domingo, 29 de março de 2020

Lugares ogros





















Lugares ogros é um romance experimental, publicado pela Caiaponte em 2019, através de um financiamento coletivo que oportunizou a criação da editora, por Marcelo Labes.

https://caiaponte.wordpress.com/catalogo/lugares-ogros-de-telma-scherer/




PRÓLOGO

Tenho um plano para hoje. Incluí você, mas não se preocupe. Quero que relaxe, e possa esquecer o seu tédio, o apartamento pequeno e cheio de ruídos, as dores comezinhas que sempre importunam as leituras, mas que hoje talvez. E talvez é suficiente. Quero que você conheça certas esquinas, só nós dois, muito antes de surgir a mulher de vermelho. É pra isso que estou aqui. E, não sei se você faz ideia, mas foi um trabalho intenso até chegar a este ponto. Logo me apresentarei melhor, número de identidade, endereço e CPF, porém não tenha dúvidas de que sou uma personagem sã, sim, mulher honesta, bem criada e tudo mais. Não, não tenha medo, são apenas nossos passos. Iremos rápido, temos tantas páginas, e ainda assim logo tudo estará acabado, Jorge e eu e ela, e meu velho, e minha amiga, ainda nem começou.
     Você não pode argumentar que desconhece, não foi avisado, ninguém lhe convidou. Veja, este segundo parágrafo é desconhecido? Diga-me se está ignoto em alguma parte do prédio cinza a que chamam lar ou cérebro. Você já leu o primeiro, e não foi rápido, agora que passou? Nós subiremos juntos, e não precisamos nem mesmo de manuais ou de instruções sobre como subir uma escada. São poucos degraus, agora. A princípio só três, na descida; depois outros, na subida, mas venha.
     Você não precisa conhecer de cor Todos os Mestres da Literatura. Talvez nem tenha que abrir o dicionário, e “talvez” basta. Nada de outrossins e de destartes, que eu descarto. Jorge é quem tem essa mania de corrigir e corrigir, desde quando nos cruzamos no corredor da faculdade, era tão frio, meus All Stars molhados para passar a tarde inteira até a noite. Eu chegaria em casa cedo, era uma sexta, e Jorge reclamando da minha linguagem. Molhei-me, me molhei no corredor antes mesmo de entrar em aula, mas não faz mal, ou faz? E não haverá inconvenientes entre nós dois. Até porque, agora, há greve. Até porque estou aqui dentro, nas suas mãos. E ainda assim, talvez eu me apaixone por você. Você pode até fechar-me agora, mas prometo que a mulher de vermelho não atrapalhará, e Roberto já sabe de tudo e os trilhos estão desativados. Nossa relação será leve, sem ciúmes, nem cobranças. Eu também não gosto que me vigiem e não gosto que me peguem no braço.
     Sim, vestida e desvestida, ponto de ônibus, uma cena precisamente às 5:15 da manhã, adolescentes, tesouras, passeatas, uma noite de sexo, a luz do sol no mar e até vinho, se você gosta de vinho, ou água, e cassetetes, tudo isso eu prevejo ou pressinto mas, por enquanto, ando.
     Sinto o peso da mochila. Toda a minha propriedade cabe aqui. Abri os armários do JK[1], era um sábado de sol, fui encaixotando as coisas com minúcia. Quatro caixas bem fechadas, depositei-as no armário aéreo, lá em cima. As louças, panelas, cobertores, nem encaixotei: serão úteis ao Roberto. Ele vai ficar morando lá.
     Mas isso será no futuro e estou apenas começando a relatar esse fato do meu passado, aquela manhã. Tive que avisar as pessoas, claro. Roberto era o único. Internet é uma coisa muito boa quando você realmente quer acionar o botão “todos os contatos”. Avisei, disso ninguém pode me culpar. Estarão? Eles não sabiam − nem da gravidez nem sequer que eu andava com sprays na bolsa. Acho que não vão se importar com a saída, até porque eu não tinha promessas. Logo estarei de volta. Tudo o que ficou daquele apartamento luminoso, arranha-céu, barulho de motores, tudo, tudo, tudo o que possuo ficou dentro da mochila. O resto, doei sem culpa. Uma coisa que sempre esteve certa, pra mim, não sei se já ocorreu a você — é até meio chavão, lá vai: tudo o que a gente tem, de alguma maneira, oprime. Porque quando a gente tem um carro tem que achar vaga pra estacionar; se tem um livro, pode até ser um pocket, a gente tem que achar lugar onde guardá-lo. Com um presente, por exemplo, um brinde, que seja, no mínimo há que se tomar uma atitude: tomar para si ou jogar fora. O fastio ou a coragem de fazer um movimento, a decisão, nem que ela seja um rápido largar no primeiro lixo da rua. Sim, é isso o que vou fazer agora com o envelope. Até porque Jorge nunca me fez de trouxa e você, foi você, sim, que me levou a essa ótima ideia. Vejo-o sumir dentro da boca preta e suja, dobrado e pardo, com meu nome escrito a lápis, com o cheiro dele.


[1]     Nota do Editor: nome pelo qual é conhecido um pequeno apartamento sem cômodos nem paredes entre cozinha, sala e quarto, com separação apenas do banheiro.