domingo, 3 de junho de 2018





enciclopediáveis / colagem e acrílica 50x50 / 2018








estudos Imagine Magenta I / acrílica, carvão & oilbar sobre papel acrylics A3 / 2018







No fumo esvoaçante das melodias
descanso das idas ao ônibus onde
esperam gatos mortos e as velhas
avós tricotadeiras.

Passo pelos campos de névoa e pesadelo
então um dos gatos, o menor, explode em unha
− não o convidei para a cantoria
quando o samba ardia sobre os telhados.

A pele se adensa de suores
ao lembrar do brinquedo de lã, a bola
que dele roubei
para fazer uma manta
− echarpe de bailarina
entre rodas.

e antes que ecoasse mais um
milímetro de som
aperto firme
o botão do controle remoto.







me deixa eu ser assim, só um pouquinho modernista 
(processo) / óleo e bastão oilbar sobre tela 50x50 / 2018







de dentro da matéria escassa: braços, ossos deslocados. de dentro da matéria escassa vai sair um som. tímpano, ouvido médio, tambor. não, uma banda. vai sair a orquestra dos pequenos seres cinzas espalhados em cima da tumba. lá dentro. quando quiseres sair, estará fechado, roncando. e o pôr do sol aquecerá as crianças que brincam de roda, em cima do grande morro. onde seres se reluzeiam. tu assistirás ao espetáculo em cabine especial. sim, o som inédito. o branco em branco se confundindo. tu serás o único participante, único pagante desse ingresso caro-caríssimo. e quando gramíneas começarem a crescer ao redor, já não haverá figuras senão formigas. grama verde vai jorrar em cima do teu corpo. e mais e mais cigarros serão queimados pelos transeuntes. pelos acidentes, pelas lotações. nada disso será tua matéria, nada de homens presentes. senta-te calmo, já vai começar.









meus petróleos, monotipia & serigrafia sobre páginas de enciclopédia



Um cálice eterno − eternas férias.

Voos de percevejo por debaixo dos colchões.
Areia movediça em sons e fúrias do sono
sob meus pés que abrasam no peito
o vexame de ter dito améns.

Etéreo milho
estalando por entre os joelhos
que ainda com os pés me pisam
no sono-verdade dos tempos

em tempos se abrindo e fechando
a matéria de noturnas horas.

Pelas paredes
tudo me pesa
a matéria mole-dura de minutos
desgasta-se em sons
e fulminantes figuras de
baratas amarelas entre cartas
nadando no pó ora líquido dos passados.

O sentido eu não invento − espreguiço.




* nova versão para um poema do livro Desconjunto.

segunda-feira, 14 de maio de 2018





Aquelas noites, lá em casa, você tocava bandolim, nós nus, levantando na manhã dos outros para beber as garrafas finalmente geladas; as suas palavras de flauta, o ruído da rua e nós dois nus, ainda, inventando anestesias para o todo do minuto.

Você tão novo, os cabelos cacheados, a nenhuma barba, sua vontade de pôr em pauta tudo o que compunha num piano censurado, suas aventuras, a mulher casada e os causos do seu corpo, os seus dedos suaves como brisa em brasa.

O seu casaco de lã debaixo de outro casaco, a dúvida entre os dois, você geada, você simples como não saber de nada, nós dois colados esperando anoitecer para comprar um baseado com os guardadores de carros.

Você raro, taurino, astral, suas visitas em meu quarto sem cama, só colchão, a lembrança do bom sem não de noites ainda com seu nome por saber, sua corrente que eu tinha que tirar antes que tudo, senão não podia mais te ver, nem suportar, você um brega meio bom, com sinais ancestrais de lua cheia e algum mar.

Você surpresa no silêncio, os discos de presente, as destinações, sua língua ausente de qualquer palavra, a sacola na mão antevendo latas, você no lodo, seu sorriso, na outra mão o case, demônio, você não servia para o caso, sorria, seu vício de trocar todos os cds.

