quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Arte anestésica para gaúcho ver


─ Tu estuda Artes?
─ Não, Direito.
─ Na UFRGS?
─ Na PUC. Não gosto da UFRGS.
Este um fragmento de conversa entre um visitante da Artemosfera e a mediadora que acompanhava o grupo durante a visita às obras do roteiro Norte.
─ Não me leve a mal, não gosto da UFRGS como não gosto de cerveja quente...
O encontro com as obras de arte, embalado por discussões como essas, parece mesmo um passeio de domingo. Não culpem a mediadora se lhe faltou formação e informação. Naquela tarde, fiquei me perguntando quanto ela estaria ganhando para trocar o seu tempo livre pelo acompanhamento desgastante desses visitantes às vezes malas a uma atividade que pouco tem a ver com seus estudos e quiçá seus interesses pessoais. Falar de arte no Rio Grande do Sul implica reconhecer ao menos um pouquinho do legado da universidade cujo Instituto de Artes constitui o principal centro acadêmico formador e propagador de pensamento teórico e crítico sobre Artes Visuais.
Arte também não pode ser questão de gosto no mesmo sentido em que se gosta de um time ou de outro. O despreparo da mediação acusa o despreparo do seu preparador, que acusa a pouca vontade do seu contratante e do patrocinador em oferecer ao público informações relevantes sobre processos criativos, contextos da arte contemporânea, e menos ainda suscitar reflexões.  
A visita às 11 obras faz-nos suspeitar de que estamos a bordo da Nau Sorriso, não em uma atividade cultural. Quando descemos do ônibus há música sendo executada ao vivo, não há tempo para divagações nem questionamentos. A visita guiada não colabora em nada para uma apreensão crítica, propondo apenas a momentânea alegria perceptiva.
─ É uma obra bem feliz...
Foi o que ouvimos ao chegar em frente à obra de Lou Borguetti, uma escadaria pintada com as cores primárias e circundada com imensos lápis de cor, mais uma mesinha e cadeira também berrantemente coloridas. Primárias não são apenas as cores, infelizmente. Uma cidade cinzenta e decadente sorri frente a qualquer manifestação lúdica em seus espaços públicos. É preciso colorir, pois a Ditadura da felicidade a qualquer preço faz-nos gentis e consumistas.
Para que tudo se reduza às diferenças entre o Grêmio e o Inter, o Laçador está de vermelho e azul, tão de braços abertos quanto o Cristo Redentor, já que o artista achava o monumento muito sério e sisudo, no falar da mediadora. Arte anestésica para erradicar toda a forma de seriedade. A começar por aquela que é devida à arte como arte.
O jeito RBS de produzir uma grande mostra artística a céu aberto na cidade de Porto Alegre só podia ser assim. Ficou fácil e lucrativo explorar a decadência dos espaços públicos com patrocinadores bonzinhos e tão multinacionais quanto o próprio orgulho de ser gaúcho. Porta aberta aos extratores por esses governos que sucessivamente concedem desprezo e abandono a tudo que for belo e brilho, e não obra-para-voto.
O pior é quando o texto do curador, fixado na entrada da obra, logo se revela nitidamente tendencioso, limitando e induzindo a uma possibilidade interpretativa que realce a alegria de se morar em Porto Alegre – isso, é claro, em detrimento da própria obra exibida, cuja criticidade e inconformismo são relevantes. Quem ganha é o patrocinador.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Piss factory e o preço do desejo

Devo ao professor Larry Wizniewsky conhecer o trabalho da poeta Patti Smith. Em uma das minhas visitas a Ijuí dentro do circuito literário do Sesc-RS, ganhei dele o livro de memórias Só garotos, publicado em 2010 pela Companhia das Letras. Um presente e tanto para quem nunca tinha sequer ouvido falar da Madrina do Punk. É de estranhar que nenhum dos livros de poesia dela esteja disponível em nossas livrarias, novo ou usado, no original ou traduzido, nada. Só importando ou lendo da internet. Tomara essa publicação do livro em que ela conta seus primeiros anos em Nova Iorque ao lado de Robert Mapplethorpe acabe chamando a atenção de muitos para o resto de sua obra, tanto quanto chamou a minha.

Artista visual e performer, ela deixou as fábricas de New Jersey para se tornar roqueira décadas mais tarde, a coroação de Grande Precursora recebida após a construção de uma longa carreira nas linguagens que exercitou. Na mala que ela levou a Nova Iorque, sem emprego e com algumas esperanças, estavam as Illuminations, referência que a sua arte nunca protelou. À frente do Patti Smith Group, novo sopro de um rock'n'roll puro e poético, ela produziu uma série de letras e discos conceituais a partir da leitura de Rimbaud. Outro poeta sempre próximo a ela é William Blake, na melhor linha dos bardos proféticos da tradição.

Gostei especialmente de ler em suas memórias o testemunho sobre as performances de poesia falada que ela empreendeu em bares como bicos no início da carreira: "Embora eu não fosse recebida com muito entusiasmo, aquilo aguçou minhas habilidades de lidar com uma plateia hostil". Fazia abertura para bandas, contratada pela produtora Jane Friedman: "Depois de cada apresentação, Jane tirava uma nota de cinco dólares do próprio bolso, dizendo que era nossa parte da féria. (...) Eu costumava encerrar cada apresentação com "Piss Factory", um poema em prosa que eu improvisara, falando da minha fuga do emprego sem carteira em uma linha de montagem rumo à liberdade de Nova York."

Recomendo ouvir essa faixa  aqui. O texto está disponível na descrição do vídeo.

"Nós nos víamos como os Filhos da Liberdade com uma missão de preservar, proteger e projetar o espírito revolucionário do rock and roll. Temíamos que a música que sempre nos sustentara estivesse correndo o risco de subnutrição espiritual. Temíamos que perdesse seu propósito, temíamos que caísse em mãos aburguesadas, temíamos que patinasse no lodo do espetáculo, das finanças e da complexidade técnica insossa. Vinha-nos a lembrança da imagem de Paul Revere, cavalgando pela noite americana, acordando as pesoas, incitando a que pegasem em armas. Nós também pegaríamos em armas, as armas da nossa geração, a guitarra elétrica e o microfone."

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"Meditações" de Marco Aurélio, livro VI



4. Tudo que aí está em breve será transformado e ou evaporará, se a substância é simples, ou se dispersará.

39. Ajusta-te às coisas cujo destino é ligado ao teu; estima os homens cuja sorte está unida à tua; porém, com sinceridade.

6. A melhor forma de arredá-los é não parecer com eles.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011


Old woman reading - a mãe de Rembrandt. A mãe é morada do artista que conhece de cor os Evangelhos, cuja leitura era concedida até mesmo às mulheres naquele século XVII.

