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terça-feira, 11 de outubro de 2016
vá de retrum, retrocesso. você pensa que tudo pode, mas esqueceu as janelas abertas, qualquer um pula para dentro do seu centro.
e depois, puxe a cortina. veja daqui mesmo onde picharam o seu nome no espelho do olho da rua.
vá de retrum, retrocesso. que eu aqui sei do meu bote.
comprar mais um pouco de paz, seja com gin ou com ginástica, planejar parricídios e prestar-se ao trabalho de parto, isso ninguém quer.
não é apenas porque sou mulher, é porque os muros são falsos e os passados passam mais rápido do que se imagina.
depois voltam com cheiro de estar por cima, mas não. nem acima nem abaixo.
é de retrum, vá de retrum.
não compro amor fabricado na china. nem embarco em barcos furados. também, não importa, esses portos se desfazem com o primeiro vendaval.
e há porcos e vendilhões de templos em todos os espaços parados.
por isso, avante.
e feche a porta, adiante, que ninguém tem mais tempo não.
você chegou atrasado, retrocesso. já até picharam e mijaram em você por todos os lados.
e tá na hora do meu almoço, agora.
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
domingo, 9 de outubro de 2016
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Em meu bolso, um resto de chuva. Guardo-a por
bilênios. Como tirar do bolso ─ sem molhar os transeuntes. Devoram a água aos
montes.
Há um cão escondido entre os meus seios. Fica
aqui, sossegado, comendo instantes. Alivia-se em estantes, trás de livros,
traça e mofo. Às vezes segredo. Às vezes esgoto.
Tem borboleta também. Voa e volta. Basta o
toque dessa mão na minha mão. E escorro no risco dos rabiscos.
Ressuscitando renúncias.
Por exemplo, Peter Flötner, 1542. É dele a
gota que faltava. A do fantasma. Essa mágoa que se põe a nu, de braços dados,
inundados. Água que corre há bilênios, cinco séculos, ou quase. É o que a
poeira e a culpa não poupou. O temor dos transeuntes. O coaxar do meu cão. O
poder de dizer não.
domingo, 25 de setembro de 2016
o corpo se inscreve no corpo como dança ou doença, como demais de amor inacabado pelas frestas do dia em que tipos e cismas azuis, vermelhas, negras, amarelas, teimam em ocupar o espaço da página, como sulcos de instantes onde o caminho de casa se enriquece de tomadas da mesma face sob a infinita luz da madrugada.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Ortned é um rei sem reino. Ele vive às espreitas, um rei nu e sem vídeos na internet. Um quase desconhecido pelos seus súditos. E desconfiado. A cada margem de erro, a cada marca no papel, a cada gesto despercebido, Ortned vibra do outro lado do mundo, Ortned se infla sem que ninguém proteste. Suas leis, por isso, sempre se cumprem. Ortned gosta de calar os instantes, os bobos pensam que são muito e falam, falam, falam. Ortned guarda todas as informações. Depois vende para outros reis desconhecidos, e os sujeitos passam a ter dor de dentes. Há estragos em máquinas de lavar e pequenos tombos. Ortned também é a salvação das situações mais aflitivas, quando há lapsos entre aquilo que as pessoas sentem e o que se pode pensar. Orned mora naquilo que é informulável. Por isso, para reinar não precisa de formulários, carimbos e requerimentos. Basta um momento para vê-lo, majestoso, quase sem seguinte.
sábado, 10 de setembro de 2016
E o quê e o ukiyo-e,
às sete horas da noite. O que o ukiyo-e às sete horas da noite? É tarde, é
noite, é hora de gravar todos agravos nesta gravura de horas. Neste dorso do
tempo, tigre deitado, rosnando, tigre quase um gatinho de cócoras sobre o muro.
Mas a noite sabe. O que sabe o ukiyo-e sobre a sobra que sobra nesta sombra de
muro? A casa é espanto. A casa é murada de ruídos. A casa é morada de espíritos
que sobem e descem escadas, o som dos seus chinelos, seus gritos, seus uivos,
sua televisão. A casa não quer cuidado nenhum, quer as sobras, quer tudo o que
sobra de nós. Ukiyo-e é a sombra transitória, nós passamos, não resta nem
sombra. Estamos ligados nas tomadas. Somos as sobras de nadas nadando entre
madeiras, pincéis, entre os dedos do gravador. Também ferimos, como goiva e
buril. Também cortamos o assunto. Também unimos nosso silêncio aos sons de
séculos passando sem vizinhos na casa vazia. Vocês não veem que somos
esqueletos? Sobramos apesar de tudo. E apesar das goivas e formões formamos um
uníssono que só se escuta quando quando, quando longe, quando então, usando
algures e algas, quando no céu se dizem amém, amém, amamos. Nós nunca nos
dizemos sem tinta preta. Nós não acreditamos em Deus, só colonizamos. No
entanto nos guardamos para o paraíso e enquanto não temos mais o que fazer,
fazemos. Fazemos amor com as cortesãs de Yoshiwara. Fazemos glicínias, rosas,
púrpuras, toaletes maquiadas, fazemos matriarcas caírem a zero. Porque nós
somos o insulto. Misturamos os insumos e o que o ácido não queima também não
verga a madeira. Não subimos para fazer visitas, não tomamos chás, não queremos
bolo em pratinhos oferecidos durante a tarde. Para nós é sempre tarde e sempre
tarde para saber. Sombreamos o traço mesmo quando nos chamamos, e quando nos
provocam, então, aí somos Marte e Vênus. Temos céus na boca, registros,
coleções de latas, e somos sem perdão. Porque passamos assim, como as cédulas
de mão em mão, ganhando bactérias, perdendo tempo, perdendo o que para vocês é
tudo e para nós só suma luxúria. Gastamos com nozes, rolos, caldas, caramelos,
chocolates e tesouras. Não fazemos maiores alardes, mas é assim, na impermanência
das poltronas que nós mesmos nos prensamos.
