acrílica, serigrafia, posca, colagem sobre tela 50cm x 50cm
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segunda-feira, 22 de outubro de 2018
domingo, 14 de outubro de 2018
os milicianos mataram Marielle,
mas eu estou aqui.
os militares mataram Marighella,
mas eu estou aqui.
são paramilitares, corrigiu o
fugitivo.
concordo com ele, e não fujo.
eu já estava aqui quando mataram
Lorca,
falando seu último poema
na morte, na madrugada
eu morri, mas estou, porque eu
sou aquele que
eles não mataram quando me
fuzilaram
em frente ao paredão das suas
notícias falsas.
mataram, sim, mataram
sessenta por cento
dos homens escravizados
que vinham nos navios, enjaulados,
depois entregavam os corpos ao
relento
uns sobre os outros, os pretos
novos,
como em Auschwitz - nossa Auschwitz,
disse a dona do terreno onde
construíram uma casa, sobre os
corpos,
sobre os ossos
- ela comprou uma casa colonial, nossa
casa, disse,
no centro do Rio de Janeiro, em
cima do cemitério -
- assim são os milicianos, penso, assim,
no fundo das favelas do Rio, penso,
escondidos -
táboas sobre o cemitério, cimento
sobre as fundações
e é por isso que se há de se
exercitar, ele disse,
subir e descer correndo
as escadas e os barrancos, ele
disse,
cada um com a sua arma, ele
disse,
como em Auschwitz? a arma de
Primo Levi
era saber de química
- a minha arma é saber que não
sei se
a minha prima fez o aborto e
a arma dela é achar ruim ter
feito o que
não fez, ou seja, não ter feito o
que fez
era o seu sonho
à sombra da família brasileira
o feto tradicional
considerado abortado
por todos, quando nasce
em escadas e barrancos que se há
de querer subir
assim, correndo,
todo o brasileiro tem que ter a
sua arma
disse Marighella
dizem os milicianos
que só os homens de bem vão
comprar armas
mas os comunistas é que eram
assassinos
dizem, os comunistas que usavam
essas metralhadoras
que se decompunham de engembradas
ao primeiro assalto, assaltavam, eles
terroristas
de primeira página,
de primeira página,
os comunistas atiravam para matar,
eles dizem,
não mataram García Lorca, eles
dizem,
não mataram Marielle, eles dizem,
ela mesma que se matou, era gayzista,
aborteira
e não era como a minha prima
que fazia a família inteira
acreditar
que ainda era tradicional e
não era branca como os pretos que
querem
a volta
da família tradicional
- eu sou a favor, ele disse, a
favor da família,
da vida, do futebol, da mulher, da cerveja, ele disse,
da família de Naa Agontimé, digo,
família de Aqualtune, digo, liderando
os homens
com suas armas, digo, família
Ganga Zumba
sambando na cara da família,
digo,
família de Zumbi, se existe amor
em SP, digo,
ainda existe amor em SC? ainda existem
os nazistas?
quantos mais têm que morrer?
são a favor das famílias de
martírios
são os que matam Marighellas
a mando de um carro
em plena perseguição -
os policiais não viram que eram
só cinco garotos
pobres pretos celebrando - em
plena perseguição –
o primeiro emprego -
os policiais não viram
que matavam Marielle,
que me matariam, os milicianos
não viram
que matavam Lorca, as
mortes na madrugada têm essas
caras, sem os óculos,
as mortes de pretos novos, cinco,
cinquenta por cento
de astigmatismo no meio da
avenida, digo,
mortes abertas, limpas, sãs,
civis, quais?
- ocas como esse soslaio do homem
tradicional
subindo correndo escadas e barrancos,
pesando barras,
desejando anal, desejando um
comandante,
desejando ser aquele que
quer bem a um comandante,
qualquer comandante
que não estava aqui quando me
mataram.
eu já estava aqui quando me
mataram,
e renasci na voz dela dizendo que
os milicianos mataram Marighella,
que muitos morrem,
têm que morrer? quantos mais têm
que morrer?,
mas eu estou aqui, eu já não
estava,
eu já não estou aqui, eu sou
uma espécie de último poema,
fazendo com os fuzilados
o que fizeram com o meu sangue,
digo,
porque eu fervo antes de transbordar.
quinta-feira, 11 de outubro de 2018
a gente gritava
Lula livre
no meio do povo
no meio da chuva
na noite
em Curitiba
sem ter onde dormir
mas não importava
a gente não tinha
nem barraca
a gente gritava
olê olê olá
vem cá
esse povo não trabalha?