Você sentado ao meu lado, nós no banco de trás, as pernas se grudaram, alguém poderia ver, minha face fascinada pelo seu sotaque meio rindo, meio me cantando, você pôs os pés no que eu sonhava, um dia, planejando tocar cabelos mansos, a sua pele bronzeada pelo lado de dentro.

Aquelas noites, mensagens visualizadas e nunca respondidas, você uma clave, nua, partitura indecifrável, os anos se passaram, você não trazia mais cds, tinha tudo em podcasts que não rodavam para nada, você desafiava o tempo com sua pouca roupa, a barriga saliente, no quarto há mais do que uma cama, você preocupado com uma tradução do grego, nós colados como papéis à mesma parede úmida onde um dia alguém deixou um murro. 










andamentos








Caguei verdaccio,
bem no meu aniversário.
O cago saiu assim puro, malcheiroso, uma mistura
perfeita entre amarelo ocre e preto de marte.
As zonas de sombra, onde a merda se concentrava,
contrastavam com a aoréola de luz
que circundava a figura.
O fundo está perfeito, pensei.
Tudo eficazmente delineado.
Se precisasse disso numa tela...
E para que seria?
Por que isolar assim arte e vida?
Caguei verdaccio,
uma verdadeira base
para a primeira camada da obra prima.
Assim, de repente, bem no meu aniversário.

Num ato radical de desapego,
devo puxar a descarga.
Essa é a primeira vez em que vejo
um verdaccio alla prima,
paradoxo pictórico,
completo, perfeito, pintura de musgo,
tela diarreia.

É assim a arte dos nossos tempos.







dos diálogos suspeitos e apócrifos de Platão | múltiplo em A4 produzido para a exposição Reunião do Clube do Múltiplo, Museu Victor Meirelles



sábado, 31 de março de 2018





Multidões de trovões
e no peito
            um Stalingrado.

Há ferros na fala a céu aberto
nas telas absortas
entre o torto e o sonso
desse ódio com a pólvora entre os dedos.
                
                - E a cobra viva no Rio
                contra o coro do mar.       
                - E o mar
                contra o ovo da serpente.

As manchas no céu estanque
são dos  mortos e seu levante 
       de Lázaros doloridos 
       contra a corda vibrante do abismo
com suas vísceras expostas
       
E vemos
seus versos arremessados
como sobras e soçobras de coisas que não esquecem.

Não esquecemos.
Há toada de trovões 
            - e, no peito,
            um Stalingrado.

Sentinelas desses corpos, somos o som dessas janelas 
fechadas com estrondo -
de repente empurradas a punho e a trovão -
driblando abismos.

Temos o que precisamos.
Derrubamos um silêncio 
                            de tocaia
                            de tambor
à espreita da derrota definitiva dos Esses-esses.

                            E não esperamos.



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

sábado, 3 de fevereiro de 2018




A cobra preta na trilha para Naufragados. À distância, era como um sinal vermelho. Paramos. Ela reluzia azul. Cruzou a trilha devagar, escalou o barranco coberto de mato, quase desapareceu. Quando nos movemos, ela se mostrou num tronco, enroscada, lá em cima, gargalhando do nosso medo. Não sabíamos que era uma muçurana, desconhecíamos a existência da cobra do bem. O catolicismo com certeza incorreu no mesmo erro. Reluzir azul tem certos matizes que quem vê tamanho, nem imagina, coração. A cobra preta era do meu porte e perturbou com a sua suntuosidade o nosso caminho, nós ignorantes da sua boca capaz de engolir outras cobras, até uma jararaca inteira, e sem nem mastigar com seus dentes de dez centímetros. A cobra grande comedora de venenos, que tira da trilha a ameça. Aquela era incapaz de qualquer maldade e, no entanto, nos assustou. Mas tudo o que paga, também cobra. Passamos. 



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

 





Texto publicado na revista ArteSESC 22.


