Onde e assim mesmo
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Arte anestésica para gaúcho ver
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
sábado, 26 de novembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Piss factory e o preço do desejo
Artista visual e performer, ela deixou as fábricas de New Jersey para se tornar roqueira décadas mais tarde, a coroação de Grande Precursora recebida após a construção de uma longa carreira nas linguagens que exercitou. Na mala que ela levou a Nova Iorque, sem emprego e com algumas esperanças, estavam as Illuminations, referência que a sua arte nunca protelou. À frente do Patti Smith Group, novo sopro de um rock'n'roll puro e poético, ela produziu uma série de letras e discos conceituais a partir da leitura de Rimbaud. Outro poeta sempre próximo a ela é William Blake, na melhor linha dos bardos proféticos da tradição.
Gostei especialmente de ler em suas memórias o testemunho sobre as performances de poesia falada que ela empreendeu em bares como bicos no início da carreira: "Embora eu não fosse recebida com muito entusiasmo, aquilo aguçou minhas habilidades de lidar com uma plateia hostil". Fazia abertura para bandas, contratada pela produtora Jane Friedman: "Depois de cada apresentação, Jane tirava uma nota de cinco dólares do próprio bolso, dizendo que era nossa parte da féria. (...) Eu costumava encerrar cada apresentação com "Piss Factory", um poema em prosa que eu improvisara, falando da minha fuga do emprego sem carteira em uma linha de montagem rumo à liberdade de Nova York."
Recomendo ouvir essa faixa aqui. O texto está disponível na descrição do vídeo.
"Nós nos víamos como os Filhos da Liberdade com uma missão de preservar, proteger e projetar o espírito revolucionário do rock and roll. Temíamos que a música que sempre nos sustentara estivesse correndo o risco de subnutrição espiritual. Temíamos que perdesse seu propósito, temíamos que caísse em mãos aburguesadas, temíamos que patinasse no lodo do espetáculo, das finanças e da complexidade técnica insossa. Vinha-nos a lembrança da imagem de Paul Revere, cavalgando pela noite americana, acordando as pesoas, incitando a que pegasem em armas. Nós também pegaríamos em armas, as armas da nossa geração, a guitarra elétrica e o microfone."
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
"Meditações" de Marco Aurélio, livro VI
4. Tudo que aí está em breve será transformado e ou evaporará, se a substância é simples, ou se dispersará.
39. Ajusta-te às coisas cujo destino é ligado ao teu; estima os homens cuja sorte está unida à tua; porém, com sinceridade.
6. A melhor forma de arredá-los é não parecer com eles.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Old woman reading - a mãe de Rembrandt. A mãe é morada do artista que conhece de cor os Evangelhos, cuja leitura era concedida até mesmo às mulheres naquele século XVII.
Segundo o lindíssimo filme de Alexander Korda, de 1936, intitulado apenas "Rembrandt", o jovem inconforme é o mesmo que, velho e duas vezes viúvo, investe seus últimos xelings em material, passando ao largo do açouge.
Cortinas pesadas eram abertas frente ao olhar da alta sociedade que comparecia à inauguração da pintura da Guarda Civil. Os aplausos que começaram antes da visualização cessaram assim que o todo apareceu aos convivas. As mulheres foram as primeiras a compreender e a rir alto do modo como os soldados foram pintados.
Uma boa forma de representar essa polícia galante: narizes tortos. Almas mofadas. Rembrandt não conseguia pintar "propriamente". Jamais conseguiria fazer sucesso entre os compradores daquela Holanda tão rica (e tão pobre). O artista diz de cor os versos do Eclesiastes.
Vaidade, vaidade, tudo é vaidade. A dos guardas cujo chapéu é sua única honra, a dos pintores cuja fortuna surgia de pintar gente "elegante", a dos credores que insistiam em surrupiar todos os bens de Rembrandt, inclusive as obras futuras.
