domingo, 29 de dezembro de 2024

Do que vem

Dediquei boa parte do ano de 2024 à escrita de um poema em 12 partes, que partiu do mote "O pilsen não compensa" e foi se desdobrando. Segue, abaixo, a primeira parte, talvez não muito confortável de ler nessa interface, mas certamente mais publicável no blog do que nas redes, pela sua extensão. Minha intenção, já que esse texto foi composto cantado e cantofalado, é produzir um podcast em 12 episódios. 

Cada parte foi pensada como um "parágrafo", o menor de 1 página de arquivo word e o mais longo de 8. O texto integral contém 45 páginas de word, e foi uma coincidência bonita, para mim, pois a idade que possuo ao escrevê-lo é a mesma da extensão final, como se fosse 1 página para cada ano vivido até aqui.

E ele é meu marcador de águas. Tanto pelo esforço compositivo, o mergulho nos ritmos, o exercício da percussão vocal aplicado à criação poética, quanto pelas referências que trabalhei. Algumas partes são mais explicitamente alegóricas, outras menos. Há trechos apropriados de conversas ouvidas, mas também (mais à frente) de vozes da internet. Mas não quero adiantar muito do que vem, apenas anunciar que ele vem e, claro, compartilhar esse trabalho, que exigiu dedicação, atenção, empenho e, em certo sentido, está só começando.



o pilsen não compensa | depuração das ostras | acidentes ofídicos | nomes vulgares | as corujas dançam |