a gente não trabalhava
só gritava e chorava e amava
eles sim, todos os do campo
carregavam panelas
lavavam o chão
limpavam a rua
e iam e vinham
e iam e vinham
a multidão
com os colchonetes
o Lulá lá ecovava
e o Lula lia, ô
Lula para você
as nossas cabeças molhadas
o Olívio, já velho
e os jovens com seu tambor
la revolución será gozoza
me gustas tú
me gustas tú
soltem Luís Inácio
bom dia Lula
boa noite Lula
e o Lula lia
e o Lula lia
me mordia a fome
de ao menos mais um minuto
da sua nossa
nenhuma jaula
no microfone aberto
debaixo daquele ceú
debaixo daquele ceú
100% inocentes, nós
que somos Lula
e o Lula lia
quem nos prendeu ali
foram os vizinhos
mal amados e armados
que não aprovam
as panelas carregadas
com legume todo limpo
arroz sortido
amor sentido em cada voz
mais perto Lula lá
me gustas tú
me gustas tú
e o Lula
bom dia Lula
boa noite Lula
boa noite Lula
bom dia, Lula,
livre, o Lula,o livro
sábado, 6 de outubro de 2018
Cronos come os seus próprios filhos. Cronos tem medo. Cronos quer ganhar as eleições, não admite derrota. Cronos é carcerário. Aprisiona a vida na sua barriga, mas não faz nascer. Cronos é bem nascido. Nem preciso dizer que Cronos é branco, ou pelo menos é o que supomos. Ele tem barbas brancas, que nem o Papai Noel. Ele quer mais, mais, mais. Ele inteiro é uma grade, por isso é que se organizam calendários e cronogramas: para conter o velho irado. Foi ele quem escreveu todas as Enciclopédias, porque Cronos é organizado. Ele também quer saber tudo. Cronos é o Google, que faz seus funcionários trabalharem de madrugada. Eles organizam as grades, as grades do cárcere e do calendário. Tudo tem que estar no seu lugar, que é um lugar estreito e comprimido. Cronos gosta de tudo limpo. Limpo, para ele, quer dizer branco. Chão, paredes, teto. Cronos passa panos o tempo inteiro em suas superfícies. Não senta na grama para não se sujar. Não bebe. Pensa que os bêbados são muito barulhetos. Não peida. Para ele, é pecado. Cronos come, come, come. Come árvores, come o sol, como consegue? Ele come e não caga. Ele não tem intestino, só sistemas de triagem, processos de seleção; às vezes está com as inscrições abertas, mas é preciso saber preencher os formulários, clicar 597 vezes em “continuar” e ter uma internet rápida, porque Cronos quer tudo pronto antes de estar pronto. A pressa, para ele, é o momento certo.
Cronos gosta de serras e quando vê as copas despencarem com estrondo ele se sente forte. Está sempre estufado, como um peito de frango entupido de hormônios. Anda pela vida com esse aspecto galináceo e com dores nas costas. Nunca sabe o momento de parar porque ele não quer que nada realmente flua. Cronos se alimenta das doenças curáveis apenas com remédios. Por isso ele prolifera farmácias. Todas com essa luz branca que a ele tanto satisfaz. Todas aparentemente limpas, cheirando a detergente e sem gente. Ele também prolifera carros, de todos os modelos e tamanhos. Tem sempre um modelo novo com os faróis um pouco pequenos, ou com defeitos de suspensão, para que se possa fabricar novos carros. Cronos corre, corre, corre pelas estradas abertas dentro de florestas, pelos trilhos dos trens de ferro que carregam mercadorias, madeiras e minérios. Ferros, ferros, ferros, Cronos come imensas pontes erigidas sobre os lagos; gosta de se gastar em pedágios e em passaportes. Cronos é Cronos, como uma espécie de morte, um pássaro sem voos e um brinquedo quebrado. Ele também se alimenta de palavras, mas só das palavras bem documentadas. Daquelas que são guardadas em livros grossos e obsoletos. Livros que pretendem ensinar, mas não aprendem porque não sabem ouvir. Livros com pouco espaço entre as linhas. Nada é mais morto do que os livros, quando não contam histórias; nada é mais morto do que livros só de verbetes e explicações. Ao invés de rodas, prateleiras retas. Ao invés de ouvidos, cifras. Os livros brancos de Cronos gostam das notas e das linhas retas.
