segunda-feira, 15 de janeiro de 2018




Pus arruda até no chimarrão,
e vocês não saíram da minha cabeça.
Pus os pés no pensamento para dizer tudo
o que imbecilizam. E não escrevi nada.
“No que você está pensando?”
O gesto meio rock sem
saudade dos anos noventa
quando éramos todos fora fhc
fora fmi e de mim ninguém dizia
que era aquela, aquela que foi presa,
na feira, aquela clara,
meio gorda, meio magra,
ah, sim, a loka da serigrafia,
uma que faz filosofia, a que tem
uns cabelos assim assim
e nunca vem com a gente? Que nada,
ela estava ali na frente, mesmo agora,
sem saber no que estávamos pensando.
Passeavam passeatas para todos os lados,
bombas, frutos e socos revolutos
mas apenas em muitas linhas
e eu dizia comigo mesma:
“Deus-me-arruda, não-me-arruda”
“Deus-me-arruda, não-me-arruda”
porque pode ficar pior, e
essas linhas não são de ônibus,
não andam a pé, não sobem morro,
são só vozes que às vezes pedem
pouco mais de muitas malandragens
para pôr na sopa. Já não tenho saudade
dos fora dentro, e dentro fora,
no museu da minha mão. Aqui eu acho,
quando não quero, tantas correntes
quanto as rugas dos velhos ismos.

















Pinto com o que sobrou de tinta
no fundo da tigela.
Pinto com os restos
dessa voz desconhecida.
Escrevo palavras deixadas ressoando,
vestígios de um corpo que passou.
Suas linhas desenharam no chão
uma estrela incompleta, reta e transeunte.
Pinto com as manchas que fincaram na mesa
pinto o meu poema velho, pouco vinho do porto,
nada vinho da madeira, azedo,
carcomido pelos cupins, sujo da merda dos morcegos
que sobrevoaram a noite
de uma sala inconclusa.
Escrevo com o cuspe de palavras que eu não disse
e que nenhum milico usou
para limpar suas botas.
Então grito a dor desses sussurros.
Imito o som guardado de orgasmos aguados, aquarelas,
pinto no fundo da tigela
uma luz de estrela estremecida
que sim, agora sim, se completou
na borra do café, no prumo da manhã.
E faço amor com o resto das plantas

de um jardim destroçado, depois do fim de jogo.



sábado, 21 de outubro de 2017




Onde a ilha se encontra com o mar, no ponto extremo, há um conjunto de rochas e pequenas piscinas calmas, em movimento. A ilha tem a forma de uma vagina e, nesse caso, a morada das ondas batendo nas pedras deve ser o seu clitóris. É lá que uma mulher se sente à vontade para deitar ao sol sobre a superfície rugosa de um rochedo que respira há bilhões de anos. Ali, a mulher observa os fluxos e as poças mansas que se formam depois da extremadura. Ouve o farfalhar das correntes serpenteando as pedras baixas, movimento contínuo de uma água que já baqueou, cantou raivas e, depois, sossegada na areia larga, volta ao seu turno, unindo-se à montoeira de mar que ali espera mais um trunfo do som do movimento das espadas.  Nesse lugar, uma mulher pode parir e matar bem as suas crias em apenas um segundo, pode meditar e se dizer adeus e tornar a acreditar em um deus desconhecido. É ali também que os namorados se encontram para selar o seu pacto, mas a mulher não tem impacto sobre eles. Deitada sobre a pedra, agarrada ao seu eu profundo de movimento e gozo, ela vê os picos das rochas se erguendo ao céu e sabe que é ao mesmo tempo feminina e masculina. Vê os peixinhos minúsculos vagarem pelas piscinas calmas e sabe que não têm filhos os oceanos e as marés, e os ventos que se precipitam sobre o seu rosto são carinhos afoitos ou então impulsos que erguem as pernas dela, que agora apoia os pés na pedra. Então, em posição de parto ou de orgasmo, aflita, ela se entrega à lua que ainda não nasceu, mas já aparece vaporosa por sobre o horizonte de ondas.  Uma mulher é uma mulher é uma mulher. Nada pode detê-la. Ela corre sem pés na relva serpenteada de conchas e areia grossa. E xinga os pescadores e ri com eles e os desova. Ela atrai com seus cabelos o choro de uma criança. Uma mulher é uma mulher é uma mulher. Ela é ríspida como quando o tempo vira. Sua cabeça respira o amanhecer e ela se sente completamente vazia. É assim que é plana, sem necessidades. Agora as ondas se acalmaram e a espuma abranda. Ela acende uma fogueira com o seu isqueiro e ali queima, um por um, os retratos dos antepassados.



segunda-feira, 9 de outubro de 2017



Me deixe dormir de olhos abertos.