poema publicado no jornal Qorpus / UFSC
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
sábado, 27 de agosto de 2016
direção e edição de Danielle Sibonis
poema do livro Rumor da casa (7Letras, 2008)
filmado no Castelinho do Alto da Bronze (Porto Alegre) em 2010
você soa como brisa, vulcão ou ventania?
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desvelo um vulcão vazio
amarelo
breve como o tempo de voltar
para ver a página limpa
- e um vulcão se espalhou com o movimento
da mão sobre o nada que é sempre
mais que branco.
um vulcão preenchido
pelo vento espesso que preenche
o nada da mão.
velo o tempo todo, como quem não
existe, pois o que há é só
um vulcão vazio, o quase que
espesso
se abisma
nos vincos da ventania
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
tudo parado na tarde solar.
céu prenúncio.
braços de árvore balançam,
a nuca do pássaro fugitivo
se esconde entre manchas.
céu nenhum.
o avião parasita os espaços de quase.
é de guerra. é de sopro. é avulso.
o avião agulha.
uma queixa muda a do menino
quando olha através.
vira a página do livro.
não querer voar nesse céu
é dom.
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
Caso palavra com palavra
e não consigo escrever.
Vou à praia e
o mar é só o mar, areia.
Sinto um tédio de as coisas serem coisas
e não durmo
rasgo palavras
Sinto imenso na manhã com café preto
Caso palavra com palavra
arranco cabelos
Meu doido sumir se atravessa
digo e rasgo
digo e rasgo
digo e rasgo
muitos filhos
terça-feira, 2 de agosto de 2016
da linha do tempo de agora, de dois de agosto de 2016 às 15h.
apropriação e manipulação de imagens.
mais na página: https://www.facebook.com/dalinhadotempo
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Agosto 2016
Julho 2016
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10 truques para reviver suas coisas velhas.
Fevereiro 2016
Janeiro 2016
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segunda-feira, 11 de julho de 2016
Formação de onças habita o quarto.
Digo rápido me esqueci um detalhe de rotina.
Não há tempos entre nós dois.
Somos um pouco de nada, assim jogado na areia
esperando que os dias mornem.
Mornar: parar o tempo em uma formiga.
Ser memorando. Aquilo que se diz depressa. Pura informação.
Tampar: tentar com pouco tino dizer o memorável.
Tempar: tampar com água morna todos os cadáveres.
sexta-feira, 1 de julho de 2016
Hoje tive alguns pendores
com aquela Ana Cristina.
Ana Cristina era persona.
Eu, personne.
Ela, cansada de ser homem
tirou luvas de pelica, delicadas
e foi chorar no banheiro.
Isso eu faria, não fosse porca.
Em Lajeado, uma porca matou homem.
Ela dava a luz quando acudiu o agricultor.
No culto da criação, ele era demais.
Ela devorou muito da sua carne.
Sobre o porquinho, ninguém falou.
Talvez por isso eu seja pouca
devorando cartas, maus poemas
e cassetes bossa-nova.
Quando me amansarem,
serei Pessoa nenhuma.
*poema do livro Rumor da casa (7Letras,2008)
domingo, 26 de junho de 2016
Para silêncio de cordas e nãos é
preciso ter o cuidado de não se mover. Se mexer esse braço, já estronda o órgão
suspenso desse quase céu. O tempo. Aqui é azul e por isso são abismos os
espaços do som. Para a dor de encontrar, não há remédio. O não é proferido sob
o sol a pino e então que tudo abunda. São tambores, fagotes, zabumbas,
trombones e trompas de falópio. São os sossegos que não regeneram. Para cima e
para baixo, há vida. Mas o sol se move. E a vida esquecida entre sons já então
se cronometra. Um leve mexer de mechas é o suficiente para sonatas inteiras,
intragáveis, a encher o espaço aberto. O corpo. Tão perto do calendário, o
peito, que só um cristão aguentaria. Ainda há jogos de paciências, há dedos, e
ciências na geladeira. Para ficar um pouco em paz, come-se o não com vinho.
Idealizam-se iguarias. Para a dor de encontrar, entretanto, não há remédio. Por
isso se samba até sem perna, sem braço, sem cílios que se abrem em abraços, sem
tédio, para a sina do silêncio de cordas e nãos.
poema publicado no jornal Qorpus, Pós-Graduação em Estudos da Tradução da UFSC, nº20.
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