estou encostando meu delicado ombro na roda        

ginsberg/trad.willer        
§1

o pilsen não compensa,

esses corpos sem foco se roçam em todos os espaços e passo a passo eles suam eles sabem eles alçam eles tramam eles tocam eles já passaram por aqui eles pisam nas poças e querem e fedem e somam as onças e passam e pedem e podem pular por todos os lados e mijam e mijam e mijam e fazem fedores e fundem-se afundam no fundo das flores das praças no mijo de pilsen e pingam e mijam e tornam tudo abismado escapante podrido fedido mirrado suado o pilsen já não compensa o mijo já não compensa a parede não a parede não na parede não a parede não pensa o cheiro do muro o apuro na praça se doura do mijo e o riso já não compensa o pilsen não compensa e mentem micrurus e tremem e tramam e amam e dizem nada com nada não não dizem nada com nada com nada não e abafam o bafo das ostras e tudo resta e tudo sobra e tudo jorra e tudo arreda e nada esporra e nada presta nada do que dizem resta e a pressa a remessa se arrasta na rapidez que se sustenta e que passa é a sucessão que lhes falta aguenta a gente é agente é a gente atraente que lhes falta tente prove atente um pouco do meu pilsen não posso tenho pressa passam passam já passou foi o mijo que mirrou o derramado no solado e vai e vem pra todo lado esse já foi e volta à casa pelo sapato o tapete enfim destronado no mijo derramado não compensa é a sucessão que lhes falta a ação sem cansaço o sono um mormaço já passaram por aqui e hoje não posso, moço, apenas três reais uma boa noite a musa está de aniversário! um brinde um mijo um mundo muito engraçado um riso micrurus pra todo lado a foto o fato um clique pro outro lago não posso e mais um pilsen não posso é para a musa não posso tenta me dá um trocado um pedaço um cigarro um cigarro foi a musa foi o maço compra compra para me ajudar pode comparar o lixo não compensa o lanche não compensa não compensa todos tão contentes todos tão distantes todos vão avante aguante doors vamos ao levante alguém cospe na testa do cartaz alguém passa já passou já passou as eleições é sem paz o som o cuspe a prefeitura no chão ganhou a copa perdeu as eleições é uma bosta é o passo do povo é o pilsen, o litrão, o povo e o patrão, os novos ricos o rim e o riso o pilsen o pilsen o pilsen não compensa pensa num gin por favor um gin tônica não tem porque não tem tônica um gin sem tônica por favor um gin suave um gin com gelo ou um rum tem rum tem rum tem rumo tem coca-cola tem grumo tem cola tem rola cagaram tudo ganharam a copa tem cuca a cloaca a sucessão que lhes falta o foco o rum a rua não posso não posso não passo não posso nem pensar vou comparar um mel quartel anel da cobra a micrurus tomo com mel tomo mel tomo com limão tomo com limão o patrão o mal o litrão o rum não, não compro porque não posso passo porque passo porque posso porque penso e posso e passo o laço o moço o maço e logo não há mais um só no cais acabou o pão não nunca acaba o patrão só mais um litrão posso pagar umas fritas não flerta não pega não fica não liga não pensa não passa não põe a mão não compensa a fresta da festa não pensa no pilsen passa não pensa passa passa com pressa o passo o passado já foi o pós fato pós ato pós tudo o pós fulo pós fim do mundo põe a unha põe a faca no cansaço o fosfato e o fácil está escrito ato fato fundo fátuo está escrito trago o trago o seu amor de volta faço como tantos ladrões litrões e traço, toma tento toma tempo olha toma tudo um momento não faça o que faço, olha a mina olha a mira e mija mija mija mija e anda e mais mijo se levanta na parede aguante doors levante por nós avante vamos ao aniversário da musa, apura o passo, escorre pelos lados aos borbotões as bordas os botões há um lago no fio da fuga a calçada a unha da praça do passado o passo dos ladrões os patrões me vê dois fósforos por favor por favor não faça isso meu amor não passa não posso já passaram por aqui eu passo esse cuspe porque posso eu já comprei compre para me ajudar três reais eu tenho uma passagem pra inteirar uma cobra a sucuri aqui surucucu do pantanal veja a boipeba pega pega mal para me ajudar estamos tentando inteirar uma passagem para portugal esse é face leste e é tudo igual é tudo ilegal construção ilegal na calçada na praia na duna se aguente em frente o pilsen não compensa aguante doors é indiferente a arte à parte o artista a vista é leve invista em dobro e visto que não sou vista e dobre o dobro para me ajudar apenas três reais você quer comprar você já conhece o bar? leve para me ajudar boipeba ela nada não tem veneno leia leve voa e sonha vamos viajar quem leu nesse lugar ninguém nunca quer falar sobre a morte, clarice, os capas-pretas a peçonha a mediunidade a cobra não venha para esses lados e dobra o dobro da sucuri a surucucu já está aqui a caninana mora no telhado tem rato pra todo lado nem vem estou vendendo para me inteirar eu vou viajar as trufas para pagar as minhas mágicas hoje não posso, moço, compra compra surucucu e atum muito obrigada tem de coco tem de rum compra uma pra mim tem de leite condensado e cuidado tou afim tem atum no lanche a luz é linda avante o lanche o ninho ao lado bem do lado o bom do bom do bom-bocado o abraço o anel o papelão o mel não o mel não o mel não molhou o anúncio do litrão o patrão não, que bom, a criança não, que bom, hoje não tem pão, quer comprar um bombom, patrão? hoje tá pra mim, ela está afim, para me ajudar hoje eu vou ficar mais um pouquinho um tiquinho quero o leite ninho e rum a mágica é pagar a lua dá um negócio dá medo desse lugar ela é coberta com uma calda de açúcar derrete na boca é a musa da lua mas fede essa calçada cagaram por aqui vou limpar a sua mesa me dá um cigarro toma o fogo tem campari então um campari aqui tem campari acho que tem conhaque olha aquele cara de cavanhaque olha o fogo olha a fúria olha o peso não compensa olha a bênção bendiz que bem o que bem o que bem que diz que me disse que diz quem é bêbedo e bebe ao travo se atreve e vive e bem que se diz que me disse que diz quem me diz quem é ela é ela é ela é a bêbada e bebe e bendiz canta bem canta bem que se quis e foi pra paris não me diz o que bebe e bebe bem é boa a trufa pega pega pega pega pereba boipeba ameba no mijo tem trinos e ratos tem cacos aqui e a cobra é crioula a cobra coral verdadeira e a falsa ela é falsa ela é falsa ela é falsa ela é falsa ela faz e de sobra a cobra compensa ela traz doença ela troça assim tropeça assim ela troca assim o troco da trova por um pilsen assim não compensa a musa abusa a micrurus a sucuri surucucu e cascavel um guri que não é daqui não foi nada não quem nunca o splitch splath a musa e caiu o copo no chão aqui só molhou o patrão o litrão o tesão foi um pouco só molhou os pés só molhou o chão o litrão o prumo o patrão é o prumo que lhes falta dá à alta uma surra ela abusa ela é bela ela urra e faz falta ela faz falta molhou aqui molhou alguém molhou o chão me olhou quem te olhou um pouquinho e passou eles passam não pensam e tentam e traçam nem pensa que vergonha se me perguntam já sei já passaram por aqui o pilsen não compensa que vergonha já pagaram para mim a minha conta e me chamaram o uber o taxi o turno já acabou já apagaram o muro o rum o murro a promessa e o urro eu empurro promete que leva a senhora agora ela é falsa ela é foice e marmelo ela é melro e apronta ela esquece ela honra ela é musa e abusa ela abisma na cisma e relaxa ela acha que ao travo se atreve e pronto quem sabe e conhece quem é fulano é fulana? hoje não, não posso, moço, vieram por aqui já vi vou ali vou num pilsen da promoção atenção atenção vamos viajar temos pressa vamos vamos já vamos nessa olha a mala olha a vala olha a vila olha a cor do carro olha a praça lá vem o uber o taxi o turno e lá vem o carro e lá vem o cuspe escarro como vai a função hoje tem movimento o pastel é de vento parece uma piadina uma pluma a menina tem pressa vai nessa não nega que nada no vale na vila no valo para ver o cão não não não vai para cuba vai para cubatão e não tenho não tou tou sem pão não tem não o lanche acabou posso fazer umas fritas a fruta não pensam no grão a mulher não a carne compensa o peixe não pensa o pilsen não não compensa ao trago se atreve e tem prumo me deve olha a promoção é dois por um é dois por um é dois por um real pede um gin que tal um pra mim gin com gelo pede assim