quinta-feira, 23 de março de 2017











se  há salas escuras no meu corpo, recônditos nos quais se escondem vícios e verdades, salas fechadas, portas estanques onde o sangue é mais denso, se há veias poeirentas como a velha biblioteca, se há sussurros macios que a gente não ouve, e ali, nesse canto desencanto, se esconde a voz de algumas andorinhas, então é hora de retroceder um pouco. e chegar talvez ao tambor, talvez à terra. minha língua queria lamber uma voz, devagar, sugar cada pedaço de vento que surge do lado de dentro de outro corpo para abrir ao menos uma dessas grossas janelas.














cada lugar
é meu não-corpo,
precipício provável
onde me ponho
à prova,
onde revisito
meu próprio corpo
em sua virtude de limiar

cada lugar é de si mesmo
e de quem se desabitua
do seu próprio ser próprio

cada lugar me atravessa
num tropeço do meu corpo todo

todo lugar é impróprio

só eu sou meu próprio corpo
só eu não caibo em mim

sou cada lugar onde não moro
sou uma coleção vazia
dos espaços que me fazem corpo
sou um corpo não um lugar,
sou um ser de tempos
em tempos.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017






Decidi ficar aqui a tarde inteira, na semicor e na semiluz do salão de piso frio. O teto é amparado por colunas grossas e na frente delas põem as plantas artificiais. Nas outras mesas há outros desamparados que dormem por fora e por dentro acho que também falam de amor.  Uma senhora esfrega o chão sem dificuldade. Alguém diz alô-teste-testando enquanto passa sem pressa nenhuma. Um homem trajado de regata azul lembra que é possível a gente fazer esportes. Mas eu decidi ficar aqui, nesse lugar sem cheiro, quase vazio. Ouço que a língua é uma piranha. A pira da lua se reflete no chão liso. Há saídas de emergência. Ouro. Os extintores estão aí, no único poste. Agora outro homem, em outra regata azul, passa empurrando o carrinho do bebê. Os que pedem, têm. Os que não têm, esperam. A caverna é ruidosa e nela se põem defeitos. As plantas artificiais sorriem aos que passam e piscam cochichando coisas. Tudo se reflete no chão frio. Como fazer metade quando só se sabe ser inteiro? É para não ter desejos e esperar a tarde inteira, entre pessoas que passam, que se é. E que se erra. Então nada desperta o corpo de antanho. E havia aqui e ali alguma satisfação. Ela se desprende da fotografia. São os gonzos, são os gonzos ocos que atravessam o salão. Assim como é possível acordar o corpo morto com qualquer desejo, também se pode sem mesura permanecer sentado. Há até quem durma com a cabeça enconstada numa mesa de granito. Dormir é desistência. E se pode ir e vir, mas convém levar seu corpo. Porque a gente finalmente se esquece que a terra faz poente. E de que há plantas, há sim, há elas; e até as há não artificiais. E que a caverna é plástica e provisória. Mora a memória na fotografia. Um dia a gente dançou, dançará sempre. Na luz da praia logo ao alvorecer. No dentro do mato quando recém anoiteceu. No olho. Na obra. No copo, no sussurro. Na planta do pé, na palma da mão. No gesto do braço de repente aberto. Da cabeça recentemente erguida. Decidi ficar aqui, mas não. Não se sacode o pensamento num salão de piso frio. É tempo de saber morrer, e o melhor sempre é saber morrer dançando.











terça-feira, 31 de janeiro de 2017




Amo Kokoschka 
e um caderno sem linhas.
Por isso, desespero de dúvidas
e não sei recomeçar.

A mão pesada das manhãs
o vacilo da imagem
a nudez e a exasperação
sempre pesam.

Amo a boneca de pano
que Kokoschka encomendou
como trunfo e tropeço
para a sua solidão.
Amo cada silêncio
que a sombra de Rilke, o rival,
provocou
na sua pequena Alma.

Amo a alma pouca
e namorada 
dos homens traídos
que não cabem em si,
como o desenho 
não quer caber na página.

Amo os ruídos das motos vizinhas
que acompanham o fluxo
de um caderno sem linhas
que não ouso nem riscar.

Com Kokoschka, é tudo 
zonzo assim, é tudo gonzos.
Há pedaços de nuvem
guardados em algum lugar 
de antes do amanhecer.

