17 de Julho de 2009

*

Foi um encanto o evento sobre o Fernando Pessoa, ocorrido ontem, na Saraiva do Praia de Belas Shopping. Um público querido, atento e curioso aqueceu a noite de chuva fina. Dá gosto de fazer o trabalho quando a sente que a fala rebate e ressoa nos ouvintes. Nos últimos minutos do encontro, ouvi o comentário perspicaz de que alguns ecos do Álvaro de Campos ressoam pelos meus versos. Lembrei de um poema do Rumor da Casa, em que de fato brinco um pouco com essa questão das influências. Além de Pessoa, é citada a poeta carioca Ana Cristina Cesar:


Hoje tive alguns pendores
com aquela Ana Cristina.

Ana Cristina era persona.

Eu, personne.

Ela, cansada de ser homem

tirou luvas de pelica, delicadas

e foi chorar no banheiro.

Isso eu faria, não fosse porca.


Em Lajeado, uma porca matou homem.

Ela dava a luz quando acudiu o agricultor.

No culto da criação, ele era demais.

Ela devorou muito da sua carne.

Sobre o porquinho, ninguém falou.


Talvez por isso eu seja pouca

devorando cartas, maus poemas

e cassetes bossa-nova.


Quando me amansarem,

serei Pessoa nenhuma.



Pessoa, o poeta; persona, a máscara; e personne, ninguém: tudo fruto de se travestir, vestir e desvestir no ato da criação. Mais do que o fato real, acontecido em Lajeado (e que ainda me impressiona) penso nesse poema como uma reflexão sobre a atividade criativa (um dar à luz). Claro que aí vai uma pitada de antropofagia, o gesto de devorar os antigos, a tradição, e também tudo aquilo que me circunda, sem oprimir: cartas, cassetes, bilhetes, relações, afetos e acontecimentos fatuais. Em meio a tantas máscaras, tantas faces refletidas, uma dose de realidade vem às vezes a calhar.
Fiz este poema em 2003, pouco depois de publicar meu primeiro livro. Nunca cogitei deixar de publicá-lo no próximo volume; por mais que me parecesse estranho, era um dos meus favoritos. Teve um período longo entre um e outro, pois o Rumor saiu no ano passado. Confesso que só agora, há pouco, é que me senti capaz de compreender de modo distanciado esses versos, e enxergá-los assim, em conjunto, com as suas conexões. A poesia tem esse tipo de mistérios.


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9 de Julho de 2009


*

Postei a anedota abaixo para reforçar o convite para o bate-papo sobre Fernando Pessoa, que farei na próxima quinta-feira.

Adoro fazer esse evento.

É uma mistura de sarau, recital, palestra, aula, com reflexão e vocalização de poemas. Tem um lado de palestra, mais teórico e também informativo sobre a vida do autor, as influências, o contexto. Tem um tom de recital, também, pois apresento muitos poemas. Eu me emociono muito com certos textos de Pessoa, por mais que os repita. Comecei a fazer esse trabalho em 2006, ora vejam, e o olho sempre brilha, e o coração soa, e a respiração pesa.

Claro que o tempo é curto e a obra é imensa, e seria uma insolência querer saber tudo sobre esse poeta monstro, gênio plural, picadeiro das mil facetas. Faço um recorte afetivo, e incluo uma reflexão sobre o tema que estudei no mestrado, o viés dramatúrgico do poeta. Conforme revelou, ele acalentava o desejo de escrever teatro. E também apresento, na ocasião, um pouco dos heterônimos, claro, e os pontos que julgo mais impressionantes do itinerário de Pessoa.

Verifico como foi bom ter cancelado meu doutorado na Ufsc (que era sobre O Marinheiro, poema dramático de Pessoa). (Por que tudo na academia tem que ser sobre sem ser com, no sentido de junto? O sobre, a meu ver, sobra, quando fica longe tão longe da vida.) Enfim, foi um ato de respeito e liberdade. Foi também, hoje percebo, uma maneira de imitar, muito de longe, o roteiro do mestre. (Ele iniciou o estudo de disciplinas sobre filosofia antiga e filologia, abandonando-as em seguida.) Agora, tudo o que aprendi, aproveito nesse tipo de atividade. E esse deleite, livre de pré ou pós conceitos, deixa a obra respirar, e se entranhar no coração, que é aliás onde toda literatura deve estar.

