Uma avenca, quando parte, é para
nunca mais voltar a ser raminho em meio às intempéries. Todos pensam que
avencas querem árvore, mas uma avenca, às vezes, é quem simplesmente descobriu
que na linguagem de dia de semana também se encontram os anjos propensores, que
gostam de brincar nos escorregadores que pendem desde o vácuo do céu da boca. Uma
avenca nunca termina de partir porque está sempre atrasada, bem atrasada, e onde quer que vá
chegou antes do sol raiar. As avencas são viúvas de todos os lábios. E desde
que os ônibus começaram a estacionar em perfeitos boxes retilínios, as avencas
também fingiram não possuir a réstia de anjo na boca. Porque os desenhos do
trajeto da avenca são sempre curvilíneos. Mas há que passar a ponte, pegar a
estrada de chão e seguir rumo àquilo que não tem explicação. Toda avenca parte
para Vila Nova. E chega antes. Não adianta você dizer que as avencas são
orelhas tapadas para o universo de metáforas que se desprende dos
relacionamentos. Quando você puser essas palavras na cauda do anjo, a avenca já
partiu. E na curva da estradinha, em meio ao vácuo de luz que só existe para além
de todo muro, as avencas redistribuem
nascentes para despoluir as fazendinhas. Por isso, o peito delas é pesado. Porque
há sempre portões fechados em todos os relacionamentos e elas querem voar em
forma de breve sinuosidade por entre os pastos. O peito de toda avenca se mede em tabletes de puro ouro sujo e desgovernado e, por isso, ela voa tão desajeitada entre os ramos para pousar em um montinho de terra ao lado e, como quem não quer nada, jorrar uma nascentezinha igual à da fonte da donzela. No burbúrio da rodoviária, terra de latifúndios, uma avenca jamais poderá sorrir. Só quando ela abrir as suas asas pintadas a têmpera ela poderá dizer: sim, muito obrigado, amo você, tome cuidado, não é por aí.
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quinta-feira, 5 de novembro de 2015
às vezes uma fogueira aprofunda o vento e quando se está a sós com os caderninhos é que se percebe o quanto uma fogueira rasga o dia de pleno alvorecer, seja no movimento dos sons ou dos ocos de alvoroços de medalhas destiladas para aqueles que querem ganhar todos os concursos.
às vezes uma fogueira se adensa de seu não ser, é de quases, de nadas, de coisinhas finas para dias
chuvisnosos. às vezes é no grau de uma fogueira assim apagada em plena luz do olhar que se percebe o quanto as varandas nem sempre acobertam a passagem dos rapazes. e só vivem horas aflitas, vão roubar o doce de dentro das madeiras, das meninas, e subornam mamadeiras, mas nem tanto.
uma fogueira percebe o quanto é tonto o que coloca galhos e galhos desnecessários no vão do dia.
às vezes uma fogueira faz besteiras porque não quer dizer o que há: é que a vida se consome, e é verdade tanto para dias quentes quanto para noites e para quando a primavera se esquece de chegar. e nada disso tem a ver com as pedras, uma fogueira venera qualquer chão: e é no miudinho da terra batida que ela abate mais uma estrela. no imenso.
uma fogueira aprofunda o vento porque ele não cessa de se esquecer e às vezes é tempo de requerer perdão, e ela é uma coisa a mais, apenas um pouco mais, porque quando quer, e ela quer, abre o tríceps escondido nesse braço tonto de doer. porque dizem que não tem e é sem nem e nem tem e nem quase. mas ela sabe a hora de bater: no nunca. porque ela rebate as críticas com seu sabor de vento. ou seja, só no vero movimento.
uma fogueira sabe, sim, aprofundar o vento.
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