segunda-feira, 6 de junho de 2016



Não necessito, não quero, não posso mais tirar palavras da minha mão para contaminar o mundo. Ao redor, há xícaras, lápis, bicicletas, quadros nunca concluídos, livros abertos e cochichos. Alguns sussurros ainda empilhados por debaixo da cola branca. Há poeira, duas toalhas e um pouco de café. O trânsito fica longe, e ainda assim há redes: de dormir, de sonhar e de falar, perigosas. 
As coisas mudas me agradam, como a presença nesse quarto de um cobertor. Estar ao alcance da mão é fazer parte de um mundo com tabelas de verdade, quando ainda não havia suficientes sistemas de segurança. Clareza é livre como acordar de manhãzinha e ver o mundo fluindo em direção a mais um sábado. É medieval e não pede desculpas.
Agora é impossível voltar atrás. Até as folhas das árvores visitadas pelos passarinhos parecem sofrer no excesso do que ouço desde a tela que sofreu os apuros da falácia. Doença irreversível de precisar preencher instantes. Palavras falam, nunca se aquietam, alongam-se sobre tapetes, bebem rum, acordam os vizinhos de madrugada quando não cabem em camas, ou em câmeras de 140 caracteres. Cobertor se molda aos calores de um corpo inexistente. 
Saber que há portas, imunidade de tropas, um xamã enterrado, esquemas institucionais e críticas ao pós-estruturalismo é tão frio como engolir limão. A hora errada se assusta fácil. E a mão toca barbas distraidamente. Barbas encantadas, azuis, caminhantes como as falas que contaminam o mundo. Aquelas que nunca se pintaram nas cores da baba antropofágica, e por isso pousam sobre o espaço sem a dignidade de xícaras, lápis, bicicletas, livros abertos e cochilos.
























Série "Na linha do tempo", 2016. Apropriação e manipulação de imagens compartilhadas no facebook.

segunda-feira, 30 de maio de 2016





As lágrimas vermelhas molharam o chão do Mercado Público.
As lágrimas eram vermelhas e ofuscavam meus próprios olhos, de onde elas vertiam, desconsoladas, para diversão dos aflitos.
Por onde eu passava, sofria a multidão. O povo, se não me saudava de canto de olho, pelo menos me dava um passo atrás.
Eram lágrimas de tinta, eram furta-cor, eram lágrimas amarelas que saíam de minhas lágrimas vermelhas e jorravam até o mar.
Eu fiquei parada no segundo andar do Mercado Público, vertendo-as sobre o vestido.
De branco ficou vermelho, e disto foi se mudando em tantas múltiplas cores que todos os pássaros revoaram desde mim.
E assim, cega vendo o céu, sem no mínimo querer, dei alegria aos que me viram, porque finalmente eu era uma pintura. A esta altura.
Eles cantaram, eu não cantei. Nós suportamos um pouco melhor a vida & suas dores destruídas. Ficamos bobos, ao lado, no lodo das cores, na curva lilás.
Eu sei que houve um momento, antes.
Era branco.

Por onde andava, ficava rastro de coisas que eu não via. 




*poema de Depois da água, 2014, revisto/restaurado.

terça-feira, 17 de maio de 2016




"A rota da fome", 2016, uma página dos meus cadernos de desenho iniciados em Portugal






assim cimento por cima abaixo andarilhos por entre cinemas do cotidiano por entre olhos expedicionários a legendária busca de nadas por dentro de objetos assim por entre enciclopédias de canto mais ou menos desprezível e por enquanto nada diremos da vida pulsa & geme os quarteirões animados as quadras de futebol e boladas de roubos por entre a multidão de anões estupefactos em seus peitos aguados não mais que estes olhos camuflados em disfarce de nada dizer e de fingir que não que não se sabe nada do que se passa entre risadinhas dentro dos cérebros entupidos de notícias e à salvo da estupefação gerada por alimentos como filmes comprados no balaio da promoção oh não vejo my heart oh my mind is so oh 


my dirt sim infeliz como rajadas de vento assim free como o tempo das rugas de tantos rouges a mais e sim por assim dizer é sua a espera do momento certo