Áudio instalação para a porta da sala de leitura | sala de escuta, do Departamento de Artes Visuais da UDESC.

Trabalho que integrou a exposição espécies de escutas, proposta pela artista e professora Raquel Stolf, em 2017.

Ouvir.






quinta-feira, 28 de setembro de 2017





insônias. ela ressoava. trovejando um pouco, gotejando,
tateava. encontrava no escuro o vinho, morno, de língua.
ela traquejava, entrava em surto de mistério e ismo.
então: insônia?
horas passam rápido frente a telas com palavras,
páginas entreabertas.

fechando os cânceres do malgrado
ela refazia os tecidos
tecidos de gatos e lembranças de luzes
em meio às nuvens que eram –
indubitável! − de algodão-doce.
então girava frente à música que ela mesma soava.
os braços saltantes, saltitantes, saltimbancos –
roda mundo, roda gigante.

e ela repetia o mal dos ritos,
das profanações, templos gregos, que tudo era fim e início.  
insondável era seu dormir entre tantas
tantas imagens de cores desgastadas
camisas puídas
e o contar dos trocos na bolsa. e cigarros amassados em meio a:  
batom, notas fiscais, até pente.

no meio da sala
em meio ao som que impulsionava os braços a girar
uma pequenina aranha entrara dentro do sutiã.
e ela apenas rodopiava! ninguém viu o aceno
o acento
do sentir andar sobre a pele          patinhas          acariciando
as pintas
que giravam giravam giravam burilavam.
foi feio ter que lavar
o resto
de carne moída
sobre os seios.

e expurgava.
insônia?
três banhos quentes
dois cálices de vinho
cale-se.



poema do livro Desconjunto, 2002, revisitado em 2017.








quinta-feira, 14 de setembro de 2017




ele achava que família era igual a um carro grande,
e caro,
no qual ele entrasse como em uma blusa nova.


ele achava que jamais existiria
qualquer coisa macia 

fora desse nó de gente,
gente igual
gente amara
que amargou os mesmos traumas.

mas ele focava no carro, na luz, no gozo do metal tinindo,
e nas fotos que faziam
em natal e aniversários,

eles sempre mais potentes, o prazer do desempenho,
o penhor dos pundendos, as putas, as promoções.

ele queria ser um Deus, um Pai, um que Pode.

por isso, precisava cortar os cabelos regularmente
e ouvir e ser amável
e saber comprar presentes.
precisava de secretárias e saber guardar segredos

principalmente os mais fundos
os mais falsos, os físicos,

os futuros valiam mais do que todos os ais.

ele tinha um emprego
na companhia de seguros

e assegurava possuir a namorada
plenamente loira
nas horas de diversões nas quais
seus amigos importantes
importavam putas
desde rio de janeiro

maravilhosas, mais brancas, mais fogosas
menos garota da grota
menos pé de laranjeira, menos sardas, menos barriga
a cintilar depois do almoço de domingo.

mas elas eram lolas e eles lisos,
sem se importar com o loló que vem depois.

ele era amigo do que só podia ser, porque
não cabia noutra parte.


se partia, se tivesse que partir.

não pertencia senão a esse corpo que sempre só diz sim,
obrigado, por favor, faça-se.

hoje ele é um fantasma
que faz farra com seus carros importados
na frente de todas as portas
que passam fome e fumam.

ele é o que coube, e soube, e então dirige
os fuscas do futuro e os passados,

ele Pode, é Deus, Pai,
Pôncio Pilatos.

fez família, filhos, fundos de investimento
e fundações culturais.

se falam a palavra “puta”, não lhe serve,
sorve as pausas entre cafés e funerais
para acumular em suas contas
a cor branca,
as mais de quarenta brancas manchas
que um inuit vê nos seus jardins.