Segundo o lindíssimo filme de Alexander Korda, de 1936, intitulado apenas "Rembrandt", o jovem inconforme é o mesmo que, velho e duas vezes viúvo, investe seus últimos xelings em material, passando ao largo do açouge.

Cortinas pesadas eram abertas frente ao olhar da alta sociedade que comparecia à inauguração da pintura da Guarda Civil. Os aplausos que começaram antes da visualização cessaram assim que o todo apareceu aos convivas. As mulheres foram as primeiras a compreender e a rir alto do modo como os soldados foram pintados.

Uma boa forma de representar essa polícia galante: narizes tortos. Almas mofadas. Rembrandt não conseguia pintar "propriamente". Jamais conseguiria fazer sucesso entre os compradores daquela Holanda tão rica (e tão pobre). O artista diz de cor os versos do Eclesiastes.

Vaidade, vaidade, tudo é vaidade. A dos guardas cujo chapéu é sua única honra, a dos pintores cuja fortuna surgia de pintar gente "elegante", a dos credores que insistiam em surrupiar todos os bens de Rembrandt, inclusive as obras futuras.

Apenas Saskia, a mulher que morre cedo, não é julgada no filme de Korda, que passa ao largo das figuras de bois mortos representados por Rembrandt. Apenas Hendrickje, a jovem criada que passa a esposa e mecenas para morrer jovem, também, sob o olhar do gênio, é apenas bela e boa.

Apenas as mulheres-musas sobrevivem. Elas vivem na imagem que tem nascimento no outro, esse filho que as espia enquanto leem os Evangelhos. Jamais podem falar. A fala das mulheres-musas é a morte. Porque o olhar mata. E as mata, mesmo mudas.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O peso do medo, de Wellington de Melo. Recife: Paés, 2010.


              
                            
Recife, domingo, 10:30 da manhã, salão de convenções onde acontece a VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. No estande ao lado, Frederico Barbosa tenta dar sua ótima oficina de crítica literária, e consegue, apesar de que os autofalantes não param de anunciar as atrações da programação e fazer a propaganda do megaevento. Dentro do café vazio, montado com folhas de vidro no fundo do pavilhão, eu e Wellington de Melo tentamos dar início ao bate-papo "Não alimente a escritora", para o qual fui convidada. O telefone dele não para de tocar. Ele tenta desligá-lo, mas não para de tocar. Então Wellington joga com toda a força o aparelho ao chão, e joga novamente, atira-o com mais força, e o telefone não quebra, e não para de tocar. 

Enquanto isso, penso na diferença entre os homens que olham, os que pensam, e os que fazem, uma classificação tão limpa e clara que chega a me cheirar aristotélica, se não o é. Nem sempre se pode prescindir de definições como essas. Concluo que detesto as pessoas que não fazem, entre as que pensam; bem como as que pensam e não fazem, que nem sempre são as mesmas.
Wellington pensa e faz. Horas depois, enquanto espero no saguão do aeroporto, abro o seu livro O peso do medo. E lembro ainda da minha distinção. Se a ação sem reflexão é inócua (o consumidor padrão não o percebe), também o convívio íntimo com o fruto do pensamento, sem uma relação com o mundo de fora, resta aleijado, filho do nada. É como jovens trotskistas observando a revolução pela janela, isolados em apartamentos confortáveis, cheios de idéias de vanguarda, mas protegidos pelo cheque dos pais. Esse é o tipo de gente que abunda em nossas universidades, saindo da classe média para tomar postos de trabalho intelectual e fazer cultura em nosso país, o que torna o cenário esquizofrênico e passivo à dominação de um mercado que procura alinhar arte e entretenimento.
O mesmo para os escritores. A poesia contemporânea tão pouco ou nada dialoga com o leitor comum que a palavra “poeta” ganha semitons quase pejorativos, o que já pude comprovar perguntando a trabalhadores de periferia seu significado. Quantos professores de ensino médio são capazes de citar versos dos poetas contemporâneos consagrados? Quantos conhecem os seus nomes?
Se o medo que Carlos Drummond de Andrade cantou em seu tempo era um pouco diferente daquele que se encerra nos corações desse meio artístico com o qual convivemos, Wellington de Melo descreve-o com perfeição. Um medo mais relacionado ao absurdo de existir no caos contemporâneo, à violência urbana e social, aos desníveis do nosso mundo e ao papel do poeta sem interlocução com o exterior. Um medo cheio de vazio existencial, com toques de consciência da própria sem-razão. A poesia precisa cantar com fúria pois ela é, de um lado, o resultado irrefreável de um olhar e um pensar. E constitui ela própria a única ação possível, embora não necessariamente frutífera, porém redenção segura quando se pergunta “como incendiar em mim o gabinete”.
Num país de livros tão mal editados e de poesia tão desrespeitada em sua faceta visual, parece-me acertado o formato do livro. A página tem de ter uma superfície suficientemente ampla para que o olho respire e descanse e deixe fruir a leitura de um texto denso. As ilustrações fazem o percurso circular do poema possível e estão acertadamente construídas em preto, branco, olho, boca, cidade, bicho, resquício, marca de sombra e sujeira que acompanha o ritmo dos textos, tão bem casados um com o outro que se unem em um só. Este se apresenta sempre na mesma forma, a do poema em prosa sem pontuação, com repetições e ritmos orquestrados em cada sequência sem que haja marcação de estrofe e verso. Desse modo o leitor pode completar a tarefa poética lendo-o no ritmo da sua respiração, uma escolha bem ao gosto do leitor contemporâneo, que também há de simpatizar com o recurso de grifar palavras certeiras ocultando certas letras. Em termos de trabalho visual, parece-me um casamento amoroso a poesia de Wellington e a obra de Rosana Palazyan (em O lugar do sonho, p.ex.), estética em que a sutileza e a violência se integram.

domingo, 15 de maio de 2011

Performance, lucidez e risco

Assistam nos links abaixo o episódio de detenção de um artista nas ruas de São Paulo:



A performance do artista detido não poderia ser mais acertada. Contexto e referências são ricas e bem articuladas. Ele refez, de corpo presente, a famosa foto de Marc Riboud, de 1967, onde uma jovem americana, durante os protestos contra a Guerra do Vietnã, parece colocar uma flor no cano da arma dos soldados:

(http://festival.magnumphotos.com/60_years_1967.php). 
 
Imagem que é reciclada na abertura da novela Amor & Revolução, diariamente exibida no SBT. Imagem que ganha a forma de um corpo gentilmente erigido sobre orelhões da Telefonica (patrimônio "público", senhor policial?). Ele não estava cometendo nenhum crime, bem como estava eu, no dia 12 de novembro, quando tive uma performance interrompida na Praça da Alfândega, de onde saí contra minha vontade, escoltada por dez policiais. Seja no Sul, seja no Sudeste, o Brasil não é um país onde artistas possam se expressar nas ruas.
 