Nem todos os livros são de Cronos. Ainda bem. Quando não são lidos, os livros que não são de Cronos agonizam. A poeira em suas páginas é um grito deles. Livros que não contam histórias são sem graça, sem corpo, sem pele, sem ouvido e sem pena. O mesmo vale para os livros sem poemas. Os poemas são palavras que Cronos não come. Para ele, são palavras indigestas. Porque delas jorra a voz da poesia: a poesia está sempre em roda e dificilmente em prateleiras. Ela vai do coração aos ouvidos como voam as borboletas. Faz percursos sinuosos no ar, dança nos pulmões. O mesmo ar que entra no corpo de um leitor é inspirado pelo outro. Leitores de poeisa são trocadores de ar. Amam vento. O poema é curvo e carrega esse ar de riso. O poema nunca está sozinho no trânsito, ri das regras e observa minúcias que Cronos não enxerga. O poema baba, cospe e sua. Não precisa ser encadernado. A capa dura é o solado das botas de um livro milico. Livro que cruza o oceano e nos aponta as suas armas. A arma das palavras elogiosas. A arma da narrativa histórica. A arma das grandes personalidades. A arma das notícias falsas. A arma dos aplicativos, das aplicações financeiras e da aplicação de injeções. A arma da compra e venda. A arma dos fascículos e das ilustrações. A arma das boas intenções. A arma das lanternas e da luz branca, branca, branca, dos corredores e das salas. A arma das paredes sem pixo.
O livro milico não faz revolução. Quem não tem cão, caça com a Enciclopédia Britânica. Para fugir de Napoleão, procura uma brisa nas suas páginas. Engolir, engolir, engolir, é o que pedem as grades de Cronos. Comer pedaços de árvore industrializados e depois cobertos com tinta. Sentir na boca o gosto do pó e da inutilidade. Sentir o estômago embrulhado a cada notícia nova, a cada pesquisa eleitoral, a cada resolução numerada nos aguardando nos porões e nos cadafalsos. Façamos a roda. Para parar de falar um pouco. Para trocar o ar e senti-lo passar de pulmão a pulmão. Para praticar o toque e a escuta, para ver Cronos dormindo, inerte, desapercebido, descartado de todas as manhãs.
Cronos gosta de serras e quando vê as copas despencarem com estrondo ele se sente forte. Está sempre estufado, como um peito de frango entupido de hormônios. Anda pela vida com esse aspecto galináceo e com dores nas costas. Nunca sabe o momento de parar porque ele não quer que nada realmente flua. Cronos se alimenta das doenças curáveis apenas com remédios. Por isso ele prolifera farmácias. Todas com essa luz branca que a ele tanto satisfaz. Todas aparentemente limpas, cheirando a detergente e sem gente. Ele também prolifera carros, de todos os modelos e tamanhos. Tem sempre um modelo novo com os faróis um pouco pequenos, ou com defeitos de suspensão, para que se possa fabricar novos carros. Cronos corre, corre, corre pelas estradas abertas dentro de florestas, pelos trilhos dos trens de ferro que carregam mercadorias, madeiras e minérios. Ferros, ferros, ferros, Cronos come imensas pontes erigidas sobre os lagos; gosta de se gastar em pedágios e em passaportes. Cronos é Cronos, como uma espécie de morte, um pássaro sem voos e um brinquedo quebrado. Ele também se alimenta de palavras, mas só das palavras bem documentadas. Daquelas que são guardadas em livros grossos e obsoletos. Livros que pretendem ensinar, mas não aprendem porque não sabem ouvir. Livros com pouco espaço entre as linhas. Nada é mais morto do que os livros, quando não contam histórias; nada é mais morto do que livros só de verbetes e explicações. Ao invés de rodas, prateleiras retas. Ao invés de ouvidos, cifras. Os livros brancos de Cronos gostam das notas e das linhas retas.