O texto abaixo, claro, é um exercício de imaginação, devaneio, fiz para rir um pouco de mim, de nós todos.

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Fernando, depois dele mesmo


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Após a notícia de que vários Fernandos Pessoas haviam voltado à Terra e circulavam livremente – e perfeitamente humanos – pelos bares de Lisboa, uma comissão de poetas pós-modernos decidiu reunir-se para abordá-lo e levá-lo ao Congresso de Poesia Contemporânea.
Um dos Fernandos Pessoas aceitou de bom grado o convite, e sua única exigência foi a de que lhe servissem vinho do Porto durante a sua explanação.
Fizeram-no. Frente ao auditório lotado (nunca o Congresso vendeu tantos bilhetes), Fernando Pessoa sorvia calmamente doses e doses, e nada dizia. Perguntado sobre o motivo de seu regresso, respondeu:
─ Quero ser poeta, só isso.
Começaram então a tecer os mais amáveis elogios à sua obra, coisa que interrompeu com ar nervoso:
─ Parem de dizer asneiras!
Nesse momento, uma senhora gorda levantou-se do fundo da platéia e disse:
─ Mas Fernando, você morreu sem ser reconhecido e não sabe a celebridade que tem. Não imagina a grandiosidade da sua influência.
─ Sempre soube ─ disse Fernando com desprezo, largando a taça no chão. ─ Ademais, vocês não estão sendo sinceros. Vocês não me amam, ou pelo menos não deveriam.
Houve um “oh” ribombante na platéia, e protestos:
─ Você é o maior Poeta da Lusitânia!
─ E do mundo!
─ Gênio! Gênio! Gênio!
No palco, Fernando apenas baixou a cabeça e quando pararam, disse:
─ Eu me sinto hoje incapaz de escrever uma linha.
E continuou:
─ Quero ser poeta depois de Fernando Pessoa. Antes, foi fácil.

Fernando Pessoa levantou-se com esforço e, passando a mão na garrafa, saiu trocando as pernas e desviando de pastas, bolsas, livros, canetas e copos de café que vinham em sua direção, e foi seguido por uma vaia até ser definitivamente escorraçado do auditório.

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Gato, mia!


O gatinho é uma criação da amiga Carla Kieling.





Tenho uma pasta no meu computador chamada "Arquivos before Rumor". São aqueles pobres poemas enjeitados, ou que ficam ali, no mundo da pasta preta, esperando alguma atenção. Vários já desfilaram aqui no blog. Outros miam em performances. Outros serão apenas esquecimento.

Um dos arquivos se chama "Excluídos do Rumor 12 de maio". Meus arquivos são cheios de datas. Tem "Rumor 19 de fevereiro", "Rumor 15 de abril", "Rumor final 3 de março", "Rumor recente". Tem também o "Cogitados e excluídos". Esse é extenso.

A versão final já fez aniversário, e agora ele está ali, lá, aqui, acolá, pronto. Livro, impresso, comprado, vendido, parado, gatuno. Em casa, tenho agora 30 exemplares, só. Eles fogem de mim, e não obedecem.

Faz um ano, direitinho, que o Rumor da Casa está pronto. Fora do meu controle, rei da sua existência, soberado do seu ser e pronto para mostrar as unhas para quem quiser.

[Eu pra mim está tonto. Ou tanto. Gostaria de reescrevê-lo, de cabo a rabo.]

Mas ele fica bem equilibrado, no seu mundo tão autônomo e fora do meu controle. Aceito-o como é. Não quero discipliná-lo. Sei que ele vai e vem. Afinal, como dizem, gato tem 7 vidas.