Apenas Saskia, a mulher que morre cedo, não é julgada no filme de Korda, que passa ao largo das figuras de bois mortos representados por Rembrandt. Apenas Hendrickje, a jovem criada que passa a esposa e mecenas para morrer jovem, também, sob o olhar do gênio, é apenas bela e boa.
Apenas as mulheres-musas sobrevivem. Elas vivem na imagem que tem nascimento no outro, esse filho que as espia enquanto leem os Evangelhos. Jamais podem falar. A fala das mulheres-musas é a morte. Porque o olhar mata. E as mata, mesmo mudas.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
O peso do medo, de Wellington de Melo. Recife: Paés, 2010.
Enquanto isso, penso na diferença entre os homens que olham, os que pensam, e os que fazem, uma classificação tão limpa e clara que chega a me cheirar aristotélica, se não o é. Nem sempre se pode prescindir de definições como essas. Concluo que detesto as pessoas que não fazem, entre as que pensam; bem como as que pensam e não fazem, que nem sempre são as mesmas.
domingo, 15 de maio de 2011
Performance, lucidez e risco
(http://festival.magnumphotos.com/60_years_1967.php).
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Conversa
Você, atrás da tela fria.
Eu aqui, sozinha.
Sabe, público,
ainda acredito em você.
Apesar de tudo.
Agora dizem muitas coisas
a nosso respeito.
As pessoas desse meio
gostam de se difamar,
é um ninho de cobras.
Para cada ovo,
uma Obra.
Você só quer os caros,
de quinhentas páginas,
traduzidos?
Disso eu duvido.
Meus livros são tão baratos,
vivo nos sebos da cidade.
Desde que nos vimos
entre chopps e baratas
nos bares da Cidade Baixa,
você sempre
pagou a conta.
E sempre que conversamos
sobre Homero e sobre Sócrates
eu falo a você de Aristófanes,
e você fica nas nuvens.
Você nunca me disse
que no fundo
quisesse Paulos Coelhos
entre outros drincks e bocejos;
ou pastiches de ralas memórias
e livros de vampiros.
Não.
E olha que já dividimos
mais do que algumas cervejas.
Essas baixezas que dizem
(eles não sabem o que dizem)
vêm de esgotos e impurezas.
Não as guardo na memória.
Eu sei que você sabe.
Você mesmo procura
meus livros e meus suspiros
e eu fico apaixonada.
Nunca nos cobramos nada.
Eu conheço os seus gemidos,
as suas delicadezas;
− afinal,
faço até mais
do que uma namorada.
Posso não ser
a sua musa preferida,
e também não quero
(nunca quis)
ser das mais vendidas.
Você sabe que os meus gritos
são os mesmos das cigarras,
de prazer e de amor.
Declarações,
mais nada.
A paixão nos leva às vezes
a atos insensatos,
mas daí dizerem
que nós quebramos os pratos,
não não não.
Público, público,
eles não leem poesia
e pensam em traição.
Dizem que eu deveria
pensar na Tradição,
e me dedicar a donos
mais edificantes −
marketing, medicina,
uma certa engenharia.
Se te traí em cartilhas,
sem versos e sem rimas,
em gestos desleais?
Não. Nunca passei por cima,
nem esqueci teus ais.
O país precisa
de novos produtos.
Não interessam mais
os nossos sentimentos,
e muito menos
os mitos nacionais.
Público!
Parece que a hora agora
é a de ser um Vendedor.
Estar sempre ocupado
com planilhas e traslados
e não prestar atenção
à dor.
Depois tratar o tédio
com rimas cor de rosa,
comprar mais um remédio
para ser um Vencedor.
Virou ordem, agora,
o Pensamento Positivo,
e ninguém mais namora.
O progresso preservativo
faz as casas e o altar
e é feio falar
de coisas inadequadas
como contas não pagas,
e desejos reprimidos,
vontades de ver o mundo
em bolhas de sabão.
Agora o mundo Todo
cabe dentro da sua mão
e com o seu i-pod,
sim, você pode.
