domingo, 19 de novembro de 2017











serigrafia sobre impresso apropriado, 2017






Pinto com o que sobrou de tinta no fundo da tigela.
Pinto com os restos dessa voz desconhecida.
Escrevo as palavras deixadas ressoando, vestígios de um corpo que por aqui passou.
Suas linhas desenharam no chão uma estrela incompleta, reta e transeunte.
Pinto com as manchas que ficaram na mesa, pinto o meu poema velho como vinho da madeira,
carcomido pelos cupins, sujo da merda dos morcegos que sobrevoaram a noite dessa sala inconclusa.
Escrevo como cuspo essas palavras que eu não disse.
Grito aguada a dor de todos os sussurros.
Imito uns sons guardados de certos orgasmos que você nunca me deu.
Pinto no fundo da tigela a luz dessa estrela que agora sim, se completou.
Então rolo no chão com a pele que você não quis tocar, e éramos quase bailarinos, e
subo encostas com esses pés e esses pincéis que você não nem tirou para dançar.
Sujo às manhãs um céu de sonhos, entre os vapores do meu próprio café, que eu não pinto.

E faço amor com o resto das plantas que ainda pude plantar como bananeiras nesse jardim destroçado, depois do fim de jogo.




sábado, 21 de outubro de 2017




Onde a ilha se encontra com o mar, no ponto extremo, há um conjunto de rochas e pequenas piscinas calmas, em movimento. A ilha tem a forma de uma vagina e, nesse caso, a morada das ondas batendo nas pedras deve ser o seu clitóris. É lá que uma mulher se sente à vontade para deitar ao sol sobre a superfície rugosa de um rochedo que respira há bilhões de anos. Ali, a mulher observa os fluxos e as poças mansas que se formam depois da extremadura. Ouve o farfalhar das correntes serpenteando as pedras baixas, movimento contínuo de uma água que já baqueou, cantou raivas e, depois, sossegada na areia larga, volta ao seu turno, unindo-se à montoeira de mar que ali espera mais um trunfo do som do movimento das espadas.  Nesse lugar, uma mulher pode parir e matar bem as suas crias em apenas um segundo, pode meditar e se dizer adeus e tornar a acreditar em um deus desconhecido. É ali também que os namorados se encontram para selar o seu pacto, mas a mulher não tem impacto sobre eles. Deitada sobre a pedra, agarrada ao seu eu profundo de movimento e gozo, ela vê os picos das rochas se erguendo ao céu e sabe que é ao mesmo tempo feminina e masculina. Vê os peixinhos minúsculos vagarem pelas piscinas calmas e sabe que não têm filhos os oceanos e as marés, e os ventos que se precipitam sobre o seu rosto são carinhos afoitos ou então impulsos que erguem as pernas dela, que agora apoia os pés na pedra. Então, em posição de parto ou de orgasmo, aflita, ela se entrega à lua que ainda não nasceu, mas já aparece vaporosa por sobre o horizonte de ondas.  Uma mulher é uma mulher é uma mulher. Nada pode detê-la. Ela corre sem pés na relva serpenteada de conchas e areia grossa. E xinga os pescadores e ri com eles e os desova. Ela atrai com seus cabelos o choro de uma criança. Uma mulher é uma mulher é uma mulher. Ela é ríspida como quando o tempo vira. Sua cabeça respira o amanhecer e ela se sente completamente vazia. É assim que é plana, sem necessidades. Agora as ondas se acalmaram e a espuma abranda. Ela acende uma fogueira com o seu isqueiro e ali queima, um por um, os retratos dos antepassados.



segunda-feira, 9 de outubro de 2017



Me deixe dormir de olhos abertos.

Áudio instalação para a porta da sala de leitura | sala de escuta, do Departamento de Artes Visuais da UDESC.

Trabalho que integrou a exposição espécies de escutas, proposta pela artista e professora Raquel Stolf, em 2017.

Ouvir.