Em vista disso, tenho pensado que a Idade Média inda era mais avançada, nesse sentido. Jograis e trovadores, além de exibirem seus dotes nas ruas, para acréscimo da imaginação de todos, recebiam a paga de quem os ouvia, quando não eram convidados ao paço.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Conversa

Mais uma vez nos encontramos.
Você, atrás da tela fria.
Eu aqui, sozinha.
Sabe, público,
ainda acredito em você.
Apesar de tudo.

Agora dizem muitas coisas
a nosso respeito.
As pessoas desse meio
gostam de se difamar,
é um ninho de cobras.
Para cada ovo,
uma Obra.

Você só quer os caros,
de quinhentas páginas,
traduzidos?
Disso eu duvido.

Meus livros são tão baratos,
vivo nos sebos da cidade.
Desde que nos vimos
entre chopps e baratas
nos bares da Cidade Baixa,
você sempre
pagou a conta.

E sempre que conversamos
sobre Homero e sobre Sócrates
eu falo a você de Aristófanes,
e você fica nas nuvens.

Você nunca me disse
que no fundo
quisesse Paulos Coelhos
entre outros drincks e bocejos;
ou pastiches de ralas memórias
e livros de vampiros.

Não.

E olha que já dividimos
mais do que algumas cervejas.
Essas baixezas que dizem
(eles não sabem o que dizem)
vêm de esgotos e impurezas.
Não as guardo na memória.

Eu sei que você sabe.
Você mesmo procura
meus livros e meus suspiros
e eu fico apaixonada.
Nunca nos cobramos nada.

Eu conheço os seus gemidos,
as suas delicadezas;
− afinal,
faço até mais
do que uma namorada.

Posso não ser
a sua musa preferida,
e também não quero
(nunca quis)
ser das mais vendidas.

Você sabe que os meus gritos
são os mesmos das cigarras,
de prazer e de amor.
Declarações,
mais nada.

A paixão nos leva às vezes
a atos insensatos,
mas daí dizerem
que nós quebramos os pratos,
não não não.

Público, público,
eles não leem poesia
e pensam em traição.
Dizem que eu deveria
pensar na Tradição,
e me dedicar a donos
mais edificantes −
marketing, medicina,
uma certa engenharia.

Se te traí em cartilhas,
sem versos e sem rimas,
em gestos desleais?
Não. Nunca passei por cima,
nem esqueci teus ais.

O país precisa
de novos produtos.
Não interessam mais
os nossos sentimentos,
e muito menos
os mitos nacionais.

Público!
Parece que a hora agora
é a de ser um Vendedor.
Estar sempre ocupado
com planilhas e traslados
e não prestar atenção
à dor.

Depois tratar o tédio
com rimas cor de rosa,
comprar mais um remédio
para ser um Vencedor.

Virou ordem, agora,
o Pensamento Positivo,
e ninguém mais namora.
O progresso preservativo
faz as casas e o altar
e é feio falar
de coisas inadequadas
como contas não pagas,
e desejos reprimidos,
vontades de ver o mundo
em bolhas de sabão.
Agora o mundo Todo
cabe dentro da sua mão
e com o seu i-pod,
sim, você pode.

Ai, público!
Você moderno, você feliz.
Estou por um triz!
A felicidade, essa felicidade
exuberante
tomou conta do país,
posso vê-la saltitando
de dentro dos outdoors
para dentro das cabeças,
e as famílias, e as igrejas,
tão bonito,
os moleques batizados,
uniformizados,
as mocinhas tão casadas e
tudo isso, dizem,
festas, negócios, celulares chiques
− sem espaço para chiliques.

Quando nos vemos no escuro,
eu beijo a sua boca.
Você diz no meu ouvido
que não quer aproveitar a promoção.
Não quer um novo plano
e nem ganhou aquele desconto
e juro para você,
público,
eles não entendem nada.
Eles não estão entendendo nada.
Se é que você já me esqueceu,
se se assumiu ou virou um Perdedor,
não sei, público, não sei.

Dizem também
que tudo isso vai passar,
que é apenas um mau momento.

Público,
eu penso em você
a todo tempo.



Observação quase inútil: Este poema ilustra o mesmo acontecimento que se pode conhecer também através do vídeo presente aqui. Se ele tem sentido fora deste contexto, desconheço. Uma das coisas que esse acontecimento gerou em mim foi um interesse redobrado pelos poemas de amor.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Da série “Performances Executadas” − Obrigada


Visto um pijama azul e branco, masculino e folgado. Meus cabelos estão soltos e embaraçados. Uma algema liga meu pé esquerdo uma corrente, algemada na outra ponta a um banco da Praça da Alfândega, nas proximidades das estátuas de Drummond e Quintana. Miro-os obstinadamente. Estou com uma caneca metálica em uma das mãos e, na outra, uma garrafa vazia da cachaça mineira Boazinha. Dou alguns gritos sonoros, dialogando com as estátuas, salvo nas palavras "muito obrigada", as quais lanço aos passantes. Cuspo no chão, limpo o nariz no braço esquerdo e digo:

É o Drummond quem tá dizendo! Muito obrigada. Eu tenho o Qorpo-Santo! Muito obrigada. Hoje não tem bailanta? Muito obrigada. Ô Qorpo-Santo, José Joaquim de Campos Leão! É um rebanho! Muito obrigada. É o Quintana quem tá dizendo! Muito obrigada. Falaram pra eu ficar quieta! Muito obrigada. Hoje não tem bailanta? O Qorpo-Santo morava ali, olha. Muito obrigada. No Quintana's bar! Muito obrigada. O Drummond, e agora José! José Joaquim de Campos Leão ão ão ão! Muito obrigada. Ficava bem ali, ó, na frente, olha. Muito obrigada. Hoje não tem bailanta? Incendiou tudo, Carlos, queimou tudo, e agora José? Toda a biblioteca de Alexandria. Queimou tudo! Muito obrigada. Hoje não tem bailanta? Ô Quintana, é Qopo Santo, com Q! Eu tenho o Qorpo-Santo! Muito obrigada. Ô José Joaquim de Campos Leão! Muito obrigada. Hoje não tem bailanta? É um rebanho! Muito obrigada. É um rebanho! Muito obrigada. Drummond, ô, dança! Muito obrigada. Ô Quintana, Ô Qorpo Santo, eu tenho o Qorpo Santo! E a mente, sã! Eu sou a vaca profana! Muito obrigada. Por que vocês não vão pra bailanta? Muito obrigada. É o Drummond quem tá dizendo! Muito obrigada.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Eu deixo o mundo mais punk


“Performances Executadas”: Abaixo a descrição da segunda performance da série.

