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sábado, 12 de dezembro de 2020
add ad infinitum
domingo, 25 de outubro de 2020
Como um poste que vomitou escombros, meu corpo
de pé na calçada, equilibrando no ar uma fala enviada e recebida, erguida como
um não, não um falo, uma fala, visualizada e nunca respondida, aflita como uma
saia, andando rápido, agora, agora copiando os passos, pliê, granpliê, degagê,
já exausta, justaposta aqui entre os júris, sustentando os joelhos, e o público
que grita: ela sim, ele não, ela não, por que sim?, se quiser gostar de mim,
sou afim, entre sussurros doloridos, dizimada como uma casa, cuspida em caliça,
aflita como uma sala, mãos ao alto, pés no chão, um salto, sempre depois do
pliê, passê, degagê, developê, e gira.
domingo, 11 de outubro de 2020
Nos vimos
no meio da pandemia
preparando
peitos em punho
para enfrentar
com porradas
e sustenidos
aquilo
que não se podia pensar.
Nos vimos
no meio da pandemia
e nossos olhos
fervilhavam medo,
e o medo ia até os dedos,
e as nossas vozes vibravam
pelo espaço
como trovões, trovoadas.
No meio da pandemia,
em vertigem,
a verve
dos verbos
se misturando,
se línguas,
alheias aos riscos
da verbalização,
porque as nossas
eram línguas mortas
e antigas
inscritas
no sabor dos ventos
e contaminadas
na memória
desde os cemitérios sambaquis.
A rua
era o perigo de sempre,
perigo de se respirar,
mas agora
se pode pixar
sem contratempo
no meio das madrugadas.
Um baile de máscaras
autômatas
ia e vinha, veloz,
as sombras não nos ouviam,
mantinham distância,
e nós
nos conservamos, também
há séculos
dos outros desses outros.
No entanto,
nos quilômetros
do nosso pixo
propúnhamos o instante.
Nos vimos, assim,
em pleno desespero,
poemas de fogo fácil
em espiral
dispararam
do centro do nada
que agora éramos
sem saber
se se pagam as contas,
se se compram
panos
para costurar as metades
de nós mesmos
com os nós dos outros desses outros,
ajudando com as máscaras.
Caçadores
de borboletas, que éramos,
e de nós mesmos, dos vazios
que vão de um galho a outro,
propondo sentidos
que se despedaçam, só pudemos
propor que tudo passe, e passa,
para podermos
transar com Pã, a sós
dos nós de nós desses nós mesmos
numa espécie de vazio de fábula.
domingo, 20 de setembro de 2020
Uma mulher
sozinha no apartamento.
No frio do carpete sujo
que aquece os pés,
nua. Completamente nua,
sentada,
olhos que se evolam
pelas paredes,
vitrais do quarto.
O computador faz ruídos, às
vezes.
É esquia e magra:
vazia
é tia, avó, irmã, sem nexo.
Está nua e só frente às máquinas.
Não há faunos. Florestas foram
concatenadas
no seu pensamento.
Em que pensa uma mulher
sem cajados
sem vestido branco
na brancura da pele lisa?
Seria mais de meia-noite
e haveria livros pelo chão,
todos abertos:
ela abre a página,
mói o livro
joga o livro −
e vem sentar-te ao meu lado,
Lídia.
− Ela vigia o branco
pelos espaços de folhas
entre linhas tão correlacionadas.
Ela saboreia relações, depois:
joga.
Joga fora,
no chão acarpetado
do apartamento,
joga e ri.
E vem sentar-te
à minha frente, Lídia
não sou tão máquina
que não possa causar
no teu ventre
um espasmo cheio de palavras.

Um cálice eterno − eternas
férias.
Voos de percevejo
por debaixo dos colchões.
Areia movediça
em sons e
fúrias do sono
sob os pés que
abrasam, no peito,
o vexame de ter dito améns.