sábado, 14 de maio de 2016

ts, sem título, 2016

ts, sem título, 2016


dois trabalhos produzidos no scanner como testes para minha série final de gravura/pintura do trabalho de conclusão do curso de artes visuais. serigrafias saindo do forno, sobre monotipias, colagens, desenhos, xilogravuras. acúmulo e desintegração da palavra, imagem poética (cf Octavio Paz) na forma não de palavra, mas de imagem. "entre o vento e o peso da página", um projeto de pesquisa, vem sendo soprado em várias materialidades, tomando corpo. quando diziam que há vida após o doutorado, eu confesso que duvidava :-)



telma scherer, dia de m, 11 de maio de 2016


as partituras são apropriações de um livro de sambas do carnaval de 68 que comprei em um sebo e a imagem é de um alfabeto medieval, que será serigrafada em breve dentro dos trabalhos de conclusão de curso em artes visuais.


um "poema diário"

18 de abril de 2016

Hoje paramos a avenida Madre Benvenuta.
Fizemos milhares de vídeos, palavras, desordem.
Renascemos a mãe dos bem viados bem-vindos.
Semeamos amanhãs
com gotas de nosso cuspe,
com saias e muito suor de palma contra palma.
Fomos palco
para o espetáculo de nós mesmos.
Nós tantos assim
estamos vivos, somos       mulher
                                                  país
                                                        púrpura e
lance lancinante contra a servidão armada
de ternos e gravatas.
Sim, contra o ar enviesado dos furtos do calendário
só nos resta o sumo salpicado
de ais    de és    de uis
e dos urros de todos os guris.







dois dos meus "poemas diários" de um passado recente que, para o bem e/ou para o mal, está muito grávido de futuros. uma seta aponta para trás, porque nunca a canção "roda viva" pareceu tão contemporânea, e outra seta aponta para a frente, nossa esperança  maltratada nascendo mais e mais força.

domingo, 8 de maio de 2016










detalhes de tela, colagem e tinta industrial, 2013







                                                                monge amuado
                                                                molhado de lodo
                                                                no vento no tráfico
                                                                no esgoto

                                                                monge morto
                                                                vestido de marrom
                                                                maroto destemido de manhãs
                                                                absorto
                                                                onde a sorte é solerte
                                                                e onde a onça faz o frete
                                                                e suga

                                                                sim, nessa mesa torta
                                                                nessa tumba poderosa
                                                                onde o monge livra
                                                                os livros do cinza
                                                                e do sépia dessas trevas

                                                                 onde ele mora mundo
                                                                 e onde viaja e vaga
                                                                 e vislumbra o vício
                                                                 de recomeçar

                                                                 e por isso se o monge
                                                                 destroçar caroços
                                                                 e apontar oceanos pelos
                                                                 baixos e sonsos
                                                                     pedaços de corda
                                                                 dessa forca
                                                                 é porque a força que forja as armas

                                                                  amarra e solta



                                                                  poema publicado na edição 20 do jornal Qorpus 

quarta-feira, 4 de maio de 2016





"Três", TS, 13cm x 18cm, 2013, pastel, colagem e linha sobre xerox 



domingo, 1 de maio de 2016




as pessoas que têm vênus em áries. as pessoas que escrevem a palavra "fodástico". as pessoas que fazem compras. enjoar fácil é precisamente o que se precisa. eu queria ser um vômito do tempo. e às vezes o mar de ventania também me satisfaz. entretanto, há tramoias. e ventos. e a onda de cabelos modulados, de corpos desenhados desde anúncios... todos tão um. perscruto calçadas e soslaios de ônibus inteiros. não se vê beleza. homem, mulher, criança, sereia, cobrador. todos encaixotados pela norma e tradição. e alisam fios como quem não teme o amanhã. eu queria enegrecer o mundo como o chaplin balança o globo, na pura poesia de uma bengala bulindo pelo ar. eu queria escrever algo preciso, como tochas, chamas, chistes e chusmas de estopa embebidas em solvente. mas não sou só eu que tem vênus em áries, querido. é toda uma graduação de medalhas para a premiação do desassossego. pioneiro é quem quiser. mas as fogueiras às vezes acendem antes, principalmente quando se é mulher.




