quarta-feira, 9 de novembro de 2016















eu não sei escrever a máquina
a máquina com a qual escrevo
é meu próprio corpo

escrever é ser sua própria máquina
todo o ser é sua própria máquina

eu não sei maquinar
o sistema judiciário de mim mesma
onde não há provas, nem calendário

eu só sei desescrever
meu próprio estado de mim mesma
eu mim mesma má
eu mim mesma máquina

eu mim mesma o eterno calendário
de meses se sucedendo
com dias abertos, dias fechados
dias azuis de pés burilados

e dias para balanço
para coleta de sangue e de provas
onde eu mesma me saúdo e me rasuro

como se fosse
uma sala toda branca




o sistema de arte
tem horror à sala branca

eu sou branca
não toda branca
meus lábios não são brancos
meus pés tampouco
minha voz, meus tornozelos não são brancos
eu sou

a sala é branca
o sistema de arte tem horror à sala branca

tenho horror ao sistema judiciário do
sistema de arte de mim mesma


mas pensando bem
toda sala é branca

toda sala é branca
e eu meu próprio espaço aberto
com redes lançadas ao mar

todo espaço poderia ser aberto
mas as salas
brancas
também se fecham sobre si mesmas


uma sala é um espaço com limites
todo suporte é um limite

há quem suporte o seu próprio corpo,
sua própria sala
sua própria rede e sede de peixe


não faço sala para mim mesma

sou também minha própria sombra
meu próprio insuportável
meu próprio céu
eu sou
minha própria não-sala

- que às vezes é sala
quando não quer -
e também tem seus limites

eu sou
minhas próprias paredes
sou
minha própria pele
branca
meu próprio refletor
meu próprio calendário




o sistema de arte
não tem horror à pele branca


o sistema de arte
tem horror à pele
a tudo o que cheira e goza
a tudo o que sabe a sua própria sala




eu não sou um espaço confortável
sou poros, pele, suor e riso

e saem sangue e sede
dos meus hemisférios




quarta-feira, 26 de outubro de 2016












Do céu da boca do cantor
ele saiu insuspeito,

o duende.

Ressou desde
o topo da cabeça

escorregou de
dentro do peito
e num

baque

simplesmente saiu.

Foi quando o corpo
de repente se
contorceu

para continuar a cantar
e conquistar as meninas.

Ele saiu
sonso e insatisfeito

esgueirou-se
para além dos cabelos
tão pretos e lisos e lindos

e quase grudou sem querer
no suor desse rosto de índio

do andré que
quase, sim, o matou.


Uma pisada em falso
sem nem sombra de
falsete
facilitou a fuga

com a
pressão de ar comprimido
nos foles de dentro.


O duende
fujão e fajuto

morto de
medo do andré matos
se viu finalmente a salvo

do passo pesado
dos pulos
dos pulsos que vão e que vêm,
vociferados.


A plateia
ignorante do duende
continuou cantando

agarrada num acorde
acima da fumaça dos estrondos.



O duende
finalmente a salvo
não sabia o que fazer
e nada fez.

Pronto para aprontar e
desagradar as meninas

grudou num canto do teto
preto
e ali ficou.





segunda-feira, 24 de outubro de 2016



























Giovanni Batista Bracelli, 1632





sei que Plotino me espera
para um encontro extra-conjugal.
Plotino parado, à mão,
na mesa de cabeceira.

Traição sem ancoradouro
nem hora pra acabar,
à vista do nascedouro.

Plotino é brasa,
buraco à guisa de fundição,
estrondo de gonzos interiores,
belo como a brisa do verão.

Plotino de ferro,
de trilho, de alça e
escada, Plotino de farda
é prata da casa,
confortável, verde,
dedicado a dedicatórias,
furtado na feira,
crime amaro e amuleto.

Plotino é tesão de todos os tesouros.
Plotino Platão,
alívio das mal-casadas,
cassado,
Plotino enfim enamorado,
posto de lado, no lodo,
do alto do trovão,

Plotino trovador de boca e de boteco,
rei do lero-lero,
lilás, feminídeo e feminazi,
femeeiro, tão fodão,

Plotino à porta de todos os precipícios.

Plotino lua de prata,
patrão, fuga e sonata
para minha boceta,
homem casado, safado,
comido a mordidas

no marco das reminiscências,
uno e vazio como todos os cem mil.