Etéreo milho
estalando por entre os joelhos
que ainda com os pés me pisam
no sono-verdade dos tempos
em tempos, se abrindo e fechando,
matéria noturna das horas.
Pelas paredes, tudo pesa,
a malemolência dos minutos
desgasta-se em sons, fulminando
figuras
de baratas amarelas entre cartas
nadando
no pó
ora líquido
dos passados.
E os sentidos, não invento −
espreguiço.
*poema do livro Desconjunto, de 2002, revisto em uma manhã de domingo, em 2020.
sábado, 12 de setembro de 2020
eu fiz um colar de estrelas com as cordas do baixo acústico, e ressoavam na sala durante as tardes intermináveis dos meus vinte anos. fiz um vigésimo de segundo, sussurrando estrelas ao som dos meus vácuos, e vi, assim, um sussurro estrangeiro se desfazer nas rusgas do momento em que me vesti, colar, colo, coisa à toda como a presença das estrelas no meu peito, miasmas, minúsculos de momentos distendidos, como a luz nos cadafalsos.
e correntes elétricas estrelaram meus dentros feitos de esquemas e de listas de constelações escondidas dentro das suas calças. como circunstâncias encaçapadas nesses momentos nos quais espocam as luzes de dentro dos seus olhos, como cismas de cachoeiras. a gargantilha das marcas da sua língua no meu desejo constela como coisa à toa nas esquinas que rebrilho entre nós dois. e esses olhos, os seus, que me sugam por dentro, desatinam de estrela sobre os prédios dos quais me jogo para o centro do seu peito que se despede.
seu peito inerte para os meus desejos trama o tempero das quedas.
*
*
*
fiz esse poema, que não pude revisar, em uma noite de sexta (ou seria quinta?), sentada, a sós, no Tralharia, ao som de um jazz, quase verão. e quem diria que as cordas continuariam, agora que o bar fechou, soando como gongos aflitos, no meio dessas madrugadas em que não se pode sentar para escrever em um bar? um dos meus receios, ao me tornar professora, era o de ser flagrada constantemente nessa condição, que era ainda mais frequente quando morava em POA: a de procurar o burburinho das gentes, para me concentrar. eu gosto do ruído rosa que se forma ao som dos risos de um lugar lotado. escrevi meu réquiem para Roberto Piva num lugar assim, mas bem pé-sujo, como deveria ser, dada a minha pobreza. agora brindo ao espírito mundano no meio da quarentena monja: que o poema nos traga, aos tragos de Maiakóvski, um pouco de futuro, de brisa, ou de baixo acústico.
A foto da pintura não é pintura; e a própria pintura vive em mim do poema, apenas. O que o poema declara, a mancha de tinta desdeclara, com um certo cinismo e dor nas costas. Mas o que desdeclara o poema, o que é que dispara nas circunvoluções da mente, o que ele dança, onde faz pausa? Essa pintura, no fundo, é música, composta a partir dos ecos de um trompete reverberando a infância, quando o pai espalhava seus agudos pela vizinhança. E percute os gritos das crianças, cada martelada da perene construção ao lado da casa onde vivo, no final de uma rua meio mal calçada, no Campeche, onde os aviões às vezes passam, às vezes pausam.