Em julho deste ano, estive em Pernambuco através do circuito de oralidades do projeto Arte da Palavra, apresentando o trabalho “O sono de Cronos na minha barriga”, uma performance de poesia falada, construída a partir de experimentações literárias em campo expandido. Entre estas, um conjunto de vídeos, que foram exibidos como abertura do trabalho ao vivo; e também o exercício de construção poética em ‘outras’ linguagens artísticas, como a pintura. Foi principalmente a partir dessas experimentações que o conceito da performance se formou e que alguns dos textos vocalizados foram escritos e rearranjados para serem apresentados a viva voz.
Encarei como um desafio e também como uma responsabilidade falar poesia em um estado que é o ventre de tantas manifestações culturais importantes, especialmente na área das poéticas orais, levando um trabalho cuja forma é diversa das práticas de matriz folclórica, apesar de partilhar com estas muitos elementos comuns. “O sono de Cronos na minha barriga” também trazia consigo as marcas de uma pesquisa sobre modos de escrita e de escuta empreendida no âmbito das artes visuais[1], a qual o contaminou com a vontade de colocar em contato a palavra-vento, leve e passageira, plena de sonoridades, e o livro-fardo, ou seja, a tradição erudita, que apesar de, de fato, pesar em nossos hábitos literários com a densidade de um cânone muitas vezes questionável, pode ter também a leveza de uma biblioteca infinita, plena de novas leituras e descobertas. Logo pensei que Cronos, o deus do tempo, devorador dos seus próprios filhos, pudesse pegar no sono, um sono pesado, não apenas para que Zeus restituísse os seus irmãos à vida, mas também para que nesse intervalo, nesse lapso, pudesse ainda renascer outra devoração: a dos antropófagos cantantes e dançantes louvados por Oswald de Andrade e até hoje vivos nas selvas verdes que ainda nos restam e nas selvas de pedra das nossas comunidades, resistentes pela força da sua estratégia poética, de sua presença corporal. Então Cronos, esse deus greco-latino e masculino, poderia dormir “na minha barriga”, aludindo, no trabalho ao vivo, ao corpo feminino que gera a vida e à poesia como “mãe das Artes / & das armas em geral” (Torquato Neto). Uma reflexão sobre a voz poética acabaria então por trazer consigo um questionamento sobre o que é propriamente o tempo e se ele é neutro ou traz consigo determinações das especificidades culturais, de raça, classe, gênero e ancestralidade.
Em duas das quatro apresentações (que aconteceram em Triunfo, Serra Talhada e Petrolina), esses temas foram levantados pelo próprio público, o qual, além de inferir elementos pouco explícitos no trabalho, formulando uma série de perguntas, também me brindou com suas leituras e sugestões, motivando-me a repensar o meu trabalho através desse desvio proporcionado pela escuta ativa do outro. O resultado dessa experiência foi a confirmação de que a diferença da forma final, o contraste dos hábitos de fala, dos sotaques e dos modos de apresentação da poesia no fundo jogam mais a favor do que contra a identificação do público com a performance literária. A palavra-vento da oralidade, não importa se apresentada nas roupagens do livro-fardo ou da tradição folclórica, tem a capacidade de unir escutas e promover pontes também entre gerações, já que a apresentação com maior aderência e envolvimento do público teve na plateia principalmente jovens. Os textos mais experimentais e não lineares foram os mais comentados por eles, que fizeram questão de tocar, ao final, nos objetos cênicos e sonoros utilizados durante a performance.
       