Plotino aflito, roubando carros,
coçando o saco,
comendo restos,
Plotino papo reto depois das baforadas,

tomador de porradas,
heroi, bastardo,
chacinado em Xingu,

filho de Xangô, estuprado,
Plotino de pele sem pêlo
ou atropelo, curado

pelos curas mais viados,
martirizado, milico,
cheio de atrito, atordoado,

Plotino palhaço e
puto, porco,
pedaço de nada que não se lê,
namorado.



sábado, 22 de outubro de 2016










Voz havia
atrás da bocca
della verità

uma voz persuasiva
voz governo

desestimada dos deuses

voz estima
da vida pouca dos falsários

voz havia
que mentia
quando mordia o inocente

E a pedra sobrevive
desde tempos tão antigos -

a pedra -
a Fica -
guardada em hall de igreja

em Roma -
a terra salafrária

única paisagem e
cloaca massima

vertigem de passado
e sumo sacerdócio


O sumo do sacerdócio
é querer ser essa voz
que engana o tempo

e revolta
ainda

uma boca passada
de pedra

que pulsa
onde todos põem a mão



segunda-feira, 17 de outubro de 2016




você quer ver de novo 
aquele que é velho 
e aquele que se veste 
em listras brancas e azuis. 

o gênio, o bamba, o Genet, 
o que nunca se sacrifica. 

você quer ver de novo 
o que não pare
e o que não para nem
nasceu para seu pai.
o que abunda em rios 
e em montanhas
o que faz gemer a terra
e te atiça como 
prova e professor -
o ator -
o só cabelos brancos
atalho de antanho
de nuvem, de motivos.

você quer rir de novo do de
raivas
de nenhuns amigos,
o nu no supermercado,

o do abismo, o abismado, 
o mal amado e
o cabeçudo e
o caralhudo e
o otário

o só salário e
o salafrário,
o que te traz de novo a manhã.

você quer ver de novo,
você é o ovo, 
ele o ele e o ela, 
o sigismundo
o Sigmund Freud

o frio o freund o azulejo
o Alentejo e
o cara de pau, a pia bastismal,
de cortiça, o bacanal,
aquele que não cabe nos óculos.

você quer ver de novo 
o carismático e o asmático
o másculo 
o mouro 
o molhado 
o milho e
o amanhã,

o Plínio douto o sábio
o sabão e o mouco, 
o que não destrava so dentes, 
o destroçado, 

o dançado em drama de esquina,
o esgrima,
o xamã

você quer
o que nunca se despe
o incriado e o mal criado
o infiel e o dono do quartel
o mercenário e
o troco não trocado

o nada de nenhum,
o Um e o mais um. 

o úmido, o deslocado
o trovador e o tronco
o monstro da lira sem cor, o intruso,
você quer,
o confuso, o Confúcio, o florido,
o todo amor e o tanto desamor.

você quer ver de novo, sim,
o incômodo, o iniciado
o Confúcio, o amigo e o amado, 
o enfim oferecido, aquele que. 











quarta-feira, 12 de outubro de 2016






de nada adianta fazer coisas úteis, quando você não cumpre o cronograma.
cronos ofusca com o copo na mão, dizendo: aja!
e haja luz para verter em vida as massas gordas da escuridão.
o que é que se faria se não fosse o saborear do dia, sem perdão e sem paralisia,
porém lento, lento, lento?

sei que tudo se resolve em tintas, a matriz é a grande mãe das horas tornadas tornado
de repente desinútil
como a gravidade da gravura preenche horas
em doses de aguarrás

entre buchas e esponjas
(manchas a evitar
com talco e paciências)
jogos inteiros de cadernos, quatro por quatro
secaduras de uma vez.

sim, é aqui, nesse precipício, que se desfazem as potências
e as nuvens que um dia, não neste, ainda mendigarão sentido
sob os olhos aflitos de momentos passageiros.

fazer sentido de passado impróprio, doente, recente -
a lembrança desse rosto que vem em hora
imprópria, sem nem sombra de um beijo que eu quis dar?
nem lugar para intervalos
quando a lembrança é nítida,
e são cílios, brilhos, olhos,
boca molhada de poros e pêlos
para os quais se apela em linhas.

a tela come o cuspe de cronos, e
então não há
língua que haja
e aja nos longes de lua cheia.





terça-feira, 11 de outubro de 2016















vá de retrum, retrocesso. você pensa que tudo pode, mas esqueceu as janelas abertas, qualquer um pula para dentro do seu centro.
e depois, puxe a cortina. veja daqui mesmo onde picharam o seu nome no espelho do olho da rua.

vá de retrum, retrocesso. que eu aqui sei do meu bote.
comprar mais um pouco de paz, seja com gin ou com ginástica, planejar parricídios e prestar-se ao trabalho de parto, isso ninguém quer.
não é apenas porque sou mulher, é porque os muros são falsos e os passados passam mais rápido do que se imagina.

depois voltam com cheiro de estar por cima, mas não. nem acima nem abaixo.
é de retrum, vá de retrum.

não compro amor fabricado na china. nem embarco em barcos furados. também, não importa, esses portos se desfazem com o primeiro vendaval.
e há porcos e vendilhões de templos em todos os espaços parados.

por isso, avante.
e feche a porta, adiante, que ninguém tem mais tempo não.
você chegou atrasado, retrocesso. já até picharam e mijaram em você por todos os lados.
e tá na hora do meu almoço, agora.




domingo, 9 de outubro de 2016










Cronos #1 na Flamboiã ~Feira de Arte Impressa, no Palácio Cruz e Souza/Florianópolis, 08 e 09 de outubro de 2016. Performance orientada para vídeo, 3min, + duas páginas de livro descartado.


