acrílica, serigrafia, posca, colagem sobre tela 50cm x 50cm
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segunda-feira, 22 de outubro de 2018
domingo, 14 de outubro de 2018
os milicianos mataram Marielle,
mas eu estou aqui.
os militares mataram Marighella,
mas eu estou aqui.
são paramilitares, corrigiu o
fugitivo.
concordo com ele, e não fujo.
eu já estava aqui quando mataram
Lorca,
falando seu último poema
na morte, na madrugada
eu morri, mas estou, porque eu
sou aquele que
eles não mataram quando me
fuzilaram
em frente ao paredão das suas
notícias falsas.
mataram, sim, mataram
sessenta por cento
dos homens escravizados
que vinham nos navios, enjaulados,
depois entregavam os corpos ao
relento
uns sobre os outros, os pretos
novos,
como em Auschwitz - nossa Auschwitz,
disse a dona do terreno onde
construíram uma casa, sobre os
corpos,
sobre os ossos
- ela comprou uma casa colonial, nossa
casa, disse,
no centro do Rio de Janeiro, em
cima do cemitério -
- assim são os milicianos, penso, assim,
no fundo das favelas do Rio, penso,
escondidos -
táboas sobre o cemitério, cimento
sobre as fundações
e é por isso que se há de se
exercitar, ele disse,
subir e descer correndo
as escadas e os barrancos, ele
disse,
cada um com a sua arma, ele
disse,
como em Auschwitz? a arma de
Primo Levi
era saber de química
- a minha arma é saber que não
sei se
a minha prima fez o aborto e
a arma dela é achar ruim ter
feito o que
não fez, ou seja, não ter feito o
que fez
era o seu sonho
à sombra da família brasileira
o feto tradicional
considerado abortado
por todos, quando nasce
em escadas e barrancos que se há
de querer subir
assim, correndo,
todo o brasileiro tem que ter a
sua arma
disse Marighella
dizem os milicianos
que só os homens de bem vão
comprar armas
mas os comunistas é que eram
assassinos
dizem, os comunistas que usavam
essas metralhadoras
que se decompunham de engembradas
ao primeiro assalto, assaltavam, eles
terroristas
de primeira página,
de primeira página,
os comunistas atiravam para matar,
eles dizem,
não mataram García Lorca, eles
dizem,
não mataram Marielle, eles dizem,
ela mesma que se matou, era gayzista,
aborteira
e não era como a minha prima
que fazia a família inteira
acreditar
que ainda era tradicional e
não era branca como os pretos que
querem
a volta
da família tradicional
- eu sou a favor, ele disse, a
favor da família,
da vida, do futebol, da mulher, da cerveja, ele disse,
da família de Naa Agontimé, digo,
família de Aqualtune, digo, liderando
os homens
com suas armas, digo, família
Ganga Zumba
sambando na cara da família,
digo,
família de Zumbi, se existe amor
em SP, digo,
ainda existe amor em SC? ainda existem
os nazistas?
quantos mais têm que morrer?
são a favor das famílias de
martírios
são os que matam Marighellas
a mando de um carro
em plena perseguição -
os policiais não viram que eram
só cinco garotos
pobres pretos celebrando - em
plena perseguição –
o primeiro emprego -
os policiais não viram
que matavam Marielle,
que me matariam, os milicianos
não viram
que matavam Lorca, as
mortes na madrugada têm essas
caras, sem os óculos,
as mortes de pretos novos, cinco,
cinquenta por cento
de astigmatismo no meio da
avenida, digo,
mortes abertas, limpas, sãs,
civis, quais?
- ocas como esse soslaio do homem
tradicional
subindo correndo escadas e barrancos,
pesando barras,
desejando anal, desejando um
comandante,
desejando ser aquele que
quer bem a um comandante,
qualquer comandante
que não estava aqui quando me
mataram.
eu já estava aqui quando me
mataram,
e renasci na voz dela dizendo que
os milicianos mataram Marighella,
que muitos morrem,
têm que morrer? quantos mais têm
que morrer?,
mas eu estou aqui, eu já não
estava,
eu já não estou aqui, eu sou
uma espécie de último poema,
fazendo com os fuzilados
o que fizeram com o meu sangue,
digo,
porque eu fervo antes de transbordar.
quinta-feira, 11 de outubro de 2018
a gente gritava
Lula livre
no meio do povo
no meio da chuva
na noite
em Curitiba
sem ter onde dormir
mas não importava
a gente não tinha
nem barraca
a gente gritava
olê olê olá
vem cá
esse povo não trabalha?
