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sábado, 19 de novembro de 2016
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Do céu da boca do cantor
ele saiu insuspeito,
o duende.
Ressou desde
o topo da cabeça
escorregou de
dentro do peito
e num
baque
simplesmente saiu.
Foi quando o corpo
de repente se
contorceu
para continuar a cantar
e conquistar as meninas.
Ele saiu
sonso e insatisfeito
esgueirou-se
para além dos cabelos
tão pretos e lisos e lindos
e quase grudou sem querer
no suor desse rosto de índio
do andré que
quase, sim, o matou.
Uma pisada em falso
sem nem sombra de
falsete
facilitou a fuga
com a
pressão de ar comprimido
nos foles de dentro.
O duende
fujão e fajuto
morto de
medo do andré matos
se viu finalmente a salvo
do passo pesado
dos pulos
dos pulsos que vão e que vêm,
vociferados.
A plateia
ignorante do duende
continuou cantando
agarrada num acorde
acima da fumaça dos estrondos.
O duende
finalmente a salvo
não sabia o que fazer
e nada fez.
Pronto para aprontar e
desagradar as meninas
grudou num canto do teto
preto
e ali ficou.
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
Giovanni Batista Bracelli, 1632
sei que Plotino me espera
para um encontro extra-conjugal.
Plotino parado, à mão,
na mesa de cabeceira.
Traição sem ancoradouro
nem hora pra acabar,
à vista do nascedouro.
Plotino é brasa,
buraco à guisa de fundição,
estrondo de gonzos interiores,
belo como a brisa do verão.
Plotino de ferro,
de trilho, de alça e
escada, Plotino de farda
é prata da casa,
confortável, verde,
dedicado a dedicatórias,
furtado na feira,
crime amaro e amuleto.
Plotino é tesão de todos os tesouros.
Plotino Platão,
alívio das mal-casadas,
cassado,
Plotino enfim enamorado,
posto de lado, no lodo,
do alto do trovão,
Plotino trovador de boca e de boteco,
rei do lero-lero,
lilás, feminídeo e feminazi,
femeeiro, tão fodão,
Plotino à porta de todos os precipícios.
Plotino lua de prata,
patrão, fuga e sonata
para minha boceta,
homem casado, safado,
comido a mordidas
no marco das reminiscências,
uno e vazio como todos os cem mil.
Plotino aflito, roubando carros,
coçando o saco,
comendo restos,
Plotino papo reto depois das baforadas,
tomador de porradas,
heroi, bastardo,
chacinado em Xingu,
filho de Xangô, estuprado,
Plotino de pele sem pêlo
ou atropelo, curado
pelos curas mais viados,
martirizado, milico,
cheio de atrito, atordoado,
Plotino palhaço e
puto, porco,
pedaço de nada que não se lê,
namorado.
sábado, 22 de outubro de 2016
Voz havia
atrás da bocca
della verità
uma voz persuasiva
voz governo
desestimada dos deuses
voz estima
da vida pouca dos falsários
voz havia
que mentia
quando mordia o inocente
E a pedra sobrevive
desde tempos tão antigos -
a pedra -
a Fica -
guardada em hall de igreja
em Roma -
a terra salafrária
única paisagem e
cloaca massima
vertigem de passado
e sumo sacerdócio
O sumo do sacerdócio
é querer ser essa voz
que engana o tempo
e revolta
ainda
uma boca passada
de pedra
que pulsa
onde todos põem a mão
terça-feira, 18 de outubro de 2016
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
você quer ver de novo
aquele que é velho
e aquele que se veste
em listras brancas e azuis.
o gênio, o bamba, o Genet,
o que nunca se sacrifica.
você quer ver de novo
o que não pare
e o que não para nem
nasceu para seu pai.
e o que não para nem
nasceu para seu pai.
o que abunda em rios
e em montanhas
e
o que faz gemer a terra
e te atiça como
prova e professor -
o ator -
o só cabelos brancos
atalho de antanho
de nuvem, de motivos.
atalho de antanho
de nuvem, de motivos.
você quer rir de novo do de
raivas
de nenhuns amigos,
raivas
de nenhuns amigos,
o nu no supermercado,
o do abismo, o abismado,
o mal amado e
o cabeçudo e
o caralhudo e
o otário
o só salário e
o salafrário,
o que te traz de novo a manhã.
você quer ver de novo,
você é o ovo,
ele o ele e o ela,
o sigismundo
o Sigmund Freud
o frio o freund o azulejo
o Alentejo e
o cara de pau, a pia bastismal,
de cortiça, o bacanal,
de cortiça, o bacanal,
aquele que não cabe nos óculos.