segunda-feira, 3 de outubro de 2016





Em meu bolso, um resto de chuva. Guardo-a por bilênios. Como tirar do bolso ─ sem molhar os transeuntes. Devoram a água aos montes. 
Há um cão escondido entre os meus seios. Fica aqui, sossegado, comendo instantes. Alivia-se em estantes, trás de livros, traça e mofo. Às vezes segredo. Às vezes esgoto. 
Tem borboleta também. Voa e volta. Basta o toque  dessa mão na minha mão. E escorro no risco dos rabiscos. Ressuscitando renúncias. 
Por exemplo, Peter Flötner, 1542. É dele a gota que faltava. A do fantasma. Essa mágoa que se põe a nu, de braços dados, inundados. Água que corre há bilênios, cinco séculos, ou quase. É o que a poeira e a culpa não poupou. O temor dos transeuntes. O coaxar do meu cão. O poder de dizer não.  





domingo, 25 de setembro de 2016



sem título, 2016, serigrafia, monotipia e pastel, 21x29






o corpo se inscreve no corpo como dança ou doença, como demais de amor inacabado pelas frestas do dia em que tipos e cismas azuis, vermelhas, negras, amarelas, teimam em ocupar o espaço da página, como sulcos de instantes onde o caminho de casa se enriquece de tomadas da mesma face sob a infinita luz da madrugada.




sábado, 17 de setembro de 2016

segunda-feira, 12 de setembro de 2016











Ortned é um rei sem reino. Ele vive às espreitas, um rei nu e sem vídeos na internet. Um quase desconhecido pelos seus súditos. E desconfiado. A cada margem de erro, a cada marca no papel, a cada gesto despercebido, Ortned vibra do outro lado do mundo, Ortned se infla sem que ninguém proteste. Suas leis, por isso, sempre se cumprem. Ortned gosta de calar os instantes, os bobos pensam que são muito e falam, falam, falam. Ortned guarda todas as informações. Depois vende para outros reis desconhecidos, e os sujeitos passam a ter dor de dentes. Há estragos em máquinas de lavar e pequenos tombos. Ortned também é a salvação das situações mais aflitivas, quando há lapsos entre aquilo que as pessoas sentem e o que se pode pensar. Orned mora naquilo que é informulável. Por isso, para reinar não precisa de formulários, carimbos e requerimentos. Basta um momento para vê-lo, majestoso, quase sem seguinte. 




sábado, 10 de setembro de 2016





sem título, 2012, gravura







E o quê e o ukiyo-e, às sete horas da noite. O que o ukiyo-e às sete horas da noite? É tarde, é noite, é hora de gravar todos agravos nesta gravura de horas. Neste dorso do tempo, tigre deitado, rosnando, tigre quase um gatinho de cócoras sobre o muro. Mas a noite sabe. O que sabe o ukiyo-e sobre a sobra que sobra nesta sombra de muro? A casa é espanto. A casa é murada de ruídos. A casa é morada de espíritos que sobem e descem escadas, o som dos seus chinelos, seus gritos, seus uivos, sua televisão. A casa não quer cuidado nenhum, quer as sobras, quer tudo o que sobra de nós. Ukiyo-e é a sombra transitória, nós passamos, não resta nem sombra. Estamos ligados nas tomadas. Somos as sobras de nadas nadando entre madeiras, pincéis, entre os dedos do gravador. Também ferimos, como goiva e buril. Também cortamos o assunto. Também unimos nosso silêncio aos sons de séculos passando sem vizinhos na casa vazia. Vocês não veem que somos esqueletos? Sobramos apesar de tudo. E apesar das goivas e formões formamos um uníssono que só se escuta quando quando, quando longe, quando então, usando algures e algas, quando no céu se dizem amém, amém, amamos. Nós nunca nos dizemos sem tinta preta. Nós não acreditamos em Deus, só colonizamos. No entanto nos guardamos para o paraíso e enquanto não temos mais o que fazer, fazemos. Fazemos amor com as cortesãs de Yoshiwara. Fazemos glicínias, rosas, púrpuras, toaletes maquiadas, fazemos matriarcas caírem a zero. Porque nós somos o insulto. Misturamos os insumos e o que o ácido não queima também não verga a madeira. Não subimos para fazer visitas, não tomamos chás, não queremos bolo em pratinhos oferecidos durante a tarde. Para nós é sempre tarde e sempre tarde para saber. Sombreamos o traço mesmo quando nos chamamos, e quando nos provocam, então, aí somos Marte e Vênus. Temos céus na boca, registros, coleções de latas, e somos sem perdão. Porque passamos assim, como as cédulas de mão em mão, ganhando bactérias, perdendo tempo, perdendo o que para vocês é tudo e para nós só suma luxúria. Gastamos com nozes, rolos, caldas, caramelos, chocolates e tesouras. Não fazemos maiores alardes, mas é assim, na impermanência das poltronas que nós mesmos nos prensamos.




poema publicado no jornal Qorpus / UFSC 

sábado, 27 de agosto de 2016




direção e edição de Danielle Sibonis
poema do livro Rumor da casa (7Letras, 2008)
filmado no Castelinho do Alto da Bronze (Porto Alegre) em 2010







você soa como brisa, vulcão ou ventania?

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