Nem todos os livros são de Cronos. Ainda bem. Quando não são lidos, os livros que não são de Cronos agonizam. A poeira em suas páginas é um grito deles. Livros que não contam histórias são sem graça, sem corpo, sem pele, sem ouvido e sem pena. O mesmo vale para os livros sem poemas. Os poemas são palavras que Cronos não come. Para ele, são palavras indigestas. Porque delas jorra a voz da poesia: a poesia está sempre em roda e dificilmente em prateleiras. Ela vai do coração aos ouvidos como voam as borboletas. Faz percursos sinuosos no ar, dança nos pulmões. O mesmo ar que entra no corpo de um leitor é inspirado pelo outro. Leitores de poeisa são trocadores de ar. Amam vento. O poema é curvo e carrega esse ar de riso. O poema nunca está sozinho no trânsito, ri das regras e observa minúcias que Cronos não enxerga. O poema baba, cospe e sua. Não precisa ser encadernado. A capa dura é o solado das botas de um livro milico. Livro que cruza o oceano e nos aponta as suas armas. A arma das palavras elogiosas. A arma da narrativa histórica. A arma das grandes personalidades. A arma das notícias falsas. A arma dos aplicativos, das aplicações financeiras e da aplicação de injeções. A arma da compra e venda. A arma dos fascículos e das ilustrações. A arma das boas intenções. A arma das lanternas e da luz branca, branca, branca, dos corredores e das salas. A arma das paredes sem pixo.
O livro milico não faz revolução. Quem não tem cão, caça com a Enciclopédia Britânica. Para fugir de Napoleão, procura uma brisa nas suas páginas. Engolir, engolir, engolir, é o que pedem as grades de Cronos. Comer pedaços de árvore industrializados e depois cobertos com tinta. Sentir na boca o gosto do pó e da inutilidade. Sentir o estômago embrulhado a cada notícia nova, a cada pesquisa eleitoral, a cada resolução numerada nos aguardando nos porões e nos cadafalsos. Façamos a roda. Para parar de falar um pouco. Para trocar o ar e senti-lo passar de pulmão a pulmão. Para praticar o toque e a escuta, para ver Cronos dormindo, inerte, desapercebido, descartado de todas as manhãs.
domingo, 3 de junho de 2018
No fumo esvoaçante das melodias
descanso das idas ao ônibus onde
esperam gatos mortos e as velhas
avós tricotadeiras.
Passo pelos campos de névoa e
pesadelo
então um dos gatos, o menor,
explode em unha
− não o convidei para a cantoria
quando o samba ardia sobre os
telhados.
A pele se adensa de suores
ao lembrar do brinquedo de lã, a
bola
que dele roubei
para fazer uma manta
− echarpe de bailarina
entre rodas.
e antes que ecoasse mais um
milímetro de som
aperto firme
o botão do controle remoto.
de dentro da matéria escassa: braços, ossos deslocados. de dentro
da matéria escassa vai sair um som. tímpano, ouvido médio, tambor. não, uma
banda. vai sair a orquestra dos pequenos seres cinzas espalhados em cima da
tumba. lá dentro. quando quiseres sair, estará fechado, roncando. e o pôr do sol
aquecerá as crianças que brincam de roda, em cima do grande morro. onde seres
se reluzeiam. tu assistirás ao espetáculo em cabine especial. sim, o som
inédito. o branco em branco se confundindo. tu serás o único participante,
único pagante desse ingresso caro-caríssimo. e quando gramíneas começarem a
crescer ao redor, já não haverá figuras senão formigas. grama verde vai jorrar
em cima do teu corpo. e mais e mais cigarros serão queimados pelos transeuntes.
pelos acidentes, pelas lotações. nada disso será tua matéria, nada de homens
presentes. senta-te calmo, já vai começar.
Um cálice eterno −
eternas férias.
Voos de percevejo por debaixo dos
colchões.
Areia movediça em sons e fúrias
do sono
sob meus pés
que abrasam no peito
o vexame de ter dito améns.
Etéreo milho
estalando por entre os joelhos
que ainda com os pés me pisam
no sono-verdade dos tempos
em tempos se abrindo e fechando
a matéria de noturnas horas.
Pelas paredes
tudo me pesa
a matéria mole-dura de minutos
desgasta-se em sons
e fulminantes figuras de
baratas amarelas entre cartas
nadando no pó ora líquido dos
passados.
O sentido eu não invento −
espreguiço.
* nova versão para um poema do livro Desconjunto.
terça-feira, 15 de maio de 2018
segunda-feira, 14 de maio de 2018
Aquelas
noites, lá em casa, você tocava bandolim, nós nus, levantando na manhã dos
outros para beber as garrafas finalmente geladas; as suas palavras de flauta, o
ruído da rua e nós dois nus, ainda, inventando anestesias para o todo do
minuto.
Você
tão novo, os cabelos cacheados, a nenhuma barba, sua vontade de pôr em pauta
tudo o que compunha num piano censurado, suas aventuras, a mulher casada e os
causos do seu corpo, os seus dedos suaves como brisa em brasa.