mas ele não sabe o que é inuit, a noite é grande,
e há que se ter família, porque enfim.

e família é igual a um carro grande,
que se veste com vestido branco, sem vulto de vulva,
sem vacilo,

senão não tem vintém,
não tem ninguém,
é nulo.

eu o vejo hoje, fantasma,
a aparelhar os sindicatos.

são tão tapados, os coitados, que quando veem um carro grande,
um Cristo, um ‘credo que terno mais bonito!’
não veem seu lado aflito.


se ofuscam
e fundam associações pró-fuscas.




segunda-feira, 14 de agosto de 2017




Eu tenho fome é de parede branca, lisa,
sem uma marca de prego ou arranhão.
Tenho fome de parede coberta de tinta espessa,
fosca,
enquanto as portas e janelas brilham
da mesma camada grossa de tinta esmalte.
Quero uma parede tão bem pintada
que ninguém possa ante dela deixar de suspirar
como Dalí suspirou diante de uma porta
tão bem pintada
que os quadros ali pareciam
aos seus olhos
ainda mais mal feitos.
Quero uma parede branca,
sem marcas, sem quadros, sem porta,
sem teima ou esmalte, sem Telma
onde eu possa simplesmente sentir
o nojo e a raiva das coisas impostas,
do sono e da sombra sem explicação.
Uma parede sem voz, sem vincos, sem rugas
sozinha no seu peso de parede, de coisa,
de suspiro que não mata nenhuma fome.
Eu quero é sentir essa fome,
depois fazer uma fenda, um furo por onde eu possa
surdir o fosso fundo de todas essas águas.



sábado, 29 de julho de 2017

Sei que alguns preferem sexo,
outros, filosofia francesa.
Prefiro deitar nessa rede e,
a sós, sonhar uma serigrafia.
Movimento da minha mão
marcando para sempre a tela
com a água que jorra
na sala escura.
E por graça da luz, da
água e do meu gesto,
o desenho se põe de pé no mundo.
Eis o contorno da mão
novamente vivo
vertido de uma caverna ancestral,
espécie de gemido,
gesto dêitico,
um eu sou entre tantos, um
grito no calafrio da noite
orgasmo do organismo cansado,
ou só uma frase, um sonho, uma rede,
entre algas,

algo.






terça-feira, 25 de julho de 2017



apertar o fio fundo da barriga e depois enriquecer os porcos de enaltecimentos, enriquecer aos poucos, rir até esquecer, rir de soslaio até a barriga doer naquele fio fundo que não é proform. soltar a mão pelo espaço até espairecer, soltar até esquecer que não há profundos. sair pela porta dos fundos e ser, nascer, viver, modorrer em vales e absintos de suores forjados roubados aos porcos, àqueles a quem é preciso enaltecer porque enanos não tecem sozinhos esta manhã. e suar, e suar, e suar e sorver um pouco menos de avisos e de purgatórios. e erguer novos crematórios para as pérolas aos poucos, aos poucos cantar até virar em arroubos a manhã.



segunda-feira, 24 de julho de 2017




eu não sei escrever a máquina
a máquina com a qual escrevo
é meu próprio corpo

escrever é ser sua própria máquina
todo o ser é sua própria máquina

eu não sei maquinar
o sistema judiciário de mim mesma
onde não há provas, nem calendário

eu só sei desescrever
meu próprio estado de mim mesma
eu mim mesma má
eu mim mesma máquina

eu mim mesma o eterno calendário
de meses se sucedendo
com dias abertos, dias fechados
dias azuis de pés burilados

e dias para balanço
para coleta de sangue e de provas
onde eu mesma me saúdo e me rasuro

como se fosse
uma sala toda branca




o sistema de arte
tem horror à sala branca

eu sou branca
não inteira
meus lábios não são brancos
meus pés
minha voz, meus tornozelos não são brancos
eu sou

a sala é branca
o sistema de arte tem horror ao que não é

também tenho horror do sistema judiciário do
sistema de arte de mim mesma


mas pensando bem
toda sala é branca

toda sala é
e eu sou meu próprio espaço aberto
com redes lançadas ao mar
e alamedas
todo espaço poderia ser sem medo
mas as salas
brancas
também se fecham sobre si mesmas




uma sala é um espaço com limites
todo suporte é um limite

há quem suporte o seu próprio corpo,
sua própria sala
sua própria rede e sede de peixe


não faço sala nem para mim mesma

sou também minha própria sombra
meu próprio insuportável
meu próprio céu
minha própria não-sala

