sem título, 2016, serigrafia, monotipia e pastel, 21x29
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domingo, 25 de setembro de 2016
o corpo se inscreve no corpo como dança ou doença, como demais de amor inacabado pelas frestas do dia em que tipos e cismas azuis, vermelhas, negras, amarelas, teimam em ocupar o espaço da página, como sulcos de instantes onde o caminho de casa se enriquece de tomadas da mesma face sob a infinita luz da madrugada.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Ortned é um rei sem reino. Ele vive às espreitas, um rei nu e sem vídeos na internet. Um quase desconhecido pelos seus súditos. E desconfiado. A cada margem de erro, a cada marca no papel, a cada gesto despercebido, Ortned vibra do outro lado do mundo, Ortned se infla sem que ninguém proteste. Suas leis, por isso, sempre se cumprem. Ortned gosta de calar os instantes, os bobos pensam que são muito e falam, falam, falam. Ortned guarda todas as informações. Depois vende para outros reis desconhecidos, e os sujeitos passam a ter dor de dentes. Há estragos em máquinas de lavar e pequenos tombos. Ortned também é a salvação das situações mais aflitivas, quando há lapsos entre aquilo que as pessoas sentem e o que se pode pensar. Orned mora naquilo que é informulável. Por isso, para reinar não precisa de formulários, carimbos e requerimentos. Basta um momento para vê-lo, majestoso, quase sem seguinte.
sábado, 10 de setembro de 2016
E o quê e o ukiyo-e,
às sete horas da noite. O que o ukiyo-e às sete horas da noite? É tarde, é
noite, é hora de gravar todos agravos nesta gravura de horas. Neste dorso do
tempo, tigre deitado, rosnando, tigre quase um gatinho de cócoras sobre o muro.
Mas a noite sabe. O que sabe o ukiyo-e sobre a sobra que sobra nesta sombra de
muro? A casa é espanto. A casa é murada de ruídos. A casa é morada de espíritos
que sobem e descem escadas, o som dos seus chinelos, seus gritos, seus uivos,
sua televisão. A casa não quer cuidado nenhum, quer as sobras, quer tudo o que
sobra de nós. Ukiyo-e é a sombra transitória, nós passamos, não resta nem
sombra. Estamos ligados nas tomadas. Somos as sobras de nadas nadando entre
madeiras, pincéis, entre os dedos do gravador. Também ferimos, como goiva e
buril. Também cortamos o assunto. Também unimos nosso silêncio aos sons de
séculos passando sem vizinhos na casa vazia. Vocês não veem que somos
esqueletos? Sobramos apesar de tudo. E apesar das goivas e formões formamos um
uníssono que só se escuta quando quando, quando longe, quando então, usando
algures e algas, quando no céu se dizem amém, amém, amamos. Nós nunca nos
dizemos sem tinta preta. Nós não acreditamos em Deus, só colonizamos. No
entanto nos guardamos para o paraíso e enquanto não temos mais o que fazer,
fazemos. Fazemos amor com as cortesãs de Yoshiwara. Fazemos glicínias, rosas,
púrpuras, toaletes maquiadas, fazemos matriarcas caírem a zero. Porque nós
somos o insulto. Misturamos os insumos e o que o ácido não queima também não
verga a madeira. Não subimos para fazer visitas, não tomamos chás, não queremos
bolo em pratinhos oferecidos durante a tarde. Para nós é sempre tarde e sempre
tarde para saber. Sombreamos o traço mesmo quando nos chamamos, e quando nos
provocam, então, aí somos Marte e Vênus. Temos céus na boca, registros,
coleções de latas, e somos sem perdão. Porque passamos assim, como as cédulas
de mão em mão, ganhando bactérias, perdendo tempo, perdendo o que para vocês é
tudo e para nós só suma luxúria. Gastamos com nozes, rolos, caldas, caramelos,
chocolates e tesouras. Não fazemos maiores alardes, mas é assim, na impermanência
das poltronas que nós mesmos nos prensamos.
poema publicado no jornal Qorpus / UFSC
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