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- Performances | vídeo
sábado, 31 de outubro de 2015
Vai-se um halo de vazio construindo
por entre todas as coisas:
ao redor dos entes em partida
somam-se desatinos palavras
cérebros de saída.
Forma-se ao redor da xícara de café
um respeitoso espaço de vazio
avisando que ela é coisa
na sua ressência repousando.
Movimento de mão na xícara
é bruma transitante
da coisa na coisa
no espaço do halo
O desenho bebe café
e transforma o vazio em cântaros
de coisa petrificada
na condição etérea das palavras
escapantes
de gente que larga a xícara
e se vai.
poema de Desconjunto, meu primeiro livro (IEL, 2002)
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
Cronos, Telma Scherer, 2014, videoperformance, 3min7seg
Trabalho desentranhado do vídeo de Paulo Herkenhoff
(1979) Estômago embrulhado.
O ponto de partida é o livro. O ponto de chegada é a performance. Não, o ponto de partida é o corpo, o ponto de chegada não há. A performance mora no vídeo, um espaço-tempo. O livro provém do ritmo, o ritmo da respiração. As batidas cardíacas são as primeiras páginas das quais se tem notícia. O livro é tridimensional. A escultura tem braços e ossos. O sangue percorre as veias quase em silêncio. As palavras sussurram caladas dentro dos livros que não são abertos. Pode-se fazer de tudo com um corpo: amá-lo, vendê-lo, atá-lo a um poste com uma coleira. Pode-se criar um fluxo com quaisquer conjuntos de palavras, vide a receita dadaísta para compor um poema. A página branca aceita tudo.
A maior parte dos movimentos do corpo são invisíveis. Um livro quase sempre tem
seis faces, Dom Quixote também?
Quantos pergaminhos usados e apagados, quantos ouvidos, bocas, labirintos,
diafragmas e pulmões?
Um livro pode ser falado, ou
composto em
pequenos fragmentos de papel que se entrega ao homem dentro da penitenciária.
Um livro também pode ser
esquecido logo depois de escrito.
Os livros morrem cotidianamente.
Após a primeira impressão, em um
ano 80% desaparecem. Em pesquisa de 2011, averiguou-se que
47% dos brasileiros não conhece
ninguém que venceu na vida por ler muito.
50% não leu nenhum livro nos
últimos três meses.
Mais de quarenta e um milhões de
pessoas leem a Bíblia, enquanto menos de 20 milhões leem poesia. Mesmo assim,
Carlos Drummond de Andrade é o quinto escritor mais lido do Brasil.
85% dos brasileiros não comprou
nenhum livro nos últimos três meses.
71% dos 67% que sabem que existe
uma biblioteca na sua cidade consideram-na de fácil acesso; no
entanto, 75% não frequentam bibliotecas. Destas 164,8 milhões de pessoas, 33%
respondeu que NADA as faria mudar de hábito.
Um livro destroçado: suas linhas podem ganhar a forma de um órgão. A água desfaz os livros com facilidade. Foi um incêndio (o de Alexandria) que nos levou a crer em progresso.
Um livro destroçado: suas linhas podem ganhar a forma de um órgão. A água desfaz os livros com facilidade. Foi um incêndio (o de Alexandria) que nos levou a crer em progresso.
domingo, 18 de outubro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
não ponha pingos nos meus is, ponha pratos na minha mesa. não suponha que estou sempre certa. e que você, prateado assim à lua cheia, virará maré de sempres. a vida não pede desculpas pelo prazo a mais que nos concede para excomungar as lagartas do jardim. não ponha o lixo no saco de lixo, é tempo de composteiras cheias. não proponha eliminação dos bichos grilos pelas pisadas dos elefantes e dos gatos, dependendo da situação. esses não-me-toques que não adiantam. às vezes, é hora de borrifar veneno e queimar os restos das árvores mortas. é preciso saber o momento de topar com o vidro, porque quando é também uma hora de não ser. a água se recorta desde o fundo da imagem, e fende. vira faca afiada para as coisas que ninguém viu. aquele sussurro no meio da multidão, sua boca assim de lado, falando meio fechada para os passos apressados do metrô. não peça para que eu diga nãos porque fui feita da matéria dos zelos. somo os zeros com zeros à direita, prevendo os golpes que irão nos deixar famigerados no destroçamento da família, nas lavagens dos pratos e do dinheiro, mas com a linha amarela a ser cruzada diante dos olhares gringos dos que não entenderiam o que você fala. por isso, pare de murmurar, diga logo o que nos faz diante do metrônomo algo que ainda não finda, ou pelo menos por enquanto. sei que há contas que só se pagam em euros. e há pilhas e pilhas de notas falsas e há pilhas e pilhas de notas irreais na gaveta do marqueteiro. por isso são políticos, eles, e nós produtores de prazos elevados. não manque, não se zangue, marque no seu calendário a visita dos bolos, dos bifes, das aves recheadas e das sobremesas várias feitas com a moeda dos dias de festa. não se esqueça de colocar um sim ao lado do guardanapo. logo estarão todos presos. e nós, processos.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
dizem que o meu tataravô alemão estava preso e o irmão dele, mais desonesto, quando entrou para o mesmo sítio, o convidou para migrarem ao Brasil. ele aceitou porque se chamava Miguel e porque havia roubado para comer. mas o navio que singrava também mordia o seu sangue: era tanto horizonte e nenhuma voz. dizem que adotou enxada por falta de filho. e que as raparigas que vinham ter com eles eram todas prostitutas. e que ele pagou os porcos a prestações. não se viam lencinhos brancos na beira do rio, ainda assim chegavam barcos com outros homens famintos. e não sei com quem foi mesmo que ele se casou, só sei daqueles olhos escurecidos de olheira, daquelas costas calejadas, daquela pele curtida pelo sol e pela enxada. parece que a terra era vermelha, que o milho crescia, e que havia feijão. parece que o verão sempre se aproximava para afastá-los de seu centro. e que a casa foi construída sobre uma cachoeira. o rio era limpo, lodo, porto não havia. não havia bombeiros, estradas, negócios, só picadas no mato adentro e a cruz que nunca parava de vigiar a produção.
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