Melhor se realizada em shoppings, à tarde, perto da fila de cinemas ou de lojas especializadas no público adolescente. Em tamanho A3 está impresso, a partir da internet, o logo “Eu deixo o mundo mais pink”. (Para quem não sabe, este é o nome de uma seção bem-pensante da revista Capricho. Clique aqui para conhecer). Sobre o “i” de “pink”, em canetinha preta, foi desenhado à mão um “u”. Estou com uma mordaça preta sobre os lábios e pulseiras pretas de couro nos punhos. Meus cílios estão muito maquiados, porto blush cor de rosa e meus cabelos estão repartidos em dois rabos-de-cavalo, um sobre cada orelha. Minha blusa exibe a estampa de uma vedete dos anos 20/30, com fartos seios seminus, cinta liga e sapatos altos. Eu, diferente dela, estou de calças compridas e pés no chão. Sob meus pés há páginas impressas da internet, a partir de blogs e redes sociais como twitter e facebook, todas aludindo à minha retirada da Praça da Alfândega pela BM durante a performance “Não alimente o escritor”.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A reinvenção da ternura


Espantosa história de Ruffus, de Valdemir Klamt, vem preencher uma lacuna na produção poética contemporânea


            Algo que marca as últimas décadas da poesia brasileira − especialmente após a morte de Leminski − é a distância entre o gosto popular e a produção de alta qualidade estética que vem surgindo. Esmerada técnica e inventividade lingüística são possíveis de encontrar em boa parte dos novos autores; estes respeitados no meio literário, porém pouco ou nada apreciáveis pelo cidadão comum.

O estudante da escola pública, o usuário do transporte coletivo, o transeunte que se emociona e identifica-se com o José de Drummond dá de ombros frente aos versos dos poetas contemporâneos − especialmente aqueles que tem sido lançados com críticas positivas no cenário das letras. Destes, muitos conquistam respeito entre os leitores cultivados por dominarem a regra do “dizer muito com pouco”. Esta é uma das decorrências da exagerada leitura de um Pound no ABC da Literatura que se disseminou ainda mais depois da Ditadura Militar, no Brasil.

Um texto ferozmente intertextual e complexo, enigmático, com pitadas de humor refinado, é o exemplo da poesia feita de poetas para poetas, cada vez mais comum no estreito círculo da arte livresca. Muitos novatos a miram como objetivo, resignados com as escassas vendas das coleções de poesia e com um público específico que crêem tão pouco numeroso quanto exigente. Visa-se o leitor qualificado, conhecedor de referências, que teve prévia leitura da tradição ocidental. É um erro.

Essa poesia, admirada dentro dos círculos intelectuais e agraciada com a maior parte dos prêmios e distinções desse ínfimo mercado, tem se distanciado muito do leitor em formação e, nesse ponto, tem deixado uma lacuna preocupante (pois esta tem sido preenchida por um folclorismo exacerbado, que também lembra, de perto, o período da mesma Ditadura Militar).

Diferente desse cenário, a melhor poesia brasileira do século XX apresenta nítida comunicabilidade com o cidadão comum. Autores cujo espaço no cânone já não pode ser questionado, desde um Vinicius ou uma Cecília, um Quintana, um Lindolf Bell (fora o citado Drummond e Bandeira, ícones máximos), todos demonstram capacidade de seduzir novos leitores, tendo-o como foco intencional ou não. E quando se alude aos maiores poetas brasileiros ainda vivos, seja Gullar ou Manoel de Barros, essa característica se faz presente.

Se grande parte da poesia de peso publicada na última década é vazia, impenetrável e sem graça para o leitor iniciante (constatei-o muitas vezes em oficinas), o recente livro de Valdemir Klamt, Espantosa História de Ruffus, vem trazer um novo hálito para o cenário. É um alento perceber, neste segundo livro do poeta catarinense, uma combinação entre esmero técnico e relevância afetiva, resultando em um assombroso poder de sedução de novos leitores.

Deve ser este o motivo da sua classificação como literatura infanto-juvenil, uma inserção bastante duvidosa, já que o livro tem o mesmo interesse para leitores jovens, adultos ou da terceira idade. Também não se filia nem reproduz as marcas da produção infanto-juvenil do nosso tempo.

Solidamente construída sobre o modelo do poema em prosa praticado por Manoel de Barros, o que faz com que essa poesia seja tão agradável e atraente não é a musicalidade. São poucas as rimas, aliterações e assonâncias, e freqüentes os paralelismos. Nisso se distancia tanto da poesia popular quanto da produção que visa especificamente ao leitor mirim. Não propõe o encanto fácil dos trava-línguas ou a graça das piadas, mas uma delicada exploração da alma das personagens. Essa exploração se dá pela enunciação de imagens poéticas livres, simples, sofisticadas e universais; algo difícil de realizar, do ponto de vista do criador.

Ruffus, o protagonista, tinha “preguiça alaranjada” e um “jardim de lilases inventados”:
Ruffus gostava de vender laranja
e achava a maior novidade livros de geografia.
E tinha uma bicicleta. Ruffus só andava de bicicleta.

Por um lado, era o menino comum e trabalhador; por outro, era o poeta.  Esse garoto do povo tinha um encanto especial, desde sua insistência com os pneus: “Ele parava a cada cinco quilômetros para esvaziá-los / e enchê-los novamente”, pois, segundo ele, “(...) vento velho / dentro dos pneus faz mal à bicicleta.” Esse Ruffus que renova o vento dos seus pneus também renova o vento da existência, pois desafia a lógica tradicional, recriando tudo.

Como leitores, somos fisgados pela beleza das imagens e vamos seguindo um fluxo narrativo no poema, cuja presença é possível de apontar através da massiva utilização de verbos. Esse fluxo, se por um lado leva à transformação de Ruffus, de criança a adulto, também ocorre contra o tempo, levando-nos ao passado do menino que, por crescer, torna-se mais menino, porque “O dia não envelhece. O homem é sempre aurora.”.

O fluxo corre então de Ruffus, o menino, a João, seu avô, que “esqueceu de ficar velho”. Conforme Ruffus vai-se desenvolvendo para a vida adulta, João vai se demonstrando menino pois, destarte o avô ser “longo, lento, triste”, “As suas palavras andam de bicicleta / com aros de margaridas”.

Nesse jogo imagético, constrói-se o duplo entre menino e velho, Ruffus e João. Cada um caminha para o outro, espelham-se, compartilham-se, de modo que não podemos divisar, ao final, se as relações familiares são mesmo de avô e neto, avó e mãe. Avó e mãe são linguagem, avô e neto são tempo imaterial. Quando a avó Maria se foi, e João “Passou a morar em casca de tartaruga”, Ruffus deixou um bilhete assim, para sua mãe (que ainda não havia entrado na história):

“Não esqueça de me levar para passear
na casa de madeira amarela de meu avô
e na infância com gosto de laranja temporã.
E mamãe, também não esqueça
de dar pulmões novos pros pneus da bicicleta.”