você quer ver de novo
o carismático e o asmático
o másculo
o mouro
o molhado
o milho e
o amanhã,
o Plínio douto o sábio
o sabão e o mouco,
o sabão e o mouco,
o que não destrava so dentes,
o destroçado,
o dançado em drama de esquina,
o esgrima,
o xamã
você quer
o que nunca se despe
o incriado e o mal criado
o infiel e o dono do quartel
o mercenário e
o troco não trocado
o nada de nenhum,
o Um e o mais um.
o úmido, o deslocado
o trovador e o tronco
o monstro da lira sem cor, o intruso,
você quer,
você quer,
o confuso, o Confúcio, o florido,
o todo amor e o tanto desamor.
você quer ver de novo, sim,
o incômodo, o iniciado
o incômodo, o iniciado
o Confúcio, o amigo e o amado,
o enfim oferecido, aquele que.
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
de nada adianta fazer coisas úteis, quando você não cumpre o cronograma.
cronos ofusca com o copo na mão, dizendo: aja!
e haja luz para verter em vida as massas gordas da escuridão.
o que é que se faria se não fosse o saborear do dia, sem perdão e sem paralisia,
porém lento, lento, lento?
cronos ofusca com o copo na mão, dizendo: aja!
e haja luz para verter em vida as massas gordas da escuridão.
o que é que se faria se não fosse o saborear do dia, sem perdão e sem paralisia,
porém lento, lento, lento?
sei que tudo se resolve em tintas, a matriz é a grande mãe das horas tornadas tornado
de repente desinútil
como a gravidade da gravura preenche horas
em doses de aguarrás
entre buchas e esponjas
(manchas a evitar
com talco e paciências)
jogos inteiros de cadernos, quatro por quatro
secaduras de uma vez.
sim, é aqui, nesse precipício, que se desfazem as potências
e as nuvens que um dia, não neste, ainda mendigarão sentido
sob os olhos aflitos de momentos passageiros.
de repente desinútil
como a gravidade da gravura preenche horas
em doses de aguarrás
entre buchas e esponjas
(manchas a evitar
com talco e paciências)
jogos inteiros de cadernos, quatro por quatro
secaduras de uma vez.
sim, é aqui, nesse precipício, que se desfazem as potências
e as nuvens que um dia, não neste, ainda mendigarão sentido
sob os olhos aflitos de momentos passageiros.
fazer sentido de passado impróprio, doente, recente -
a lembrança desse rosto que vem em hora
imprópria, sem nem sombra de um beijo que eu quis dar?
nem lugar para intervalos
quando a lembrança é nítida,
e são cílios, brilhos, olhos,
boca molhada de poros e pêlos
para os quais se apela em linhas.
a tela come o cuspe de cronos, e
então não há
língua que haja
e aja nos longes de lua cheia.
então não há
língua que haja
e aja nos longes de lua cheia.
terça-feira, 11 de outubro de 2016
vá de retrum, retrocesso. você pensa que tudo pode, mas esqueceu as janelas abertas, qualquer um pula para dentro do seu centro.
e depois, puxe a cortina. veja daqui mesmo onde picharam o seu nome no espelho do olho da rua.
vá de retrum, retrocesso. que eu aqui sei do meu bote.
comprar mais um pouco de paz, seja com gin ou com ginástica, planejar parricídios e prestar-se ao trabalho de parto, isso ninguém quer.
não é apenas porque sou mulher, é porque os muros são falsos e os passados passam mais rápido do que se imagina.
depois voltam com cheiro de estar por cima, mas não. nem acima nem abaixo.
é de retrum, vá de retrum.
não compro amor fabricado na china. nem embarco em barcos furados. também, não importa, esses portos se desfazem com o primeiro vendaval.
e há porcos e vendilhões de templos em todos os espaços parados.
por isso, avante.
e feche a porta, adiante, que ninguém tem mais tempo não.
você chegou atrasado, retrocesso. já até picharam e mijaram em você por todos os lados.
e tá na hora do meu almoço, agora.
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
domingo, 9 de outubro de 2016
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Em meu bolso, um resto de chuva. Guardo-a por
bilênios. Como tirar do bolso ─ sem molhar os transeuntes. Devoram a água aos
montes.
Há um cão escondido entre os meus seios. Fica
aqui, sossegado, comendo instantes. Alivia-se em estantes, trás de livros,
traça e mofo. Às vezes segredo. Às vezes esgoto.