a gente não trabalhava
só gritava e chorava e amava
eles sim, todos os do campo
carregavam panelas
lavavam o chão
limpavam a rua
e iam e vinham
e iam e vinham
a multidão
com os colchonetes
o Lulá lá ecovava
e o Lula lia, ô
Lula para você
as nossas cabeças molhadas
o Olívio, já velho
e os jovens com seu tambor
la revolución será gozoza
me gustas tú
me gustas tú
soltem Luís Inácio
bom dia Lula
boa noite Lula
e o Lula lia
e o Lula lia
me mordia a fome
de ao menos mais um minuto
da sua nossa
nenhuma jaula
no microfone aberto
debaixo daquele ceú
debaixo daquele ceú
100% inocentes, nós
que somos Lula
e o Lula lia
quem nos prendeu ali
foram os vizinhos
mal amados e armados
que não aprovam
as panelas carregadas
com legume todo limpo
arroz sortido
amor sentido em cada voz
mais perto Lula lá
me gustas tú
me gustas tú
e o Lula
bom dia Lula
boa noite Lula
boa noite Lula
bom dia, Lula,
livre, o Lula,o livro
sábado, 6 de outubro de 2018
Cronos come os seus próprios filhos. Cronos tem medo. Cronos quer ganhar as eleições, não admite derrota. Cronos é carcerário. Aprisiona a vida na sua barriga, mas não faz nascer. Cronos é bem nascido. Nem preciso dizer que Cronos é branco, ou pelo menos é o que supomos. Ele tem barbas brancas, que nem o Papai Noel. Ele quer mais, mais, mais. Ele inteiro é uma grade, por isso é que se organizam calendários e cronogramas: para conter o velho irado. Foi ele quem escreveu todas as Enciclopédias, porque Cronos é organizado. Ele também quer saber tudo. Cronos é o Google, que faz seus funcionários trabalharem de madrugada. Eles organizam as grades, as grades do cárcere e do calendário. Tudo tem que estar no seu lugar, que é um lugar estreito e comprimido. Cronos gosta de tudo limpo. Limpo, para ele, quer dizer branco. Chão, paredes, teto. Cronos passa panos o tempo inteiro em suas superfícies. Não senta na grama para não se sujar. Não bebe. Pensa que os bêbados são muito barulhetos. Não peida. Para ele, é pecado. Cronos come, come, come. Come árvores, come o sol, como consegue? Ele come e não caga. Ele não tem intestino, só sistemas de triagem, processos de seleção; às vezes está com as inscrições abertas, mas é preciso saber preencher os formulários, clicar 597 vezes em “continuar” e ter uma internet rápida, porque Cronos quer tudo pronto antes de estar pronto. A pressa, para ele, é o momento certo.
Cronos gosta de serras e quando vê as copas despencarem com estrondo ele se sente forte. Está sempre estufado, como um peito de frango entupido de hormônios. Anda pela vida com esse aspecto galináceo e com dores nas costas. Nunca sabe o momento de parar porque ele não quer que nada realmente flua. Cronos se alimenta das doenças curáveis apenas com remédios. Por isso ele prolifera farmácias. Todas com essa luz branca que a ele tanto satisfaz. Todas aparentemente limpas, cheirando a detergente e sem gente. Ele também prolifera carros, de todos os modelos e tamanhos. Tem sempre um modelo novo com os faróis um pouco pequenos, ou com defeitos de suspensão, para que se possa fabricar novos carros. Cronos corre, corre, corre pelas estradas abertas dentro de florestas, pelos trilhos dos trens de ferro que carregam mercadorias, madeiras e minérios. Ferros, ferros, ferros, Cronos come imensas pontes erigidas sobre os lagos; gosta de se gastar em pedágios e em passaportes. Cronos é Cronos, como uma espécie de morte, um pássaro sem voos e um brinquedo quebrado. Ele também se alimenta de palavras, mas só das palavras bem documentadas. Daquelas que são guardadas em livros grossos e obsoletos. Livros que pretendem ensinar, mas não aprendem porque não sabem ouvir. Livros com pouco espaço entre as linhas. Nada é mais morto do que os livros, quando não contam histórias; nada é mais morto do que livros só de verbetes e explicações. Ao invés de rodas, prateleiras retas. Ao invés de ouvidos, cifras. Os livros brancos de Cronos gostam das notas e das linhas retas.
Nem todos os livros são de Cronos. Ainda bem. Quando não são lidos, os livros que não são de Cronos agonizam. A poeira em suas páginas é um grito deles. Livros que não contam histórias são sem graça, sem corpo, sem pele, sem ouvido e sem pena. O mesmo vale para os livros sem poemas. Os poemas são palavras que Cronos não come. Para ele, são palavras indigestas. Porque delas jorra a voz da poesia: a poesia está sempre em roda e dificilmente em prateleiras. Ela vai do coração aos ouvidos como voam as borboletas. Faz percursos sinuosos no ar, dança nos pulmões. O mesmo ar que entra no corpo de um leitor é inspirado pelo outro. Leitores de poeisa são trocadores de ar. Amam vento. O poema é curvo e carrega esse ar de riso. O poema nunca está sozinho no trânsito, ri das regras e observa minúcias que Cronos não enxerga. O poema baba, cospe e sua. Não precisa ser encadernado. A capa dura é o solado das botas de um livro milico. Livro que cruza o oceano e nos aponta as suas armas. A arma das palavras elogiosas. A arma da narrativa histórica. A arma das grandes personalidades. A arma das notícias falsas. A arma dos aplicativos, das aplicações financeiras e da aplicação de injeções. A arma da compra e venda. A arma dos fascículos e das ilustrações. A arma das boas intenções. A arma das lanternas e da luz branca, branca, branca, dos corredores e das salas. A arma das paredes sem pixo.
