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sábado, 29 de julho de 2017
Sei que alguns preferem sexo,
outros, filosofia francesa.
Prefiro deitar nessa rede e,
a sós, sonhar uma serigrafia.
Movimento da minha mão
marcando para sempre a tela
com a água que jorra
na sala escura.
E por graça da luz, da
água e do meu gesto,
o desenho se põe de pé no mundo.
Eis o contorno da mão
novamente vivo
vertido de uma caverna ancestral,
espécie de gemido,
gesto dêitico,
um eu sou entre tantos, um
grito no calafrio da noite
orgasmo do organismo cansado,
ou só uma frase, um sonho, uma rede,
entre algas,
algo.
terça-feira, 25 de julho de 2017
apertar o fio fundo da barriga e depois enriquecer os porcos de enaltecimentos, enriquecer aos poucos, rir até esquecer, rir de soslaio até a barriga doer naquele fio fundo que não é proform. soltar a mão pelo espaço até espairecer, soltar até esquecer que não há profundos. sair pela porta dos fundos e ser, nascer, viver, modorrer em vales e absintos de suores forjados roubados aos porcos, àqueles a quem é preciso enaltecer porque enanos não tecem sozinhos esta manhã. e suar, e suar, e suar e sorver um pouco menos de avisos e de purgatórios. e erguer novos crematórios para as pérolas aos poucos, aos poucos cantar até virar em arroubos a manhã.
segunda-feira, 24 de julho de 2017
eu não sei escrever a máquina
a máquina com a qual escrevo
é meu próprio corpo
escrever é ser sua própria máquina
todo o ser é sua própria máquina
eu não sei maquinar
o sistema judiciário de mim mesma
onde não há provas, nem calendário
eu só sei desescrever
meu próprio estado de mim mesma
eu mim mesma má
eu mim mesma máquina
eu mim mesma o eterno calendário
de meses se sucedendo
com dias abertos, dias fechados
dias azuis de pés burilados
e dias para balanço
para coleta de sangue e de provas
onde eu mesma me saúdo e me rasuro
como se fosse
uma sala toda branca
o sistema de arte
tem horror à sala branca
eu sou branca
não inteira
meus lábios não são brancos
meus pés
minha voz, meus tornozelos não são brancos
eu sou
a sala é branca
o sistema de arte tem horror ao que não é
também tenho horror do sistema judiciário do
sistema de arte de mim mesma
mas pensando bem
toda sala é branca
toda sala é
e eu sou meu próprio espaço aberto
com redes lançadas ao mar
e alamedas
todo espaço poderia
ser sem medo
mas as salas
brancas
também se fecham sobre si mesmas
mas as salas
brancas
também se fecham sobre si mesmas
uma sala é um espaço com limites
todo suporte é um limite
há quem suporte o seu próprio corpo,
sua própria sala
sua própria rede e sede de peixe
não faço sala nem para mim mesma
sou também minha própria sombra
meu próprio insuportável
meu próprio céu
minha própria não-sala
- que às vezes é
quando não quer -
e também tem seus limites, medos, meandros
eu sou
minhas próprias paredes
sou
minha própria pele branca
meu próprio refletor
meu próprio calendário
minha própria dor
o sistema de arte não tem horror à pele branca
mas teme a pele
e tudo o que cheira e goza
e tudo o que sabe a sua própria sala
não sou um espaço confortável
sei a sangue e sede
nos cinco hemisférios
todo suporte é um limite
há quem suporte o seu próprio corpo,
sua própria sala
sua própria rede e sede de peixe
não faço sala nem para mim mesma
sou também minha própria sombra
meu próprio insuportável
meu próprio céu
minha própria não-sala
- que às vezes é
quando não quer -
e também tem seus limites, medos, meandros
eu sou
minhas próprias paredes
sou
minha própria pele branca
meu próprio refletor
meu próprio calendário
minha própria dor
o sistema de arte não tem horror à pele branca
mas teme a pele
e tudo o que cheira e goza
e tudo o que sabe a sua própria sala
não sou um espaço confortável
sei a sangue e sede
nos cinco hemisférios
sábado, 1 de julho de 2017
quinta-feira, 15 de junho de 2017
Eu sou a mulher com a mão na boca. Já fui a outra, abaixo, abraçada naquilo que queria morder - a pose composta e o corpo deturpado pelo olhar estrangeiro. Agora a ogra. Energia de braço que empunha o pedaço do inimigo, quem sabe se chamando alguém. Também me abaixo para soprar o fogo, se for preciso. Visivelmente incomodo o ancião ao meu lado, aquele que quer honrar as suas costelas conquistadas com êxitos de tantos séculos. Mas eu não ligo.
terça-feira, 6 de junho de 2017
No banco de trás de um carro velho,
eu lia Marx enquanto a família viajava
para qualquer lugar sem sentido.
