A Elen me flagrou mirando dentro do Geringoscópio, dentro do Castelo, dentro do Alto da Bronze, dentro da cidade, debaixo do céu.Os céusAqui no Alto o frio é mais intenso. Passam ventos, nuvem, e sol, quando há sol. Passa o tempo fugidio na fuga de uma flauta. Passa a madrugada em meio a tosses, páginas e sussurros.
No momento, Saint Exupéry:
Terra dos Homens. Um relato da lida nos céus, vivida por esse aviador e herói, santo e lindo que foi o criador do
Pequeno Príncipe.
O livro veio parar aqui pelas mãos do meu amigo Zé Benetti, que além de bom ator é um cozinheiro amoroso e me faz a delícia de vender seus pães. Pães especiais, porque neles vai a vibração de um budista, budista de verdade, que se desapega fácil das mesquinhezas do mundo. E também de livros, e foi aí que entrou o
Terra dos Homens, do Saint-Exupéry. Ele tirou da mochila uns cinco ou seis volumes, pôs em cima da mesa e disse:
Escolhe um. E para não escolher, e deixar que o acaso me guiasse para a leitura desobrigada, não pensei, disse:
Este, só porque era o mais próximo.
Terra dos Homens é o relato de uma renúcia radical, de uma escolha
desapegada, constituído das memórias de um piloto dos correios franceses que se põe a cruzar o Saara e viver entre areia, mar, estrelas e nuvens. Perigos, belezas, mil aventuras, tudo narrado com leveza e bem traduzido pelo Rubem Braga. Diferente dos livros em prosa-quase-poética que foram imaginados, sonhados, esse foi vivido, e isso muda tudo. A experiência de Exupéry como aviador é aproximada do lirismo, no depoimento. Ele estava, literalmente, bem perto das estrelas, e a "magia da profissão" para ele vale mais do que qualquer outra fonte.
Minha idéia, para seguir a linha do Zé, e essa aproximação com a realidade, é a de propor uma experiência de leitura adequada ao conteúdo. Vou eu também me desprender do livro, é claro: a princípio, o deixarei em um local público, nas imediações do Alto da Bronze, com um recado dentro (instruções de leitura, do tipo):
Se você começar a ler este livro, entenderá porque eu o deixei aqui de presente, ao acaso, para o primeiro curioso. Leia e faça o mesmo, se quiser. O ideal seria que ele rodasse o mundo, viajasse de mão em mão, zanzando por aí, como fez o aviador, para cá e para lá, seguindo a lição de Bashô ("Não durma duas vezes no mesmo lugar. Queira sempre um colchão que você ainda não tenha esquentado").
O Castelo A tomada do Castelo foi linda, uma noite só surpresas. O lugar é perfeito para um centro cultural, com espaços alucinantes, do fundo do fosso até o alto das torres: arte. Fiquei me sentindo uma princesa, e foram vários os reis e rainhas que brilhavam no fundo dos olhos das pessoas. É lindo lá dentro, e felizmente começam já-já as atividades.
A Elen de Oliveria vai dar uma oficina de construção de caleidoscópios. Eles deixam tudo mais colorido, e unem, como o Saint-Exùpery, o sonho e a concretude, objetos mágicos que são. A foto acima registra o encantamento curumin que me invadiu ao brincar com o geringoscópio dela. É um maravilhante caleidoscópio interativo que faz a vida sorrir que só. Confiram no blog:
Castelinho do Alto da Bronze Cultural.A BronzeImagino que ela ainda zanze por aqui... Quem será? Eu a procuro em intervalos, e vez que outra vejo umas senhoras bonitas, de batom vermelho, circulando despudoradas e felizes - como convém aos fantasmas elegantes. Tudo aqui é cheio de fantasmas, é o centro histórico de Porto Alegre. Aqui no Alto (era discreto, como o Beco do Mota, em Diamantina) funcionavam cabarés, pelo que consta, os chiques. Coisa de Bela da Tarde, nada de Baixio das Bestas. Hum.
Eu moro no Alto da Bronze, mas juro que de Bronze não tenho nada. Quero estar mais para Prata ou Ouro, na minha arrogância de ignorante e fiel pagadora do Fisco da Vaidade. Ando cada dia menos mundana, isso é certo. Pudera. Com uma baita pesquisa já em andamento, um projeto de nove meses de criação solitária na escritura circunspecta de um romance em terceira pessoa, aqui estou, Maria Desaparecida. Não estou
nossa nem para mim, quiçá
nossa senhora.
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