Esse tema da poesia falada vem me acompanhando aqui e ali desde que eu tinha a idade do público adolescente, que foi quando comecei a me aventurar a praticá-la, e levou-me a realizar diversas leituras, culminando no doutorado, no qual abordei a relação entre poesia e performance a partir da obra de Ricardo Aleixo. Aprendi que as hibridizações são próprias da poesia, desde suas origens; que a expressão “literatura oral” comporta algo de redundante (Walter Ong), e que a própria leitura de poesia, ainda que silenciosa, contém uma experiência que é da ordem da performance (Paul Zumthor). A ideia de uma poesia “em campo ampliado” (Rosalind Krauss), por sua vez, vem acompanhando tentativas de compreensão da poesia contemporânea, na qual a intermidialidade é um dado recorrente. A performance poética ao vivo comporta um grande número de camadas fruídas ao mesmo tempo (texturas vocais, uso de imagens, presença corporal, objetos cênicos e sonoros, determinações do espaço da ação, interação, etc), que faz com que esse evento não seja apenas um modo mais atrativo de apresentação do texto escrito, mas também um trabalho artístico que tem consistência própria, sem perder os laços com o que há de propriamente literário em seu acontecimento.
Os três livros de poesia que publiquei foram antecipados por performances, de modo que esta se configurou, no decorrer dos anos, numa espécie de modo de escrita, para mim. Nas múltiplas oficinas que ministrei, muitas delas para o SESC/RS e o SESC/SC, percebi que esse método criativo pode funcionar como um facilitador da comprensão de elementos próprios do poema, inclusive no seu aspecto técnico, como o trato rítmico da linguagem. Em Desconjunto (IEL, 2002) e Rumor da casa (7 Letras, 2008), entretanto, apesar do cuidado e do apuro dos profissionais envolvidos no design gráfico, senti um certo descontentamento com a materialização do objeto livro, que eu sentia não traduzir de modo eficiente esse conjunto de dados presenciais que, nas performances, compõe uma complexidade de camadas. A falta que eu sentia podia ter relação com a formulação do poema por escrito e com elementos pré-determinados do campo livresco (o livro-fardo). A partir de um determinado ponto, senti a vontade de estudar o campo das artes visuais, relacionado com a poesia tanto pela via da performance quanto pela da publicação. Depois da água (Nave, 2014) já foi realizado em paralelo com esse estudo e contém um conjunto de fotopoemas realizados em light painting[2]. A performance “O sono de Cronos na minha barriga”, posterior a esses processos, também é, de certa forma, uma continuidade deles. São vocalizados poemas desses três livros, além de um conjunto de textos cujo processo de escrita é também desentranhado das experiências de pesquisa sobre a poesia no campo expandido. A própria ideia motriz do trabalho surgiu de experimentações desse tipo, incluindo apropriação de impressos.
Foi com o objetivo de angariar material para uma série de pinturas-poemas de 2013 e 2014 que comecei a coletar, nos balaios, um conjunto de publicações "decaídas", ou seja, que não têm valor comercial quase nenhum, e de cujas páginas eu me apropriava para criar situações que, nas telas, pudessem desviar e redimensionar os sentidos de origem dessas publicações. São livros que se tornaram obsoletos por algum motivo: didáticos ultrapassados, romances obscuros, fascículos, volumes soltos de enciclopédia. Encontrei preciosidades em um baú de R$1,00 de um sebo. Foram produzidas cinco telas com a participação desses materiais, entre grossas camadas de tinta, objetos e formas acumuladas umas sobre as outras no suporte. 
Entre os impressos que coletei, chamou a minha atenção uma série de fascículos que abordam a história brasileira, seus “heróis” e as disputas do período colonial, com o título de "Grandes personagens da nossa história", além de um grosso tomo da Enciclopédia Britânica. O fascículo "Jerônimo de Albuquerque" trazia a história do patriarca mameluco, o primeiro a ganhar o título de “cavaleiro fidalgo”, que me remeteu diretamente a Oswald e seu Manifesto Antropófago. Os Albuquerques foram uma família fundadora, comentada por Paulo Prado no Retrato do Brasil, entre outros; José de Alencar, no final de Iracema, anuncia a vinda do Albuquerque que seria ajudado por Martim e Poti na expulsão dos invasores não-portugueses daquelas terras, após o nascimento de Moacir e a consequente morte de Iracema. O fidalgo mameluco está misturado com a própria fundação da brasilidade. Desse fascículo, saíram duas páginas que acompanham o vídeo que deu origem à performance “O sono de Cronos na minha barriga”.
Nele, utilizo também o volume da enciclopédia. “Cronos” é uma performance orientada para vídeo, de pouco mais de três minutos, em tempo-real, sem edição, na qual eu rasgo e literalmente como as suas páginas. Esse trabalho surgiu de uma performance de Paulo Herkenhoff, de 1975, na qual ele realiza a mesma ação com páginas de jornal sobre a censura no Brasil, em plena ditadura. Assim, repensei essa ação para os dias de hoje, abordando também a ausência de uma deglutição efetiva daquele manifesto oswaldiano, ou seja, a falta de uma problematização das práticas aqui consideradas eruditas, além da precariedade das instituições literárias em nosso país. A enciclopédia fala do que está e do que não está: é tanto o livro-fardo de origem europeia que tivemos que deglutir para criar uma cultura letrada no país quanto a ausência desse objetivo efetivamente cumprido, dado o analfabetismo funcional e as baixas médias de livros lidos pelos brasileiros. Ela fala também de um outro tempo, no qual havia a pretensão de reunirmos em uma mesma publicação todos os assuntos sobre os quais se tinha curiosidade. Em tempos de Wikipédia, de Google, e de fragmentação da realidade e dos saberes, não surpreende que esses lindos volumes ilustrados tenham parado nos balaios de R$1,00.
A devoração de um nosso “lado doutor, lado citações” pode continuar sendo uma estratégia de resistência às novas dominações impostas pelo retorno do recalcado que hoje vivemos, e também à compulsão bacharelesca que fundou muitas de nossas instituições culturais. Estratégia que inclui a presença do corpo e a consciência de suas potencialidades. “O sono de Cronos na minha barriga” é ainda a reivindicação da participação do feminino na construção de um tempo de poesia, que é sempre tempo de vigília, ou de despertar.