Esse elemento feminino, a mãe de Ruffus ou a linguagem, promove a possibilidade das viagens no tempo e, nisso, se espelha também em Maria, a avó, que tinha o poder de, competindo com os anjos, desafiar o crepúsculo:

O céu alaranjado de final de tarde era,
segundo Maria, a avó,
a fornalha dos anjinhos fazendo doces.
Maria não ficava atrás.
Recolhia lenda e competia com os anjos
no seu velho fogão à lenha.
Era festa nos meninos.

As mulheres-festa sumiram. Ruffus cresceu. João “encolheu todo”. “Ruffus abandonou de ser menino, / mas não trocou a vidraça quebrada”. O cheiro de alho continuou na casa, esse alho que o avô tinha a mania de mascar e que, conforme a superstição popular, tem o poder de espantar alma penada, essa mesma que encontrava, no Ruffus menino, morada: “O menino não serve para joão-de-barro, / mas serve para repouso de alma penada”.

Tente-se desvendar o mistério dos jogos imagéticos: impossível. Klamt constrói em seu poema uma teia de relações, embaralhando conceitos como os de tempo e memória, magia e ontologia, gênero e parentesco, brincando com as diferentes funções da linguagem. Sem pedantismos e obscurantismos, sem utilizar palavras difíceis e construções exóticas, mas proporcionando uma vasta gama de níveis interpretativos, Klamt consegue seduzir o leitor para a fruição da poesia.

Essa poesia que tem, como quis Cortázar, um interlúdio mágico, uma aproximação com as artes da intuição e uma negação da racionalidade “adulta” do Princípio de Não-Contradição (como propôs Octavio Paz). Espantosa história de Ruffus espanta mesmo, no melhor sentido, pois abusa desse pathos essencial da poesia, prazenteiro e acessível a todos. Se o pesquisador, diante desse poema, vasculha seu jogo conceitual, lendo a complexidade filosófica das imagens; o leitor mirim pode brincar e fruir o fluxo poético-narrativo balizando-o com a sua vida cotidiana. Nisso reside o que, na melhor poesia do século XX, é sua comunicabilidade essencial e seu poder de sedução de novos leitores.

Bandeira, cuja história do porquinho-da-índia poderia ser comparada à de Ruffus, e não Manoel de Barros, é o poeta cuja evocação mais nos ajuda a compreender a poesia de Klamt. Bandeira afirmou algumas vezes que há muitos poemas sem nenhuma “poesia”: sem esse “tumulto emocional”, esse encanto, essa graça particular; sem o conteúdo da beleza, esse visco espesso e luminoso que escorre dentro das palavras. Isso que, para ele, era inexplicável e se podia perseguir através do texto.

Fora construir o edifício do poema, e acima de tudo, é necessário jorrar sobre ele essa “poesia”, que no caso de Bandeira, e também de Klamt, a meu ver, é a substância da ternura. Uma ternura tão em falta ultimamente, e não só na produção poética. Os leitores que hoje habitam os bancos escolares, cuja sensibilização e educação estética farão diferenças no futuro, deverão se encantar com um livro como Espantosa história de Ruffus, que alia a qualidade literária a uma primorosa edição. O livro foi publicado pela Lábias, com ilustrações de Fernando Lindote e projeto gráfico de Vanessa Schultz.

Texto publicado no Diário Catarinense em 26.02.2011.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Artaud, Piva, e um dia de chuva



Chovia e eu tentava restabelecer a calma. Era impossível revisar meu romance pois cada palavra do meu texto era uma gaveta abrindo uma a uma as más lembranças dos últimos acontecimentos, como se as palavras fossem as pétalas dessa primavera. Deixavam aquele perfume (não o perfume, a alergia) inundando todos os poros. Que remédio? Fui ler Antonin Artaud. Um ensaio chamado Van Gogh: o suicida da sociedade. Lindo.



“Também sou como o pobre Van Gogh, já não penso, mas governo cada dia com mais proximidade as formidáveis ebulições internas e seria estranho que um médico qualquer viesse censurar-me por eu me cansar.”



Ele, Artaud, cuja poesia os psicanalistas tentaram "consertar". Ele que esteve internado durante 9 anos em um asilo para loucos - ele compreendeu como ninguém os motivos do pintor, a crueldade do Dr. Gachet, a cólera estampada em todas as estrelas.



“Nunca ninguém escreveu ou pintou, esculpiu, construiu, inventou, a não ser para sair do inferno.”



O pior, ou melhor, é que me identifiquei. Pago, sim, o Fisco da Vaidade. Eu me vi em Artaud, em Van Gogh, pelo desprezo e para os muxoxos dos doutores e suas sanidades compradas a drogas, diplomas e adesões às indústrias farmacêuticas. Indústrias da normalidade.



Há uma zona de diversidades nesse grau - o grau zero da escritura ou mesmo o grau das lentes que nós mesmos municiamos, para vermos a verdade. Nenhuma realidade escapa à armação, ou mesmo a essa limitação da urdidura.



“Foi assim que calaram Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval e o impensável conde de Lautréamont. Porque tiveram medo de que suas poesias saíssem dos livros e revertessem a realidade.”



Então lembrei de novo, dele, do Piva. Do bom leitor de Lautréamont. Do último poeta sincero. Do beat brasileiro que lá de cima, ou lá de baixo, deve estar vendo tudo o que acontece comigo.



Vendo, troco, dou, alisto, arrasto para o meu lençol essa palavra maldita: poesia. Piva, meu querido Piva, não publiquei ainda o poema que fiz para você.



Sabem o que é? Ele tem três páginas. E dúzias de palavrões. E ainda não passou dentro de mim aquele tremor, a vontade de falar mais (ou menos) do que todos os pintores.



sábado, 20 de novembro de 2010







Em 1911, escreveu a poeta russa Anna Akhmátova:



Vivo como o cuco no relógio

não invejo os pássaros no bosque.

Esta missão me foi dada e eu canto.

Sabe, destino semelhante,

só a um inimigo poderia desejá-lo.

Pitadas de teoria, história e lágrimas secas

A respeito da performance “Não alimente o escritor”

A um artista é vetada toda tentativa de explicação da sua obra. A arte, por ser arte, sempre resta inexplicável a quem quer que seja, ainda que as variedades interpretativas sejam infinitas. É fácil perceber que um mesmo poema de amor pode ter duas recepções completamente díspares para quem está apaixonado ou desiludido, e um mesmo verso pode causar ao leitor duas reações diferentes dependendo da sua idade, estado civil, humor ou dia da semana. Pretender que uma das muitas interpretações possíveis seja absoluta ou verdadeira é cometer o desvanecimento da arte. Ela existe na medida em que suscita novas interpretações, ela sempre revela essas diferenças.

