sábado, 12 de abril de 2014






Fragmentos Flatbed

fotografias de uma tela em processo, 2014

ele me disse que era preto no branco, bruma de todas as manhãs, manha das esquinas, café em porcelana, fugas das fusões de figura e fundo, e nada mais.
respondi que o cinza às vezes acontece.

domingo, 6 de abril de 2014






o Senhor Censura de autoflagelou quando, de manhã, as páginas puídas de notícias anos 70 se desfizeram de zelo, correram assim feira livre, sinuosas e brandas com café e carícias por todas as esquinas desse país de passados rabiscados e palavras lacradas a chave e cisma, como lombrigas, na escuridão rútila dos dias verde oliva. todos os editoriais se distanciaram daqueles que corriam assim a là pasolini, e sem pausa.


segunda-feira, 17 de março de 2014

Exposição


Segue aberta até dia 23 a minha exposição no espaço Lindolf Bell do Centro Integrado de Cultura / CIC, em Florianópolis.

Estou apresentando fotografias que foram realizadas sob a estimulante supervisão da artista Maria Lucila Horn, que além de professora no Ceart/UDESC é organizadora do festival Floripa na Foto, que este ano ocupou todos os espaços expositivos do CIC, promoveu palestras e workshops com fotógrafos de alto quilate. Conheça o festival aqui.

Estou expondo dez imagens e um poema - ou, como prefiro pensá-los, onze poemas que fazem parte do contexto Depois da água. São experiências com light painting, ou seja, fotografias produzidas no escuro com o auxílio de iluminação manipulada por mim durante a longa exposição. Muitas das imagens são autorretratos, compostos assim, de maneira bastante performática na solidão da casa anoitecida.

O livro, que está atualmente no prelo pela Editora Nave através do prêmio Elisabete Anderle, trará um caderno de imagens no qual novas disposições desse trabalho fotográfico serão oferecidas aos leitores.






















quarta-feira, 12 de março de 2014

tapin²


O poeta francês Julien d'Abrigeon criou o site T.A.P.I.N, durante os anos noventa, a fim de divulgar poetas contemporâneos com produção constante e interessante dentro e fora do livro. Abrigando principalmente autores europeus e latino-americanos, o site teve um recesso de muitos anos e volta hoje sob a forma de tapin².
Conheça o site aqui.
Criadores de várias nacionalidades apresentam trabalhos de poesia fora do livro, principalmente em vídeo, performance e áudio. Com eixos e referências diversas, todos são poetas contemporâneos ativos, que produzem linguagens heterogêneas.
Uma honra poder integrar a empreitada com um poema sonoro, um vídeo (feito em parceria com Danielle Sibonis) e um registro de poesia falada. Confira minha participação aqui.


sábado, 8 de março de 2014




















Colagem, pastel, xerox. 2013. 21x29 cm.




Depois



Há coisas que não cabem
nos olhos da professora.

A bomba que retumba
na beira do mar:
impossível
aprender a olhar.

Depois: ser um corpo
ter a pele
andar sobre a areia.

Depois: ver o dentro
no escuro, rastro, dobra
ou seio ou imagem de sereia.

Como ensinar o tempo.

Há coisas que sobram,
lições soçobram:
só vendo, ou sendo.





















Estudo para estapafúrdio. Aquarela. 2013. 21x29 cm.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Vídeo Mundial Poético de Montevideo

Miniatura


A TevéCIUDAD, canal estatal uruguaio, realizou vídeos com os poetas que participaram do primeiro Mundial Poético de Montevideo, evento organizado por Martín Barea Mattos e equipe, em novembro de 2013.

Meu vídeo foi filmado na Ciudad Vieja. Apresento 3 poemas breves do livro Depois da água.

Assista aqui.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dois poemas transcriados em espanhol por Juan Manuel Terenzi


Por ocasião de minha participação no Mundial Poético de Montevideo, em novembro, surgiu a necessidade de traduzir três poemas de meu livro Depois da água para o espanhol. Esta foi a provocação inicial, que acabou se ampliando para um número maior de textos e gerando um processo generoso de descobertas e alegrias tanto para o tradutor quanto para a autora. A transcriação foi realizada com esmero por Juan Manuel Terenzi, cujo talento e preciosos insights embelezaram as versões.

Hoy no salió
el sol.

Se me fue
mi otoño.

Hoy el sol
abrió sus arenas
en las venas
de mi cama.

Tan tristón
tan sin vez.

Se me fue
el eco
del desierto.

Hoy el sol
lagrimeó
un tango antiguo
olvidado.

No pasó de largo
ni bailó por el cielo.

Hoy el sol
papel e hielo.

Escalofrío de luz
en el epicentro
del silencio.

Hoy el sol
es un son

de adentro.


Hoje o sol
não saiu.

Sumiu
de mim
meu outono.

Hoje o sol
abriu suas areias
nas veias
da minha cama.

Tão tristonho
tão sem vez.

Sumiu 
de mim
o eco do deserto.

Hoje o sol
chorou
um choro antigo
violado.

Não mirou de lado.
Nem andou no céu.

Hoje o sol
é de papel.

Arrepio de luz
no epicentro
do silêncio.

Hoje o sol
é um som
de dentro.


Juan Manuel Terenzi cresceu em um ambiente bilíngue: espanhol (Argentina) em família e português na escola. É graduado em Engenharia Química e em Letras Espanhol na UFSC. Atualmente finaliza o mestrado em Teoria Literária, estudando a obra de Juan Carlos Onetti, e cursa a graduação em Filosofia, também na UFSC.