De todas as tochas
esse fogo que aprisiona
e dentro dos teus olhos
se mantém          musgo
      fogo vesgo   
      que não quero olhar.
De todas as serpentes
uma que ri no teu sorriso
                   e ama
nem a calma nem o molho.
Sorriso frio        Sereno             
              sem lume
   – seu pássaro incandesce
e não voa senão quando
envolto em correntes, canta.
Dessa liberdade, uma
de percorrer latentes
e patenteadas latitudes
de jogar no rumo do sol
teu corpo, assim, o olho
nu – não cheio que te traga
            mais     poeira
nem fite         um céu
que se guarda em sol
mas reluz no negativo
que é noite     jaz na foto
como a palavra epitáfio.
         Esse fogo
dorido que não queima
e quer            e não arde
         não quero.
Quero o que se consume
na garganta aberta – o giro
de girassol.


Poema publicado no jornal Ô Catarina nº 84.

sábado, 16 de abril de 2016


"A conspiração", TS, 2013, 21x29cm,  pastel aquarelável, colagem e nanquim sobre xerox


Antes eu era simples
e até sabia escrever.
Era menina em sol ardente.

Ver o grande Ser e seus entes
não era minha tarefa.
Eu − eu era simples − podia tê-los
porque tinha olhos lúcidos
as mãos suavam
e o vento batia o batente
sacudia ainda os cabelos.

Agora
perdi um jeito de estar
distraída.

No que sou é impossível
decifrar composições.
Nem tenho fácil, brisa fumaça:
− só a música.
Ouço
dentro do ar fechado
entre paredes brancas
quase desiguais.

E nunca aprendi a cantar.


*poema do Desconjunto revisado.


segunda-feira, 11 de abril de 2016









Trabalho Dirigido de Moral e Civismo - 2ºgrau

Vídeo, 1min54seg.
Sinopse: Este livro foi aprovado pela Comissão Nacional de Moral e Civismo – processo CNMC 0062/78 com homologação publicada no Diário Oficial da União de 9 de novembro de 1978.


A performance é uma interpretação literal do título do livro.  





verde vermelho vermelho verde verde vermelho vermelho verde verde vermelho vermelho verde vervelho verde ver de vermelhe olho verde  mergulho verde vermelho verde mergulho verde vermelho ver e vermelho viver verde mergulho verde vermelho ver vim verde vermelho ser verde vermelho vermelho ver-te velho vermelho velho velo o vermelho verde ver de vermelho viver de vermelho verde vermelho verde cada verde vermelho casa vermelho verde quanto verde vermelho caralho verde vermelho verde verde vermelho vermelho verde verde vermelho vermelho ver de caralho velho velho vermelho velho verde verde ver o velho vermelho de casa verde ver de cada olho vermelho vermelho verde verde vermelho vermelho verde verde vermelho é velho verde verde ver o olho olho velho verde vermelho vermelo verde olho verde verde vermelho velho ver o verde vermelho elo verde verde vermelho vermelho verde elo o verde verde velho vermelho elo de novo velho velho verde verde vermelho vermelho verde verde vermelho é lhe o verde verde o vermelho vermelho verde verso vermelho vermelho ser de vermelho o verde verde vermelho vermelho verde verme verde verde vermelho verme caralho caralho vermelho verde verde caralho vermelho verde

2016, lápis pastel, 21cmx29cm




sábado, 9 de abril de 2016





saber a vírgula do vermelho não é para qualquer um. aliás, um mais um é dois, mais um é três, mais um é quatro, mais um de quinhentos anos e não tem mais vez o vício de recontar as vagas e as histórias que morreram no mar. cada cor tem sua vírgula e algumas reticências. porque o reto se desdobra em dúvidas assim que passa a curva do concreto e o trânsito diminui e se abrem os campos cobertos de nada à nossa frente. sim, é no pleno daquela estrada que deixa a vertigem de verticalidades para trás que a gente mora. por isso somos tão surtados e tão amados e a verdade mora em nós como que de passagem. porque nós passamos por muitas cidades invisíveis. aquela que o morador de rua anunciava quando a gente ia comprar flores no cedo da segunda-feira e se lembrava que tem alma que não dorme de noite. aquela da mímese sem mundo da criancinha que vai para a linha de confronto porque não tem pão. aquela do homem de terno ali na fila da sopa, na calçada portuguesa, onde não se trocam notas de duzentos euros. aquela da índia que não pôde parir porque o governo queria esterilizar só as índias más. aquela do gurizinho que nadou à toa, até sem vida ao chegar de borco na areia, um borco de burca, de buraco, de onde flagraram seu anátema de anjo. aquela das barbas bravas dos guerrilheiros que não sabem meios tons. e tantas tonturas nós tivemos em meio às pápricas  picantes e aos santos altares que deixamos de valorizar todos os temperos e passamos a comer o trigo cru. qualquer um sabe a vírgula do vermelho, porque é a única cor realmente transparente, a onda cumprida ao contrário do tudo que cabe, a cor comprida no ar comprimido da linguagem. 