Pinto com o que sobrou de tinta no fundo da tigela.
Pinto com os restos dessa voz desconhecida.
Escrevo as palavras deixadas ressoando, vestígios de um corpo que por aqui passou.
Suas linhas desenharam no chão uma estrela incompleta, reta e transeunte.
Pinto com as manchas que ficaram na mesa, pinto o meu poema velho como vinho madeira.
Carcomido pelos cupins, sujo da merda dos morcegos que sobrevoaram a noite dessa sala inconclusa.
Escrevo com o cuspe das palavras que eu não disse.
Grito com a dor de todos os sussurros.
Imito o som guardado dos orgasmos que você nunca me deu.
Pinto no fundo da tigela a luz dessa estrela que agora sim, se completou.
Rolo no chão com a pele que você não quis tocar, e éramos quase bailarinos.
Subo encostas com esses pés que você não tirou para dançar.
Sujo com as manhãs um céu de sonhos esquecidos entre os vapores do meu próprio café.
E faço amor com o resto das plantas que ainda pude plantar no jardim destroçado, depois do fim de jogo.





quinta-feira, 28 de setembro de 2017





insônias. ela ressoava. trovejando um pouco, gotejando,
tateava. encontrava no escuro o vinho, morno, de língua.
ela traquejava, entrava em surto de mistério e ismo.
então: insônia?
horas passam rápido frente a telas com palavras,
páginas entreabertas.

fechando os cânceres do malgrado
ela refazia os tecidos
tecidos de gatos e lembranças de luzes
em meio às nuvens que eram –
indubitável! − de algodão-doce.
então girava frente à música que ela mesma soava.
os braços saltantes, saltitantes, saltimbancos –
roda mundo, roda gigante.

e ela repetia o mal dos ritos,
das profanações, templos gregos, que tudo era fim e início.  
insondável era seu dormir entre tantas
tantas imagens de cores desgastadas
camisas puídas
e o contar dos trocos na bolsa. e cigarros amassados em meio a:  
batom, notas fiscais, até pente.

no meio da sala
em meio ao som que impulsionava os braços a girar
uma pequenina aranha entrara dentro do sutiã.
e ela apenas rodopiava! ninguém viu o aceno
o acento
do sentir andar sobre a pele          patinhas          acariciando
as pintas
que giravam giravam giravam burilavam.
foi feio ter que lavar
o resto
de carne moída
sobre os seios.

e expurgava.
insônia?
três banhos quentes
dois cálices de vinho
cale-se.



poema do livro Desconjunto, 2002, revisitado em 2017.








quinta-feira, 14 de setembro de 2017




ele achava que família era igual a um carro grande,
e caro,
no qual ele entrasse como em uma blusa nova.


ele achava que jamais existiria
qualquer coisa macia 

fora desse nó de gente,
gente igual
gente amara
que amargou os mesmos traumas.

mas ele focava no carro, na luz, no gozo do metal tinindo,
e nas fotos que faziam
em natal e aniversários,

eles sempre mais potentes, o prazer do desempenho,
o penhor dos pundendos, as putas, as promoções.

ele queria ser um Deus, um Pai, um que Pode.

por isso, precisava cortar os cabelos regularmente
e ouvir e ser amável
e saber comprar presentes.
precisava de secretárias e saber guardar segredos

principalmente os mais fundos
os mais falsos, os físicos,

os futuros valiam mais do que todos os ais.

ele tinha um emprego
na companhia de seguros

e assegurava possuir a namorada
plenamente loira
nas horas de diversões nas quais
seus amigos importantes
importavam putas
desde rio de janeiro

maravilhosas, mais brancas, mais fogosas
menos garota da grota
menos pé de laranjeira, menos sardas, menos barriga
a cintilar depois do almoço de domingo.

mas elas eram lolas e eles lisos,
sem se importar com o loló que vem depois.

ele era amigo do que só podia ser, porque
não cabia noutra parte.


se partia, se tivesse que partir.

não pertencia senão a esse corpo que sempre só diz sim,
obrigado, por favor, faça-se.

hoje ele é um fantasma
que faz farra com seus carros importados
na frente de todas as portas
que passam fome e fumam.

ele é o que coube, e soube, e então dirige
os fuscas do futuro e os passados,

ele Pode, é Deus, Pai,
Pôncio Pilatos.