suave sorve não arde com gelo compensa uma ipa nem pensa não posso uma stout não tem mas vem toma igual tem sal tem sauer tem ostra tem rock rumo roquefort da fraca e da forte tem veg tem cogumelos faltou o pão não tem atum não não não tem outro que tal um boçal compra para me ajudar não posso, moço, apenas três reais tem para o bar o outro o outro já passou não é leve é ostra da ostra da outra não não não não é legal o lanche não compensa mas é integral vegano mundano o dano é o tal do cano puxa a descarga tem fila tem filme tem fossa desterro tem erro ele vem mais cedo ele já vem ele já foi ele não veio hoje e vem vem vindo o vinho não compensa na promoção vai chover não vai não vai não vai acho que não sai não vai ver eu já vi me ajuda aqui compra uma juba jujuba uma musa para me ajudar já vai passar já estou com fome pedindo uma ajuda para me inteirar o meu prazo vai vencer a passagem pode arder pode ser pode crer uma batata frita pode ser batata frita pode ser um pastel a minha é com mel com mel e limão de queijo ou de atum mas de carne não e com pão não tem camarão berbigão não tem um cupim um pra mim um pra mim um tradicional então tem atum tem queijo e tem blumenau um para mim não chega só chega e beija um de queijo não o de queijo não não quero compensa um de pera o de pera não não espera não gosto de gorgonzola olha o gol uma ova uma blumenau que tal que tal que tal a birosca a brisa uma bosta uma artesanal uma piadina pra mim faz mal a linguiça de blumenau uma de abobrinha faz um pra mim e traz um pra mina comigo é assim me traz uma pinga é assim vegano é insano e se foi também um engano ela é minha amiga aqui tem um gin mais gin com coca um lanche uma loja uma esmola uma sauer sim uma rima sim uma crua uma frau uma blumenau assim com limão que mal tem que mal tem tem sal que tal tequila com sal e limão um litrão não tem só tem de abobrinha é de queijo a minha um pra mim não chega nem o cheiro e veja ele beija mal ela que é a tal ela é falsa ela é falsa ela é falsa coral é você a famosa a gostosa a real a musa que abusa um pra mim ela usa ela usa e abusa ela passa mal a musa ele e o outro e também o outro do outro do outro do outro do outro que ela comeu e comeu e tiau e a ostra que tal com limão faz mal com limão faz mal não faz mal não faz mal não faz mal um limão na ostra e a pera apronta me espera um cigarro um cigarro um cigarro e já era o maço e nem me conta ela apronta e já foi o maço foi o moço foi o mundo foi um sarro olha aqui o mormaço a mulher passou pela sucuri a mulher nadou é surucucu a mulher cunhou a mulher mudou e não tou legal não sei se nadou se afundou se matou se tragou ao travo se atreve essa lebre me paga me pega me cega me pede e apronta uma puta uma ponta e se tinha perigo amigo compensa compensa compensa olha o pilsen compensa é passado ele pede ele pode ele pensa ele já passou já nadou no lado o malhado a mó se molhou suado que segue molhado ela não ela é falsa e olhou pro lado e já fui já foi já estou com fome o safado no soco tá ali vira aqui vai no sonho não uma trufa não um bombom uma bala baiana uma dança uma bisca uma transa sua não uma surra não uma musa não urra compensa esse já passou por aqui cunhou virou voou vibrou desviou de uma aranha voou a barata não mata não mata a barata brota e pede vinho e vodca e então limão o gin não compensa paga-me um rio um riso um risolis de atum pode ser de brócolis um ovo empanado cozido assado o salgado o gado ali do lado paga por favor a passagem por favor a viagem por favor o aluguel um lanchinho faz ninho e agora a grua o groove o el niño a parede não na parede não a parede não pensa aramado o armado esse prédio é armado é abaixo o bicho o bucho coitado não o queijo não, não chega, alvará, um pra mim não dá não chega e agora chega que já tá na hora já vai fechar e não vai faltar tem o vinho só vinte só vinte o caminho faz falta ela não faz pouco já fiz então pra fechar o patrão pra chegar a cozinha o arroz vai fechar vai fechar todo o mundo vai dar o turno a urna a furna a fossa vai embaçar vai acabar boipeba surucucu coral verdadeira e da falsa já vai fechar é maneira de dizer já vai nascer a jararaca a juba a joaca a jujuba vai ser um pilsen e traz o sal a sauer não tem sempre o pão não sobrou um só se for atum só se for litrão não faz mal não o que lhes falta é o foco e o gozo e a flauta é só o osso e a pauta e a puta olha a puta de novo estou aqui pra fechar o bar para flechar o ar a cozinha já tá limpa já vou fechar olha o alvará olha o alvorecer que vai ser que vai ser que vai ser uma coca olha já fechou quer entrar entrou ela já passou quem quer uma saideira? todas tão dispersas e pensas e tensas não se sai inteira agora baixam as grades quem sai quem entra só sai se sabe só sai se entra e se sai apanha os guardas ganham se suicida a sucuri não sabe sabe que não sabe não era sucuri era boipeba boipeba do pantanal era a píton pinte lute e tal e a arte e à parte parte para o outro bar para casa não vai para casa não não vai não vai não vai não vai não a vidraça a gente agradece e a grade agreste ela é bela ela é ela ela é dela e erra e agrada a graça ela berra que a grade já tá fechada ela tá armada ela não é nada ela é desalmada e não custa nada pra casa não, para a casa nunca pra praça para a praça para a praça agora me paga uma cobra um lanche uma obra apaga e dobra e me pega e me paga um pão não tem pão o dogão vai até à uma e já estou com fome só se for sem pão por favor me ajuda eu estou com fome ó os home ó os home ó os home ó os home eu vou por ali segue por aqui falta três reais pro dogão não para a praça não para a taça a taça a taça na mão tou com a taça na mão não não não acredito vomito aflito parede não na parede não então mija mija mija mija que não tem pressa já passaram por aqui por aqui promessa não traçam me dá um troço um osso um fosso um posso não posso mijar eu vou vomitar então vem nem vem nem vem vem que tem todas tão dispersas não pensam não partem não ardem e pronto pegou nas pernas nas próprias pernas as piranhas há doenças nelas não pensam não podem não fodem não pagam os postes impostos não posso posso porque pago ou não posso hoje não posso não posso já passou por aqui já pago um chope o pilsen na promoção compensa um pilsen ela pensa e pode e paga e fode e pensa um pilsen o pilsen compensa compensa pensa como fode e como pede e como olha e como molha e fede a barata fede a cloaca segue no mijo imunda e funda a fossa a festa aqui já passou era esta já passou já mijou quem mijou já pensou quem é ela é aquela é ela é ela a das fotos é é é ela é quem é a formosa a famosa a gostosa a gosma não gosto do gosto da grua a grua engorda a grua acorda a grua a ogra a rua a ostra agora ela é gorda ela gosta ela é gorgonzola ela passa ela já passou já gozou já pensou uma triple e tem? tem triple? tem tem tem essa aqui black ipa guri não tem tem gin, neném, tem gin! é aquela ali está sentada aqui ela está de aniversário já pegou um otário e já vai embora ela aqui uma stout agora ela gosta daqui a dois metros daqui há dois dias dias dois dias se tanto e já vou embora vou pro meu canto e é tudo a musa é encanto não tem um tempo um ponto um plano um canto pra mim tem um canto pra mim um quarto assim um flat uma quitinete é quanto é a promoção dois por um dois por um dois por um real e o teu nome que tal tá no calendário quanto é o salário não dá já foi já passaram por aqui já passaram os porcos já possuem alvará jararaca não dá tem peçonha na fronha pixaram amaram cunharam curaram aos poucos na rua o seu cpf não vou discutir não me espere em casa eu já vou partir me espere agora o meu rg que demora é a hora agora me paga um pf é em dobro com água bem forte um xote e vamos dançar e vamos vamos pagar pega o nome agora que é ela é é é sim é ela ela sim é a falsa cuidado com a alça olha a mala olha a vista invista de frente pro mar com a brisa o lugar ideal para a tal tem da mole e da brava mas diga não diga não diga o golpe estou sem sorte eu já fui no forte estou viva agora a ilha aguarde agora olha os guardas não não olha o patrão o sal o feijão não tem cpf o seu cpf o pf o seu celular tem ninguém pra olhar nesse lugar não tem alvará um pf não dá não dá não dá mostre o celular não apressa o passo não tenha medo eu não tenho tempo cruza a calçada é de nada o medo e que não compensa eu já vi