Ai, público!
Você moderno, você feliz.
Estou por um triz!
A felicidade, essa felicidade
exuberante
tomou conta do país,
posso vê-la saltitando
de dentro dos outdoors
para dentro das cabeças,
e as famílias, e as igrejas,
tão bonito,
os moleques batizados,
uniformizados,
as mocinhas tão casadas e
tudo isso, dizem,
festas, negócios, celulares chiques
− sem espaço para chiliques.
Quando nos vemos no escuro,
eu beijo a sua boca.
Você diz no meu ouvido
que não quer aproveitar a promoção.
Não quer um novo plano
e nem ganhou aquele desconto
e juro para você,
público,
eles não entendem nada.
Eles não estão entendendo nada.
Se é que você já me esqueceu,
se se assumiu ou virou um Perdedor,
não sei, público, não sei.
Dizem também
que tudo isso vai passar,
que é apenas um mau momento.
Público,
eu penso em você
a todo tempo.
Observação quase inútil: Este poema ilustra o mesmo acontecimento que se pode conhecer também através do vídeo presente aqui. Se ele tem sentido fora deste contexto, desconheço. Uma das coisas que esse acontecimento gerou em mim foi um interesse redobrado pelos poemas de amor.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Da série “Performances Executadas” − Obrigada
Visto um pijama azul e branco, masculino e folgado. Meus cabelos estão soltos e embaraçados. Uma algema liga meu pé esquerdo uma corrente, algemada na outra ponta a um banco da Praça da Alfândega, nas proximidades das estátuas de Drummond e Quintana. Miro-os obstinadamente. Estou com uma caneca metálica em uma das mãos e, na outra, uma garrafa vazia da cachaça mineira Boazinha. Dou alguns gritos sonoros, dialogando com as estátuas, salvo nas palavras "muito obrigada", as quais lanço aos passantes. Cuspo no chão, limpo o nariz no braço esquerdo e digo:
É o Drummond quem tá dizendo! Muito obrigada. Eu tenho o Qorpo-Santo! Muito obrigada. Hoje não tem bailanta? Muito obrigada. Ô Qorpo-Santo, José Joaquim de Campos Leão! É um rebanho! Muito obrigada. É o Quintana quem tá dizendo! Muito obrigada. Falaram pra eu ficar quieta! Muito obrigada. Hoje não tem bailanta? O Qorpo-Santo morava ali, olha. Muito obrigada. No Quintana's bar! Muito obrigada. O Drummond, e agora José! José Joaquim de Campos Leão ão ão ão! Muito obrigada. Ficava bem ali, ó, na frente, olha. Muito obrigada. Hoje não tem bailanta? Incendiou tudo, Carlos, queimou tudo, e agora José? Toda a biblioteca de Alexandria. Queimou tudo! Muito obrigada. Hoje não tem bailanta? Ô Quintana, é Qopo Santo, com Q! Eu tenho o Qorpo-Santo! Muito obrigada. Ô José Joaquim de Campos Leão! Muito obrigada. Hoje não tem bailanta? É um rebanho! Muito obrigada. É um rebanho! Muito obrigada. Drummond, ô, dança! Muito obrigada. Ô Quintana, Ô Qorpo Santo, eu tenho o Qorpo Santo! E a mente, sã! Eu sou a vaca profana! Muito obrigada. Por que vocês não vão pra bailanta? Muito obrigada. É o Drummond quem tá dizendo! Muito obrigada.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Eu deixo o mundo mais punk
“Performances Executadas”: Abaixo a descrição da segunda performance da série.