Começa o dia
e pulsa
essa ardência de gizes,
de lápis, pastéis
sempre poucos para a minha fome.

Kokoschka pinta no céu 
o avião que recém passou.

As espátulas estão limpas, 
o cavalete quebrado,
o caderno acariciado 
como se fosse deus.

Só quem sabe reclamar das bombas
– só quem manda a guerra
um pouquinho mais para lá
pra não riscar um Rubens –
sabe morrer decentemente.

A coragem de Kokoschka é brumas
de um nunca permanecer.

Que barba nenhuma danifique
as cores de um certo quadro
que eu guardo na memória

entre dutches e dunas, 
perfumado de sonho.

Já Kokoschka 
não preciso nem lembrar 
nem lamber.
Ele vive
em cada galho, 
em cada gole de café.

É um mago de mãos brandas, 
o dia, a amanhecer
apesar das tintas.
Kokoschka me diz, de leve:
quem sabe rosnar é o leão
que nunca se olhou no espelho.



domingo, 22 de janeiro de 2017



tiraram as palavras diretamente da minha garganta, sem passar pela boca.

disseram que ninguém podia comer imagens.

para eles era tudo norma e haviam escrito, em um muro que não há, que não se pode degustar. porque a saliva contamina tudo o que flui nos sons da fala.

me fizeram despencar desde o glúteo até o monturo.

fiquei amarrada enquanto pinçavam, de dentro desse peito, um jeito meio vermelho vivo.

naquilo que reluz, atmosferas.

daí fiquei com o corpo inchado. estranho, pois era justo o dom do muco que me mantinha leve. pegajoso, com Hélios por dentro, com Jimis Hendrix, daimons e daimons que tocam flautas por dentro do líquido. e Sócrates, nenhum.

e depois de ultrajada, não sabia o que poderia encontrar. só havia confusão do instante, a carcaça jogada, igual um buey de Rembrandt: aquele aberto, ainda que não dissecado, aquele pleno de sangue e carne que não se mexe, aquele colapso das coisas que fazem sentido.

brilha, por dentro, o corpo. por fora é pós e paetés. tem veias como cachoeiras.

qualquer coisa que eu tiver vivido lá no lugar da discórdia, da norma, do concurso, eu agora curo e perdoo, sim. deixo o peito abrir com a fenda da notícia. não molho mais aquilo que digo. se digo, digo. deixo a vida fluir em mares de esquecimento. deixo a borboleta amarela pousar aqui onde não tem passarinho. pelo contraste é que a gente percebe o quanto o pássaro é pesado, a carnadura de suas patas e o enchimento das asas.

também não foi culpa deles, os que seguem leis. dizem que não se pode com peito úmido e sussurros de dentro da madrugada, só porque ouviram. ouviram e viram que era assim, e era. a gente é pega de jeito na barra das notícias, que a gente rola, rola, rola, se despedaçam imagens com formas de ser e de não ser. eles não sabem, não pararam para prestar atenção. são sendo.

e sempre fui assim, luz se desplazando, desesperadamente à procura do que não. e do que corpo. como saber o sim? se sim e não não têm significados. eu preciso dessas imagens que mastigo como vaca, na paciência das deglutições. eles não.

estar aqui coletando por escrito essas palavras que me foram arrancadas também não dói.

faz parte do precipício ao qual me jogo com vontade.

não sem antes ficar sentada por muito tempo em cima de uma pedra, comendo as imagens que o mar vai colocando dentro da minha boca. e mastigando um pouco, deixando que elas formem bolo e calda com a minha saliva.

enquanto fico assim comendo imagens, um vento bate e é bom.

depois elas se trasnformam em palavras palavras palavras, tantas e tão zanzas que até dá gosto vê-las dançar.

daí as pedras onde me sento são uma espécie de tambor.

eu sei que me arracaram de mim com violência, e ainda vivo. porque aqui no vento é muito fácil cruzar limites do possível. e assim sendo, tenho que esperar até que venham me sangrar novamente, ou então os sopro meio sem querer, lá para o lado. por que deveria seguir um caminho de Sísifo sem nem brisa?

mas eu mesma deixei eles irem arrancando as palavras uma a uma e peguei a pedra que me deram e subi a colina. doeu para aprender, mas agora eu sei voar. e depois do precipício tudo ficou ímpeto. meu corpo acocorado me diz o que é: que é rosas, que é orvalho, que é poças e águas mansas, que é corte, às vezes, que na hora em que a gente nem imagina, arrebenta a onda. 





sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

nasce "o sono de cronos na minha barriga"



em alguns trabalhos, utilizo livros usados ou me aproprio de fragmentos de impressos - tanto páginas com texto quanto com ilustrações, especialmente reproduções de imagens clássicas da história da arte. 

foi com o objetivo de angariar material para uma série de pinturas de 2013 e 2014 que comecei a coletar, nos balaios, um conjunto de publicações "decaídas", ou seja, que não têm valor comercial quase nenhum. são livros que se tornaram obsoletos por algum motivo: didáticos ultrapassados, romances obscuros, fascículos de enciclopédia. 

encontrei preciosidades em um baú de R$1,00 do calçadão da joão pinto, centro de florianópolis. entre elas, uma série de fascículos que abordam a história brasileira, os "descobrimentos" e as disputas do período colonial, com destaque para a "grandes personagens da nossa história". 

foi o fascículo "jerônimo de albuquerque" aquele que mais me embasbacou. os albuquerques foram uma família importante, comentada por paulo prado no "retrato do brasil"; além disso, porém, eu não tinha maiores informações sobre essa figura. como os demais fascículos da série, ele apresenta a história de jerônimo de modo oficialesco, sem críticas à narrativa portuguesa, e nenhum espaço para questionamentos pós-coloniais. 

a construção da imagem do herói começa no subtítulo "mameluco e cavaleiro fidalgo" seguido da explicação resumida: "usando sua condição de mestiço, jerônimo de albuquerque entre os índios e os brancos conseguiu viver bem". viveu entre 1546 e 1618, envolveu-se nos episódios de expulsão dos franceses de pernambuco, paraíba e maranhão. "fundou" a cidade de natal, ganhou o título de "cavaleiro fidalgo da casa real" (primeiro mameluco a recebê-lo) e, após a expulsão completa dos franceses, "a paz estava alcançada. jerônimo já pode envelhecer tranquilo entre seus parentes, mas ainda consegue governar a capitania do maranhão por dois anos".

duas páginas desse fascículo acompanham o trabalho "cronos", uma performance orientada para o vídeo que fiz a partir do trabalho de paulo herkenhoff "estômago embrulhado", sobre a qual já fiz postagens abaixo. as páginas do fascículo abordam a habilidade de jerônimo em "convencer" os índios a lutarem ao seu lado e do lado dos portugueses. nada mal dar uma ollhada nesses episódios da narrativa brasileira para compreender o que chamamos hoje de "políticos corruptos" e "democracia racial".

cronos é uma referência que vem de outro lado, deus que devora seus filhos, come-os um a um. um fundo oswaldiano da antropofagia também fica ressoando atrás desse trabalho, a partir do qual comecei a pensar uma nova performance, não orientada para o vídeo, mas a ser realizada ao vivo.

assim nasce "o sono de cronos na minha barriga", trabalho que ainda não foi executado, mas cuja proposta central parte dessas referências e as desdobra em cena, com palavra falada, sons, movimentos, imagens, enfim, um trabalho de performance.

a devoração (de livros, de histórias, de notícias) não é apenas nutrição, mas também traz como consequência o vômito, o clímax daquilo que não conseguimos engolir, a voz, aquilo que explode de dentro do corpo e toma o ar, ganha consistência de coisa, linguagem.



pintura, 2014, detalhe




quarta-feira, 11 de janeiro de 2017




Aquelas noites, lá em casa, você tocava bandolim, nós nus, acordando na madrugada dos outros para beber as garrafas finalmente geladas; as suas palavras de flauta, o ruído da rua e nós dois nus, ainda, inventando anestesias para o todo do minuto.

Você tão novo, os cabelos cacheados, a nenhuma barba, sua vontade de pôr em pauta tudo o que compunha num piano censurado, suas aventuras, a mulher casada e os causos do seu corpo, os seus dedos suaves como brisa em brasa.

O seu casaco de lã debaixo de outro casaco, a dúvida entre os dois, você geada, você simples como não saber de nada, nós dois colados esperando anoitecer para comprar um baseado com os vendedores de carros.