- que às vezes é
quando não quer -
e também tem seus limites, medos, meandros

eu sou
minhas próprias paredes
sou
minha própria pele branca
meu próprio refletor
meu próprio calendário
minha própria dor

o sistema de arte não tem horror à pele branca
mas teme a pele
e tudo o que cheira e goza
e tudo o que sabe a sua própria sala




não sou um espaço confortável
sei a sangue e sede
nos cinco hemisférios



quinta-feira, 15 de junho de 2017

Eu sou a mulher com a mão na boca. Já fui a outra, abaixo, abraçada naquilo que queria morder - a pose composta e o corpo deturpado pelo olhar estrangeiro. Agora a ogra. Energia de braço que empunha o pedaço do inimigo, quem sabe se chamando alguém. Também me abaixo para soprar o fogo, se for preciso. Visivelmente incomodo o ancião ao meu lado, aquele que quer honrar as suas costelas conquistadas com êxitos de tantos séculos. Mas eu não ligo.

terça-feira, 6 de junho de 2017




No banco de trás de um carro velho,
eu lia Marx enquanto a família viajava
para qualquer lugar sem sentido.
Era um texto todo em itálico, ainda a introdução que
me dizia de Hegel, e eu nunca tinha ouvido um agá
que não fosse em forma de “erre” para os meus ouvidos.
O texto tinha um “alhures” que eu lia “al-rrures”
não sabendo de onde vinha aquele “al” separado na frente das coisas
e eu não achava normal um agá mudo, apesar de tantas palavras.
A família cruzava as estradas vazias
nunca a mais do que cem por hora, porque
o máximo eram os oitenta
e se tinha que respeitar
E não me contentando com as festas
e os brincos de plástico as blusas
de tomaras-que-caia em vivo cor-de-rosa
Eu preferia o amarelo dos livros.
E sendo a mais nova de todos os três filhos
que também vinham no banco de trás do carro velho
vestindo as camisetas que logo depois seriam as minhas
interrompendo a minha leitura com as suas importâncias
eu lia a palavra “al-hures”  com o som de um itálico distante
e queria saber mais sobre Hegel.
O agá de Hegel era o mesmo de Heidi, Heimat,
Haare, hungrig, raspante, eu esperava o momento
de poder parar sair daquele carro
carregar o livro para onde eu bem quisesse
e parar de me preocupar com as importâncias.
Eu via os senhores e os servos se sorverem
nas inconstâncias cabíveis aos meus quinze anos
de renúncias, raivas, rastros,  ritmos,
naqueles oitenta sem sentido, na direção de umas linhas.




domingo, 14 de maio de 2017




Um aquário escorre pelos seus cabelos enquanto as teclas não dão conta de mostrar como é que se impermanece. Você também é professor, à sua maneira, mas não precisa registrar  notas no sistema. Deixo os dígitos dançarem para lá e para cá, como em Debussy, cada vez que a umidade reaparece desde os rios da sua voz. Já fui uma daquelas que apreciavam o presente e não saberiam contê-lo, mas também não se dispersavam. Agora não. Assim, com a voz, com os braços, e gritando ritmadas essas coisas meio não, meio talvez, e meio seiva, sou bem isso que escorre pela sua voz. A plenitude do som vive no seu rosto que some a cada partícula de segundo, eu me misturo, sou todo esse não tempo que se difunde como se fosse um último. Você selva e todo índio, tão fora de toda ordem, também, tem uma forma de estar à prova e é sem tropeçar. Não registro a sua nota. Você essa voz veludosa que acorda os espíritos da crianças. Avalio os peixes de tantas cores que escorrem, peixes fuga, rios sonata, peixe-espada e peixe-mulher salpicam pelo prumo da cachoeira que em você me rebrilhou. Mas ainda me pergunto e me cutuco por que você só mora no azul. Não tem onde?