Melhor se realizada em shoppings, à tarde, perto da fila de cinemas ou de lojas especializadas no público adolescente. Em tamanho A3 está impresso, a partir da internet, o logo “Eu deixo o mundo mais pink”. (Para quem não sabe, este é o nome de uma seção bem-pensante da revista Capricho. Clique aqui para conhecer). Sobre o “i” de “pink”, em canetinha preta, foi desenhado à mão um “u”. Estou com uma mordaça preta sobre os lábios e pulseiras pretas de couro nos punhos. Meus cílios estão muito maquiados, porto blush cor de rosa e meus cabelos estão repartidos em dois rabos-de-cavalo, um sobre cada orelha. Minha blusa exibe a estampa de uma vedete dos anos 20/30, com fartos seios seminus, cinta liga e sapatos altos. Eu, diferente dela, estou de calças compridas e pés no chão. Sob meus pés há páginas impressas da internet, a partir de blogs e redes sociais como twitter e facebook, todas aludindo à minha retirada da Praça da Alfândega pela BM durante a performance “Não alimente o escritor”.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
A reinvenção da ternura
Texto publicado no Diário Catarinense em 26.02.2011.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Artaud, Piva, e um dia de chuva
Chovia e eu tentava restabelecer a calma. Era impossível revisar meu romance pois cada palavra do meu texto era uma gaveta abrindo uma a uma as más lembranças dos últimos acontecimentos, como se as palavras fossem as pétalas dessa primavera. Deixavam aquele perfume (não o perfume, a alergia) inundando todos os poros. Que remédio? Fui ler Antonin Artaud. Um ensaio chamado Van Gogh: o suicida da sociedade. Lindo.
“Também sou como o pobre Van Gogh, já não penso, mas governo cada dia com mais proximidade as formidáveis ebulições internas e seria estranho que um médico qualquer viesse censurar-me por eu me cansar.”
Ele, Artaud, cuja poesia os psicanalistas tentaram "consertar". Ele que esteve internado durante 9 anos em um asilo para loucos - ele compreendeu como ninguém os motivos do pintor, a crueldade do Dr. Gachet, a cólera estampada em todas as estrelas.
“Nunca ninguém escreveu ou pintou, esculpiu, construiu, inventou, a não ser para sair do inferno.”
O pior, ou melhor, é que me identifiquei. Pago, sim, o Fisco da Vaidade. Eu me vi em Artaud, em Van Gogh, pelo desprezo e para os muxoxos dos doutores e suas sanidades compradas a drogas, diplomas e adesões às indústrias farmacêuticas. Indústrias da normalidade.
Há uma zona de diversidades nesse grau - o grau zero da escritura ou mesmo o grau das lentes que nós mesmos municiamos, para vermos a verdade. Nenhuma realidade escapa à armação, ou mesmo a essa limitação da urdidura.
“Foi assim que calaram Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval e o impensável conde de Lautréamont. Porque tiveram medo de que suas poesias saíssem dos livros e revertessem a realidade.”
Então lembrei de novo, dele, do Piva. Do bom leitor de Lautréamont. Do último poeta sincero. Do beat brasileiro que lá de cima, ou lá de baixo, deve estar vendo tudo o que acontece comigo.
Vendo, troco, dou, alisto, arrasto para o meu lençol essa palavra maldita: poesia. Piva, meu querido Piva, não publiquei ainda o poema que fiz para você.
Sabem o que é? Ele tem três páginas. E dúzias de palavrões. E ainda não passou dentro de mim aquele tremor, a vontade de falar mais (ou menos) do que todos os pintores.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
sábado, 20 de novembro de 2010
Pitadas de teoria, história e lágrimas secas
A respeito da performance “Não alimente o escritor”
A um artista é vetada toda tentativa de explicação da sua obra. A arte, por ser arte, sempre resta inexplicável a quem quer que seja, ainda que as variedades interpretativas sejam infinitas. É fácil perceber que um mesmo poema de amor pode ter duas recepções completamente díspares para quem está apaixonado ou desiludido, e um mesmo verso pode causar ao leitor duas reações diferentes dependendo da sua idade, estado civil, humor ou dia da semana. Pretender que uma das muitas interpretações possíveis seja absoluta ou verdadeira é cometer o desvanecimento da arte. Ela existe na medida em que suscita novas interpretações, ela sempre revela essas diferenças.