fez família, filhos, fundos de investimento
e fundações culturais.

se falam a palavra “puta”, não lhe serve,
sorve as pausas entre cafés e funerais
para acumular em suas contas
a cor branca,
as mais de quarenta brancas manchas
que um inuit vê nos seus jardins.

mas ele não sabe o que é inuit, a noite é grande,
e há que se ter família, porque enfim.

e família é igual a um carro grande,
que se veste com vestido branco, sem vulto de vulva,
sem vacilo,

senão não tem vintém,
não tem ninguém,
é nulo.

eu o vejo hoje, fantasma,
a aparelhar os sindicatos.

são tão tapados, os coitados, que quando veem um carro grande,
um Cristo, um ‘credo que terno mais bonito!’
não veem seu lado aflito.


se ofuscam
e fundam associações pró-fuscas.




segunda-feira, 14 de agosto de 2017




Eu tenho fome é de parede branca, lisa,
sem uma marca de prego ou arranhão.
Tenho fome de parede coberta de tinta espessa,
fosca,
enquanto as portas e janelas brilham
da mesma camada grossa de tinta esmalte.
Quero uma parede tão bem pintada
que ninguém possa ante dela deixar de suspirar
como Dalí suspirou diante de uma porta
tão bem pintada
que os quadros ali pareciam
aos seus olhos
ainda mais mal feitos.
Quero uma parede branca,
sem marcas, sem quadros, sem porta,
sem teima ou esmalte, sem Telma
onde eu possa simplesmente sentir
o nojo e a raiva das coisas impostas,
do sono e da sombra sem explicação.
Uma parede sem voz, sem vincos, sem rugas
sozinha no seu peso de parede, de coisa,
de suspiro que não mata nenhuma fome.
Eu quero é sentir essa fome,
depois fazer uma fenda, um furo por onde eu possa
surdir o fosso fundo de todas essas águas.



sábado, 29 de julho de 2017

Sei que alguns preferem sexo,
outros, filosofia francesa.
Prefiro deitar nessa rede e,
a sós, sonhar uma serigrafia.
Movimento da minha mão
marcando para sempre a tela
com a água que jorra
na sala escura.
E por graça da luz, da
água e do meu gesto,
o desenho se põe de pé no mundo.
Eis o contorno da mão
novamente vivo
vertido de uma caverna ancestral,
espécie de gemido,
gesto dêitico,
um eu sou entre tantos, um
grito no calafrio da noite
orgasmo do organismo cansado,
ou só uma frase, um sonho, uma rede,
entre algas,

algo.






terça-feira, 25 de julho de 2017



apertar o fio fundo da barriga e depois enriquecer os porcos de enaltecimentos, enriquecer aos poucos, rir até esquecer, rir de soslaio até a barriga doer naquele fio fundo que não é proform. soltar a mão pelo espaço até espairecer, soltar até esquecer que não há profundos. sair pela porta dos fundos e ser, nascer, viver, modorrer em vales e absintos de suores forjados roubados aos porcos, àqueles a quem é preciso enaltecer porque enanos não tecem sozinhos esta manhã. e suar, e suar, e suar e sorver um pouco menos de avisos e de purgatórios. e erguer novos crematórios para as pérolas aos poucos, aos poucos cantar até virar em arroubos a manhã.



segunda-feira, 24 de julho de 2017




eu não sei escrever a máquina
a máquina com a qual escrevo
é meu próprio corpo

escrever é ser sua própria máquina
todo o ser é sua própria máquina

eu não sei maquinar
o sistema judiciário de mim mesma
onde não há provas, nem calendário

eu só sei desescrever
meu próprio estado de mim mesma
eu mim mesma má
eu mim mesma máquina

eu mim mesma o eterno calendário
de meses se sucedendo
com dias abertos, dias fechados
dias azuis de pés burilados

e dias para balanço
para coleta de sangue e de provas
onde eu mesma me saúdo e me rasuro

como se fosse
uma sala toda branca




o sistema de arte
tem horror à sala branca

eu sou branca
não inteira
meus lábios não são brancos
meus pés
minha voz, meus tornozelos não são brancos
eu sou