Telma Scherer, sem título, 2013-2016, pastel e colagem, dimensões variáveis (detalhe) 





domingo, 28 de fevereiro de 2016

vestígios de uma tese


dia 22 de fevereiro, defendi minha tese "Corpografias de Ricardo Aleixo: A performance ressoa no poema", realizada junto ao Programa de Pós Graduação em Literatura da UFSC. estiveram na banca, além da minha orientadora Tereza Virginia de Almeida, os professores Raquel Stolf, Maria Aparecida Barbosa, Simone Schmidt, Stélio Furlan e Rogério Rosa. tirei A com louvor e pretendo seguir a recomendação de publicar a tese para além dos liames da biblioteca universitária. seguem algumas intromissões poéticas que pertencem ao meu emaranhado-tese.

















quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016


Narciso Mallarmé fala pelos pés lavados, pelo calendário, pelos pés cipós.
Escrever com os dedos nágua, chorar, e então.
A forma do dissoluto onde soçobram buracos        do dia ontem, do dia quase, da contradissolução.
O pano de fundo para o ciclista que não coube no quadro de Degas.
A viatura da forma, em algumas horas de voo: não coube no quadro de Degas.
A vírgula é o nome dos cabelos que esqueceram de cortar, e o menino cresceu, e as mechas não constam no álbum de mamãe.
Assim o pêndulo, braço de ginasta, roda de bicicleta: vestígios da sexta-feira que não foi.
Houve atropelo de tropas que se vigiam por praças desacordadas.
Claro que é assim que se faz pesquisa. Houve um momento quando sem luz. E era morno e confortável, e não se tinha compromissos.
Houve um momento de espelho quando a sala dormia, e outro de olhar para dentro, tão dentro que descobri águas termais.
Não acabavam mais.
E houve este momento caderno azul, quando os formulários já estavam todos preenchidos.

E ainda assim Narciso canta porque não compreende a mágoa das margens. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016




nenhum Relógio tem mãos limpas. eles trabalham na surdina, onde nenhuma força não-oculta pode enfrentar a força da leveza. Relógios gostam de abandonar-se às novidades que só eles enxergam. com isso, destroem certas vidas. principalmente aquelas que estão preocupadas com os seus amanhãs. Relógios não aguentam de paixão a cada vez que há algo nunca visto no ar. bailam bailam até acontecer o alvoroço. os alvoroços são em número de três: alvoroço-nuvem, aquilo que ofende; alvoroço-paisagem, aquilo que dá forma; alvoroço-reclusão, aquilo que necessariamente modifica os estados da barriga. os Relógios não agem apenas na barriga dos seres vivos, mas também na barriga das pedras. e aí é que está o seu maior perigo. porque milênios podem se alvoroçar em segundos, e as órbitas da acomodação se desfazem. os Relógios são os primeiros malfeitores de tudo o que produz.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016




Telma Scherer / um Relógio em estado de paixão / 2014 / A4 / pastel


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016



come folhas, cospe vento, manda o chão despir de chão o seu próprio ser, tornado Tornado.
se remói e se rói em tempos de seca, quando a terra está pronta para voar e criar esses seres fantásticos dos quais ele se julga fiel apreciador. não são fantasmas, não são moinhos, nem tampouco  redemunhos: apenas grandes massas de ar em movimento que o artista caça como se fossem feras.
ele espera o instante de soprar porque tem peso de osso. faz tudo se desinventar enquanto fala folhas, foglios e hojas molhadas de hoje.
nunca espera o amanhã. às vezes, se chama Francis, assim esquecido de grafias e das agruras do verão. é, na verdade, melhor nomeado Fúrias, Ânemos, força elísia para a qual se diz: Êpa, Rei.
dentro da sua barriga mora a baleia Bela, quase sempre adormecida que beijo nenhum acorda, porque ela é dona de todos os Relógios. mas, para ela, já não há espaço nesta página. toda ela está molhada pela baba que o vento deixou cair. sua alma faz: pssiu, melhor deixar o Torbellino ir.