A riqueza das teorias, a fortuna das críticas são instrumentos que nos auxiliam a enriquecer nosso background, tanto para o artista quanto para o apreciador. Nesse sentido, sempre é válido recorrer à tradição para compreender o presente através do passado. É preciso prestar atenção ao que foi dito por aqueles homens cujas palavras conseguiram perdurar durante os séculos, ainda que algumas das vozes mais elucidativas possam ter sido caladas em definitivo ou em determinados períodos da história.
Se uma das interpretações possíveis de uma obra é fornecida como exemplar em uma situação específica (na academia, por exemplo), pela sua fundamentação e coerência, é apenas para suscitar reflexões e nunca para cercear a multiplicidade de leituras, que reside na natureza da matéria artística.
O artista, ele mesmo, jamais poderá ser essa voz elucidativa a respeito da sua própria arte. Ele está tão misturado com as intenções afetivas do seu fazer, com as tensões do seu processo criativo, que dificilmente terá o distanciamento necessário. Alguns dizem que o escritor nunca funciona como leitor do seu trabalho (como Sartre, em O que é literatura).
Ainda assim, ao artista é concedido o direito de fornecer um depoimento a respeito do seu processo criativo e referências, pela regra do bom-senso e para a construção do conhecimento. Esse ato, em alguns casos, pode ser um dever.
Neste texto, pretendo fornecer o meu conjunto de referências na criação e motivações da performance Não Alimente o Escritor, realizada na Praça da Alfândega no dia 12.11. Esse trabalho desencadeou inúmeras e mordazes conseqüências e tem sido alvo de uma intensa polêmica nos últimos dias. Meu ponto de vista é o de que toda a reflexão é válida e o debate, necessário, ainda que eu mesma não concorde com muito do que tem sido dito e veiculado. Para o artista, mais importante do que o concordar é o incitar questionamentos.
Oscar Wilde escreveu no prefácio ao seu romance O retrato de Dorian Gray: “Toda arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que buscam sob a superfície fazem-no por seu próprio risco. Os que procuram decifrar o símbolo correm também seu próprio risco. Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida.”
Minha literatura sempre partiu das zonas viscerais, inquietantes, às vezes mórbidas dos sentimentos humanos. Abordo conflitos e temáticas consideradas polêmicas na maior parte da minha poesia, desde a primeira aparição no meio literário, em 1998, na revista Porto & Vírgula. Essa primeira publicação foi, como o próprio Charles Kiefer disse enquanto passava pela Praça da Alfândega durante a minha performance do dia 12, resultado de uma leitura do então coordenador do Livro e da Literatura da Prefeitura de Porto Alegre e realizada por intermédio dele, do que sou grata.
Era então o início da minha carreira. Desde lá, felizmente, tive outras oportunidades de dar a conhecer a minha poesia - que, de lirismo, romantismo e levezas sempre imaginei ter pouco e muito pouco. Tive dois projetos aprovados no Fumproarte (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre), um livro publicado pela editora carioca 7 Letras e outro pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul.
Não considero a publicação uma prioridade. Os amantes de poesia
Durante essa trajetória, desenvolvi a poesia através da performance e a performance a partir da poesia. Minha literatura sempre esteve ligada a outras linguagens da arte (principalmente o teatro) desde o seu surgimento. Ainda que, a exemplo de muitos mestres, tenha um tom confessional e parta de vivências cotidianas íntimas e desconcertantes, ela é exibida em praça pública desde há muito. As performances de poesia falada antecedem os meus livros e são mais difundidas do que eles, desde sempre.
Não sou a única. O poeta contemporâneo (o artista contemporâneo) reflete sobre o suporte, não reduz sua arte nem se limita pela classificação do seu fazer, testa e pratica múltiplas formas de apresentação e invade novamente os espaços de sociabilidade, cada vez mais.