Tem borboleta também. Voa e volta. Basta o
toque dessa mão na minha mão. E escorro no risco dos rabiscos.
Ressuscitando renúncias.
Por exemplo, Peter Flötner, 1542. É dele a
gota que faltava. A do fantasma. Essa mágoa que se põe a nu, de braços dados,
inundados. Água que corre há bilênios, cinco séculos, ou quase. É o que a
poeira e a culpa não poupou. O temor dos transeuntes. O coaxar do meu cão. O
poder de dizer não.
domingo, 25 de setembro de 2016
o corpo se inscreve no corpo como dança ou doença, como demais de amor inacabado pelas frestas do dia em que tipos e cismas azuis, vermelhas, negras, amarelas, teimam em ocupar o espaço da página, como sulcos de instantes onde o caminho de casa se enriquece de tomadas da mesma face sob a infinita luz da madrugada.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Ortned é um rei sem reino. Ele vive às espreitas, um rei nu e sem vídeos na internet. Um quase desconhecido pelos seus súditos. E desconfiado. A cada margem de erro, a cada marca no papel, a cada gesto despercebido, Ortned vibra do outro lado do mundo, Ortned se infla sem que ninguém proteste. Suas leis, por isso, sempre se cumprem. Ortned gosta de calar os instantes, os bobos pensam que são muito e falam, falam, falam. Ortned guarda todas as informações. Depois vende para outros reis desconhecidos, e os sujeitos passam a ter dor de dentes. Há estragos em máquinas de lavar e pequenos tombos. Ortned também é a salvação das situações mais aflitivas, quando há lapsos entre aquilo que as pessoas sentem e o que se pode pensar. Orned mora naquilo que é informulável. Por isso, para reinar não precisa de formulários, carimbos e requerimentos. Basta um momento para vê-lo, majestoso, quase sem seguinte.
sábado, 10 de setembro de 2016
E o quê e o ukiyo-e,
às sete horas da noite. O que o ukiyo-e às sete horas da noite? É tarde, é
noite, é hora de gravar todos agravos nesta gravura de horas. Neste dorso do
tempo, tigre deitado, rosnando, tigre quase um gatinho de cócoras sobre o muro.
Mas a noite sabe. O que sabe o ukiyo-e sobre a sobra que sobra nesta sombra de
muro? A casa é espanto. A casa é murada de ruídos. A casa é morada de espíritos
que sobem e descem escadas, o som dos seus chinelos, seus gritos, seus uivos,
sua televisão. A casa não quer cuidado nenhum, quer as sobras, quer tudo o que
sobra de nós. Ukiyo-e é a sombra transitória, nós passamos, não resta nem
sombra. Estamos ligados nas tomadas. Somos as sobras de nadas nadando entre
madeiras, pincéis, entre os dedos do gravador. Também ferimos, como goiva e
buril. Também cortamos o assunto. Também unimos nosso silêncio aos sons de
séculos passando sem vizinhos na casa vazia. Vocês não veem que somos
esqueletos? Sobramos apesar de tudo. E apesar das goivas e formões formamos um
uníssono que só se escuta quando quando, quando longe, quando então, usando
algures e algas, quando no céu se dizem amém, amém, amamos. Nós nunca nos
dizemos sem tinta preta. Nós não acreditamos em Deus, só colonizamos. No
entanto nos guardamos para o paraíso e enquanto não temos mais o que fazer,
fazemos. Fazemos amor com as cortesãs de Yoshiwara. Fazemos glicínias, rosas,
púrpuras, toaletes maquiadas, fazemos matriarcas caírem a zero. Porque nós
somos o insulto. Misturamos os insumos e o que o ácido não queima também não
verga a madeira. Não subimos para fazer visitas, não tomamos chás, não queremos
bolo em pratinhos oferecidos durante a tarde. Para nós é sempre tarde e sempre
tarde para saber. Sombreamos o traço mesmo quando nos chamamos, e quando nos
provocam, então, aí somos Marte e Vênus. Temos céus na boca, registros,
coleções de latas, e somos sem perdão. Porque passamos assim, como as cédulas
de mão em mão, ganhando bactérias, perdendo tempo, perdendo o que para vocês é
tudo e para nós só suma luxúria. Gastamos com nozes, rolos, caldas, caramelos,
chocolates e tesouras. Não fazemos maiores alardes, mas é assim, na impermanência
das poltronas que nós mesmos nos prensamos.
poema publicado no jornal Qorpus / UFSC
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
sábado, 27 de agosto de 2016
direção e edição de Danielle Sibonis
poema do livro Rumor da casa (7Letras, 2008)
filmado no Castelinho do Alto da Bronze (Porto Alegre) em 2010
você soa como brisa, vulcão ou ventania?
descubra rapidamente respondendo ao quiz elaborado por mim: clique aqui
você soa como brisa, vulcão ou ventania?