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1 de Julho de 2009

Novas e supernovas do Alto da Bronze


A Elen me flagrou mirando dentro do Geringoscópio, dentro do Castelo, dentro do Alto da Bronze, dentro da cidade, debaixo do céu.

Os céus

Aqui no Alto o frio é mais intenso. Passam ventos, nuvem, e sol, quando há sol. Passa o tempo fugidio na fuga de uma flauta. Passa a madrugada em meio a tosses, páginas e sussurros.

No momento, Saint Exupéry: Terra dos Homens. Um relato da lida nos céus, vivida por esse aviador e herói, santo e lindo que foi o criador do Pequeno Príncipe.

O livro veio parar aqui pelas mãos do meu amigo Zé Benetti, que além de bom ator é um cozinheiro amoroso e me faz a delícia de vender seus pães. Pães especiais, porque neles vai a vibração de um budista, budista de verdade, que se desapega fácil das mesquinhezas do mundo. E também de livros, e foi aí que entrou o Terra dos Homens, do Saint-Exupéry. Ele tirou da mochila uns cinco ou seis volumes, pôs em cima da mesa e disse: Escolhe um. E para não escolher, e deixar que o acaso me guiasse para a leitura desobrigada, não pensei, disse: Este, só porque era o mais próximo.

Terra dos Homens é o relato de uma renúcia radical, de uma escolha desapegada, constituído das memórias de um piloto dos correios franceses que se põe a cruzar o Saara e viver entre areia, mar, estrelas e nuvens. Perigos, belezas, mil aventuras, tudo narrado com leveza e bem traduzido pelo Rubem Braga. Diferente dos livros em prosa-quase-poética que foram imaginados, sonhados, esse foi vivido, e isso muda tudo. A experiência de Exupéry como aviador é aproximada do lirismo, no depoimento. Ele estava, literalmente, bem perto das estrelas, e a "magia da profissão" para ele vale mais do que qualquer outra fonte.

Minha idéia, para seguir a linha do Zé, e essa aproximação com a realidade, é a de propor uma experiência de leitura adequada ao conteúdo. Vou eu também me desprender do livro, é claro: a princípio, o deixarei em um local público, nas imediações do Alto da Bronze, com um recado dentro (instruções de leitura, do tipo): Se você começar a ler este livro, entenderá porque eu o deixei aqui de presente, ao acaso, para o primeiro curioso. Leia e faça o mesmo, se quiser.

O ideal seria que ele rodasse o mundo, viajasse de mão em mão, zanzando por aí, como fez o aviador, para cá e para lá, seguindo a lição de Bashô ("Não durma duas vezes no mesmo lugar. Queira sempre um colchão que você ainda não tenha esquentado").



O Castelo

A tomada do Castelo foi linda, uma noite só surpresas. O lugar é perfeito para um centro cultural, com espaços alucinantes, do fundo do fosso até o alto das torres: arte. Fiquei me sentindo uma princesa, e foram vários os reis e rainhas que brilhavam no fundo dos olhos das pessoas. É lindo lá dentro, e felizmente começam já-já as atividades.
A Elen de Oliveria vai dar uma oficina de construção de caleidoscópios. Eles deixam tudo mais colorido, e unem, como o Saint-Exùpery, o sonho e a concretude, objetos mágicos que são. A foto acima registra o encantamento curumin que me invadiu ao brincar com o geringoscópio dela. É um maravilhante caleidoscópio interativo que faz a vida sorrir que só. Confiram no blog: Castelinho do Alto da Bronze Cultural.