Acredito na força da poesia falada, cantada ou visualmente reinventada através do corpo do autor, em performance, tanto como uma realização literária mais completa e abrangente do que o livro quanto como uma poderosa ferramenta de sedução de novos leitores e incentivo à leitura. Pude comprová-lo em anos de trabalho na senda da sensibilização literária e formação de leitores, que teve início no projeto Descentralização da Cultura em 2oo4, após a finalização do meu mestrado, e foi contratada por diversas instituições, entre elas a Coordenação do Livro da nossa prefeitura, o SESC/SC e o SESC/RS.
Tanto para as oficinas que ministro quanto para a formulação das minhas performances utilizo a seguinte compreensão: uma performance de poesia é uma imagem poética materializada em vários suportes (em três dimensões) e percebida pelo espectador através de vários sentidos, preferencialmente com o corpo do poeta
Trata-se de uma senda criativa muito comum e que remonta aos inícios da arte literária, quando toda literatura era feita em versos, cantada e se fazia presente nos espaços de sociabilidade e rituais coletivos. A performance como a conhecemos hoje também teve destaque na tradição literária durante os movimentos de vanguarda dos inícios do século XX e tem sido desenvolvida por inúmeros poetas mundo afora.
A performance, como happening que é, como acontecimento, está intimamente ligada ao seu transcorrer no tempo: é um evento, lida com o risco de tudo o que transcorre naquele limite de tempo e espaço ao qual está sujeita. Todos os elementos que a compõem tem sua eleição definida e limitada por esse conceito. Conforme ela se desenvolve, altera-se a sua situação inicial: a dimensão da temporalidade faz parte da sua constituição.
Falta explicitar que quer dizer essa “imagem poética” que, numa explosão lingüística, sai dos limites da palavra escrita para ser formada pelas imagens, sons, expressão corporal, temporalidade da performance.
Octavio Paz, no artigo A Imagem, presente nos seus Signos em rotação, oferece uma boa definição. A imagem poética é um assalto à lógica, ela desafia o princípio de não contradição e, por isso, jamais poderá ser dita por outras palavras. Permanece inexplicável. Pode ser sentida, absorvida pelos leitores. Pode ser intepretada de inúmeras e variadíssimas maneiras.
Nesse jogo lingüístico que chamamos de imagem poética, “as pedras são plumas”. Se para o cientista, o comunicador, a professora ou o transeunte em seu cotidiano as pedras são pedras, pesadas e duras; para o poeta, em sua formulação plurissignificativa, sim, “as pedras são plumas”. Costumamos aceitar que um terno seja caro, barato, cinzento, amassado, etc.; mas no poema José de Carlos Drummond de Andrade há um “terno de vidro”. Só as palavras “terno de vidro” expressam o que quer dizer “terno de vidro”, pois a significação dessa imagem reside no íntimo de cada leitor. E pode hoje significar algo para mim diferente do que para você; e ainda pode mudar o sentido que lhe confiro hoje caso eu tenha recém voltado de um enterro, de uma loja fina de um shopping, de um lixão ou de uma vidraçaria. Tudo o que me ocorre, enquanto leitora, influencia minha leitura das imagens poéticas às quais sou exposta.
Quando um poeta, em performance, utiliza o seu corpo, seus elementos expressivos, visuais ou sonoros, cada um destes é como “vidro” em “terno de vidro”: está disposto em uma cena/acontecimento de modo a formar uma imagem poética ampliada, complexa, radicalmente plurissignificativa.
São conceitos simples e importantes, cuja afirmação talvez não se fizesse necessária em um contexto de leitores e escritores. Ainda assim, face aos últimos acontecimentos, tive vontade de escrevê-los.
Um dos meus poetas favoritos, como de milhões de leitores mundo afora, é o português Fernando Pessoa. Ao morrer − de cirrose − aos 47 anos, ele deixou a maior parte da sua obra inédita, dentro de um baú. Forneceu inúmeros motivos de reflexão e acabou sendo, para mim, sim, um exemplo.