*

Em pdf.

sábado, 28 de dezembro de 2024

Postar as revisões de Desconjunto

No ano passado, março de 2023, estive em Montevidéu e acabei participando do Mundial Poético com uma performance dançada e cantofalada de um poema do Desconjunto, poema este que eu já havia gravado em áudio e em vídeo durante a pandemia e (re)publicado nas minhas redes. 

Trata-se de um texto que revisita o primeiro poema de A teus pés, de Ana Cristina Cesar, que eu conhecia apenas através do teatro (aos 15 anos, fui contrarregra de uma esquete cujo texto era justamente esse poema, mas nunca tinha tido acesso ao livro, antes do fechamento do Desconjunto). Foi ali que aprendi, de alguma maneira, a brincar com a floresta dos jogos subversivos que tanto me agradavam em poesia (dos "vejo ela" aos enjambements).


Ali

onde o mato alimenta-se de temores

guardo meus inventos, façanhas.

Façamos as escolhas: a rua faiscante corta os olhos

onde elaquela namora            os tropeços e os trovões.


Moedas a desabitam

a engolir suor.

Enrolou-se na saia vermelha, mora em segundo andar.

Eu cá preferi um mistério dentro,

                                          em torpor

                                          de mato.

               Coelhos, caçoadas,

               grilos morcegos: cada qual canta a seu jeito.


Às vezes,  reúno a orquestra

               para mostrar minha nova invenção:

invento do medo, do arbusto, calabouço.


As folhas imensas 

                eu resguardo. Deito-me. À noite chorei:

 meu travesseiro eram pó de pó de vento.