O seu
casaco de lã debaixo de outro casaco, a dúvida entre os dois, você geada, você
simples como não saber de nada, nós dois colados esperando anoitecer para comprar
um baseado com os guardadores de carros.
Você
raro, taurino, astral, suas visitas em meu quarto sem cama, só colchão, a
lembrança do bom sem não de noites ainda com seu nome por saber, sua corrente
que eu tinha que tirar antes que tudo, senão não podia mais te ver, nem
suportar, você um brega meio bom, com
sinais ancestrais de lua cheia e algum mar.
Você
surpresa no silêncio, os discos de presente, as destinações, sua língua ausente
de qualquer palavra, a sacola na mão antevendo latas, você no lodo, seu
sorriso, na outra mão o case, demônio, você não servia para o caso,
sorria, seu vício de trocar todos os cds.
Você
sentado ao meu lado, nós no banco de trás, as pernas se grudaram, alguém
poderia ver, minha face fascinada pelo seu sotaque meio rindo, meio me cantando,
você pôs os pés no que eu sonhava, um dia, planejando tocar cabelos mansos, a
sua pele bronzeada pelo lado de dentro.
Aquelas
noites, mensagens visualizadas e nunca respondidas, você uma clave, nua,
partitura indecifrável, os anos se passaram, você não trazia mais cds, tinha
tudo em podcasts que não rodavam para nada, você desafiava o tempo com sua
pouca roupa, a barriga saliente, no quarto há mais do que uma cama, você
preocupado com uma tradução do grego, nós colados como papéis à mesma parede
úmida onde um dia alguém deixou um murro.
Caguei verdaccio,
bem no meu aniversário.
O cago saiu assim puro, malcheiroso, uma mistura
perfeita entre amarelo ocre e preto de marte.
As zonas de sombra, onde a merda se concentrava,
contrastavam com a aoréola de luz
que circundava a figura.
O fundo está perfeito, pensei.
Tudo eficazmente delineado.
Se precisasse disso numa tela...
E para que seria?
Por que isolar assim arte e vida?
Caguei verdaccio,
uma verdadeira base
para a primeira camada da obra prima.
Assim, de repente, bem no meu aniversário.
Num ato radical de desapego,
devo puxar a descarga.
Essa é a primeira vez em que vejo
um verdaccio alla prima,
paradoxo pictórico,
completo, perfeito, pintura de musgo,
tela diarreia.
É assim a arte dos nossos tempos.
sábado, 31 de março de 2018
Multidões de trovões
e no peito
e no peito
um Stalingrado.
Há ferros na fala a céu aberto
nas telas absortas
entre o torto e o sonso
desse ódio com a pólvora entre os dedos.
- E a cobra viva no Rio
contra o coro do mar.
- E o mar
contra o ovo da serpente.
As manchas no céu estanque
- E o mar
contra o ovo da serpente.
As manchas no céu estanque
são dos mortos e seu levante
de Lázaros doloridos
contra a corda vibrante do abismo
de Lázaros doloridos
contra a corda vibrante do abismo
com suas vísceras expostas
E vemos
seus versos arremessados
seus versos arremessados
como sobras e soçobras de coisas que não esquecem.
Não esquecemos.
Há toada de trovões
- e, no peito,
um Stalingrado.
Sentinelas desses corpos, somos o som dessas janelas
fechadas com estrondo -
de repente empurradas a punho e a trovão -
driblando abismos.
um Stalingrado.
Sentinelas desses corpos, somos o som dessas janelas
fechadas com estrondo -
de repente empurradas a punho e a trovão -
driblando abismos.
Temos o que precisamos.
Derrubamos um silêncio
de tocaia
de tambor
à espreita da derrota definitiva dos Esses-esses.
E não esperamos.
Derrubamos um silêncio
de tocaia
de tambor
à espreita da derrota definitiva dos Esses-esses.
E não esperamos.
sábado, 3 de fevereiro de 2018
A cobra preta na trilha para Naufragados. À distância, era
como um sinal vermelho. Paramos. Ela reluzia azul. Cruzou a trilha devagar, escalou
o barranco coberto de mato, quase desapareceu. Quando nos movemos, ela se
mostrou num tronco, enroscada, lá em cima, gargalhando do nosso medo. Não
sabíamos que era uma muçurana, desconhecíamos a existência da cobra do bem. O
catolicismo com certeza incorreu no mesmo erro. Reluzir azul tem certos matizes
que quem vê tamanho, nem imagina, coração. A cobra preta era do meu porte e
perturbou com a sua suntuosidade o nosso caminho, nós ignorantes da sua boca
capaz de engolir outras cobras, até uma jararaca inteira, e sem nem mastigar
com seus dentes de dez centímetros. A cobra grande comedora de venenos, que
tira da trilha a ameça. Aquela era incapaz de qualquer maldade e, no entanto,
nos assustou. Mas tudo o que paga, também cobra. Passamos.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
Texto publicado na revista ArteSESC 22.