Um dos mais famosos e irretocáveis poemas pessoanos termina com o verso: “Sentir? Sinta quem lê!”.
Em um sentido, ao menos, estou feliz com a minha performance. Esse, de motivar a reflexão, o debate, a espinhosa conversa no meio literário. Até mesmo da minha parte, posso afirmá-lo - pois assim que me retornou a calma pus-me a escrever este texto quase desnecessário, que ofereço aqui com as lágrimas secas e essas pitadas de fria teoria.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Agradecimento
Passado o choque inicial, dedico-me agora a ler tudo quanto foi escrito sobre a performance e o incidente com a polícia. Nem tudo reflete minha visão dos acontecimentos porém, como artista, estou aberta a críticas, desejosa de conhecer as interpretações e disponível para o debate estético. A arte contemporânea muitas vezes suscitou polêmicas e sua ligação com a sociedade deve ser cada vez mais explícita e refletida.
Obrigada a todos os escritores, amigos, intelectuais e cidadãos que estiveram presentes na manifestação de repúdio à minha retirada da Praça da Alfândega.
Foram cerca de 50 pessoas caminhando comigo de mãos dadas, no sábado à noite. Elas formaram uma ampla roda na área central e, comigo ao centro, presentearam-me com um momento de silêncio, um aplauso coletivo e um abraço. Senti-me confortada e reerguida moralmente, após o abalo provocado pelos acontecimentos da sexta-feira. Uma manifestação muito calma e pacífica.
Nunca me esquecerei dessa atitude de solidariedade, respeito e nobreza da classe artística e intelectualidade portoalegrense. Devo tanto a essa cidade e às pessoas que acompanharam minha carreira durante os anos. Nesse momento difícil posso de novo perceber também as facetas bonitas do meio no qual vivo.
Muito, muito obrigada.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
http://www.radioguaiba.com.br/Noticias/?Noticia=221522
Os policiais primeiro me levaram para fora da Praça, longe das luzes da Feira, acompanhada pelos brigadianos e duas motos, na presença de um grande público, amigos, leitores.
Perguntei o que estava acontecendo e disseram que eu precisava me identificar.
Depois me pegaram pelo braço e me puseram dentro de uma viatura com quatro policiais. Perguntei o que estava acontecendo e me disseram que eu estava sendo levada para fazer exames médicos. Apenas aguardei até que o vice-presidente da Feira chegou na delegacia e conversamos. Eu falei o óbvio: que a imagem poética é plurissignificativa, eu estava realizando uma manifestação artística, apenas, e em nenhum momento compreendi qual o crime que eu estava cometendo e nem o porque de ser retirada dessa forma.
Eu quis apenas expressar sentimentos relacionados à vivência que tive nos últimos meses, quando acumulei muitas contas e tive que deixar o apartamento onde morava. Essa é a minha vida. Ela o material de que disponho para criar. Formei com as contas uma imagem poética em três dimensões, pus meu corpo em cena e utilizei alguns objetos cênicos.
O público parece ter se identificado, pois foi muito receptivo e acolhedor. Foi por causa dele que fiquei até o fim. Agradeço às pessoas que se manifestaram apoiando-me e inclusive revoltando-se com aquela situação.
O público leitor. Foi para encontrá-lo que fiz minha performance. Ela não incentiva a leitura? O vice presidente da Câmara disse que o objetivo da Feira é incentivar a leitura, quando o perguntei.
É para o público que eu escrevo e pretendo escrever o melhor possível. Ainda que, às vezes, seja difícil encontrar um lugar adequado para isso.
Estou chocada e sem compreender o porque de toda essa truculência com uma escritora em praça pública. Ora, uma escritora conversando com o público em um evento literário de repente tem de ser retirada dessa forma, como se estivesse cometendo crimes hediondos? Cada um interpreta uma performance à sua maneira, se o chapéu caiu certeiro na consciência de quem se incomodou com a minha presença, não posso fazer mais do que dizer: essa interpretação é sua.