domingo, 10 de janeiro de 2016




Sem título, Telma Scherer, 21cmx29cm, pastel sobre papel







nada é novo.
são os mesmos pratos sobre a mesa,
o mesmo grito dos cachorros
e os fogos de artifício
artificiais
como as luzes de todos os natais.

nada é novo.
só quem se comportou
vai ganhar presente.
há quem ainda aguente
os merengues dos telejornais.

feliz não é um ano novo.
natal não sobe morro
morro que morre do que também morro
e conta histórias
de outros carnavais:

índio degolado e
rapaz engaiolado por engano
no engodo de um de tantos policiais

quem sabe que sabe não recorda
a curva zonza dos canaviais
e as mortes por diarreia
e as assembleias tão brancas
onde votaram coisas tais
como cortar gargantas e
as liberdades individuais

e envergonham os pais vindouros
com as luzes de tantos assombros.
é o plim, é o ouro,
o estopim que desloca lama para o mar.

é o que engasga o olhar
nos garfos prateados
dos pobres assalariados
que ainda se julgam deus.

feliz não é um ano novo
na fila que fazem os corpos
que pagam a prazo os presentes
das pessoas que estão ausentes
dentro dos próprios corpos.

feliz é o plim, é o ouro,
o estopim que desloca
a lama, devagar.



terça-feira, 5 de janeiro de 2016



a garganta do garoto, cortada, em plena rodoviária. um lugar seguro, onde não rondam ratos, nem estava escuro, nem se viram répteis enrolados como cobras que a qualquer momento pudessem dar o bote - e de canivete na garganta do menino. 
a mãe amamentava, a mãe miúda e morna de leite quente que a mídia não mostra, a mãe graúda de braços, mãos, pernas fortes e nortes na noite e parentes ancestrais. ela escorada na parede, sentindo o leite quente na boca do menino. e o lodo ao lado, o homem grande, a cobra, o braço - o bruto riscando como serpente o seu bote de bofe enraivescido, envaidecido de repente pela mídia que não mostra e pensa que pode saltar o suor de suas raivas pra cima de qualquer um, em plena rodoviária. 
mas não era qualquer um, era Kaigang a garganta do garoto cortada. não era agrário o salário do pai, não era funcionário, não era empregada a mãe que era prendada, era moça, era índia KAIGANG, da gangue dos fortes, que ainda não mataram desde os 1500. e que não têm aumentos e que não têm salários e ocupam hectares tais sem calendários e sem ódio e agrotóxicos que ofendem a fúria do homem branco. 
e era bruto era burro, era bronzeado, safado, e pagava, e pagava a prazo: IR INSS ISQN e IRR, e não era nomeado e não gostava de pagar e não era de apanhar o carro ao meio-dia ao lado deles que nem trabalham e que sugam tetas como as tetas pretas de todas as favelas. como as tias das muitas tretas e os trouxas que não leem notícia, não sabem que o país vai mal, vai mal, vai mal, tudo all, que a crise cresce e esmorece quem paga INSS e é homem de bem, funcionário padrão, messiê Mr. Músculo, fodidão. 
e porque era cheio assim da vazão e fora de qualquer razão, o sem-motivos abrenúncio capeta e pé de pato e otário planejou tudo sem murro. chegou junto e carinhou a cabeça, salafrário, fez cafuné no menino ainda sendo amamentado pela mulher. e virou de lado para disfarçar e puxou o canivete como se fosse leque e para não assustar cortou rápido a garganta do pequenino Deus, um dia depois do seu segundo natal. o vade retrum fugiu desconsolado, de peito lavado, mudo, malvado, branco e bruto e maravilhado como todos os que só leem jornal. 

e desde então Tupã planeja o seu ensejo, junto com todos os orixás: e manda preto para o palácio do planalto e manda ginga dos ijexás e manda raio pra cima do congresso e manda peste e manda recesso e manda chuva de pedra sobre a plantação e manda sol e seca pra população e manda ócio para as abelhas abelhudas manda abrolhos e caolhos pra investigação e manda o cúmulo pra cima de um país de suor e crise

porque no túmulo do índio Vítor, a verdade vítima, Tupã decide que El Niño ainda vige.



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015





Sem título, Telma Scherer, pastel sobre papel, 22 x 30 cm, 2014