terça-feira, 1 de setembro de 2020
C
terça-feira, 31 de março de 2020
a máquina com a qual escrevo
é meu próprio corpo
todo o ser é sua própria máquina
o sistema judiciário de mim mesma
onde não há provas nem calendário
meu próprio estado de mim mesma
eu mim mesma má
eu mim mesma máquina
de meses se sucedendo
com dias abertos dias fechados
dias azuis de pés burilados
para coleta de sangue e de provas
onde eu mesma me saúdo e me rasuro
uma sala toda branca
tem horror à sala branca
não
eles são vermelhos
minha voz
minha boceta
os tornozelos
não são brancos
tem horror
ao que não é
ao sistema judiciário do
sistema de arte
de mim mesma
sou também
o meu próprio espaço aberto
e alamedas, privilégios
poderia ser sem medo
como as saídas
também se fecham
sobre si mesmas
é um espaço com limites
todo suporte é limite
o seu próprio corpo
sua própria sala
sua própria rede e sede de peixe
nem para mim mesma
minha própria sombra
meu próprio insuportável
meu próprio céu
meu próprio espelho
minha própria não-sala
às vezes
e também tem seus limites
medos meandros
minhas próprias paredes
sou
minha própria pele branca
meu próprio refletor
meu próprio calendário
minha própria dor
me aprecia
como se saboreasse
minhas portas pernas abertas
preza
o preço que se paga
àquilo que se dá
horror à pele branca
de muitos nus
mas teme a pele
e tudo o que cheira e goza
e tudo o que sabe
a sua própria sala
um espaço confortável
nos cinco hemisférios
domingo, 29 de março de 2020
da minha garganta
sem passar pela boca.
disseram que ninguém
pode comer imagens.
para eles
é tudo norma
e haviam escrito
em um muro inexistente
que não se deve
degustar com os dentes,
porque a saliva contamina
o que flui nos sons da fala.
desde o glúteo até o monturo.
fiquei amarrada enquanto
pinçavam, de dentro do peito,
um jeito vermelho vivo.
estranho,
pois era justo o dom do muco
que me mantinha leve. o cuspe
pegajoso
tem Hélios por dentro, Jimis Hendrix,
Oiticicas, daimons e daimons
e daimons
que tocam flautas
por dentro. e Sócrates
nenhum.
a carcaça jogada, um boey de Rembrandt:
aquele aberto, não dissecado, salgado:
aquele colapso das coisas que podem
fazer sentido.
é pós e paetês. tem veias
como cachoeiras.
e sempre foi assim, parangolés,
luz se desplazando
desesperadamente
à procura do que não. e do que corpo.
essas imagens
eu mastigo
como vaca, na paciência
das deglutições.
faz parte do precipício
ao qual me jogo
com vontade,
não sem antes me sentar
assim, sobre uma pedra,
comendo as imagens que o mar
vai vertendo
dentro da boca. e deixando
que elas formem calda.
um vento bate e é bom.
depois
elas se fazem tantas
e tão zanzas, as imagens,
que dá até gosto
vê-las dançar.
as pedras onde me sento
ultrapassam tambor.
com violência.
aqui, no vento, é muito fácil, parece.
eles retiram as palavras
uma a uma. depois
eu pego a pedra
que me deram
e subo a colina. dói para aprender,
mas
depois do precipício
fica tudo meio ímpeto.
diz o que é: que é rosas, que é frestas
e é poças e águas mansas e
que é corte, às vezes.
coisa.
menos imagina, arrebenta a onda.