Em
julho deste ano, estive em Pernambuco através do circuito de oralidades do
projeto Arte da Palavra, apresentando o trabalho “O sono de Cronos na minha
barriga”, uma performance de poesia falada, construída a partir de
experimentações literárias em campo expandido. Entre estas, um conjunto de
vídeos, que foram exibidos como abertura do trabalho ao vivo; e também o
exercício de construção poética em ‘outras’ linguagens artísticas, como a
pintura. Foi principalmente a partir dessas experimentações que o conceito da
performance se formou e que alguns dos textos vocalizados foram escritos e
rearranjados para serem apresentados a viva voz.
Encarei como um desafio e também como uma
responsabilidade falar poesia em um estado que é o ventre de tantas
manifestações culturais importantes, especialmente na área das poéticas orais,
levando um trabalho cuja forma é diversa das práticas de matriz folclórica,
apesar de partilhar com estas muitos elementos comuns. “O sono de Cronos na
minha barriga” também trazia consigo as marcas de uma pesquisa sobre modos de
escrita e de escuta empreendida no âmbito das artes visuais[1], a
qual o contaminou com a vontade de colocar em contato a palavra-vento, leve e
passageira, plena de sonoridades, e o livro-fardo, ou seja, a tradição erudita,
que apesar de, de fato, pesar em nossos hábitos literários com a densidade de
um cânone muitas vezes questionável, pode ter também a leveza de uma biblioteca
infinita, plena de novas leituras e descobertas. Logo pensei que Cronos, o deus
do tempo, devorador dos seus próprios filhos, pudesse pegar no sono, um sono
pesado, não apenas para que Zeus restituísse os seus irmãos à vida, mas também
para que nesse intervalo, nesse lapso, pudesse ainda renascer outra devoração:
a dos antropófagos cantantes e dançantes louvados por Oswald de Andrade e até
hoje vivos nas selvas verdes que ainda nos restam e nas selvas de pedra das
nossas comunidades, resistentes pela força da sua estratégia poética, de sua
presença corporal. Então Cronos, esse deus greco-latino e masculino, poderia
dormir “na minha barriga”, aludindo, no trabalho ao vivo, ao corpo feminino que
gera a vida e à poesia como “mãe das Artes / & das armas em geral”
(Torquato Neto). Uma reflexão sobre a voz poética acabaria então por trazer
consigo um questionamento sobre o que é propriamente o tempo e se ele é neutro
ou traz consigo determinações das especificidades culturais, de raça, classe,
gênero e ancestralidade.
Em duas das quatro apresentações (que aconteceram
em Triunfo, Serra Talhada e Petrolina), esses temas foram levantados pelo
próprio público, o qual, além de inferir elementos pouco explícitos no
trabalho, formulando uma série de perguntas, também me brindou com suas
leituras e sugestões, motivando-me a repensar o meu trabalho através desse
desvio proporcionado pela escuta ativa do outro. O resultado dessa experiência
foi a confirmação de que a diferença da forma final, o contraste dos hábitos de
fala, dos sotaques e dos modos de apresentação da poesia no fundo jogam mais a
favor do que contra a identificação do público com a performance literária. A palavra-vento
da oralidade, não importa se apresentada nas roupagens do livro-fardo ou da
tradição folclórica, tem a capacidade de unir escutas e promover pontes também
entre gerações, já que a apresentação com maior aderência e envolvimento do
público teve na plateia principalmente jovens. Os textos mais experimentais e
não lineares foram os mais comentados por eles, que fizeram questão de tocar,
ao final, nos objetos cênicos e sonoros utilizados durante a performance.