Caibo em cada parte onde escolho um tamanho −

a brincadeira é costurar cadáveres.


Agora é olhar as fotos: vejo ela com feridas na perna

      a equilibrar sapatos de agonia.

Então estou melhor: visto quinquilharias 

da mata

      e a cada dia invento outra,

                           outra canção.


Então grilos,

          morcegos,

                 caçoadas, arranjos: 

                           abelhas ao fundo,

                           -- um piano, no bordel.


Ainda gosto do meu primeiro livro, principalmente por vê-lo envelhecendo relativamente bem, aos 22, ele que nasceu, na verdade, em uma versão que não existe mais (chamava-se Mundos possíveis em 1998, quando ganhou forma, e os originais são apenas uma das muitas coisas perdidas na enchente do rio Taquari, que inundou Lajeado e a casa dos meus pais, em maio deste ano). 

Se meus spino-esquizos "mundos" das imposturas daquela primeira versão foram para o beleléu (há um certo alívio, nisso), os textos mais longos e "proseados" (nunca concordei com essa percepção alheia) tomaram força conforme fui perseguindo a potência das imagens em poesia. Fui me concedendo espaço, traduzindo-me em espacialidades mais vastas e emaranhadas. Um caminho que foi se adensando cada vez mais e que, ao desdobrar-se, sempre me joga de volta a essas experiências iniciáticas e suas muitas perguntas.




dois recortes da performance / março 2023


Há de sair, nos primeiros meses do próximo ano, a versãozinha digital dessa segunda edição, revista 22 anos depois que o livro foi finalmente publicado pelo Instituto Estadual do Livro, após 4 anos de espera devido aos percalços do sistema de edições governamentais. Na época, foram impressos 1000 exemplares, dentro da Coleção 2000. Eu tinha 22 anos, era meu primeiro livro, a apresentação foi escrita por Jane Tutikian, e outros poetas, como o Dilan Camargo, escreveram sobre ele. No ano anterior, ele fora texto de uma performance que teve duas temporaditas no Teatro de Arena (vide página acima). Reconduzir uma parte, por menor que seja, ao palco, duas décadas depois, foi um dos presentes que me dei durante minha Licença para tratar de interesses particulares, vivida entre 2023 e 24.

*

Fora a questão da performance, da publicação, etc., o que há de mais interessante nesse processo de revisitar/renascer é passar algum tempo testando pontuações, trocas de palavras, cortes e inserções de poemas que, à época, não entraram no livro, que apresentou 49 poemas, no total, divididos em 9 partes. É claro que muitos desses poeminhas que não saíram no livro e não integraram performances foram, também, perdidos, mas os que reinsiro agora estavam no espetáculo Poiesis Desconjunto ou na performance Rumor da casa e foram ditos porções e porções de vezes.








Comecei ontem a postar em minhas redes (Instagram & Facebook) as novas versões dos poeminhas, encarando o problema de como "ilustrá-las". Três postagens depois, descobri que não é tão difícil. Parti da série de autorretratos em pastel sobre xerox + fotografias de detalhes de colagens realizadas esse ano, seja em papel, nos livrins de artista em processo, seja sobre as 12 telas da série Pele & anexos, que eu imaginei nunca mais conseguir olhar, tamanho cansaço me fez concluí-las e arquivá-las, por enquanto. Porque cansa, viu. Tudo cansa. Até descansar. E boa parte desse ano e do meu tempo de licença (não sou das retrospectivas anuais, mas de décadas, como veem) investi no convívio com elas.


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

O poema Isto

Isto surgiu em 2020, nos primeiros meses do ano, aqueles nos quais já estávamos condenados aos cuidados necessários para conter os avanços da pandemia de Sars-covid. Foi um período de produção intensa e guardo, ainda, muitos originais. Grande parte desses textos foi escrita para um livro que se desmembrou nos anos seguintes. Seria necessário, agora, reunir novamente, mais maduros, todos esses textos, vê-los em conjunto, para avaliá-los. Faço, agora, esse esforço minucioso, de reler a série que ganhou corpo no livro publicado em 2022 pela Terra Redonda, e que traz um fragmento de uma tela da série Páginas Soltas na capa.

A série de 11 textos era, portanto, longa, assim como a série da primeira parte, Oponente, que continha mais poemas, alguns de 10 páginas, em formato de relato de viagem. Publiquei em revistas, na época, também em áudios (vocalizados para o programa Quinta Maldita) e em uma plaquete ao estilo "histórias de pandemia". Enfim. Só agora consigo olhar de modo mais isento esse material, percebê-lo. Em relação ao Isto, senti a necessidade da releitura pente-fino por conta de alguns detalhes rítmicos, coisas pequenas. Estou fixando bem essas coisas para gravar, durante os dias mais silenciosos, algumas versões caseiras desses poemas, editá-las no Audacity, etc., motivada pela acolhida que o poema teve no evento Concerto de Poesia, da Estação das Letras, do qual participei há poucas semanas.