Era um texto todo em itálico, ainda a introdução que
me dizia de Hegel, e eu nunca tinha ouvido um agá
que não fosse em forma de “erre” para os meus ouvidos.
O texto tinha um “alhures” que eu lia “al-rrures”
não sabendo de onde vinha aquele “al” separado na frente das
coisas
e eu não achava normal um agá mudo, apesar de tantas
palavras.
A família cruzava as estradas vazias
nunca a mais do que cem por hora, porque
o máximo eram os oitenta
e se tinha que respeitar
E não me contentando com as festas
e os brincos de plástico as blusas
de tomaras-que-caia em vivo cor-de-rosa
Eu preferia o amarelo dos livros.
E sendo a mais nova de todos os três filhos
que também vinham no banco de trás do carro velho
vestindo as camisetas que logo depois seriam as minhas
interrompendo a minha leitura com as suas importâncias
eu lia a palavra “al-hures”
com o som de um itálico distante
e queria saber mais sobre Hegel.
O agá de Hegel era o mesmo de Heidi, Heimat,
Haare, hungrig, raspante, eu esperava o momento
de poder parar sair daquele carro
carregar o livro para onde eu bem quisesse
e parar de me preocupar com as importâncias.
Eu via os senhores e os servos se sorverem
nas inconstâncias cabíveis aos meus quinze anos
de renúncias, raivas, rastros, ritmos,
naqueles oitenta sem sentido, na direção de umas linhas.
domingo, 28 de maio de 2017
domingo, 14 de maio de 2017
Um aquário escorre pelos seus
cabelos enquanto as teclas não dão conta de mostrar como é que se impermanece.
Você também é professor, à sua maneira, mas não precisa registrar notas no sistema. Deixo os dígitos dançarem para
lá e para cá, como em Debussy, cada vez que a umidade reaparece desde os rios
da sua voz. Já fui uma daquelas que apreciavam o presente e não saberiam
contê-lo, mas também não se dispersavam. Agora não. Assim, com a voz, com os
braços, e gritando ritmadas essas coisas meio não, meio talvez, e meio seiva,
sou bem isso que escorre pela sua voz. A plenitude do som vive no seu rosto que
some a cada partícula de segundo, eu me misturo, sou todo esse não tempo que se
difunde como se fosse um último. Você selva e todo índio, tão fora de toda ordem,
também, tem uma forma de estar à prova e é sem tropeçar. Não registro a sua
nota. Você essa voz veludosa que acorda os espíritos da crianças. Avalio os
peixes de tantas cores que escorrem, peixes fuga, rios sonata, peixe-espada e
peixe-mulher salpicam pelo prumo da cachoeira que em você me rebrilhou. Mas ainda
me pergunto e me cutuco por que você só mora no azul. Não tem onde?
quarta-feira, 3 de maio de 2017
aquele dia o gambá na cama
cinza insólito e feroz como um bicho sabe ser
- e se cai de repente de uma madeira solta
de um furo no forro despenca para o meio do macio -
sim
o gambá na cama, nunca antes vimos essa coisa acontecer
nós deitados
e sendo ele um filhote fedorento
indefensável, indefeso, tão colado à vida que não queria
perder
e diferente de nós
simples como a saracura que nos acorda na manhã
e não se sabe saracura
e grita
mas era noite e o gambá trepidante seus dentes percebiam
outros bichos grandes
nossos olhos rangiam sem saber o que fazer
alçamos as cobertas cobrimos o corpo dele
que não escapou
jogamos tudo pela janela
e lá embaixo, no pátio, de repente nossos lençóis sujos e o
silêncio da escuridão
o gambá solto do seio de sua própria intimidade
e colado ainda à vida que não queria
sei que aos olhos do cidadão, é certo que essa cena nem nunca
aconteceu
mas naquele dia, depois do gambá na cama, alguma coisa em nós jamais adormeceu
sexta-feira, 21 de abril de 2017
terça-feira, 18 de abril de 2017
segunda-feira, 27 de março de 2017
A cobra, de manhã, despencou desde os meus bushes mais altos
e parou bem na frente do portão. Que que aquela cobra tava fazendo há mais de
dois metros do chão, tava caçando instantes esperando que ninguém passasse meus
olhos olham a cobra quero sair de casa não posso parar de olhar fingir que não
existe ali parada com a cabeça no caminho a cobra armada como um bote para nada
como se jogou lá de cima como foi parar lá em cima a cobra anda escalando a
cerca a cobra desce a cobra sobe a cobra se esconde nos arbustos a cobra espera