O livro milico não faz revolução. Quem não tem cão, caça com a Enciclopédia Britânica. Para fugir de Napoleão, procura uma brisa nas suas páginas. Engolir, engolir, engolir, é o que pedem as grades de Cronos. Comer pedaços de árvore industrializados e depois cobertos com tinta. Sentir na boca o gosto do pó e da inutilidade. Sentir o estômago embrulhado a cada notícia nova, a cada pesquisa eleitoral, a cada resolução numerada nos aguardando nos porões e nos cadafalsos. Façamos a roda. Para parar de falar um pouco. Para trocar o ar e senti-lo passar de pulmão a pulmão. Para praticar o toque e a escuta, para ver Cronos dormindo, inerte, desapercebido, descartado de todas as manhãs.
Cronos gosta de serras e quando vê as copas despencarem com estrondo ele se sente forte. Está sempre estufado, como um peito de frango entupido de hormônios. Anda pela vida com esse aspecto galináceo e com dores nas costas. Nunca sabe o momento de parar porque ele não quer que nada realmente flua. Cronos se alimenta das doenças curáveis apenas com remédios. Por isso ele prolifera farmácias. Todas com essa luz branca que a ele tanto satisfaz. Todas aparentemente limpas, cheirando a detergente e sem gente. Ele também prolifera carros, de todos os modelos e tamanhos. Tem sempre um modelo novo com os faróis um pouco pequenos, ou com defeitos de suspensão, para que se possa fabricar novos carros. Cronos corre, corre, corre pelas estradas abertas dentro de florestas, pelos trilhos dos trens de ferro que carregam mercadorias, madeiras e minérios. Ferros, ferros, ferros, Cronos come imensas pontes erigidas sobre os lagos; gosta de se gastar em pedágios e em passaportes. Cronos é Cronos, como uma espécie de morte, um pássaro sem voos e um brinquedo quebrado. Ele também se alimenta de palavras, mas só das palavras bem documentadas. Daquelas que são guardadas em livros grossos e obsoletos. Livros que pretendem ensinar, mas não aprendem porque não sabem ouvir. Livros com pouco espaço entre as linhas. Nada é mais morto do que os livros, quando não contam histórias; nada é mais morto do que livros só de verbetes e explicações. Ao invés de rodas, prateleiras retas. Ao invés de ouvidos, cifras. Os livros brancos de Cronos gostam das notas e das linhas retas.
Nem todos os livros são de Cronos. Ainda bem. Quando não são lidos, os livros que não são de Cronos agonizam. A poeira em suas páginas é um grito deles. Livros que não contam histórias são sem graça, sem corpo, sem pele, sem ouvido e sem pena. O mesmo vale para os livros sem poemas. Os poemas são palavras que Cronos não come. Para ele, são palavras indigestas. Porque delas jorra a voz da poesia: a poesia está sempre em roda e dificilmente em prateleiras. Ela vai do coração aos ouvidos como voam as borboletas. Faz percursos sinuosos no ar, dança nos pulmões. O mesmo ar que entra no corpo de um leitor é inspirado pelo outro. Leitores de poeisa são trocadores de ar. Amam vento. O poema é curvo e carrega esse ar de riso. O poema nunca está sozinho no trânsito, ri das regras e observa minúcias que Cronos não enxerga. O poema baba, cospe e sua. Não precisa ser encadernado. A capa dura é o solado das botas de um livro milico. Livro que cruza o oceano e nos aponta as suas armas. A arma das palavras elogiosas. A arma da narrativa histórica. A arma das grandes personalidades. A arma das notícias falsas. A arma dos aplicativos, das aplicações financeiras e da aplicação de injeções. A arma da compra e venda. A arma dos fascículos e das ilustrações. A arma das boas intenções. A arma das lanternas e da luz branca, branca, branca, dos corredores e das salas. A arma das paredes sem pixo.
O livro milico não faz revolução. Quem não tem cão, caça com a Enciclopédia Britânica. Para fugir de Napoleão, procura uma brisa nas suas páginas. Engolir, engolir, engolir, é o que pedem as grades de Cronos. Comer pedaços de árvore industrializados e depois cobertos com tinta. Sentir na boca o gosto do pó e da inutilidade. Sentir o estômago embrulhado a cada notícia nova, a cada pesquisa eleitoral, a cada resolução numerada nos aguardando nos porões e nos cadafalsos. Façamos a roda. Para parar de falar um pouco. Para trocar o ar e senti-lo passar de pulmão a pulmão. Para praticar o toque e a escuta, para ver Cronos dormindo, inerte, desapercebido, descartado de todas as manhãs.
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