Algumas imagens do poema em 11 partes, ou dos 11 poemas em sequência, como preferirem, vêm do livro Sobre Isto, de Maiakóvski, outras do tarot cigano (o baralho Petit Lenormand) e outras da tapeçaria A dama com o unicórnio, uma obra-prima da arte medieval que ainda não tive a oportunidade de ver ao vivo, mas que habita minha imaginação desde que li suas referências em Genet ("Diário de um ladrão", "Rembrandt"), mais ou menos o mesmo período em que a estudamos em Teoria e História da Arte (aquelas aulas deliciosas da graduação em Artes Visuais). Acho que um tanto de perspectivismo invadiu o poema, e também a resselvagização, tema que tem me acompanhado nos últimos trabalhos (telas da série Pele & anexos, livros de artista, textos vários, incluindo um romance híbrido entre AV e literatura que iniciei durante a minha licença). 

As onze postagens abaixo irão se transformando conforme eu for conseguindo ajeitar um pouco as questões de formatação do blog e também mexendo um pouquinho nos próprios textos, mas os poemas da publicação são basicamente esses. Quem quiser um exemplar físico do livro Oponente + Isto para chamar de seu, ou quiser comprar o e-book da versão publicada, encontrará abaixo os links da editora.

As epígrafes do livro são:

Para que o amor não seja escravo
de casamento,
                        luxúria,
                                    pão.
Maldizendo as camas,
                                    erguendo-se do estrado,
para que o amor preencha a imensidão.
Para que, no dia
                        em que envelhecer de dor,
não suplique como mendigo.
 
Maiakóvski, em Sobre isto
(Tradução de Letícia Mei)

 
A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranquilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. “Mas isso é amor, é amor de novo”, revoltou-se a mulher, tentando encontrar-se com o próprio ódio, mas era primavera e dois leões se tinham amado.
Clarice Lispector, no conto “O búfalo”

Comprar Oponente + Isto aqui.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

I

Isto
é um vírus, vestígios de você
             uivando como louco
nas salas das madrugadas,
uma memória bramindo,
mordendo a minha roupa,
            dizendo: venha, vamos
passear na praia, vamos
   para Naufragados, fazer trilha,
                  mas não vamos
                  de mãos dadas.

Depois, lavamos as nossas máscaras.
                   Acontece
que a água é turva,
elas fedem e grudam na cara.

Além disso, foi tudo,
como sempre, daquela vez,
                   outra vez.

Há meses não acontece nada.

Não há mais rastro de você
                     e hoje
                             vivo
                     na enseada da mente,
                     onde vimos as gaivotas,
                     evitando a gravidez.

Gaivotas, como abelhas,
que sugam o mar.
Meu mel       você renega:
já não ouve
cicios de anêmonas.

Ignora a loba
e ignora
        também
             o meu crime:

nesse ciúme não cabe.

Na cornucópia de horas
em que me nutro de mim
assim
no macio das alfombras
               onde me deito,
               sou gata recém parida,
comedora de placenta.

Por que me expulsa?
Amava os animais?

               Na pele, até hoje,
há uma fresta de você,
               um Raskolnikov.

O seu livro, em russo,
                aberto na cabeceira.
                Os telefones, espertos,
não tocam, me enredam

sem fios
em mim —

você nunca vem, nem viria.
Não há trem.

Não sou bela, nem me chamo Lília,
não me ressuscitarão.

Também não tivemos filhos.
Eu toco o corno
                    do unicórnio
com a minha mente aflita.

Seus cabelos
ondulantes,
mal amados, ressequidos,
se enlaçam ainda em mim, enfim, tapeçaria:

você não aguentaria, agora, nem antes,
nem antes da pandemia,
um minuto
                de pureza
entre os meus gemidos.

Você chilreia, clama, foge,
não para de apetecer.
Um leão faminto e isto,
me obriga, agora,
a escrever:
                    uns versos
                    com latidos,
como um rio de queixas:
                                     meu chorume,
                                     esse lamento. Naufrago.

Das correntes, agora, eu tento
descalçar os punhos,

mas sou levada para a prisão
em Reading,
onde a hora é do lobo, apenas,
do lobo com o lobo com o lobo tal
qual choro quando ouço os uivos tristes.

Nunca a loba, nunca a Ursa Maior,
a que ribomba e ameaça.

Então me atiço, sereia sem sono
              acordando a vizinhança.
Sou pior: chorona, grande, peluda
como um cão sarnento, uma cã,
              acomodo-me nas fotos
que tirei de você, e apaguei,
               e elas estão impressas
               na lembrança

que não para, não para de trazer
o seu corpo naufragado
e jogado do farol, disputando
a carne e a maldade, um corvo
              aquecendo-me, enfim,
no fundo do bar lotado.

Acomodo-me em seu rosto só lembrado,
                 gravado nessa tapeçaria velha
                 onde me deito, enrolando o rabo.

Você sempre esteve atrasado.
Calçado em nuvem.
Meu urso,
um puto.

Já tem outro alguém para amar?
                   Sabe dançar
                   o two-step?

Deste poema se riem, no bar,
                    riem de mim
                    que lato e grito,
                    enquanto você revive
                    um sonho
em brigas, seu asfalto.