a sala é branca
o sistema de arte tem horror ao que não é

também tenho horror do sistema judiciário do
sistema de arte de mim mesma


mas pensando bem
toda sala é branca

toda sala é
e eu sou meu próprio espaço aberto
com redes lançadas ao mar
e alamedas
todo espaço poderia ser sem medo
mas as salas
brancas
também se fecham sobre si mesmas




uma sala é um espaço com limites
todo suporte é um limite

há quem suporte o seu próprio corpo,
sua própria sala
sua própria rede e sede de peixe


não faço sala nem para mim mesma

sou também minha própria sombra
meu próprio insuportável
meu próprio céu
minha própria não-sala

- que às vezes é
quando não quer -
e também tem seus limites, medos, meandros

eu sou
minhas próprias paredes
sou
minha própria pele branca
meu próprio refletor
meu próprio calendário
minha própria dor

o sistema de arte não tem horror à pele branca
mas teme a pele
e tudo o que cheira e goza
e tudo o que sabe a sua própria sala




não sou um espaço confortável
sei a sangue e sede
nos cinco hemisférios



quinta-feira, 15 de junho de 2017

Eu sou a mulher com a mão na boca. Já fui a outra, abaixo, abraçada naquilo que queria morder - a pose composta e o corpo deturpado pelo olhar estrangeiro. Agora a ogra. Energia de braço que empunha o pedaço do inimigo, quem sabe se chamando alguém. Também me abaixo para soprar o fogo, se for preciso. Visivelmente incomodo o ancião ao meu lado, aquele que quer honrar as suas costelas conquistadas com êxitos de tantos séculos. Mas eu não ligo.

terça-feira, 6 de junho de 2017




No banco de trás de um carro velho,
eu lia Marx enquanto a família viajava
para qualquer lugar sem sentido.
Era um texto todo em itálico, ainda a introdução que
me dizia de Hegel, e eu nunca tinha ouvido um agá
que não fosse em forma de “erre” para os meus ouvidos.
O texto tinha um “alhures” que eu lia “al-rrures”
não sabendo de onde vinha aquele “al” separado na frente das coisas
e eu não achava normal um agá mudo, apesar de tantas palavras.
A família cruzava as estradas vazias
nunca a mais do que cem por hora, porque
o máximo eram os oitenta
e se tinha que respeitar
E não me contentando com as festas
e os brincos de plástico as blusas
de tomaras-que-caia em vivo cor-de-rosa
Eu preferia o amarelo dos livros.
E sendo a mais nova de todos os três filhos
que também vinham no banco de trás do carro velho
vestindo as camisetas que logo depois seriam as minhas
interrompendo a minha leitura com as suas importâncias
eu lia a palavra “al-hures”  com o som de um itálico distante
e queria saber mais sobre Hegel.
O agá de Hegel era o mesmo de Heidi, Heimat,
Haare, hungrig, raspante, eu esperava o momento
de poder parar sair daquele carro
carregar o livro para onde eu bem quisesse
e parar de me preocupar com as importâncias.
Eu via os senhores e os servos se sorverem
nas inconstâncias cabíveis aos meus quinze anos
de renúncias, raivas, rastros,  ritmos,
naqueles oitenta sem sentido, na direção de umas linhas.




domingo, 14 de maio de 2017




Um aquário escorre pelos seus cabelos enquanto as teclas não dão conta de mostrar como é que se impermanece. Você também é professor, à sua maneira, mas não precisa registrar  notas no sistema. Deixo os dígitos dançarem para lá e para cá, como em Debussy, cada vez que a umidade reaparece desde os rios da sua voz. Já fui uma daquelas que apreciavam o presente e não saberiam contê-lo, mas também não se dispersavam. Agora não. Assim, com a voz, com os braços, e gritando ritmadas essas coisas meio não, meio talvez, e meio seiva, sou bem isso que escorre pela sua voz. A plenitude do som vive no seu rosto que some a cada partícula de segundo, eu me misturo, sou todo esse não tempo que se difunde como se fosse um último. Você selva e todo índio, tão fora de toda ordem, também, tem uma forma de estar à prova e é sem tropeçar. Não registro a sua nota. Você essa voz veludosa que acorda os espíritos da crianças. Avalio os peixes de tantas cores que escorrem, peixes fuga, rios sonata, peixe-espada e peixe-mulher salpicam pelo prumo da cachoeira que em você me rebrilhou. Mas ainda me pergunto e me cutuco por que você só mora no azul. Não tem onde?





