quarta-feira, 24 de agosto de 2016





serigrafia sobre capa de livro





                                                        Avenida Bento Gonçalves, 9500.

                                                      Caso palavra com palavra
                                                      e não consigo escrever.
                                                      Vou à praia e
                                                      o mar é só o mar, areia.
                                                      Sinto um tédio de as coisas serem coisas
                                                          e não durmo
                                              rasgo palavras
                                                      Sinto imenso na manhã com café preto
                                                      Caso palavra com palavra
                                                      arranco cabelos
                                                     Meu doido sumir se atravessa
                                                     digo e rasgo
                                                     digo e rasgo
                                                     digo e rasgo

                                                     muitos filhos







sem título, 2016
acrílica e serigrafia sobre papel fabriano




terça-feira, 2 de agosto de 2016





da linha do tempo de agora, de dois de agosto de 2016 às 15h. 
apropriação e manipulação de imagens. 






Por que escondem isso de você?
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Só 21 minutos por dia.
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21 minutos por dia e sequei minha barriga.
Parábola sobre como as circunstâncias mudam as pessoas.
Agosto 2016
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Junho 2016
Maio 2016
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10 truques para reviver suas coisas velhas.
Fevereiro 2016
Janeiro 2016
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terça-feira, 12 de julho de 2016

segunda-feira, 11 de julho de 2016





Formação de onças habita o quarto.
Digo rápido me esqueci um detalhe de rotina.
Não há tempos entre nós dois.
Somos um pouco de nada, assim jogado na areia
esperando que os dias mornem.
Mornar: parar o tempo em uma formiga.
Ser memorando. Aquilo que se diz depressa. Pura informação.
Tampar: tentar com pouco tino dizer o memorável.
Tempar: tampar com água morna todos os cadáveres.





sexta-feira, 1 de julho de 2016






sem título, 2016, colagem e monotipia










Hoje tive alguns pendores
com aquela Ana Cristina.
Ana Cristina era persona.
Eu, personne.
Ela, cansada de ser homem
tirou luvas de pelica, delicadas
e foi chorar no banheiro.
Isso eu faria, não fosse porca.

Em Lajeado, uma porca matou homem.
Ela dava a luz quando acudiu o agricultor.
No culto da criação, ele era demais.
Ela devorou muito da sua carne.
Sobre o porquinho, ninguém falou.

Talvez por isso eu seja pouca
devorando cartas, maus poemas
e cassetes bossa-nova.

Quando me amansarem,
serei Pessoa nenhuma.



*poema do livro Rumor da casa (7Letras,2008)



domingo, 26 de junho de 2016




TS, sem título, 2013, 10cm x 15cm, foto interferida








Para silêncio de cordas e nãos é preciso ter o cuidado de não se mover. Se mexer esse braço, já estronda o órgão suspenso desse quase céu. O tempo. Aqui é azul e por isso são abismos os espaços do som. Para a dor de encontrar, não há remédio. O não é proferido sob o sol a pino e então que tudo abunda. São tambores, fagotes, zabumbas, trombones e trompas de falópio. São os sossegos que não regeneram. Para cima e para baixo, há vida. Mas o sol se move. E a vida esquecida entre sons já então se cronometra. Um leve mexer de mechas é o suficiente para sonatas inteiras, intragáveis, a encher o espaço aberto. O corpo. Tão perto do calendário, o peito, que só um cristão aguentaria. Ainda há jogos de paciências, há dedos, e ciências na geladeira. Para ficar um pouco em paz, come-se o não com vinho. Idealizam-se iguarias. Para a dor de encontrar, entretanto, não há remédio. Por isso se samba até sem perna, sem braço, sem cílios que se abrem em abraços, sem tédio, para a sina do silêncio de cordas e nãos. 


poema publicado no jornal Qorpus, Pós-Graduação em Estudos da Tradução da UFSC, nº20.



domingo, 19 de junho de 2016

domingo, 12 de junho de 2016





LT GTS
m s gts.
m s gts.

m s gts.
m s gts.
s vzs dtst gnt.
Rrmnt, ms cntc.

m s gts.

s flns, smpr.
s trs, cntc.















(                                                                                              ),                                                                                (                                                             ,                  ,                  ,                             ,                ).
                                                                                                                                                                                                 .              ,                                                                  ,                                                                                                                                   ,                                         ,
                                                                                                 .
                                                      ...
                                                                                                  .                           ,                            .                             ,                                           , acena.
                     ,                                                          .
                                                                , desce, olha                      .                                                                    .                             .
                                        :
-                ?                                   .