VINHO E HEMATOMAS
– E UM POUCO DE LED ZEPPELIN
onde as costas não podem se encostar
onde as coxas mal conseguem
subir umas escadas
sem ranger
por dentro
o sangue que circula
e forma essa pequena nuvem
primeiro azul esmaecido e depois
da cor do vinho
e dos seus lábios
nuvem dolorida
da lembrança
de uma queda que passou
como passou por essas coxas o seu
sangue e a sua saliva
nuvem de carne ardida
que se cospe nas esquinas
caindo de bicicleta
mascada aqui e acolá
uma espécie de vento
que esmaece em chuvas
a libido
a queda esse tipo de grito
que se grita só
pelas madrugadas
sem que haja
agentes ou arnicas
a aliviar
do tombo irrevogável
de todos os dias
quanta bobagem
se dizem os namorados
pensa Clarissa
a personagem
e me digo
o mesmo enquanto você
perambula pelo meu desejo
com seus lábio e língua
ainda intocados
mas perfeitos
como nessas fotos
você se lembra de uma glória
entre lençóis e suga
todos os meus lados
enquanto os hematomas
nuvens fuzis
fervem
por debaixo dos meus dicionários
há o rosário das horas
que orei sozinha
enquanto você
fingia não saber
o fim daquele orgasmo
e que há cabelo em ovo
para ser curado
com os números de Grabovoi
assim como o aro torto
e o pedal quebrado
você me avisou
vou não vá não vá disse
em uma alameda
ladeada de árvores
ali naquele lodo
você pode cair
assim
depois do orgasmo
cansada na chuva
às três da manhã
com a sua bicicleta
quando o sol urge
de desejos de nascer
na sua própria cama
ao som de Led Zeppelin
o seu blues
eu rio muito
do seu parlamento inglês
sendo Clarissa
a personagem
nessa jogada das pretas
que irão ganhar o lance
essa é a dama
baby
é o domus
a danação do instante no qual
você não consegue me sugar
e devolve
o clitóris entumecido
diante dos sinais de trânsito
para dizer adeus aos carros
e para sussurrar em cima
que não quer, não aguento mais,
mas não posso frear aqui,
pois parece
que você já me matou
***
Poema do livro Squirt (Terra Redonda, 2019)
A ninfa,
aquela que carrega as frutas
dentro da pintura.
A ninfa,
a nenúfar
de nenhum gosto
- a puro movimento -
aquela que põe ar
dentro das manhãs.
Ela veio assim
em um palácio, em Firenze
- as estátuas
com os dedos quebrados
não indicam.
Ela veio assim, em Roma
- as estátuas
de cabeças quebradas
não acenam.
Ela veio assim, em Brasília
- os passos voados
dos carros dos carros dos carros
não indicam. Porque
nada voa como no seu corpo
- o dela, que se sopra desde dentro
e flutua no momento
de braços abraçados em si mesma.
A ninfa. Não esta
- a do brasil importado
que nem ferve nem nunca
se olhou no espelho
enquanto queima
cada cor e cada tela.
Não. A outra, a de um
país por inventar, pois
sempre é outra e outra ninfa.
E é por isso que os ventos
dormem e acordam nela.
Sua presença mansa
se enfurece a cada
pequeno intervalo
na jornada
de falares e ouvires
sempre tão afetados
por nenhuma ninfa.
Poema do livro O sono de Cronos (Terra Redonda, 2019)
*
poema do livro Squirt
para um encontro extraconjugal.
Plotino parado, à mão,
na mesa de cabeceira.
nem hora pra acabar
à vista do nascedouro.
à guisa de fundição, fervendo
como o cobre que depois
se torna estátua.
em gonzos interiores.
É de ferro, de trilho, de alça
e espada, Plotino de farda
é, sim, prata da casa:
confortável, capa verde,
varado a dedicatórias,
furtado numa feira, como
crime amaro
e amuleto.
todos os tesouros
(quase como Platão):
alívio das malcasadas,
cassado e posto de lado
no lodo do alto do trovão
e trovador
de porta de boteco,
rei do lero-lero,
lilás,
feminídeo e feminazi,
femeeiro, tão fodão,
fuga e sonata para a minha boceta
- homem casado, safado,
comido a mordidas
no marco das reminiscências:
uno e vazio
como todos os cem mil.
coçando o saco,
comendo restos.
herói bastardo,
chacinado em Xingu,
filho de Xangô, estuprado,
Plotino de pele sem pelo
ou então atropelo, curado
pelos curas mais viados,
martirizado, milico,
cheio de atrito, atordoado,
um puto, porco,
pedaço de nada
que nem se lê:
namorado.
Lugares ogros
Lugares ogros é um romance experimental, publicado pela Caiaponte em 2019, através de um financiamento coletivo que oportunizou a criação da editora, por Marcelo Labes.
https://caiaponte.wordpress.com/catalogo/lugares-ogros-de-telma-scherer/