quarta-feira, 3 de maio de 2017

















aquele dia o gambá na cama
cinza insólito e feroz como um bicho sabe ser
- e se cai de repente de uma madeira solta
de um furo no forro despenca para o meio do macio -
sim
o gambá na cama, nunca antes vimos essa coisa acontecer
nós deitados
e sendo ele um filhote fedorento
indefensável, indefeso, tão colado à vida que não queria perder
e diferente de nós
simples como a saracura que nos acorda na manhã
e não se sabe saracura
e grita

mas era noite e o gambá trepidante seus dentes percebiam outros bichos grandes
nossos olhos rangiam sem saber o que fazer
alçamos as cobertas cobrimos o corpo dele
que não escapou

jogamos tudo pela janela
e lá embaixo, no pátio, de repente nossos lençóis sujos e o silêncio da escuridão
o gambá solto do seio de sua própria intimidade
e colado ainda à vida que não queria

sei que aos olhos do cidadão, é certo que essa cena nem nunca aconteceu
mas naquele dia, depois do gambá na cama, alguma coisa em nós jamais adormeceu



segunda-feira, 27 de março de 2017










A cobra, de manhã, despencou desde os meus bushes mais altos e parou bem na frente do portão. Que que aquela cobra tava fazendo há mais de dois metros do chão, tava caçando instantes esperando que ninguém passasse meus olhos olham a cobra quero sair de casa não posso parar de olhar fingir que não existe ali parada com a cabeça no caminho a cobra armada como um bote para nada como se jogou lá de cima como foi parar lá em cima a cobra anda escalando a cerca a cobra desce a cobra sobe a cobra se esconde nos arbustos a cobra espera um momento em que não seja mais nada mas o momento não vem estou aqui olhando-a estou aqui devorando a sua carne fria que brilha no sol da manhã eu quero sair quero ir para a praia a cobra não deixa a cobra não me olha mas ela sabe que estou aqui a cobra cobra de mim uma atitude que não quero ter nem sombra de tirar a cobra dali nem sombra de coisa na mão quero acariciar o sol a cobra sabe que não sei como ela foi parar ali ela sobre ela desce ela navega entre as duas faces do portão se enrosca em grades ela aquece um pouco o momento no qual quase penso em falar para alguém que há uma cobra e procuro me distrair  dizendo para mim mesma que é melhor não me cobrar e vou colocar roupa para lavar na máquina




quinta-feira, 23 de março de 2017











se  há salas escuras no meu corpo, recônditos nos quais se escondem vícios e verdades, salas fechadas, portas estanques onde o sangue é mais denso, se há veias poeirentas como a velha biblioteca, se há sussurros macios que a gente não ouve, e ali, nesse canto desencanto, se esconde a voz de algumas andorinhas, então é hora de retroceder um pouco. e chegar talvez ao tambor, talvez à terra. minha língua queria lamber uma voz, devagar, sugar cada pedaço de vento que surge do lado de dentro de outro corpo para abrir ao menos uma dessas grossas janelas.














cada lugar
é meu não-corpo,
precipício provável
onde me ponho
à prova,
onde revisito
meu próprio corpo
em sua virtude de limiar

cada lugar é de si mesmo
e de quem se desabitua
do seu próprio ser próprio

cada lugar me atravessa
num tropeço do meu corpo todo

todo lugar é impróprio

só eu sou meu próprio corpo
só eu não caibo em mim

sou cada lugar onde não moro
sou uma coleção vazia
dos espaços que me fazem corpo
sou um corpo não um lugar,
sou um ser de tempos
em tempos.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017