Você raro, taurino, astral, suas visitas em meu quarto sem cama, só colchão, a lembrança do bom sem não, de noites ainda com seu nome por saber, sua corrente que eu tinha que tirar antes que tudo, senão não podia mais te ver nem mesmo por um segundo, seu brega bom, com sinais ancestrais de lua cheia e algum mar.

Você surpresa no silêncio, os discos de presente, as destinações, sua língua ausente de qualquer palavra, a sacola na mão antevendo latas, você no lodo, seu sorriso, na outra mão o case, demônio melodioso, você não servia para caso sério, você sorria, seu vício de trocar todos os cds.

Você sentado ao meu lado, nós no banco de trás, as pernas se grudaram, alguém poderia ver, minha face hipnotizada pelo seu sotaque meio rindo, meio cantarolando, você pôs os pés no que eu sonhava, um dia, planejando tocar os seus cabelos mansos, a sua pele bronzeada pelo lado de dentro.

Aquelas noites, as mensagens visualizadas e nunca respondidas, você uma clave, nua, partitura indecifrável, os anos se passaram, você não trazia mais cds, tinha tudo em podcasts que não rodavam para nada, você desafiava o tempo com sua pouca roupa, a barriga saliente, no quarto há mais do que uma cama, você preocupado com uma tradução do grego, nós colados como papéis à mesma parede úmida onde um dia alguém deixou um murro. 



quarta-feira, 9 de novembro de 2016















eu não sei escrever a máquina
a máquina com a qual escrevo
é meu próprio corpo

escrever é ser sua própria máquina
todo o ser é sua própria máquina

eu não sei maquinar
o sistema judiciário de mim mesma
onde não há provas, nem calendário

eu só sei desescrever
meu próprio estado de mim mesma
eu mim mesma má
eu mim mesma máquina

eu mim mesma o eterno calendário
de meses se sucedendo
com dias abertos, dias fechados
dias azuis de pés burilados

e dias para balanço
para coleta de sangue e de provas
onde eu mesma me saúdo e me rasuro

como se fosse
uma sala toda branca




o sistema de arte
tem horror à sala branca

eu sou branca
não toda branca
meus lábios não são brancos
meus pés tampouco
minha voz, meus tornozelos não são brancos
eu sou

a sala é branca
o sistema de arte tem horror à sala branca

tenho horror ao sistema judiciário do
sistema de arte de mim mesma


mas pensando bem
toda sala é branca

toda sala é branca
e eu meu próprio espaço aberto
com redes lançadas ao mar

todo espaço poderia ser aberto
mas as salas
brancas
também se fecham sobre si mesmas


uma sala é um espaço com limites
todo suporte é um limite

há quem suporte o seu próprio corpo,
sua própria sala
sua própria rede e sede de peixe


não faço sala para mim mesma

sou também minha própria sombra
meu próprio insuportável
meu próprio céu
eu sou
minha própria não-sala

- que às vezes é sala
quando não quer -
e também tem seus limites

eu sou
minhas próprias paredes
sou
minha própria pele
branca
meu próprio refletor
meu próprio calendário




o sistema de arte
não tem horror à pele branca


o sistema de arte
tem horror à pele
a tudo o que cheira e goza
a tudo o que sabe a sua própria sala




eu não sou um espaço confortável
sou poros, pele, suor e riso

e saem sangue e sede
dos meus hemisférios




quarta-feira, 26 de outubro de 2016












Do céu da boca do cantor
ele saiu insuspeito,

o duende.

Ressou desde
o topo da cabeça

escorregou de
dentro do peito
e num

baque

simplesmente saiu.

Foi quando o corpo
de repente se
contorceu

para continuar a cantar
e conquistar as meninas.

Ele saiu
sonso e insatisfeito

esgueirou-se
para além dos cabelos
tão pretos e lisos e lindos

e quase grudou sem querer
no suor desse rosto de índio

do andré que
quase, sim, o matou.


Uma pisada em falso
sem nem sombra de
falsete
facilitou a fuga

com a
pressão de ar comprimido
nos foles de dentro.


O duende
fujão e fajuto

morto de
medo do andré matos
se viu finalmente a salvo

do passo pesado
dos pulos
dos pulsos que vão e que vêm,
vociferados.


A plateia
ignorante do duende
continuou cantando

agarrada num acorde
acima da fumaça dos estrondos.



O duende
finalmente a salvo
não sabia o que fazer
e nada fez.