A Bronze

Imagino que ela ainda zanze por aqui... Quem será? Eu a procuro em intervalos, e vez que outra vejo umas senhoras bonitas, de batom vermelho, circulando despudoradas e felizes - como convém aos fantasmas elegantes. Tudo aqui é cheio de fantasmas, é o centro histórico de Porto Alegre. Aqui no Alto (era discreto, como o Beco do Mota, em Diamantina) funcionavam cabarés, pelo que consta, os chiques. Coisa de Bela da Tarde, nada de Baixio das Bestas. Hum.
Eu moro no Alto da Bronze, mas juro que de Bronze não tenho nada. Quero estar mais para Prata ou Ouro, na minha arrogância de ignorante e fiel pagadora do Fisco da Vaidade. Ando cada dia menos mundana, isso é certo. Pudera. Com uma baita pesquisa já em andamento, um projeto de nove meses de criação solitária na escritura circunspecta de um romance em terceira pessoa, aqui estou, Maria Desaparecida. Não estou nossa nem para mim, quiçá nossa senhora.

*

Ai de mim, serafim!



Isto mesmo, meus queridos. Escrever não tem fim. Uma aluna-escritora que conheci em Gravataí tatuou isso no braço - mas seria impossível esquecer. Não tem fim: tem é prazo.
Diz o Timbal-Duclaux: Se o romancista não estabelecer nenhum prazo, disporá de um tempo infinito e o seu romance nunca mais acabará.
Vai ver é por isso que muita gente, ao invés de usar as palavras, prefere mesmo escrever seu destino: "Minha vida é um romance".

*

23 de Junho de 2009

“Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz”.
(Roland Barthes)



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Oba! Tomada do Castelo!






Gente, que coisa maravilhosa! Artistas estão ativando o Castelinho do Alto da Bronze!
Um lugar precioso como aquele não podia ficar afastado de quaisquer olhares. A iniciativa é dos sete artistas residentes: Adriana XapLin, ALejandro VeLasco, ELen de OLiveira, Lena Kurtz, Lisete Bertotto, Manoel Henrique Paulo e Sandra Santos.
A inauguração será no próximo sábado, dia 27, com atividades a partir das 16h.
Nessa ocasião, dois dos meus mais queridos sonhos infantis serão realizados. O de participar da tomada de um Castelo e o de ser abduzida.
Serei abduzida pelos PoETs, uma banda extraterrestre formada pelos músicos-poetas Ronald Augusto, Ricardo Silvestrin e Alexandre Brito.
O Rumor da Casa vai ser um Rumor do Castelo, vejam que chique!
Então espero vocês lá para o congraçamento.

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22 de Junho de 2009




Chavearam o parque,

puseram amarras e cadeados na grade fria.

Pelos buracos enxergo brinquedos.

A roda gigante começa a enferrujar.

Na noite do parque, solilóquio de fantasmas.

Sem pestanejar, corri à casa amiga.

Os baralhos trancafiados.

Volto pela madrugada, choro.

Onde durmo uma fumaça de cadáveres.

E como fechar o leque novo e velho?

Como juntar as entrelaçadas hastes,

coloridas, de palhaços?

Juntei as fotos e vi sombras.

Fui aos passados e o relógio corria.

Eu mentia. Passo a passo volto ao parque.

É tarde e cedo,

começa a clarear, além a praia.

Visto mais um casaco e ali vou.

Esperarei sentada na areia

até abrirem as grades.

Guardo trocados para muitos bilhetes.

É domingo, logo virão

outras crianças coloridas.




17 de Junho de 2009

ERRATA

O evento Poesia e Jazz, da próxima sexta-feira, será na Saraiva do Praia de Belas Shopping, e não no Moinhos, como eu estava divulgando.

Será um evento muito bacana, com certeza. Nos ensaios já pude notar a energia da conversa entre a voz e a flauta: o ritmo audacioso, a liberdade, a vibração sonora de uma expressão pulsante. É coração exposto. Nada de "fundinho musical", não, bem pelo contrário.

É o encontro entre a minha poesia (entrecortada e às vezes veemente, sem muitas concessões) e toda a improvisação do jazz, sem contar a finesse performática da flauta do Franco Salvadoretti. Um grande músico. Inventivo, arrojado e virtuoso. Finalmente acho que encontrei aquele ponto que faltava na mediação entre o som musical e o som poético.

Venham ver.