[1] “Entre o vento e o peso da página” é o título da pesquisa, realizada como estágio de pós-doc dentro do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UDESC, universidade onde atualmente trabalho como professora substituta na área de pintura. A pesquisa é supervisionada pela artista e professora Raquel Stolf e propõe um processo artístico calcado nos contágios, diferenças e assimilações entre a palavra-vento e o livro-fardo.
[2] Fotografia realizada em baixa velocidade, no escuro, na qual se “pinta” com a luz.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018




Pus arruda até no chimarrão,
e vocês não saíram da minha cabeça.
Pus os pés no pensamento para dizer tudo
o que imbecilizam. E não escrevi nada.
“No que você está pensando?”
O gesto meio rock sem
saudade dos anos noventa
quando éramos todos fora fhc
fora fmi e de mim ninguém dizia
que era aquela, aquela que foi presa,
na feira, aquela clara,
meio gorda, meio magra,
ah, sim, a loka da serigrafia,
uma que faz filosofia, a que tem
uns cabelos assim assim
e nunca vem com a gente? Que nada,
ela estava ali na frente, mesmo agora,
sem saber no que estávamos pensando.
Passeavam passeatas para todos os lados,
bombas, frutos e socos revolutos
mas apenas em muitas linhas
e eu dizia comigo mesma:
“Deus-me-arruda, não-me-arruda”
“Deus-me-arruda, não-me-arruda”
porque pode ficar pior, e
essas linhas não são de ônibus,
não andam a pé, não sobem morro,
são só vozes que às vezes pedem
pouco mais de muitas malandragens
para pôr na sopa. Já não tenho saudade
dos fora dentro, e dentro fora,
no museu da minha mão. Aqui eu acho,
quando não quero, tantas correntes
quanto as rugas dos velhos ismos.

