um momento em que não seja mais nada mas o momento não vem estou aqui olhando-a
estou aqui devorando a sua carne fria que brilha no sol da manhã eu quero sair
quero ir para a praia a cobra não deixa a cobra não me olha mas ela sabe que
estou aqui a cobra cobra de mim uma atitude que não quero ter nem sombra de tirar
a cobra dali nem sombra de coisa na mão quero acariciar o sol a cobra sabe que
não sei como ela foi parar ali ela sobre ela desce ela navega entre as duas
faces do portão se enrosca em grades ela aquece um pouco o momento no qual
quase penso em falar para alguém que há uma cobra e procuro me distrair dizendo para mim mesma que é melhor não me
cobrar e vou colocar roupa para lavar na máquina
quinta-feira, 23 de março de 2017
se há salas escuras no meu corpo, recônditos nos quais se escondem vícios e verdades, salas fechadas, portas estanques onde o sangue é mais denso, se há veias poeirentas como a velha biblioteca, se há sussurros macios que a gente não ouve, e ali, nesse canto desencanto, se esconde a voz de algumas andorinhas, então é hora de retroceder um pouco. e chegar talvez ao tambor, talvez à terra. minha língua queria lamber uma voz, devagar, sugar cada pedaço de vento que surge do lado de dentro de outro corpo para abrir ao menos uma dessas grossas janelas.
é meu não-corpo,
precipício provável
onde me ponho
à prova,
onde revisito
meu próprio corpo
em sua virtude de limiar
cada lugar é de si mesmo
e de quem se desabitua
do seu próprio ser próprio
cada lugar me atravessa
num tropeço do meu corpo todo
todo lugar é impróprio
só eu sou meu próprio corpo
só eu não caibo em mim
sou cada lugar onde não moro
sou uma coleção vazia
dos espaços que me fazem corpo
sou um corpo não um lugar,
sou um ser de tempos
em tempos.
sábado, 11 de março de 2017
terça-feira, 7 de março de 2017
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Decidi ficar aqui a tarde
inteira, na semicor e na semiluz do salão de piso frio. O teto é amparado por
colunas grossas e na frente delas põem as plantas artificiais. Nas outras mesas
há outros desamparados que dormem por fora e por dentro acho que também falam
de amor. Uma senhora esfrega o chão sem
dificuldade. Alguém diz alô-teste-testando
enquanto passa sem pressa nenhuma. Um homem trajado de regata azul lembra que é
possível a gente fazer esportes. Mas eu decidi ficar aqui, nesse lugar sem
cheiro, quase vazio. Ouço que a língua é uma piranha. A pira da lua se reflete no chão
liso. Há saídas de emergência. Ouro. Os extintores estão aí, no único poste.
Agora outro homem, em outra regata azul, passa empurrando o carrinho do bebê.
Os que pedem, têm. Os que não têm, esperam. A caverna é ruidosa e nela se põem
defeitos. As plantas artificiais sorriem aos que passam e piscam cochichando
coisas. Tudo se reflete no chão frio. Como fazer metade quando só se sabe ser
inteiro? É para não ter desejos e esperar a tarde inteira, entre pessoas que
passam, que se é. E que se erra. Então nada desperta o corpo de antanho. E
havia aqui e ali alguma satisfação. Ela se desprende da fotografia. São os
gonzos, são os gonzos ocos que atravessam o salão. Assim como é possível
acordar o corpo morto com qualquer desejo, também se pode sem mesura permanecer
sentado. Há até quem durma com a cabeça enconstada numa mesa de granito. Dormir
é desistência. E se pode ir e vir, mas convém levar seu corpo. Porque a gente
finalmente se esquece que a terra faz poente. E de que há plantas, há sim, há elas;
e até as há não artificiais. E que a caverna é plástica e provisória. Mora a
memória na fotografia. Um dia a gente dançou, dançará sempre. Na luz da praia
logo ao alvorecer. No dentro do mato quando recém anoiteceu. No olho. Na obra.
No copo, no sussurro. Na planta do pé, na palma da mão. No gesto do braço de repente
aberto. Da cabeça recentemente erguida. Decidi ficar aqui, mas não. Não se
sacode o pensamento num salão de piso frio. É tempo de saber morrer, e o melhor sempre é saber morrer dançando.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
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