Publiquei abaixo quase todas as partes do poema O pilsen não compensa, ao qual dediquei-me durante os primeiros meses de 2024, enquanto estava de licença para tratar de interesses particulares.
Ficaram faltando apenas duas partes, as quais eu gostaria de revisar um pouco mais, antes de soltá-las, já que nelas estão tanto a "elucidação da questão" quanto a finalização. Há uma narrativa escondida por trás da sucessão das partes, que vai da aglomeração na rua (zona de bares e herança negra do centro de Desterro) para a internet (apropriação de falas sobre animais ouvidas em vídeos de react, entre outras coisas). Em tudo, reina a alegoria, a gagueira e a dissipação.
Parti da estória, encontrada também online, de que o tipo de cerveja mais comum, hoje, a Pilsen, foi criada em uma cidade homônima da Bohemia, então República Checa, quando os habitantes do local derramaram uma quantidade monstruosa de cerveja ruim. Foi assim que as autoridades, pressionadas, decidiram apoiar a invenção de algo que solucionasse o problema e, em plena expansão tecnológica e industrial, inventaram uma lager que se bebe bem gelada. Esse é o fator motivador do decurso que virá e que incorpora a questão das águas, do sistema destruidor da natureza e suas urgências, também destruidor de memórias e de futuros. No fundo, esse projeto tem relação com as buscas empreendidas nas 12 telas Pele e anexos (poemas-colagens) que perseguem, com sua linguagem, algo de resselvagização.
Foi um momento profícuo, o do início do ano que passou, apesar de tanta dor gerada pela enchente e pelas pressões que vivenciei. Consegui, finalmente, dedicar-me aos meus "interesses particulares" e pude experimentar uma paz provisória na finalização, ainda que precária, desses dois projetos criativos. Desde então, venho investindo meu tempo em revisões bibliográficas específicas, muito empenhada nas leituras, e na produção de ensaios.
Sou do tipo que vai trabalhando em projetos variados, mas que se relacionam entre si. O centro que os irradia é, naturalmente, desconhecido; mas trabalha em silêncio para a produção de urgências, inquietações, vontades. Ainda que sem o fôlego de outros tempos, estou perseguindo esses braços de pesquisas, essas veredas investigativas, esses rios poluídos e suas margens desperdiçadas. O Pilsen apresentou-se como alívio, senti que ali terminava uma paixão. Resta agora finalizar o polimento do texto, que inclui vários ritmos e nasceu cantofalado, antes de tentar gravá-lo com a minha voz, ou pensar na sua circulação completa, em outros meios e ambientes.