Esse tema da poesia falada vem me acompanhando aqui
e ali desde que eu tinha a idade do público adolescente, que foi quando comecei
a me aventurar a praticá-la, e levou-me a realizar diversas leituras,
culminando no doutorado, no qual abordei a relação entre poesia e performance a
partir da obra de Ricardo Aleixo. Aprendi que as hibridizações são próprias da
poesia, desde suas origens; que a expressão “literatura oral” comporta algo de
redundante (Walter Ong), e que a própria leitura de poesia, ainda que
silenciosa, contém uma experiência que é da ordem da performance (Paul
Zumthor). A ideia de uma poesia “em campo ampliado” (Rosalind Krauss), por sua
vez, vem acompanhando tentativas de compreensão da poesia contemporânea, na
qual a intermidialidade é um dado recorrente. A performance poética ao vivo
comporta um grande número de camadas fruídas ao mesmo tempo (texturas vocais,
uso de imagens, presença corporal, objetos cênicos e sonoros, determinações do
espaço da ação, interação, etc), que faz com que esse evento não seja apenas um
modo mais atrativo de apresentação do texto escrito, mas também um trabalho
artístico que tem consistência própria, sem perder os laços com o que há de
propriamente literário em seu acontecimento.
Os três livros de poesia que publiquei foram
antecipados por performances, de modo que esta se configurou, no decorrer dos
anos, numa espécie de modo de escrita, para mim. Nas múltiplas oficinas que
ministrei, muitas delas para o SESC/RS e o SESC/SC, percebi que esse método
criativo pode funcionar como um facilitador da comprensão de elementos próprios
do poema, inclusive no seu aspecto técnico, como o trato rítmico da linguagem. Em
Desconjunto (IEL, 2002) e Rumor da casa (7 Letras, 2008),
entretanto, apesar do cuidado e do apuro dos profissionais envolvidos no design
gráfico, senti um certo descontentamento com a materialização do objeto livro,
que eu sentia não traduzir de modo eficiente esse conjunto de dados presenciais
que, nas performances, compõe uma complexidade de camadas. A falta que eu
sentia podia ter relação com a formulação do poema por escrito e com elementos
pré-determinados do campo livresco (o livro-fardo). A partir de um determinado
ponto, senti a vontade de estudar o campo das artes visuais, relacionado com a
poesia tanto pela via da performance quanto pela da publicação. Depois da água (Nave, 2014) já foi
realizado em paralelo com esse estudo e contém um conjunto de fotopoemas
realizados em light painting[2]. A
performance “O sono de Cronos na minha barriga”, posterior a esses processos,
também é, de certa forma, uma continuidade deles. São vocalizados poemas desses
três livros, além de um conjunto de textos cujo processo de escrita é também
desentranhado das experiências de pesquisa sobre a poesia no campo expandido. A
própria ideia motriz do trabalho surgiu de experimentações desse tipo,
incluindo apropriação de impressos.
Foi com o objetivo de angariar material para uma
série de pinturas-poemas de 2013 e 2014 que comecei a coletar, nos balaios, um
conjunto de publicações "decaídas", ou seja, que não têm valor
comercial quase nenhum, e de cujas páginas eu me apropriava para criar situações
que, nas telas, pudessem desviar e redimensionar os sentidos de origem dessas
publicações. São livros que se tornaram obsoletos por algum motivo: didáticos
ultrapassados, romances obscuros, fascículos, volumes soltos de
enciclopédia. Encontrei preciosidades em um baú de R$1,00 de um sebo. Foram
produzidas cinco telas com a participação desses materiais, entre grossas
camadas de tinta, objetos e formas acumuladas umas sobre as outras no suporte.
Entre os impressos que coletei, chamou a minha
atenção uma série de fascículos que abordam a história brasileira, seus
“heróis” e as disputas do período colonial, com o título de "Grandes
personagens da nossa história", além de um grosso tomo da Enciclopédia
Britânica. O fascículo "Jerônimo de Albuquerque" trazia a
história do patriarca mameluco, o primeiro a ganhar o título de “cavaleiro
fidalgo”, que me remeteu diretamente a Oswald e seu Manifesto Antropófago. Os Albuquerques
foram uma família fundadora, comentada por Paulo Prado no Retrato do Brasil, entre outros; José de Alencar, no final de Iracema, anuncia a vinda do Albuquerque que
seria ajudado por Martim e Poti na expulsão dos invasores não-portugueses
daquelas terras, após o nascimento de Moacir e a consequente morte de Iracema.
O fidalgo mameluco está misturado com a própria fundação da brasilidade. Desse
fascículo, saíram duas páginas que acompanham o vídeo que deu origem à
performance “O sono de Cronos na minha barriga”.
Nele, utilizo também o volume da enciclopédia. “Cronos”
é uma performance orientada para vídeo, de pouco mais de três minutos, em
tempo-real, sem edição, na qual eu rasgo e literalmente como as suas páginas.
