as palavras diretamente da minha garganta, sem passar pela boca.

disseram que ninguém podia comer imagens.

para eles era tudo norma e haviam escrito, em um muro que não há, que não se pode degustar. porque a saliva contamina tudo o que flui nos sons da fala.

me fizeram despencar desde o glúteo até o monturo.

fiquei amarrada enquanto pinçavam, de dentro desse peito, um jeito meio vermelho vivo.

naquilo que reluz, atmosferas.

daí fiquei com o corpo inchado. estranho, pois era justo o dom do muco que me mantinha leve. pegajoso, com Hélios por dentro, com Jimis Hendrix, daimons e daimons que tocam flautas por dentro do líquido. e Sócrates, nenhum.

e depois de ultrajada, não sabia o que poderia encontrar. só havia confusão do instante, a carcaça jogada, igual um buey de Rembrandt: aquele aberto, ainda que não dissecado, aquele pleno de sangue e carne que não se mexe, aquele colapso das coisas que fazem sentido.

brilha, por dentro, o corpo. por fora é pós e paetés. tem veias como cachoeiras.

qualquer coisa que eu tiver vivido lá no lugar da discórdia, da norma, do concurso, eu agora curo e perdoo, sim. deixo o peito abrir com a fenda da notícia. não molho mais aquilo que digo. se digo, digo. deixo a vida fluir em mares de esquecimento. deixo a borboleta amarela pousar aqui onde não tem passarinho. pelo contraste é que a gente percebe o quanto o pássaro é pesado, a carnadura de suas patas e o enchimento das asas.

também não foi culpa deles, os que seguem leis. dizem que não se pode com peito úmido e sussurros de dentro da madrugada, só porque ouviram. ouviram e viram que era assim, e era. a gente é pega de jeito na barra das notícias, que a gente rola, rola, rola, se despedaçam imagens com formas de ser e de não ser. eles não sabem, não pararam para prestar atenção. são sendo.

e sempre fui assim, luz se desplazando, desesperadamente à procura do que não. e do que corpo. como saber o sim? se sim e não não têm significados. eu preciso dessas imagens que mastigo como vaca, na paciência das deglutições. eles não.

estar aqui coletando por escrito essas palavras que me foram arrancadas também não dói.

faz parte do precipício ao qual me jogo com vontade.

não sem antes ficar sentada por muito tempo em cima de uma pedra, comendo as imagens que o mar vai colocando dentro da minha boca. e mastigando um pouco, deixando que elas formem bolo e calda com a minha saliva.

enquanto fico assim comendo imagens, um vento bate e é bom.

depois elas se trasnformam em palavras palavras palavras, tantas e tão zanzas que até dá gosto vê-las dançar.

daí as pedras onde me sento são uma espécie de tambor.

eu sei que me arracaram de mim com violência, e ainda vivo. porque aqui no vento é muito fácil cruzar limites do possível. e assim sendo, tenho que esperar até que venham me sangrar novamente, ou então os sopro meio sem querer, lá para o lado. por que deveria seguir um caminho de Sísifo sem nem brisa?

mas eu mesma deixei eles irem arrancando as palavras uma a uma e peguei a pedra que me deram e subi a colina. doeu para aprender, mas agora eu sei voar. e depois do precipício tudo ficou ímpeto. meu corpo acocorado me diz o que é: que é rosas, que é orvalho, que é poças e águas mansas, que é corte, às vezes, que na hora em que a gente nem imagina, arrebenta a onda. 





sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

nasce "o sono de cronos na minha barriga"



em alguns trabalhos, utilizo livros usados ou me aproprio de fragmentos de impressos - tanto páginas com texto quanto com ilustrações, especialmente reproduções de imagens clássicas da história da arte. 

foi com o objetivo de angariar material para uma série de pinturas de 2013 e 2014 que comecei a coletar, nos balaios, um conjunto de publicações "decaídas", ou seja, que não têm valor comercial quase nenhum. são livros que se tornaram obsoletos por algum motivo: didáticos ultrapassados, romances obscuros, fascículos de enciclopédia. 

encontrei preciosidades em um baú de R$1,00 do calçadão da joão pinto, centro de florianópolis. entre elas, uma série de fascículos que abordam a história brasileira, os "descobrimentos" e as disputas do período colonial, com destaque para a "grandes personagens da nossa história". 