A riqueza das teorias, a fortuna das críticas são instrumentos que nos auxiliam a enriquecer nosso background, tanto para o artista quanto para o apreciador. Nesse sentido, sempre é válido recorrer à tradição para compreender o presente através do passado. É preciso prestar atenção ao que foi dito por aqueles homens cujas palavras conseguiram perdurar durante os séculos, ainda que algumas das vozes mais elucidativas possam ter sido caladas em definitivo ou em determinados períodos da história.

Se uma das interpretações possíveis de uma obra é fornecida como exemplar em uma situação específica (na academia, por exemplo), pela sua fundamentação e coerência, é apenas para suscitar reflexões e nunca para cercear a multiplicidade de leituras, que reside na natureza da matéria artística.

O artista, ele mesmo, jamais poderá ser essa voz elucidativa a respeito da sua própria arte. Ele está tão misturado com as intenções afetivas do seu fazer, com as tensões do seu processo criativo, que dificilmente terá o distanciamento necessário. Alguns dizem que o escritor nunca funciona como leitor do seu trabalho (como Sartre, em O que é literatura).

Ainda assim, ao artista é concedido o direito de fornecer um depoimento a respeito do seu processo criativo e referências, pela regra do bom-senso e para a construção do conhecimento. Esse ato, em alguns casos, pode ser um dever.

Neste texto, pretendo fornecer o meu conjunto de referências na criação e motivações da performance Não Alimente o Escritor, realizada na Praça da Alfândega no dia 12.11. Esse trabalho desencadeou inúmeras e mordazes conseqüências e tem sido alvo de uma intensa polêmica nos últimos dias. Meu ponto de vista é o de que toda a reflexão é válida e o debate, necessário, ainda que eu mesma não concorde com muito do que tem sido dito e veiculado. Para o artista, mais importante do que o concordar é o incitar questionamentos.

Oscar Wilde escreveu no prefácio ao seu romance O retrato de Dorian Gray: “Toda arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que buscam sob a superfície fazem-no por seu próprio risco. Os que procuram decifrar o símbolo correm também seu próprio risco. Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida.”

Minha literatura sempre partiu das zonas viscerais, inquietantes, às vezes mórbidas dos sentimentos humanos. Abordo conflitos e temáticas consideradas polêmicas na maior parte da minha poesia, desde a primeira aparição no meio literário, em 1998, na revista Porto & Vírgula. Essa primeira publicação foi, como o próprio Charles Kiefer disse enquanto passava pela Praça da Alfândega durante a minha performance do dia 12, resultado de uma leitura do então coordenador do Livro e da Literatura da Prefeitura de Porto Alegre e realizada por intermédio dele, do que sou grata.

Era então o início da minha carreira. Desde lá, felizmente, tive outras oportunidades de dar a conhecer a minha poesia - que, de lirismo, romantismo e levezas sempre imaginei ter pouco e muito pouco. Tive dois projetos aprovados no Fumproarte (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre), um livro publicado pela editora carioca 7 Letras e outro pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul.

Não considero a publicação uma prioridade. Os amantes de poesia em Porto Alegre tiveram acesso à minha presença e produção durante os sete anos de realização do Sarau Aberto Teia de Poesia, por exemplo, que organizei junto com os colegas Diego Petrarca e Lorenzo Ribas em espaços como o Museu Joaquim José Felizardo e a Casa de Cultura Mario Quintana. O público do interior tem tido contato comigo através de inúmeras participações em Feiras do Livro e no circuito SESC de Literatura e felizmente já pude realizar performances em festivais e encontros no Rio de Janeiro, em Minas e no Uruguai. Para a Feira do Livro de Porto Alegre, realizei oficinas e saraus desde 2oo2, e tive ampla participação nas últimas quatro edições. Na 56ª estive contratada para realizar performances através do Feira Fora da Feira, atividade da Câmara do Livro que acontece durante o evento nas comunidades da cidade.

Durante essa trajetória, desenvolvi a poesia através da performance e a performance a partir da poesia. Minha literatura sempre esteve ligada a outras linguagens da arte (principalmente o teatro) desde o seu surgimento. Ainda que, a exemplo de muitos mestres, tenha um tom confessional e parta de vivências cotidianas íntimas e desconcertantes, ela é exibida em praça pública desde há muito. As performances de poesia falada antecedem os meus livros e são mais difundidas do que eles, desde sempre.

Não sou a única. O poeta contemporâneo (o artista contemporâneo) reflete sobre o suporte, não reduz sua arte nem se limita pela classificação do seu fazer, testa e pratica múltiplas formas de apresentação e invade novamente os espaços de sociabilidade, cada vez mais.

Acredito na força da poesia falada, cantada ou visualmente reinventada através do corpo do autor, em performance, tanto como uma realização literária mais completa e abrangente do que o livro quanto como uma poderosa ferramenta de sedução de novos leitores e incentivo à leitura. Pude comprová-lo em anos de trabalho na senda da sensibilização literária e formação de leitores, que teve início no projeto Descentralização da Cultura em 2oo4, após a finalização do meu mestrado, e foi contratada por diversas instituições, entre elas a Coordenação do Livro da nossa prefeitura, o SESC/SC e o SESC/RS.

Tanto para as oficinas que ministro quanto para a formulação das minhas performances utilizo a seguinte compreensão: uma performance de poesia é uma imagem poética materializada em vários suportes (em três dimensões) e percebida pelo espectador através de vários sentidos, preferencialmente com o corpo do poeta em cena. A imagem poética tem seu núcleo expandido para as três dimensões e os cinco sentidos do espectador. Um poema falado já é um terceiro nível de poesia, pois o espectador, ao ouvi-lo e percebê-lo, além dos dados verbais, as palavras, terá também acesso aos dados sonoros (timbre e ritmo da fala do performer), visuais (forma como está vestido, objetos cênicos) e quaisquer outros artifícios que o poeta puder escolher para que façam parte da sua performance. Podem ser elementos de expressão corporal, silêncios, instrumentos musicais, objetos manipulados, situação em que a performance acontece, interação com o público, etc.

Trata-se de uma senda criativa muito comum e que remonta aos inícios da arte literária, quando toda literatura era feita em versos, cantada e se fazia presente nos espaços de sociabilidade e rituais coletivos. A performance como a conhecemos hoje também teve destaque na tradição literária durante os movimentos de vanguarda dos inícios do século XX e tem sido desenvolvida por inúmeros poetas mundo afora.

A performance, como happening que é, como acontecimento, está intimamente ligada ao seu transcorrer no tempo: é um evento, lida com o risco de tudo o que transcorre naquele limite de tempo e espaço ao qual está sujeita. Todos os elementos que a compõem tem sua eleição definida e limitada por esse conceito. Conforme ela se desenvolve, altera-se a sua situação inicial: a dimensão da temporalidade faz parte da sua constituição.