Esse trabalho surgiu de uma performance de Paulo Herkenhoff, de 1975, na qual
ele realiza a mesma ação com páginas de jornal sobre a censura no Brasil, em
plena ditadura. Assim, repensei essa ação para os dias de hoje, abordando
também a ausência de uma deglutição efetiva daquele manifesto oswaldiano, ou
seja, a falta de uma problematização das práticas aqui consideradas eruditas, além
da precariedade das instituições literárias em nosso país. A enciclopédia fala
do que está e do que não está: é tanto o livro-fardo de origem europeia que
tivemos que deglutir para criar uma cultura letrada no país quanto a ausência
desse objetivo efetivamente cumprido, dado o analfabetismo funcional e as baixas
médias de livros lidos pelos brasileiros. Ela fala também de um outro tempo, no
qual havia a pretensão de reunirmos em uma mesma publicação todos os assuntos
sobre os quais se tinha curiosidade. Em tempos de Wikipédia, de Google, e de fragmentação
da realidade e dos saberes, não surpreende que esses lindos volumes ilustrados
tenham parado nos balaios de R$1,00.
A devoração de um nosso “lado doutor, lado
citações” pode continuar sendo uma estratégia de resistência às novas
dominações impostas pelo retorno do recalcado que hoje vivemos, e também à compulsão
bacharelesca que fundou muitas de nossas instituições culturais. Estratégia que
inclui a presença do corpo e a consciência de suas potencialidades. “O sono de
Cronos na minha barriga” é ainda a reivindicação da participação do feminino na
construção de um tempo de poesia, que é sempre tempo de vigília, ou de
despertar.
[1]
“Entre o vento e o peso da página” é o título da pesquisa, realizada como
estágio de pós-doc dentro do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da
UDESC, universidade onde atualmente trabalho como professora substituta na área
de pintura. A pesquisa é supervisionada pela artista e professora Raquel Stolf
e propõe um processo artístico calcado nos contágios, diferenças e assimilações
entre a palavra-vento e o livro-fardo.
[2]
Fotografia realizada em baixa velocidade, no escuro, na qual se “pinta” com a
luz.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
Pus arruda até no chimarrão,
e vocês não saíram da minha cabeça.
Pus os pés no pensamento para dizer tudo
o que imbecilizam. E não escrevi nada.
“No que você está pensando?”
O gesto meio rock sem
saudade dos anos noventa
quando éramos todos fora fhc
fora fmi e de mim ninguém dizia
que era aquela, aquela que foi presa,
na feira, aquela clara,
meio gorda, meio magra,
ah, sim, a loka da serigrafia,
uma que faz filosofia, a que tem
uns cabelos assim assim
e nunca vem com a gente? Que nada,
ela estava ali na frente, mesmo agora,
sem saber no que estávamos pensando.
Passeavam passeatas para todos os lados,
bombas, frutos e socos revolutos
mas apenas em muitas linhas
e eu dizia comigo mesma:
“Deus-me-arruda, não-me-arruda”
“Deus-me-arruda, não-me-arruda”
porque pode ficar pior, e
essas linhas não são de ônibus,
não andam a pé, não sobem morro,
são só vozes que às vezes pedem
pouco mais de muitas malandragens
para pôr na sopa. Já não tenho saudade
dos fora dentro, e dentro fora,
no museu da minha mão. Aqui eu acho,
quando não quero, tantas correntes
quanto as rugas dos velhos ismos.
Pinto com o
que sobrou de tinta
no fundo da
tigela.
Pinto com os
restos
dessa voz
desconhecida.
Escrevo palavras
deixadas ressoando,
vestígios de
um corpo que passou.
Suas linhas
desenharam no chão
uma estrela incompleta,
reta e transeunte.
Pinto com as
manchas que fincaram na mesa
pinto o meu
poema velho, pouco vinho do porto,
nada vinho
da madeira, azedo,
carcomido
pelos cupins, sujo da merda dos morcegos
que
sobrevoaram a noite
de uma sala inconclusa.
Escrevo com
o cuspe de palavras que eu não disse
e que nenhum
milico usou
para limpar
suas botas.
Então grito
a dor desses sussurros.
Imito o som
guardado de orgasmos aguados, aquarelas,
pinto no
fundo da tigela
uma luz de
estrela estremecida
que sim, agora
sim, se completou
na borra do
café, no prumo da manhã.
E faço amor com
o resto das plantas
de um jardim
destroçado, depois do fim de jogo.
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