                                                                      .




segunda-feira, 6 de junho de 2016



Não necessito, não quero, não posso mais tirar palavras da minha mão para contaminar o mundo. Ao redor, há xícaras, lápis, bicicletas, quadros nunca concluídos, livros abertos e cochichos. Alguns sussurros ainda empilhados por debaixo da cola branca. Há poeira, duas toalhas e um pouco de café. O trânsito fica longe, e ainda assim há redes: de dormir, de sonhar e de falar, perigosas. 
As coisas mudas me agradam, como a presença nesse quarto de um cobertor. Estar ao alcance da mão é fazer parte de um mundo com tabelas de verdade, quando ainda não havia suficientes sistemas de segurança. Clareza é livre como acordar de manhãzinha e ver o mundo fluindo em direção a mais um sábado. É medieval e não pede desculpas.
Agora é impossível voltar atrás. Até as folhas das árvores visitadas pelos passarinhos parecem sofrer no excesso do que ouço desde a tela que sofreu os apuros da falácia. Doença irreversível de precisar preencher instantes. Palavras falam, nunca se aquietam, alongam-se sobre tapetes, bebem rum, acordam os vizinhos de madrugada quando não cabem em camas, ou em câmeras de 140 caracteres. Cobertor se molda aos calores de um corpo inexistente. 
Saber que há portas, imunidade de tropas, um xamã enterrado, esquemas institucionais e críticas ao pós-estruturalismo é tão frio como engolir limão. A hora errada se assusta fácil. E a mão toca barbas distraidamente. Barbas encantadas, azuis, caminhantes como as falas que contaminam o mundo. Aquelas que nunca se pintaram nas cores da baba antropofágica, e por isso pousam sobre o espaço sem a dignidade de xícaras, lápis, bicicletas, livros abertos e cochilos.
























Série "Na linha do tempo", 2016. Apropriação e manipulação de imagens compartilhadas no facebook.

segunda-feira, 30 de maio de 2016





As lágrimas vermelhas molharam o chão do Mercado Público.
As lágrimas eram vermelhas e ofuscavam meus próprios olhos, de onde elas vertiam, desconsoladas, para diversão dos aflitos.
Por onde eu passava, sofria a multidão. O povo, se não me saudava de canto de olho, pelo menos me dava um passo atrás.
Eram lágrimas de tinta, eram furta-cor, eram lágrimas amarelas que saíam de minhas lágrimas vermelhas e jorravam até o mar.
Eu fiquei parada no segundo andar do Mercado Público, vertendo-as sobre o vestido.
De branco ficou vermelho, e disto foi se mudando em tantas múltiplas cores que todos os pássaros revoaram desde mim.
E assim, cega vendo o céu, sem no mínimo querer, dei alegria aos que me viram, porque finalmente eu era uma pintura. A esta altura.
Eles cantaram, eu não cantei. Nós suportamos um pouco melhor a vida & suas dores destruídas. Ficamos bobos, ao lado, no lodo das cores, na curva lilás.
Eu sei que houve um momento, antes.
Era branco.

Por onde andava, ficava rastro de coisas que eu não via. 




*poema de Depois da água, 2014, revisto/restaurado.

terça-feira, 17 de maio de 2016




"A rota da fome", 2016, uma página dos meus cadernos de desenho iniciados em Portugal






assim cimento por cima abaixo andarilhos por entre cinemas do cotidiano por entre olhos expedicionários a legendária busca de nadas por dentro de objetos assim por entre enciclopédias de canto mais ou menos desprezível e por enquanto nada diremos da vida pulsa & geme os quarteirões animados as quadras de futebol e boladas de roubos por entre a multidão de anões estupefactos em seus peitos aguados não mais que estes olhos camuflados em disfarce de nada dizer e de fingir que não que não se sabe nada do que se passa entre risadinhas dentro dos cérebros entupidos de notícias e à salvo da estupefação gerada por alimentos como filmes comprados no balaio da promoção oh não vejo my heart oh my mind is so oh 


my dirt sim infeliz como rajadas de vento assim free como o tempo das rugas de tantos rouges a mais e sim por assim dizer é sua a espera do momento certo





sábado, 14 de maio de 2016

ts, sem título, 2016

ts, sem título, 2016


dois trabalhos produzidos no scanner como testes para minha série final de gravura/pintura do trabalho de conclusão do curso de artes visuais. serigrafias saindo do forno, sobre monotipias, colagens, desenhos, xilogravuras. acúmulo e desintegração da palavra, imagem poética (cf Octavio Paz) na forma não de palavra, mas de imagem. "entre o vento e o peso da página", um projeto de pesquisa, vem sendo soprado em várias materialidades, tomando corpo. quando diziam que há vida após o doutorado, eu confesso que duvidava :-)



telma scherer, dia de m, 11 de maio de 2016


as partituras são apropriações de um livro de sambas do carnaval de 68 que comprei em um sebo e a imagem é de um alfabeto medieval, que será serigrafada em breve dentro dos trabalhos de conclusão de curso em artes visuais.


um "poema diário"