Falta explicitar que quer dizer essa “imagem poética” que, numa explosão lingüística, sai dos limites da palavra escrita para ser formada pelas imagens, sons, expressão corporal, temporalidade da performance.

Octavio Paz, no artigo A Imagem, presente nos seus Signos em rotação, oferece uma boa definição. A imagem poética é um assalto à lógica, ela desafia o princípio de não contradição e, por isso, jamais poderá ser dita por outras palavras. Permanece inexplicável. Pode ser sentida, absorvida pelos leitores. Pode ser intepretada de inúmeras e variadíssimas maneiras.

Nesse jogo lingüístico que chamamos de imagem poética, “as pedras são plumas”. Se para o cientista, o comunicador, a professora ou o transeunte em seu cotidiano as pedras são pedras, pesadas e duras; para o poeta, em sua formulação plurissignificativa, sim, “as pedras são plumas”. Costumamos aceitar que um terno seja caro, barato, cinzento, amassado, etc.; mas no poema José de Carlos Drummond de Andrade há um “terno de vidro”. Só as palavras “terno de vidro” expressam o que quer dizer “terno de vidro”, pois a significação dessa imagem reside no íntimo de cada leitor. E pode hoje significar algo para mim diferente do que para você; e ainda pode mudar o sentido que lhe confiro hoje caso eu tenha recém voltado de um enterro, de uma loja fina de um shopping, de um lixão ou de uma vidraçaria. Tudo o que me ocorre, enquanto leitora, influencia minha leitura das imagens poéticas às quais sou exposta.

Quando um poeta, em performance, utiliza o seu corpo, seus elementos expressivos, visuais ou sonoros, cada um destes é como “vidro” em “terno de vidro”: está disposto em uma cena/acontecimento de modo a formar uma imagem poética ampliada, complexa, radicalmente plurissignificativa.

São conceitos simples e importantes, cuja afirmação talvez não se fizesse necessária em um contexto de leitores e escritores. Ainda assim, face aos últimos acontecimentos, tive vontade de escrevê-los.

Um dos meus poetas favoritos, como de milhões de leitores mundo afora, é o português Fernando Pessoa. Ao morrer − de cirrose − aos 47 anos, ele deixou a maior parte da sua obra inédita, dentro de um baú. Forneceu inúmeros motivos de reflexão e acabou sendo, para mim, sim, um exemplo.

Um dos mais famosos e irretocáveis poemas pessoanos termina com o verso: “Sentir? Sinta quem lê!”.

Em um sentido, ao menos, estou feliz com a minha performance. Esse, de motivar a reflexão, o debate, a espinhosa conversa no meio literário. Até mesmo da minha parte, posso afirmá-lo - pois assim que me retornou a calma pus-me a escrever este texto quase desnecessário, que ofereço aqui com as lágrimas secas e essas pitadas de fria teoria.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Agradecimento

Quero agradecer a todas as manifestações de apoio recebidas nos últimos dias. Mostram que há muitos cidadãos atentos, informados e defensores da arte. Tentarei publicar aqui uma lista de links com todas as contribuições ao amplo debate que surgiu a partir da minha intervenção artística.

Passado o choque inicial, dedico-me agora a ler tudo quanto foi escrito sobre a performance e o incidente com a polícia. Nem tudo reflete minha visão dos acontecimentos porém, como artista, estou aberta a críticas, desejosa de conhecer as interpretações e disponível para o debate estético. A arte contemporânea muitas vezes suscitou polêmicas e sua ligação com a sociedade deve ser cada vez mais explícita e refletida.

Obrigada a todos os escritores, amigos, intelectuais e cidadãos que estiveram presentes na manifestação de repúdio à minha retirada da Praça da Alfândega.

Foram cerca de 50 pessoas caminhando comigo de mãos dadas, no sábado à noite. Elas formaram uma ampla roda na área central e, comigo ao centro, presentearam-me com um momento de silêncio, um aplauso coletivo e um abraço. Senti-me confortada e reerguida moralmente, após o abalo provocado pelos acontecimentos da sexta-feira. Uma manifestação muito calma e pacífica.

Nunca me esquecerei dessa atitude de solidariedade, respeito e nobreza da classe artística e intelectualidade portoalegrense. Devo tanto a essa cidade e às pessoas que acompanharam minha carreira durante os anos. Nesse momento difícil posso de novo perceber também as facetas bonitas do meio no qual vivo.

Muito, muito obrigada.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

http://www.radioguaiba.com.br/Noticias/?Noticia=221522

Enquanto eu estava fazendo a minha performance, na Praça da Alfândega, fui cercada por aproximadamente dez policiais e retirada de lá contra a minha vontade.

Os policiais primeiro me levaram para fora da Praça, longe das luzes da Feira, acompanhada pelos brigadianos e duas motos, na presença de um grande público, amigos, leitores.

Perguntei o que estava acontecendo e disseram que eu precisava me identificar.

Depois me pegaram pelo braço e me puseram dentro de uma viatura com quatro policiais. Perguntei o que estava acontecendo e me disseram que eu estava sendo levada para fazer exames médicos. Apenas aguardei até que o vice-presidente da Feira chegou na delegacia e conversamos. Eu falei o óbvio: que a imagem poética é plurissignificativa, eu estava realizando uma manifestação artística, apenas, e em nenhum momento compreendi qual o crime que eu estava cometendo e nem o porque de ser retirada dessa forma.

Eu quis apenas expressar sentimentos relacionados à vivência que tive nos últimos meses, quando acumulei muitas contas e tive que deixar o apartamento onde morava. Essa é a minha vida. Ela o material de que disponho para criar. Formei com as contas uma imagem poética em três dimensões, pus meu corpo em cena e utilizei alguns objetos cênicos.

O público parece ter se identificado, pois foi muito receptivo e acolhedor. Foi por causa dele que fiquei até o fim. Agradeço às pessoas que se manifestaram apoiando-me e inclusive revoltando-se com aquela situação.

O público leitor. Foi para encontrá-lo que fiz minha performance. Ela não incentiva a leitura? O vice presidente da Câmara disse que o objetivo da Feira é incentivar a leitura, quando o perguntei.

É para o público que eu escrevo e pretendo escrever o melhor possível. Ainda que, às vezes, seja difícil encontrar um lugar adequado para isso.

Estou chocada e sem compreender o porque de toda essa truculência com uma escritora em praça pública. Ora, uma escritora conversando com o público em um evento literário de repente tem de ser retirada dessa forma, como se estivesse cometendo crimes hediondos? Cada um interpreta uma performance à sua maneira, se o chapéu caiu certeiro na consciência de quem se incomodou com a minha presença, não posso fazer mais do que dizer: essa interpretação é sua.