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desvelo um vulcão vazio
amarelo
breve como o tempo de voltar
para ver a página limpa
- e um vulcão se espalhou com o movimento
da mão sobre o nada que é sempre
mais que branco.
um vulcão preenchido
pelo vento espesso que preenche
o nada da mão.
velo o tempo todo, como quem não
existe, pois o que há é só
um vulcão vazio, o quase que
espesso
se abisma
nos vincos da ventania
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
tudo parado na tarde solar.
céu prenúncio.
braços de árvore balançam,
a nuca do pássaro fugitivo
se esconde entre manchas.
céu nenhum.
o avião parasita os espaços de quase.
é de guerra. é de sopro. é avulso.
o avião agulha.
uma queixa muda a do menino
quando olha através.
vira a página do livro.
não querer voar nesse céu
é dom.
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
Caso palavra com palavra
e não consigo escrever.
Vou à praia e
o mar é só o mar, areia.
Sinto um tédio de as coisas serem coisas
e não durmo
rasgo palavras
Sinto imenso na manhã com café preto
Caso palavra com palavra
arranco cabelos
Meu doido sumir se atravessa
digo e rasgo
digo e rasgo
digo e rasgo
muitos filhos
terça-feira, 2 de agosto de 2016
da linha do tempo de agora, de dois de agosto de 2016 às 15h.
apropriação e manipulação de imagens.
mais na página: https://www.facebook.com/dalinhadotempo
Por que escondem isso de você?
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Parábola sobre como as circunstâncias mudam as
pessoas.
Agosto 2016
Julho 2016
Junho 2016
Maio 2016
Abril 2016
Março 2016
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Fevereiro 2016
Janeiro 2016
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segunda-feira, 11 de julho de 2016
Formação de onças habita o quarto.
Digo rápido me esqueci um detalhe de rotina.
Não há tempos entre nós dois.
Somos um pouco de nada, assim jogado na areia
esperando que os dias mornem.
Mornar: parar o tempo em uma formiga.
Ser memorando. Aquilo que se diz depressa. Pura informação.
Tampar: tentar com pouco tino dizer o memorável.
Tempar: tampar com água morna todos os cadáveres.
sexta-feira, 1 de julho de 2016
Hoje tive alguns pendores
com aquela Ana Cristina.
Ana Cristina era persona.
Eu, personne.
Ela, cansada de ser homem
tirou luvas de pelica, delicadas
e foi chorar no banheiro.
Isso eu faria, não fosse porca.
Em Lajeado, uma porca matou homem.
Ela dava a luz quando acudiu o agricultor.
No culto da criação, ele era demais.
Ela devorou muito da sua carne.
Sobre o porquinho, ninguém falou.
Talvez por isso eu seja pouca
devorando cartas, maus poemas
e cassetes bossa-nova.
Quando me amansarem,
serei Pessoa nenhuma.
*poema do livro Rumor da casa (7Letras,2008)
domingo, 26 de junho de 2016
Para silêncio de cordas e nãos é
preciso ter o cuidado de não se mover. Se mexer esse braço, já estronda o órgão
suspenso desse quase céu. O tempo. Aqui é azul e por isso são abismos os
espaços do som. Para a dor de encontrar, não há remédio. O não é proferido sob
o sol a pino e então que tudo abunda. São tambores, fagotes, zabumbas,
trombones e trompas de falópio. São os sossegos que não regeneram. Para cima e
para baixo, há vida. Mas o sol se move. E a vida esquecida entre sons já então
se cronometra. Um leve mexer de mechas é o suficiente para sonatas inteiras,
intragáveis, a encher o espaço aberto. O corpo. Tão perto do calendário, o
peito, que só um cristão aguentaria. Ainda há jogos de paciências, há dedos, e
ciências na geladeira. Para ficar um pouco em paz, come-se o não com vinho.
Idealizam-se iguarias. Para a dor de encontrar, entretanto, não há remédio. Por
isso se samba até sem perna, sem braço, sem cílios que se abrem em abraços, sem
tédio, para a sina do silêncio de cordas e nãos.
poema publicado no jornal Qorpus, Pós-Graduação em Estudos da Tradução da UFSC, nº20.
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