Pronto para aprontar e
desagradar as meninas

grudou num canto do teto
preto
e ali ficou.





segunda-feira, 24 de outubro de 2016



























Giovanni Batista Bracelli, 1632





sei que Plotino me espera
para um encontro extra-conjugal.
Plotino parado, à mão,
na mesa de cabeceira.

Traição sem ancoradouro
nem hora pra acabar,
à vista do nascedouro.

Plotino é brasa,
buraco à guisa de fundição,
estrondo de gonzos interiores,
belo como a brisa do verão.

Plotino de ferro,
de trilho, de alça e
escada, Plotino de farda
é prata da casa,
confortável, verde,
dedicado a dedicatórias,
furtado na feira,
crime amaro e amuleto.

Plotino é tesão de todos os tesouros.
Plotino Platão,
alívio das mal-casadas,
cassado,
Plotino enfim enamorado,
posto de lado, no lodo,
do alto do trovão,

Plotino trovador de boca e de boteco,
rei do lero-lero,
lilás, feminídeo e feminazi,
femeeiro, tão fodão,

Plotino à porta de todos os precipícios.

Plotino lua de prata,
patrão, fuga e sonata
para minha boceta,
homem casado, safado,
comido a mordidas

no marco das reminiscências,
uno e vazio como todos os cem mil.

Plotino aflito, roubando carros,
coçando o saco,
comendo restos,
Plotino papo reto depois das baforadas,

tomador de porradas,
heroi, bastardo,
chacinado em Xingu,

filho de Xangô, estuprado,
Plotino de pele sem pêlo
ou atropelo, curado

pelos curas mais viados,
martirizado, milico,
cheio de atrito, atordoado,

Plotino palhaço e
puto, porco,
pedaço de nada que não se lê,
namorado.



sábado, 22 de outubro de 2016










Voz havia
atrás da bocca
della verità

uma voz persuasiva
voz governo

desestimada dos deuses

voz estima
da vida pouca dos falsários

voz havia
que mentia
quando mordia o inocente

E a pedra sobrevive
desde tempos tão antigos -

a pedra -
a Fica -
guardada em hall de igreja

em Roma -
a terra salafrária

única paisagem e
cloaca massima

vertigem de passado
e sumo sacerdócio


O sumo do sacerdócio
é querer ser essa voz
que engana o tempo

e revolta
ainda

uma boca passada
de pedra

que pulsa
onde todos põem a mão



segunda-feira, 17 de outubro de 2016




você quer ver de novo 
aquele que é velho 
e aquele que se veste 
em listras brancas e azuis. 

o gênio, o bamba, o Genet, 
o que nunca se sacrifica. 

você quer ver de novo 
o que não pare
e o que não para nem
nasceu para seu pai.
o que abunda em rios 
e em montanhas
o que faz gemer a terra
e te atiça como 
prova e professor -
o ator -
o só cabelos brancos
atalho de antanho
de nuvem, de motivos.

você quer rir de novo do de
raivas
de nenhuns amigos,
o nu no supermercado,

o do abismo, o abismado, 
o mal amado e
o cabeçudo e
o caralhudo e
o otário

o só salário e
o salafrário,
o que te traz de novo a manhã.

você quer ver de novo,
você é o ovo, 
ele o ele e o ela, 
o sigismundo
o Sigmund Freud

o frio o freund o azulejo
o Alentejo e
o cara de pau, a pia bastismal,
de cortiça, o bacanal,
aquele que não cabe nos óculos.

você quer ver de novo 
o carismático e o asmático
o másculo 
o mouro 
o molhado 
o milho e
o amanhã,

o Plínio douto o sábio
o sabão e o mouco, 
o que não destrava so dentes, 
o destroçado, 

o dançado em drama de esquina,
o esgrima,
o xamã

você quer
o que nunca se despe
o incriado e o mal criado
o infiel e o dono do quartel
o mercenário e
o troco não trocado

o nada de nenhum,
o Um e o mais um. 

o úmido, o deslocado
o trovador e o tronco
o monstro da lira sem cor, o intruso,
você quer,
o confuso, o Confúcio, o florido,
o todo amor e o tanto desamor.

você quer ver de novo, sim,
o incômodo, o iniciado
o Confúcio, o amigo e o amado, 
o enfim oferecido, aquele que.