É sexta, dia 19, às 19h30min,
na Saraiva do Praia de Belas Shopping.

14 de Junho de 2009

Grupo Rumor em performance na Saraiva do Shopping Iguatemi


O grupo Rumor se dividiu para fazer performances na Saraiva do Shopping Iguatemi. Até agora, tivemos 3 sessões, uma por mês, falando poesia entre as estantes da livraria. A próxima será em julho.



Adélia Einsfeldt


Djine Klein


Heleno Pereira



Gerson Dias de Oliveira

A pedido

Andaram perguntando onde tem o livro abaixo para comprar.
O Fernando Ramos, organizador do volume, deu as seguintes informações:

Quem assinar o Vaia (é só entrar no site www.jornalvaia.com.br, custa R$20,00) ganha um exemplar da antologia.
Quem quiser comprar em Poa: Palavraria, Letras & Cia, Nova Roma, Bamboletras, Livrarias Porto, Banca da República, Livraria Saraiva, Livraria Mosaico, Taba (revisteria, Praia de Belas Shopping). ou mesmo direto com ele, Fernando (98923603 ou jornalvaia@gmail.com), daí por 15,00 reais.

Aproveitem.

8 de Junho de 2009


Quero deixar aqui registrado meu prazer ao ler de cabo a rabo o volume O Melhor da Festa. O livro traz textos de 36 autores que participaram da Festipoa Literária - festa literária de Porto Alegre. Acaba sendo um belo guia da literatura gaúcha contemporânea, pois traz uma amostragem significativa, sem preconceitos. A edição é bem acabada, com ilustrações de Guilherme Moojen, que dão leveza ao volume.
Confesso que eu andava bem cética em relação à qualidade quase inafiançável da "Literatura Gaúcha", aquela com L e G maiúsculos, como a gente aprendeu na escola. Cresci ouvindo que nosso estado é uma mina de excelentes escritores, com todos os etecéteras, véus e brilhos. Ouvi certos ecos disso durante minhas estadinhas em Sampa ou nas andanças em eventos como a FLIP.
Juro que não acreditava mais. Talvez andasse desencantada devido à brutalidade do cotidiano (vida de artista, meus caros). Talvez faltasse mesmo uma amostragem em conjunto, colorida, viva, suscinta, gostosa de ler.
Esse livro proporcionou a oportunidade de saborear os textos dos colegas, e é muito bom admirar, aprender, se surpreender. É possível mapear, no volume, as tendências, observar as diferenças, repetições, gostar de umas, julgar irritantes outras, enfim, o livro é uma antena.
Tem gente muito boa, nomes desconhecidos, escritores experientes, outros jovens, tem poemas, textos críticos, contos, provocações, enfim. Para mim foi uma boa pedida. Ao invés de ir até alguma festa, com esse frio, fiquei com a festa em casa, mesmo.

A Festipoa já teve duas edições em Porto Alegre. O organizador é o Fernando Ramos, editor do jornal Vaia. Sinceramente, não sei como ele consegue produzir tudo e ainda lançar um livro como esse. É interessante que o volume tenha surgido assim, de um evento, pois este é delimitadinho por início, meio e fim no espaço e no tempo - e o livro acabou transcendendo até mesmo o objetivo de fazer o evento perdurar.
Ainda que não houvesse a Festipoa (tomara que ela tenha vida longa, também), o livro ainda funcionaria como certeiro raio X de uma produção literária que acontece, bem ou mal, para além dos eventos. O melhor da festa é ver tanto texto bom no mesmo livro.