O pior foi ter de interromper a minha performance. Eu estava em cena. Já fui contratada tantas vezes para fazer performances de poesia pelos próprios promotores do evento. Se buscarem os guias da Feira dos anos anteriores verão que estive na programação de 2009, 2008, 2007... Em 2010, não enviei propostas de atividades simplesmente porque, no ano passado, cansei demais. Convidaram-me para o Feira Fora da Feira, aceitei, e estou fazendo performances nas comunidades, aos sábados. Já estive na Lomba do Pinheiro, na Tristeza e amanhã, abalada moralmente, humilhada e entristecida, irei até o Morro da Cruz cumprir a atividade do Feira Fora da Feira.

Por que fui calada?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Não alimente o escritor

"Não alimente o escritor" é o nome da performance que farei na próxima sexta-feira, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre. O trabalho não integra a programação da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre. Consiste na apresentação de uma imagem poética em três dimensões, com meu corpo em cena - uma manifestação artística espontânea e muito afetiva. A idéia dessa performance surgiu do meu desejo de compartilhar com os leitores alguns aspectos e circunstâncias polêmicas da criação literária.
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A partir de acontecimentos de minha própria vida e reflexões pautadas nas experiências que vivo como escritora, criei um conjunto de símbolos que serão oferecidos para reflexão e debate com o público. Estarei disponível para conversar com todos os passantes a respeito da proposta da performance, suas motivações e possibilidades interpretativas.
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Ao chegar em uma das muitas cidades do interior onde realizo saraus ou palestras, é muito comum ouvir: "Tu que és a escritora? Ah! Eu tinha imaginado alguém bem diferente!". Talvez pelo fato de ser uma jovem mulher sem óculos, de cabelos fartos e olhos verdes, minha presença física gera um estranhamento (às vezes, um pouco suspeito) entre as platéias. Que imagem os leitores comuns têm do escritor? A quais aspectos do sistema literário eles tem acesso? Como mostrar a distância entre o mercado do livro e o processo criativo? Sobre essas questões compus meu trabalho, que aborda contextos do fazer literário que podem ser estendidos às outras artes.
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Somarei à minha presença corporal outros elementos recolhidos de vivências cotidianas, pautando minha ação no confronto do público com a figura do escritor, seus possíveis choques e aproximações. Estarei atada a uma pequena casa de cachorro repleta de contas de aluguel e telefone (todas em meu nome). Outros elementos cênicos como uma coleira, um espelho e uma garrafa de conhaque e suas manipulações formarão a imagem poética. A cena será aberta e plurissignificativa, oferecida a todos os que passarem pela Praça da Alfândega das 18h às 20h da próxima sexta-feira.

Sobre a performance:

As vidas dos autores são relatadas ao público apenas quando, após a morte, eles se transformam em mito. Criam-se falsas celebridades e a ilusão de que a vida do escritor é muito distante daquela do cidadão comum. Na contramão desse movimento, procuro aproximar o processo criativo aos acontecimentos cotidianos, desfazendo pré-conceitos a respeito de quem é o escritor e suas reais necessidades. Iluminar o processo criativo, oferecendo seus aspectos ao público, é uma tendência da arte contemporânea, assim como a quebra de barreiras entre as linguagens da arte. Meu trabalho literário está muito ligado às interfaces com as linguagens do teatro e da música, desde a minha primeira publicação. Nessa esteira, penso a arte literária mais como acontecimento e menos como produto, posicionando-me como escritora em um mercado voltado à educação da sensibilidade, formação e qualificação de leitores. Minha performance é uma crítica à visão reducionista da literatura, que transforma leitores em consumidores padronizados e valoriza apenas a compra e venda de produtos (os livros) sem abordar a questão central: seus conteúdos, a pressão que sobre estes exerce o sistema literário e a invisibilidade do processo criativo.


Serviço:
O que - Performance poética "Não alimente o escritor", com Telma Scherer
Onde - Praça da Alfândega, transitando pelos seguintes pontos: centro da Praça (próx. ao guichê de Informações da Feira) e Rua dos Andradas (próx. à banca da BesouroBox).
Quando - sexta-feira, dia 12, das 18h às 20h.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Piva, o profano

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Estive na homenagem que a banda Dionysios fez ao poeta Roberto Piva, em Porto Alegre. Apresentei um poema que escrevi na noite em que ele morreu, há poucos meses atrás.
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Nos últimos tempos, era comum receber emails e tweets com o número de uma conta bancária. O único beat brasileiro andava em lençóis de hospitais.
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Confesso que quando recebi a notícia da sua morte (que correu rápida pelo twitter), tive uma intuição: a de que aquele era um momento fulcral para a nossa história, apesar da quase invisibilidade. Eu seria uma das antenas que captariam a Catástrofe. Já não seria possível, nunca, no futuro, rever aqueles anos 70 e 80 e ver surgir um poeta experimental com vida experimental de fato. Poucos chorariam, poucos gritariam; mas sim, seria assim.
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Como um movimento mudo, a morte de Roberto Piva alteraria o cenário da poesia nacional à margem de cachês, capas duras e outras babaquices necessárias. À margem das hipocrisias do mercado, suas visibilidades extravagantes e burras.
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Sumira o último poeta sincero, não contaminado pelo Profissionalismo, cuja poesia vazava a partir dos hemisférios profundos, dos ecos visionários de uma legião contestadora, ainda não capturada pelo mercado e seus afluentes vampíricos. Porque o Piva foi coerente na sua incoerência, não se traiu para ser o Intelectual do Ano, preferiu chamar-se de Intelectual do Ânus e viver íntegro na sua vertente socrática, rebelde e muito bem realizada. Construiu sua poesia em doses xamânicas, turbilhonantes e avessas a todo Ismo.
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Naquela noite, eu pensava em "O século XXI me dará razão" e aquilo me atormentava.
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Aquele era assunto sentimental demais, não adiantava chamar amigos para conversar. Era mais de meia-noite quando saí de casa e fui caminhando pelo centro até a Cidade Baixa, onde busquei o bar certo para beber sozinha três cervejas pretas em homenagem a ele. Entrei no Vila Acústica, onde a cerveja é barata e onde adolescentes, cabeludos do passado, marginais e outros sedentos heteros e gays não encontravam melhor para fazer. E lá fiz a primeira versão do poema que apresentei na homenagem dos Dionysios.
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Foi difícil falar esse poema de três páginas, muitos palavrões e purezas, íntimo como um suspiro, feito para me aliviar. Falei com tanta verdade que agora, dois dias depois, já passou. Passou esse tremor interno que a gente esconde por timidez e também pode ser chamado, às vezes, de felicidade. E quase sempre vem de uma indignação. Ou de um amor cortante. Agora, só de falar nisso, um pouco desse tremor voltou. Quando ele passar, eu posto aqui o poema.