Porque tu voz habla otra lengua,
pero tu boca no.
Tu boca profiere
lo que hay en las entrelíneas
y no se precisa.
Tu boca, del otro lado de la frontera
perfectamente mía.
Porque tu boca habla al sesgo
y no habla en lenguas.
No necesita subtexto
ni de vueltos devueltos.
Tu boca de vuelos, es loba.
El contexto es el lobo del habla, ladrón.
Porque tu boca es igualita a la mía.
Y nosotros hablamos. Sin embargo, nuestros ojos
se besan. Porque tus ojos vinieron de otro mar
y son míos. Tus ojos
filisteos, navegantes, estrellitas,
tus ojos dicen todo lo que ves.
Somos nosotros. Nosotros. Nós dois.


Porque tua voz fala outra língua,
mas tua boca não.
Tua boca profere
o que há nas entrelinhas
e não se precisa.
Tua boca, do outro lado da fronteira
perfeitamente minha.
Porque tua boca fala de viés
e não fala em línguas.
Não precisa de subtexto
nem de trocos trocados.
Tua boca de trocadilhos, é loba.
O contexto é o lobo da fala, ladrão.
Porque tua boca é igualzinha à minha
e nós falamos, entretanto nossos olhos
se beijam. Porque teus olhos vieram de outro mar
e são meus. Teus olhos
filisteus, navegantes, estrelinhas,
teus olhos dizem tudo o que vês no escuro.

Somos nós. Somos nós. Nosotros.


quarta-feira, 18 de julho de 2012




Réquiem para Roberto Piva




Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror
                                  Roberto Piva

Guarde-vos Deus; e que a Futura Divindade Tutelar das Estranhezas Irritantes vos assente à sua mão direita.
                            Fernando Pessoa




  




Sem as tuas imagens & miragens
o riso do xamanismo é água do Tietê.

Tu vais à margem do sorriso dos Burros
─ uma boa hora para morrer.

Fanfarra tuas asas de borboleta!

Pudeste evitar
a pilantragem dos pênis Politicamente Corretos.

Pudeste evitar
essa aragem de afagos em comércio
merda para o sustento dos Fracos & dos Covardes.

Merda para o Sustento dos Fracos & dos Covardes!

Esta é ainda a melhor hora para morrer
quando as margens do pensamento
são um rio de cocôs // restos do alumbramento /
negociando o seu último cachê
para o choro do Pai Xangô.

Bendita a voz extinta do último Cacique.

Piva: mestre dos alucinados
pai dos Sem Razão
apito das mensagens que mandam dizer
CHEGA.

Se não se pode servir a Deus e a Mammon
a poesia não mama em Ouros Pajés.

Por certo teus porcentos não davam.
Não chegavam para o tratamento.

E nunca fizeste nada que Jesus não disse:
 quando andardes por aí a pregar o Evangelho −
não vos incomodeis em levar nada nos bolsos.

Mas Jesus era um Velho e estava certo.
E sem nunca te danares com um Pai morto
foste Louco porque podias ser.

Não paraste para os cálculos vernáculos
de palavras sem Vênus, amores sem Ânus e
limpo limpo limpo
limpo da estupidez do tempo

não precisaste de alma sem Causa para te seguir.

O século XXI te dará razão
em suas varizes e preços e códigos de barras.

O século XXI não te deu sustento
porque seus momentos não iam muito além −

senão que aquém, bem aquém das calçadas
da tua cidade inventada:

desertos de virtude como se sobrasse algo
do pó de dentro das nossas cabeças.

O que pode perdurar?
O século XXI não me dá tesão

e eu quero continuar o teu tento
nesses anos 70 tão possíveis de criar.

Porque sem a Prática da Poesia não há teorias
e todos estão fazendo um excelente trabalho

um excelente trabalho um excelente trabalho

para sustentar seus vícios:
fome de regras ABNT
fome do teu nenhum cachê.

Manifesto meus profundos
obséquios condolências
àqueles que querem
te foder sem camisinha
na frente da TV
e jurar seus casamentos
─ cozimentos brancos do século XIX
como se fossem novos só às nove.

E quando te venderem em ópios
para o charme dos bonitos
em capas duras bem boladas

quando te beijarem em bonecos de borracha
no fuso horário de grandes editoras
tuas toras e bundas e ais de Kens
serão salários Profissionais

─ Que faremos? Te leremos nas escolas?

Oh santo pornô, soldado da Vida,
tuas ereções são verborragias / tuas bocas insanam
a sangria de imagens que satisfazem Sonsos.

Seremos publicados nos Anais dos que desistiram
Nossa Geração Que Não Fez Nada.

Índio Sábio do teu jeito
(Santo Cheio de Desejo)
se é que sabe ler a Chama ─ é porque não aprendeu

e zen, fez Pessoa passar pelos nossos olhos
também, num afago ─
─ isso é Magia.

Literaturas Adequadas e-books sangue frio
─ o Mar Morto das elites ─
singrando navios pelo Fracasso Linguístico
e suas Ondas comunicativas modas publicitárias.
Otárias
alquimias de borracha sustentam as suas cabeças.

Esse Extremo Excesso espanta as aves ─ mata
faz mudo teu canto, pelo menos por enquanto

poucos te choram, poucos te gritam, muitos
deixam para depois.
Mas o século XXII te dará razão.