São essas cervejas suas,
essas estrias, esses soluços
dos marujos,
meu porco-espinho.

E você ri, também,
das minhas súplicas
por um pouco mais de mim.

A voz, uma corruíra ulula
onde você nada, feroz,
                     e não naufraga.

E hoje os gemidos
e silêncios cortantes
na conversa
são todo o meu alarido.

Você sabe à língua dos ursos,
mal pode ler o que lê, é um tosco,
e escreve apenas
                      os números
                      do desastre.
                       Abelha noturna,
você volta da intempérie,
a página difusa
sobre uma torre de cartas.

Mas não sei mais
qual seu gosto.
Os áudios, apaguei
junto com esses crimes
fáceis de limpar, os poemas.

Você cospe nas esquinas, me escarra, 
teima, e se amarra no poste do prazer.

Você é um monstro, agora,
                         um monstro lindo.

Na sua jugular, no entanto,
um anzol fedido
crispa
as verdades da praia.

Você não diz mais:
ressuscite-me, venha,
não diz mais
vênias e vamos, dê-me ao menos
uma conversa,
           café com conhaque, bem quente

(gaivota perdida
no pulso da família)

                                 não diz
dance, limpe, me livre de mim, me dome,
segure            esses ombros desesperados.

Agora é a hora da loba,
             da loba, somente.

Ninguém quis
              esse ano maldito,
esse cotidiano,
essa quarentena, esse isto
com que me dispo
para as luzes do unicórnio.

E me dopa
com seu sorriso, mora no sono
                   com que me saúdo
antes de morrer.

Guarda-me, agora, enrolada
com seus postais, um trunfo,
mas não passa
de um tapete velho, tudo isso.

       Você me saúda
       como quem tem pena
da pessoa que amava
os animais, mas não aprendeu
a falar a língua dos ursos.


II – Here again



Coloquei essa canção 
pra tocar
quando você
não quis mais trepar
e deixou a página aberta
sobre a cabeceira.

Foi dormir no sofá
e eu era puro blues
com essa canção,
sem cobertor.

Você se levantou,
levou as suas malas,
eu carreguei
os livros para fora
da sua ex-casa.

Pus,
em plena ferida,
uma canção a tocar.

Debaixo das estantes
as baratas mortas,
tufos de pó de estrelas
que você deixou no mar.

Pus para tocar
essas feridas onde você
fez milagre, por vezes,
vezes sem conta
e here again
debaixo do travesseiro
você sabia ser rei — um rei nu —

a melodia escorria
agora
dos bueiros

onde você se enroscava
pelas madrugadas
com copos,
postes, livros, vírus
e prateleiras pesadas,
já sem canção.

Te chamei percepção,
sacudi a poeira
do pó de estrelas
que você deixou
nas sacadas

e pus para tocar
a melodia do mar,

meu segredo.

As feridas fora da casa,
algum blues se enroscava

pelas minhas pernas,
assim,
no repeat,
ao sol da solidão.



III – Naufragados


Apenas nós dois, na praia.
                 Havia gaivotas
e algumas barracas
abandonadas.

O rio estava sujo,
as tampas das garrafas
                 e as latas
amontoavam-se
                 nas margens
do que um dia fora lindo.

Não havia paraíso,
nem nojo de mergulhar,
mergulhamos.

                   Você me falou
de uma conta de motel,
do seu carro estragado
depois de uns tragos,

falou disto ali,
e no meu aniversário,
quando fomos para a praia,
mais ou menos 
como era antes.

Mas você não quis parar
de ser nojento, e disse:
              vamos transar
              aqui dentro,
              venha,
meu presente para você,
       minha porra, esse lixo,
misturados no mesquinho
que eu sou,
                 esse rio,
e eu sei que você
vai gozar.

         Eu quis, claro que quis
         mergulhar naquele abismo,

eu queria te engravidar, 
ali, te mostrar seu não-homem
misturado com o meu mundo
não imundo,

o meu mistério mudo
e sem carros estragados,
e sem contas a pagar.

      Gozei para me vingar.
E o meu gozo se mesclou
                      com a praia,
                      reprimi
um ‘meu querido’
e ninguém ouviu o grito.

Você saiu apressado, cansado,
todo doado de mim, enfim limpo
e feio, e gordo, como você é.

            E, de repente, na volta,
            tudo ficou perfeito.

Havia montanhas
e os sinos
ainda sentiam-me o peito.
Dentro do meu mistério,
foi um bom aniversário.

Subimos pela trilha,
postes em movimento.

             Eu aposto que você
             também gostou, arfava
pelo caminho, pedia água, balofo,
             você
nem era uma pessoa.
              Era um resto, agora,
um silêncio, um visco,
intempérie do caminho
com a qual eu gozava, quase sem
me mostrar o seu abismo.

Nas barracas abandonadas,
hoje, você dorme. Enjoado de si,
sem lençol. Enquanto isso,
atravesso o meu poema
para molhar o pé.