O pior foi ter de interromper a minha performance. Eu estava em cena. Já fui contratada tantas vezes para fazer performances de poesia pelos próprios promotores do evento. Se buscarem os guias da Feira dos anos anteriores verão que estive na programação de 2009, 2008, 2007... Em 2010, não enviei propostas de atividades simplesmente porque, no ano passado, cansei demais. Convidaram-me para o Feira Fora da Feira, aceitei, e estou fazendo performances nas comunidades, aos sábados. Já estive na Lomba do Pinheiro, na Tristeza e amanhã, abalada moralmente, humilhada e entristecida, irei até o Morro da Cruz cumprir a atividade do Feira Fora da Feira.
Por que fui calada?
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Não alimente o escritor
*
A partir de acontecimentos de minha própria vida e reflexões pautadas nas experiências que vivo como escritora, criei um conjunto de símbolos que serão oferecidos para reflexão e debate com o público. Estarei disponível para conversar com todos os passantes a respeito da proposta da performance, suas motivações e possibilidades interpretativas.
*
Ao chegar em uma das muitas cidades do interior onde realizo saraus ou palestras, é muito comum ouvir: "Tu que és a escritora? Ah! Eu tinha imaginado alguém bem diferente!". Talvez pelo fato de ser uma jovem mulher sem óculos, de cabelos fartos e olhos verdes, minha presença física gera um estranhamento (às vezes, um pouco suspeito) entre as platéias. Que imagem os leitores comuns têm do escritor? A quais aspectos do sistema literário eles tem acesso? Como mostrar a distância entre o mercado do livro e o processo criativo? Sobre essas questões compus meu trabalho, que aborda contextos do fazer literário que podem ser estendidos às outras artes.
*
Somarei à minha presença corporal outros elementos recolhidos de vivências cotidianas, pautando minha ação no confronto do público com a figura do escritor, seus possíveis choques e aproximações. Estarei atada a uma pequena casa de cachorro repleta de contas de aluguel e telefone (todas em meu nome). Outros elementos cênicos como uma coleira, um espelho e uma garrafa de conhaque e suas manipulações formarão a imagem poética. A cena será aberta e plurissignificativa, oferecida a todos os que passarem pela Praça da Alfândega das 18h às 20h da próxima sexta-feira.
Sobre a performance:
As vidas dos autores são relatadas ao público apenas quando, após a morte, eles se transformam em mito. Criam-se falsas celebridades e a ilusão de que a vida do escritor é muito distante daquela do cidadão comum. Na contramão desse movimento, procuro aproximar o processo criativo aos acontecimentos cotidianos, desfazendo pré-conceitos a respeito de quem é o escritor e suas reais necessidades. Iluminar o processo criativo, oferecendo seus aspectos ao público, é uma tendência da arte contemporânea, assim como a quebra de barreiras entre as linguagens da arte. Meu trabalho literário está muito ligado às interfaces com as linguagens do teatro e da música, desde a minha primeira publicação. Nessa esteira, penso a arte literária mais como acontecimento e menos como produto, posicionando-me como escritora em um mercado voltado à educação da sensibilidade, formação e qualificação de leitores. Minha performance é uma crítica à visão reducionista da literatura, que transforma leitores em consumidores padronizados e valoriza apenas a compra e venda de produtos (os livros) sem abordar a questão central: seus conteúdos, a pressão que sobre estes exerce o sistema literário e a invisibilidade do processo criativo.
Serviço:
O que - Performance poética "Não alimente o escritor", com Telma Scherer
Onde - Praça da Alfândega, transitando pelos seguintes pontos: centro da Praça (próx. ao guichê de Informações da Feira) e Rua dos Andradas (próx. à banca da BesouroBox).
Quando - sexta-feira, dia 12, das 18h às 20h.