4 de Junho de 2009



Encher-se de si
até o máximo momento

somar e somar e somar

construir
o transbordamento

Preencher-se no fundo
e subir e subir e subir

até se ir
arrefecendo

Tecer a corda
elástico
medida

forçá-la o máximo
esticamento

Alongar o cúmulo
aumentar o ápice
casar o túmulo

amar

para esquecer
os argumentos

Cúmice ápice do céu
bem aqui dentro

3 de Junho de 2009



Pérolas santacruzenses

Passei um dia frio e bonito em Santa Cruz do Sul, ministrando oficinas de haikai para o SESC em dois educandários.
A atividade integrou a programação da Feira de Livros da cidade, que este ano decidiu realizar o movimento de ir às escolas, além de levar as escolas até a praça.
Pois bem. Pela manhã atendi a duas turmas da escola Educar-se, dentro do centro universitário da Unisc.
À tarde atendi outra turma e fiquei encantada com a sensibilidade dos alunos da Escola Estadual Santa Cruz. E, conforme a eles prometi, resolvi transcrever abaixo haikais produzidos durante o nosso encontro.

O amor de morte
é sentido, perigoso
doloroso e forte.
Robson I. Ribeiro

Campo aberto
A chuva rega
o meu pensamento.
Tânia

Sozinho em sono profundo
cansado demais para lutar
sozinho tramo contra o mundo.
Autor tímido, não quis se identificar

Lá está o sol
e aqui
o girassol.
Samuel

O sol tem uma namorada
não brilha como ele,
mas também é iluminada.
Júlia F. dos Santos


O sol vai e vem
como um girassol
brilhando lindo no além.
Yuri

Eu feliz,
quando vê,
quebrei o nariz.
Gabriel Moraes

O ar que na minha janela quebrada
passava, no amanhecer do dia,
lentamente me despertava.
Luciane Richter


Eu caminho
e o vento
não anda sozinho.
Henrique Gustavo Goecks

Quando eu sair
do lar andarei
nas correntezas do mar.
William Marques


O vento soprava
e de carona
a nuvem levava
Dênis Deboer


O dia é lindo lá fora
só não tenho tempo
agora preciso ir embora.
Ruan Cabral Ignacio

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Pérolas escritas por poetas adolescentes, que estiveram na escola em turno duplo a fim de conferir a oficina - e ganhar um ponto na média, também. Merecem mais.

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2 de Junho de 2009

Coisa que gosto é de lavar roupa à mão,
com bastante amaciante
e sem foto no jornal.
Por mim, passo a tarde com meus baldes.

Quase faço uma amizade com o moço da cobrança.
Explico mais uma vez que se tivesse um jeito
liquidava de uma vez a dívida e as dúvidas.

Tradição que aprecio é ganhar roupas de amigos
e usá-las num cai bem que a eles não deu certo.
Eu cismo e me interesso pelo resto
e geralmente amo
o que os outros julgam mal.

Apaixono nos meninos menos resolvidos.
Aprendo é com os meus alunos.
Esses dias dona Adélia me chamou “nossa boneca”
e aquilo me fez bem que nem outra cidade.

Se não peço, não dou o que não tenho.
Sou assim mesmo, não nego.
Teço severas críticas
à História da Humanidade.