18 de abril de 2016

Hoje paramos a avenida Madre Benvenuta.
Fizemos milhares de vídeos, palavras, desordem.
Renascemos a mãe dos bem viados bem-vindos.
Semeamos amanhãs
com gotas de nosso cuspe,
com saias e muito suor de palma contra palma.
Fomos palco
para o espetáculo de nós mesmos.
Nós tantos assim
estamos vivos, somos       mulher
                                                  país
                                                        púrpura e
lance lancinante contra a servidão armada
de ternos e gravatas.
Sim, contra o ar enviesado dos furtos do calendário
só nos resta o sumo salpicado
de ais    de és    de uis
e dos urros de todos os guris.







dois dos meus "poemas diários" de um passado recente que, para o bem e/ou para o mal, está muito grávido de futuros. uma seta aponta para trás, porque nunca a canção "roda viva" pareceu tão contemporânea, e outra seta aponta para a frente, nossa esperança  maltratada nascendo mais e mais força.

domingo, 8 de maio de 2016










detalhes de tela, colagem e tinta industrial, 2013







                                                                monge amuado
                                                                molhado de lodo
                                                                no vento no tráfico
                                                                no esgoto

                                                                monge morto
                                                                vestido de marrom
                                                                maroto destemido de manhãs
                                                                absorto
                                                                onde a sorte é solerte
                                                                e onde a onça faz o frete
                                                                e suga

                                                                sim, nessa mesa torta
                                                                nessa tumba poderosa
                                                                onde o monge livra
                                                                os livros do cinza
                                                                e do sépia dessas trevas

                                                                 onde ele mora mundo
                                                                 e onde viaja e vaga
                                                                 e vislumbra o vício
                                                                 de recomeçar

                                                                 e por isso se o monge
                                                                 destroçar caroços
                                                                 e apontar oceanos pelos
                                                                 baixos e sonsos
                                                                     pedaços de corda
                                                                 dessa forca
                                                                 é porque a força que forja as armas

                                                                  amarra e solta



                                                                  poema publicado na edição 20 do jornal Qorpus 

quarta-feira, 4 de maio de 2016





"Três", TS, 13cm x 18cm, 2013, pastel, colagem e linha sobre xerox 



domingo, 1 de maio de 2016




as pessoas que têm vênus em áries. as pessoas que escrevem a palavra "fodástico". as pessoas que fazem compras. enjoar fácil é precisamente o que se precisa. eu queria ser um vômito do tempo. e às vezes o mar de ventania também me satisfaz. entretanto, há tramoias. e ventos. e a onda de cabelos modudados, de corpos desenhados desde anúncios... todos tão um. perscruto calçadas e soslaios de ônibus inteiros. não se vê alguém bonito. homem, mulher, criança, sereia, cobrador. todos encaixotados pela norma e tradição. e alisam fios como quem não teme o amanhã. eu queria enegrecer o mundo como o chaplin balança o globo, na pura poesia de uma bengala bulindo pelo ar. eu queria escrever algo preciso, como tochas, chamas, chistes e chusmas de estopa embebidas em solvente. mas não sou só eu que tem vênus em áries, querido. é toda uma graduação de medalhas para a premiação do desassossego. pioneiro é quem quiser. mas as fogueiras às vezes acendem antes, principalmente quando se é mulher.




De todas as tochas
esse fogo que aprisiona
e dentro dos teus olhos
se mantém          musgo
      fogo vesgo   
      que não quero olhar.
De todas as serpentes
uma que ri no teu sorriso
                   e ama
nem a calma nem o molho.
Sorriso frio        Sereno             
              sem lume
   – seu pássaro incandesce
e não voa senão quando
envolto em correntes, canta.
Dessa liberdade, uma
de percorrer latentes
e patenteadas latitudes
de jogar no rumo do sol
teu corpo, assim, o olho
nu – não cheio que te traga
            mais     poeira
nem fite         um céu
que se guarda em sol
mas reluz no negativo
que é noite     jaz na foto
como a palavra epitáfio.
         Esse fogo
dorido que não queima
e quer            e não arde
         não quero.
Quero o que se consume
na garganta aberta – o giro
de girassol.


Poema publicado no jornal Ô Catarina nº 84.

sábado, 16 de abril de 2016


"A conspiração", TS, 2013, 21x29cm,  pastel aquarelável, colagem e nanquim sobre xerox


Antes eu era simples
e até sabia escrever.
Era menina em sol ardente.

Ver o grande Ser e seus entes
não era minha tarefa.
Eu − eu era simples − podia tê-los
porque tinha olhos lúcidos
as mãos suavam
e o vento batia o batente
sacudia ainda os cabelos.

Agora
perdi um jeito de estar
distraída.

No que sou é impossível
decifrar composições.
Nem tenho fácil, brisa fumaça:
− só a música.
Ouço
dentro do ar fechado
entre paredes brancas
quase desiguais.

E nunca aprendi a cantar.


*poema do Desconjunto revisado.