Arrisco dizer que a maioria dos leitores desse meu bloguinho é formada por poetas. Não? Gente que escreve, ou pesquisa, ou fica curiosa por poesia. Fiquem à vontade, todos, poetas e não-poetas. Alguns talvez só dêem uma passadinha para ver como é que tá, outros conferem os posts antigos, vão rolando, conferindo, pulam um, puxam outro, percebem os muitos erros, os deslizes, os excessos. Fico contente com as visitas, longas ou curtas, e ainda mais quando recebo algum comentário por email.
Encontro, no percurso, uma pluralidade de pessoas que procuram seu caminho no meio desse tanto de espetáculo, dor, desassossego, delícia e vontade que é a literatura. Enfim, estava eu aqui pensando, no meio da selva-Feira: há quantos anos frequento a Feira do Livro de Porto Alegre? Desde antes de publicar o meu primeiro, que saiu em 2002. Antes, como público (que é, garanto, a melhor maneira de habitar a cultura). Hoje, trabalhando (sendo público só nas horas vagas).
Estava eu pensando nos espaços / instituições / caminhos possíveis para quem está afim de se enveredar pela literatura e não encontra lume nesse mar tão vasto e revoltoso. Hoje há muitos, muitos meios; porém é necessário analisar bem o que é oferecido em termos de oportunidade para quem está começando.
Há mais de dez anos atrás inscrevi um manuscrito chamado "Mundos Possíveis" no Instituto Estadual do Livro, para concorrer à seleção pública da coleção 2000. Esse manuscrito se tornou, em dois anos (que foi o tempo que meu processo com o IEL demorou) o Desconjunto. Um primeiro livro que cumpriu seu papel e me deu muita alegria. Naquela época, eu sequer conhecia um outro caminho que pudesse me levar à publicação. Nem tampouco sabia o quão pouco significa a publicação, ainda mais quando se fala em poesia.
O IEL era, de fato, o melhor canal. Os livros eram analisados por uma comissão editorial que incluía escritores experientes, leitores especialistas. Com total sigilo, eles riscavam nossos manuscritos, analisavam, davam conselhos. Podíamos pedir que analisassem de novo uma versão reescrita (o que, de fato, fiz mais de uma vez). Eu sabia que aquelas eram sugestões de uma pessoa extremamente qualificada para a função que exercia, e essa oportunidade de aprender e melhorar minha escrita foi algo tão ou mais importante do que a edição do livro, que também não deixou nada a desejar.
Fui sortuda, pois esse canal de entrada no meio literário não existe mais. Não tenho visto muita movimentação no Instituto Estadual do Livro. É uma pena.
Hoje, quem está em busca de qualificação para a sua escrita e possível primeira publicação, tem outros caminhos. Assim como o IEL era um caminho sério, em que a gente podia confiar, hoje há alguns canais de peso - e também muita mesquinharia. Sim. O autor iniciante tem que ter muita atenção, pois muitas das oportunidades que aparecem não representam qualificação nenhuma. Há, por exemplo, publicação paga em antologias, agremiações duvidosas, condecorações falsas, eventos embustes.
A meu ver, as boas opções de hoje estão fazendo um trabalho muito bonito.
Freqüentar as oficinas do SESC, que são todas gratuitas e versam sobre temas da criação literária, é um ótimo caminho. São vários gêneros abordados: poesia, romance, conto, crônica, literatura infantil. Não há publicação-pela-publicação, e sim estudo, aprofundamento, ampliação de horizontes. Quem quer publicar um livro e não gosta de estudar literatura, de experimentar, ler e trocar referências; quem não quer se dedicar à sua escrita, por que quer publicar?
De uma forma ou de outra, o autor terá que empreender sua pesquisa. O texto terá que contribuir, de alguma forma, dar seu recado em uma paisagem formada por centenas, milhares de publicações. Existem muitas oficinas. As do SESC, da Puc, da Coordenação do Livro e da Literatura, são sempre boas pedidas.
E para publicar um primeiro livro com financiameto, por que não tentar o Fumproarte?
O Fumproarte é o excelente Fundo de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre. Com dois editais por ano, oportuniza a inscrição de projetos em várias áreas, incluindo literatura.
O edital é fácil de preencher, há um modelo que explica tintin por tintin como se faz, há oficinas que ensinam os passos da inscrição, e um pessoal extremamente qualificado que acompanha todo o processo. Os projetos são analisados por uma comissão formada por representantes das entidades culturais, que muda de ano a ano. Todas as reuniões são públicas.
O autor elabora seu projeto da maneira que quiser, escolhe editora, faz seu orçamento, gerencia suas atividades de divulgação (poder pagar um assessor de imprensa, um fotógrafo, um bom revisor, faz diferença no final).
Há quem não se inscreva porque morre de medo de papéis, de burocracias. Eu venci esse medo pois estava há cinco anos sem lançar um livro e não tinha condição nenhuma de pagar uma publicação. Nada como a água para nos ensinar a nadar. Pude perceber bem cedo que é muito mais fácil, prático, transparente e eficaz do que eu poderia imaginar antes de fazer a tentativa. E também que viver esse processo é um aprendizado muito rico.
Se o autor iniciante quer publicar um livro e não tem paciência de elaborar um projeto, explicitando as razões de porque ele deve ser publicado; não tem vontade alguma de oferecer um retorno de interesse público com a sua atividade; se não se interessa em ver de perto como funcionam os passos da publicação; não quer bolar as estratégias para o seu próprio trabalho acontecer; pergunto novamente: quer mesmo publicar?
Sem contar o edital de bolsas, que financia projetos de pesquisa, formação e criação em todas as áreas artísticas. E sem contar os outros editais, de outras instituições (essas nacionais): Funarte, Petrobras, Fundação Biblioteca Nacional, Oi, Natura, Rumos, Votorantim, etc. etc. etc. Vivemos um momento de ampliação das oportunidades, sim, e de dificuldades, muitas, também. Desconfio das saídas fáceis. Desconfio das opiniões baseadas na observação dos resultados sem entrosamento com os processos. O caminho da literatura é esse mesmo: trabalhar, trabalhar, trabalhar. Cada coisa tem sua hora, e cada hora a sua vez. A empreitada exige concentração, esforço, trabalho, abdicação.
Quem vê os autores nos grandes eventos como a Feira e frequenta a literatura por fora (ser público, delícia) não imagina quanto dentro teve que ser fiado, tecido, construído, reconstruído, esfolado, comprimido, reforçado, chorado, etecétera etecétera etecétera para estar ali. E contando com tudo isto (perdoem-me este longo texto) é fácil perceber que nosso meio literário está mil vezes de parabéns.