27 de Maio de 2009

Geração 80



Saiu ontem na ZH uma radiografia dos novos escritores gaúchos, cuidadosamente elaborada por Carlos André Moreira. A matéria ocupou a capa e a página central do Segundo Caderno, e fico (ficamos, decerto) muito felizes ao ver esse espaço nobre preenchido por nós, que somos jovens. Carol Bensimon, Antônio Xerxenesky, Samir Machado de Machado, Marcelo Spalding, Diego Grando e eu. Sinto-me agradecida por estar lá, não junto, mas ao lado, dessa turma. Fora o Spalding, que produz nada menos do que o site Artistas Gaúchos (e que diferença ele faz!); os outros estão de alguma maneira ligados à Não Editora (um empreendimento que lança livros muito bacanas). Tanto o site quanto a editora, a meu ver, são fatores que tem alterado positivamente a nossa cena, e contribuem para uma visada mais profissional sobre o autor e - por que não? - a geração. Somos a Geração 80, ou "A não-geração do século 21", conforme a matéria da Aplauso do ano passado. Enfim, faço parte dessa geração, ainda que recém balzaquiana e apesar de muito solitária aos domingos. Gostei mais da matéria da ZH. O texto nos apresentou de uma forma positiva, demonstrando a pluralidade das propostas e também a coerência de cada uma. Somos todos na verdade muito sortudos, ainda mais se pensarmos nas brechas novas que oportunizam uma série de trabalhos. Quem, das gerações anteriores, teve de fato a chance de viver de poesia? Eu pelo menos me orgulho de poder pagar o pato, passar alguns perrengues e ainda assim me dedicar quase exclusivamente à literatura, não só à criação, é certo, mas também estabelecendo trocas, desenvolvendo projetos, realizando eventos. Afinal, estimular o processo criativo dos outros, e vê-lo gerando frutos, é uma maneira muito interessante de fazer literatura. E nós que estamos ali na ZH somos uma ínfima pequena parte de tanta movimentação, feita por autores que aí estão, escrevendo, cavoucando em suas mentes e areias, em busca de editores, de espaços, de financiamentos, à procura de sal, de leitores ou de sereias, sabe-se lá. Todos buscam algo, mesmo que não saibam muito bem onde isso vai dar. Alguns buscam aprender, outros o reconhecimento, outros a evolução, alguns só querem mesmo aparecer, uns buscam contribuir, todos desejam ser amados. Pena que foto em jornal não faz carinho nem chama a gente de meu bem. Isso é certo. Mas é fato também que quem procura acha, e uma hora a gente sai da toca, para uma coisa ou para a outra.

A matéria está disponível online:
Primeira Parte
Segunda Parte

O repórter também publicou em blog as entrevistas na íntegra:
Mundo Livro
As entrevistas acabam formando um mosaico interessante de conceitos, propostas e inquietações.

Quem quiser conhecer mais do trabalho dos colegas, visite:
Não Editora
Quem ainda não conhece o portal:
Artistas Gaúchos

26 de Maio de 2009

Dois convites e um haikai

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Farei duas atividades com o mesmo tema nos próximos dias.


Cada um com o seu rumor


Um encontro dedicado à apreciação e criação de haikais, pequenos poemas japoneses de rara sutileza.


Dia 30, sábado, às 17h,
na Saraiva do BarraShoppingSul.



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Oficina de Leitura, Interpretação e Criação de Haikai

Em quatro encontros, uma oportunidade para vivenciar o haikai. Será feita uma visita ao haikai tradicional japonês, suas raízes nos princípios do zen e a arte de Bashô. Em seguida serão apresentados autores brasileiros, como Guilherme de Almeida e Paulo Leminski. Exercícios de criação complementarão a oficina.

02, 09, 16 e 24/06, sempre às 19h.
SESC Centro (Av. Alberto Bins, 665).
Telefones: 3284.2070 e 32842071.

A oficina é gratuita, como todos os encontros literários do SESC. Fiquem ligados.


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infância


pátio da igreja
laranjas do céu
nos céus da boca





23 de Maio de 2009

Anjo disfarçado de pessoa

Os posts abaixo são em homenagem a uma garota que conheci na sexta-feira. Foi logo depois da minha apresentação, em parceria com o poeta Marlon e o músico Moisés, durante a Feira do Livro de Guaíba. Terminamos nosso sarau e, ao descer as escadinhas do palco, deparo com ela, acompanhada da mãe e do irmão caçula. Foi a mãe que quebrou o gelo, apontou para a menina e disse: ela também escreve poesia! Em dois minutos já estávamos à vontade, eu e ela. Comentou o meu trabalho, fez perguntas, depois falou um poema bonito, com ritmo bem costurado. Fiquei impressionada. Ela tem 13 anos. E como anjo não tem gênero, chama-se Ariel.

Anjo de sons e sentidos



Anjo em barras, para quando a barra pesa

Anjo em gotas, remove dores e manchas




Um amigo escreveu há pouco em um email, enviado para todos os seus contatos: "Porque todo poema é uma poção". É. Todo poema é uma bomba de silêncio. Uma oportunidade para se olhar no espelho. Cada poema é uma chance de ser outro. Uma baforada de brisa, um caminho de manhã. Os poemas inauguram mundos e pessoas. Refazem cenas perfeitas e desfeitas, enfeitam a gente de branco, de vento, de mar. Eles às vezes mudam de lugar e aparecem em cidades, em lugares, em braços. Até em livros eles às vezes acontecem.