Pinto com o que sobrou de tinta
no fundo da tigela.
Pinto com os restos
dessa voz desconhecida.
Escrevo palavras deixadas ressoando,
vestígios de um corpo que passou.
Suas linhas desenharam no chão
uma estrela incompleta, reta e transeunte.
Pinto com as manchas que fincaram na mesa
pinto o meu poema velho, pouco vinho do porto,
nada vinho da madeira, azedo,
carcomido pelos cupins, sujo da merda dos morcegos
que sobrevoaram a noite
de uma sala inconclusa.
Escrevo com o cuspe de palavras que eu não disse
e que nenhum milico usou
para limpar suas botas.
Então grito a dor desses sussurros.
Imito o som guardado de orgasmos aguados, aquarelas,
pinto no fundo da tigela
uma luz de estrela estremecida
que sim, agora sim, se completou
na borra do café, no prumo da manhã.
E faço amor com o resto das plantas
de um jardim destroçado, depois do fim de jogo.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017






acúo / cartão postal / em colaboração com Juan Manuel Terenzi / 2017

integrou a exposição Entre o vento e o peso da página
na sala de leitura | sala de escuta do Departamento de Artes visuais da UDESC.




sábado, 21 de outubro de 2017




Onde a ilha se encontra com o mar, no ponto extremo, há um conjunto de rochas e pequenas piscinas calmas, em movimento. A ilha tem a forma de uma vagina e, nesse caso, a morada das ondas batendo nas pedras deve ser o seu clitóris. É lá que uma mulher se sente à vontade para deitar ao sol sobre a superfície rugosa de um rochedo que respira há bilhões de anos. Ali, a mulher observa os fluxos e as poças mansas que se formam depois da extremadura. Ouve o farfalhar das correntes serpenteando as pedras baixas, movimento contínuo de uma água que já baqueou, cantou raivas e, depois, sossegada na areia larga, volta ao seu turno, unindo-se à montoeira de mar que ali espera mais um trunfo do som do movimento das espadas.  Nesse lugar, uma mulher pode parir e matar bem as suas crias em apenas um segundo, pode meditar e se dizer adeus e tornar a acreditar em um deus desconhecido. É ali também que os namorados se encontram para selar o seu pacto, mas a mulher não tem impacto sobre eles. Deitada sobre a pedra, agarrada ao seu eu profundo de movimento e gozo, ela vê os picos das rochas se erguendo ao céu e sabe que é ao mesmo tempo feminina e masculina. Vê os peixinhos minúsculos vagarem pelas piscinas calmas e sabe que não têm filhos os oceanos e as marés, e os ventos que se precipitam sobre o seu rosto são carinhos afoitos ou então impulsos que erguem as pernas dela, que agora apoia os pés na pedra. Então, em posição de parto ou de orgasmo, aflita, ela se entrega à lua que ainda não nasceu, mas já aparece vaporosa por sobre o horizonte de ondas.  Uma mulher é uma mulher é uma mulher. Nada pode detê-la. Ela corre sem pés na relva serpenteada de conchas e areia grossa. E xinga os pescadores e ri com eles e os desova. Ela atrai com seus cabelos o choro de uma criança. Uma mulher é uma mulher é uma mulher. Ela é ríspida como quando o tempo vira. Sua cabeça respira o amanhecer e ela se sente completamente vazia. É assim que é plana, sem necessidades. Agora as ondas se acalmaram e a espuma abranda. Ela acende uma fogueira com o seu isqueiro e ali queima, um por um, os retratos dos antepassados.



segunda-feira, 9 de outubro de 2017



Me deixe dormir de olhos abertos.

Áudio instalação para a porta da sala de leitura | sala de escuta, do Departamento de Artes Visuais da UDESC.

Trabalho que integrou a exposição espécies de escutas, proposta pela artista e professora Raquel Stolf, em 2017.