foi o fascículo "jerônimo de albuquerque" aquele que mais me embasbacou. os albuquerques foram uma família importante, comentada por paulo prado no "retrato do brasil"; além disso, porém, eu não tinha maiores informações sobre essa figura. como os demais fascículos da série, ele apresenta a história de jerônimo de modo oficialesco, sem críticas à narrativa portuguesa, e nenhum espaço para questionamentos pós-coloniais. 

a construção da imagem do herói começa no subtítulo "mameluco e cavaleiro fidalgo" seguido da explicação resumida: "usando sua condição de mestiço, jerônimo de albuquerque entre os índios e os brancos conseguiu viver bem". viveu entre 1546 e 1618, envolveu-se nos episódios de expulsão dos franceses de pernambuco, paraíba e maranhão. "fundou" a cidade de natal, ganhou o título de "cavaleiro fidalgo da casa real" (primeiro mameluco a recebê-lo) e, após a expulsão completa dos franceses, "a paz estava alcançada. jerônimo já pode envelhecer tranquilo entre seus parentes, mas ainda consegue governar a capitania do maranhão por dois anos".

duas páginas desse fascículo acompanham o trabalho "cronos", uma performance orientada para o vídeo que fiz a partir do trabalho de paulo herkenhoff "estômago embrulhado", sobre a qual já fiz postagens abaixo. as páginas do fascículo abordam a habilidade de jerônimo em "convencer" os índios a lutarem ao seu lado e do lado dos portugueses. nada mal dar uma ollhada nesses episódios da narrativa brasileira para compreender o que chamamos hoje de "políticos corruptos" e "democracia racial".

cronos é uma referência que vem de outro lado, deus que devora seus filhos, come-os um a um. um fundo oswaldiano da antropofagia também fica ressoando atrás desse trabalho, a partir do qual comecei a pensar uma nova performance, não orientada para o vídeo, mas a ser realizada ao vivo.

assim nasce "o sono de cronos na minha barriga", trabalho que ainda não foi executado, mas cuja proposta central parte dessas referências e as desdobra em cena, com palavra falada, sons, movimentos, imagens, enfim, um trabalho de performance.

a devoração (de livros, de histórias, de notícias) não é apenas nutrição, mas também traz como consequência o vômito, o clímax daquilo que não conseguimos engolir, a voz, aquilo que explode de dentro do corpo e toma o ar, ganha consistência de coisa, linguagem.



pintura, 2014, detalhe




quarta-feira, 11 de janeiro de 2017




Aquelas noites, lá em casa, você tocava bandolim, nós nus, acordando na madrugada dos outros para beber as garrafas finalmente geladas; as suas palavras de flauta, o ruído da rua e nós dois nus, ainda, inventando anestesias para o todo do minuto.

Você tão novo, os cabelos cacheados, a nenhuma barba, sua vontade de pôr em pauta tudo o que compunha num piano censurado, suas aventuras, a mulher casada e os causos do seu corpo, os seus dedos suaves como brisa em brasa.

O seu casaco de lã debaixo de outro casaco, a dúvida entre os dois, você geada, você simples como não saber de nada, nós dois colados esperando anoitecer para comprar um baseado com os vendedores de carros.

Você raro, taurino, astral, suas visitas em meu quarto sem cama, só colchão, a lembrança do bom sem não, de noites ainda com seu nome por saber, sua corrente que eu tinha que tirar antes que tudo, senão não podia mais te ver nem mesmo por um segundo, seu brega bom, com sinais ancestrais de lua cheia e algum mar.

Você surpresa no silêncio, os discos de presente, as destinações, sua língua ausente de qualquer palavra, a sacola na mão antevendo latas, você no lodo, seu sorriso, na outra mão o case, demônio melodioso, você não servia para caso sério, você sorria, seu vício de trocar todos os cds.

Você sentado ao meu lado, nós no banco de trás, as pernas se grudaram, alguém poderia ver, minha face hipnotizada pelo seu sotaque meio rindo, meio cantarolando, você pôs os pés no que eu sonhava, um dia, planejando tocar os seus cabelos mansos, a sua pele bronzeada pelo lado de dentro.

Aquelas noites, as mensagens visualizadas e nunca respondidas, você uma clave, nua, partitura indecifrável, os anos se passaram, você não trazia mais cds, tinha tudo em podcasts que não rodavam para nada, você desafiava o tempo com sua pouca roupa, a barriga saliente, no quarto há mais do que uma cama, você preocupado com uma tradução do grego, nós colados como papéis à mesma parede úmida onde um dia alguém deixou um murro.