Ariel, o livro de Sylvia Plath, é uma importante referência do meu Rumor da Casa. Ele caiu novamente em minhas mãos como uma granada, bem quando estava finalizando a escritura dos meus poemas. Acontece que este livro tem duas versões. Uma organizada pelo ex-marido da poeta depois do seu suicídio. Esta era a única conhecida até 2005, quando a filha Frida decidiu publicar a versão original, organizada por Sylvia antes de falecer. Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo traduziram a versão restaurada, editada em 2007.

Bem ou mal, poemas como os de Sylvia, se lidos com atenção, também removem manchas.

17 de Maio de 2009

Fernando Pessoa

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Vou falar sobre Fernando Pessoa na próxima quinta-feira, na Saraiva do Moinhos Shopping.
Durante a conversa, vou apresentar alguns poemas marcantes dos heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis - os poetas inventados de Pessoa.
Abordarei brevemente um dos temas da minha dissertação de mestrado: o poema dramático O Marinheiro. Outro aspecto pouco conhecido da obra de Pessoa é seu viés popular:

Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.

São muitas as faces do mestre. Não esgotaremos o assunto; mas teremos no mínimo um belo encontro.


Dia 21/05, quinta, às 19h30min,
na Saraiva do Moinhos Shopping



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14 de Maio de 2009

Sábado na Saraiva do Shopping Iguatemi

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Poesia ao pé do ouvido

Sábado, na Saraiva do Shopping Iguatemi, apresentação poética com Telma Scherer e a participação do grupo Rumor. Djine Klein, Gerson Dias de Oliveira e Adélia Einsfeldt estarão apresentando poemas sussurrados ao pé do ouvido.

Dia 16/05, sábado, 18h,
na Saraiva do Shopping Iguatemi


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Poesia em performance com o grupo Rumor




O grupo é formado por onze autores que participaram, em 2008, das oficinas de poesia e performance do projeto Rumor da Casa, da poeta Telma Scherer, e financiado pelo Fumproarte (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural).

O projeto Rumor da Casa propôs a publicação do livro homônimo, volume criado pela poeta a partir do contato direto com o público em performances. Além da publicação e distribuição do livro, pela editora 7 Letras, do Rio de Janeiro, o projeto levou performances e oficinas a cinco regiões da cidade.

Ao final das oficinas, os participantes apresentaram as performances produzidas na Sala Álvaro Moreyra do Centro Municipal de Cultura. Motivados a continuar o trabalho, constituíram um grupo que se encontra semanalmente e produz poesia através da performance.


Chama a atenção, no trabalho do grupo, o ineditismo e a riqueza de uma linguagem poética em processo, que está sendo elaborada na medida em que interfere no seu meio.

A temática dos poemas vai do erotismo à indignação social, do lirismo intimista à reflexão filosófica, numa variedade que atesta o desenvolvimento da genuína autoria de cada um.

A apresentação do grupo mostra um colorido verbal e uma renovada motivação para a poesia que contagia os expectadores, sejam eles leitores ou não leitores.



Integrantes


Luiz Leite, Roselaine Funari Tonial, Beatriz Barbisan, Dênia, Zaira Cantarelli, Gerci de Oliveira Godoy, Heleno Pereira, Conceição Hipólito, Adélia Einsfeldt, Gerson Dias de Oliveira, Djine Klein.


23 de Abril de 2009




Mede-se o moço com o mundo

e muda e manda, imundo e mudo.

E o moço se mostra moribundo

mordido de medo

mal amado, moído, suado.

Esse moço se mostra mudado

quando medido com o mundo

− quando medido em si mesmo

em vez de imundo, imenso.