Ouvir.






quinta-feira, 28 de setembro de 2017





insônias. ela ressoava. trovejando um pouco, gotejando,
tateava. encontrava no escuro o vinho, morno, de língua.
ela traquejava, entrava em surto de mistério e ismo.
então: insônia?
horas passam rápido frente a telas com palavras,
páginas entreabertas.

fechando os cânceres do malgrado
ela refazia os tecidos
tecidos de gatos e lembranças de luzes
em meio às nuvens que eram –
indubitável! − de algodão-doce.
então girava frente à música que ela mesma soava.
os braços saltantes, saltitantes, saltimbancos –
roda mundo, roda gigante.

e ela repetia o mal dos ritos,
das profanações, templos gregos, que tudo era fim e início.  
insondável era seu dormir entre tantas
tantas imagens de cores desgastadas
camisas puídas
e o contar dos trocos na bolsa. e cigarros amassados em meio a:  
batom, notas fiscais, até pente.

no meio da sala
em meio ao som que impulsionava os braços a girar
uma pequenina aranha entrara dentro do sutiã.
e ela apenas rodopiava! ninguém viu o aceno
o acento
do sentir andar sobre a pele          patinhas          acariciando
as pintas
que giravam giravam giravam burilavam.
foi feio ter que lavar
o resto
de carne moída
sobre os seios.

e expurgava.
insônia?
três banhos quentes
dois cálices de vinho
cale-se.



poema do livro Desconjunto, 2002, revisitado em 2017.








quinta-feira, 14 de setembro de 2017




ele achava que família era igual a um carro grande,
e caro,
no qual ele entrasse como em uma blusa nova.


ele achava que jamais existiria
qualquer coisa macia 

fora desse nó de gente,
gente igual
gente amara
que amargou os mesmos traumas.

mas ele focava no carro, na luz, no gozo do metal tinindo,
e nas fotos que faziam
em natal e aniversários,

eles sempre mais potentes, o prazer do desempenho,
o penhor dos pundendos, as putas, as promoções.

ele queria ser um Deus, um Pai, um que Pode.

por isso, precisava cortar os cabelos regularmente
e ouvir e ser amável
e saber comprar presentes.
precisava de secretárias e saber guardar segredos

principalmente os mais fundos
os mais falsos, os físicos,

os futuros valiam mais do que todos os ais.

ele tinha um emprego
na companhia de seguros

e assegurava possuir a namorada
plenamente loira
nas horas de diversões nas quais
seus amigos importantes
importavam putas
desde rio de janeiro

maravilhosas, mais brancas, mais fogosas
menos garota da grota
menos pé de laranjeira, menos sardas, menos barriga
a cintilar depois do almoço de domingo.

mas elas eram lolas e eles lisos,
sem se importar com o loló que vem depois.

ele era amigo do que só podia ser, porque
não cabia noutra parte.


se partia, se tivesse que partir.

não pertencia senão a esse corpo que sempre só diz sim,
obrigado, por favor, faça-se.

hoje ele é um fantasma
que faz farra com seus carros importados
na frente de todas as portas
que passam fome e fumam.

ele é o que coube, e soube, e então dirige
os fuscas do futuro e os passados,

ele Pode, é Deus, Pai,
Pôncio Pilatos.

fez família, filhos, fundos de investimento
e fundações culturais.

se falam a palavra “puta”, não lhe serve,
sorve as pausas entre cafés e funerais
para acumular em suas contas
a cor branca,
as mais de quarenta brancas manchas
que um inuit vê nos seus jardins.

mas ele não sabe o que é inuit, a noite é grande,
e há que se ter família, porque enfim.

e família é igual a um carro grande,
que se veste com vestido branco, sem vulto de vulva,
sem vacilo,

senão não tem vintém,
não tem ninguém,
é nulo.

eu o vejo hoje, fantasma,
a aparelhar os sindicatos.

são tão tapados, os coitados, que quando veem um carro grande,
um Cristo, um ‘credo que terno mais bonito!’
não veem seu lado aflito.


se ofuscam
e fundam associações pró-fuscas.