Decidi ficar aqui a tarde inteira, na semicor e na semiluz do salão de piso frio. O teto é amparado por colunas grossas e na frente delas põem as plantas artificiais. Nas outras mesas há outros desamparados que dormem por fora e por dentro acho que também falam de amor.  Uma senhora esfrega o chão sem dificuldade. Alguém diz alô-teste-testando enquanto passa sem pressa nenhuma. Um homem trajado de regata azul lembra que é possível a gente fazer esportes. Mas eu decidi ficar aqui, nesse lugar sem cheiro, quase vazio. Ouço que a língua é uma piranha. A pira da lua se reflete no chão liso. Há saídas de emergência. Ouro. Os extintores estão aí, no único poste. Agora outro homem, em outra regata azul, passa empurrando o carrinho do bebê. Os que pedem, têm. Os que não têm, esperam. A caverna é ruidosa e nela se põem defeitos. As plantas artificiais sorriem aos que passam e piscam cochichando coisas. Tudo se reflete no chão frio. Como fazer metade quando só se sabe ser inteiro? É para não ter desejos e esperar a tarde inteira, entre pessoas que passam, que se é. E que se erra. Então nada desperta o corpo de antanho. E havia aqui e ali alguma satisfação. Ela se desprende da fotografia. São os gonzos, são os gonzos ocos que atravessam o salão. Assim como é possível acordar o corpo morto com qualquer desejo, também se pode sem mesura permanecer sentado. Há até quem durma com a cabeça enconstada numa mesa de granito. Dormir é desistência. E se pode ir e vir, mas convém levar seu corpo. Porque a gente finalmente se esquece que a terra faz poente. E de que há plantas, há sim, há elas; e até as há não artificiais. E que a caverna é plástica e provisória. Mora a memória na fotografia. Um dia a gente dançou, dançará sempre. Na luz da praia logo ao alvorecer. No dentro do mato quando recém anoiteceu. No olho. Na obra. No copo, no sussurro. Na planta do pé, na palma da mão. No gesto do braço de repente aberto. Da cabeça recentemente erguida. Decidi ficar aqui, mas não. Não se sacode o pensamento num salão de piso frio. É tempo de saber morrer, e o melhor sempre é saber morrer dançando.











terça-feira, 31 de janeiro de 2017




Amo Kokoschka 
e um caderno sem linhas.
Por isso, desespero de dúvidas
e não sei recomeçar.

A mão pesada das manhãs
o vacilo da imagem
a nudez e a exasperação
sempre pesam.

Amo a boneca de pano
que Kokoschka encomendou
como trunfo e tropeço
para a sua solidão.
Amo cada silêncio
que a sombra de Rilke, o rival,
provocou
na sua pequena Alma.

Amo a alma pouca
e namorada 
dos homens traídos
que não cabem em si,
como o desenho 
não quer caber na página.

Amo os ruídos das motos vizinhas
que acompanham o fluxo
de um caderno sem linhas
que não ouso nem riscar.

Com Kokoschka, é tudo 
zonzo assim, é tudo gonzos.
Há pedaços de nuvem
guardados em algum lugar 
de antes do amanhecer.

Começa o dia
e pulsa
essa ardência de gizes,
de lápis, pastéis
sempre poucos para a minha fome.

Kokoschka pinta no céu 
o avião que recém passou.

As espátulas estão limpas, 
o cavalete quebrado,
o caderno acariciado 
como se fosse deus.

Só quem sabe reclamar das bombas
– só quem manda a guerra
um pouquinho mais para lá
pra não riscar um Rubens –
sabe morrer decentemente.

A coragem de Kokoschka é brumas
de um nunca permanecer.

Que barba nenhuma danifique
as cores de um certo quadro
que eu guardo na memória

entre dutches e dunas, 
perfumado de sonho.

Já Kokoschka 
não preciso nem lembrar 
nem lamber.
Ele vive
em cada galho, 
em cada gole de café.

É um mago de mãos brandas, 
o dia, a amanhecer
apesar das tintas.
Kokoschka me diz, de leve:
quem sabe rosnar é o leão
que nunca se olhou no espelho.