Tenho o dom das galinhas:
junto as sobras
do galo que eu quis,
e as falas dos outros,
eu jogo.

Expelido do passado
pelo meu caderninho,
você anda aflito
e sem fôlego, agora,
       com o seu carro
       desestragado,
       com um grito

guardado num corpo
gordo e feio e já morto de frio.

Seu gozo, um rio sujo
engolido na voz.

E nunca teríamos tido
o que tivemos, um dia, e você
nem teria acontecido,
e não haveria isto, nem nada,

não fosse eu gozar sempre,
e sempre querer gozar, e você
         morrer de medo
         de toda essa coisa
         que não teria sido
         o caso, nosso caso.




IV – Enquanto isso



O poeta, sobre a torre,
de braços estendidos,
contemplando águas

           que lhe levam,
urso, homem, nojo,
até a margem do abismo,

me parece, nessa altura,
encontrar com a sua sombra
            nesse bar
que nada no mistério
            de gelo
das suas dunas distraídas

deslocando-se devagar
entre um raio e outro
            do meu corpo.

A diferença é que você
já caiu da torre, antes mesmo
de entrarmos, os dois, 
no seu rio gelado.

A sombra do homem duplo, 
            erigido 
            monumento,
há dez anos destroçado 
sobre os seus abismos

não faz cócegas, 
            suas contas
            de motel
            estão pagas.

A sombra do homem
            é um lapso,
montanhas sob meus pés,

            as artérias da noite
consomem o poema
com a lembrança 
de um corpo, entre lençóis.

             E não se pode falar
             "amor" 
em meio aos pássaros imprecisos
de uma pandemia
que nos rouba a manhã.

O poeta ronda
nas janelas, nos bares,
                  quer saber
                  se se samba
sobre a sua cabeça,

está preso no zoo
com cabelos maltratados,
e você o meu lapso,
você é a sombra
da moça-fantasma, Letes, Lília,

um cálculo dos problemas
nos afastaria, também,
                   sem rumo
e nenhum trem 
onde fazer as pazes.


V – Petit Lenormand


A mulher que goza sempre
logo perde a graça.

O perigo
da carta do urso,
se aparece
em tema de amor.

Homem de pavio curto, 
brigão, bebedor
nunca será Cavalheiro
(a carta do número um),

ainda que se lhe monte
a magia
com os símbolos que merece.

A ignorância arrefece, 
no entanto,
como o unicórnio
domesticado
pela mão dessa donzela.

Sob o gozo alheio,
quando caminha, poste,
entre trilhas desconhecidas,

você
se purifica.

Depois
não atende, não ouve,
não bate palmas
em frente à casa.

Nesses momentos, eu vejo
desabamentos,
armas, chicotes,
o cheiro dos ratos
passeando nos jardins,
pedaços de bebês
chegando nas praias,
fogo nos horizontes,

todo o mundo de máscaras,
tropas,
moças caem
da torre desalmada

e os leões
logo fogem das jaulas.


VI – Blue


                        A lua cresceu
                        entre nós.

Acordei na vereda e verti,
dos seus cabelos tão secos
e cheios de nós, entre nós,
as suas pontas duplas. E a lua.

A lua escorreu seu caldo
de noite entre nós, chorume,
                         fez ambíguas
                         as suas palavras,
                         e você
                         cortou os cabelos
com a pontas dos próprios dentes.

A serra das falas manchou
o que eu tinha de mar
entre as pernas.

Senti a secura na pele
                          e a lua
insistente, em nós,
uivou também, foi sumindo,
                          sorrindo,
até que inaugurou
esse nada
onde eu poderia, finalmente,
                          nadar.

Você
se dispersou no universo.


VII – A melodia


Quem olha pra você
vê um homem.

Homem peludo,
gordo, suado,
os cabelos
amarrados
ou colados
nessa face
que não tem
réstia de anjo.

Sentado, no bar,
com os demais
que jogam sinuca,
não tem mesmo
nada demais,
só uma barba boba
e meio ruiva,
que alisa
quando olha
o celular.

Quase um russo,
eu diria.
No escuro
do seu lugar,
você se enfia
na fresta comum
e finge
não prestar atenção
nas mesas, no rumo
dos risos, nas musas
que passam, perfeitas
para se flertar.

Dentro de você
toca a harmonia,
uma música mais quente 
quase ruiva, quase contente,

que borbulha
como lava
na sua lua esquecida.

Essa música maldita
você verte,
às vezes,
quando tira a sua roupa

(um pouco contrafeito)

e ela começa a soar
do seu peito molhado,

sibilando baixinho
entre os seus compassos.

Quem apura o ouvido
pode ouvir, se quiser,
pelas frestas
dos seus braços
um pouco do alarido
que cresce
somente
quando você, decidido,
se ergue,
envolvido na harmonia
do seu próprio fenecer.

Paga outra cerveja
como se não tivesse
vindo agora mesmo
dessa fresta do astro sol,
e é por isso que sua
nas fímbrias das madrugadas.

Apenas sem orquestra
você pode ser você –
um você mesmo
esquecido de tudo

o que não é:
esse sujeito
um pouco gordo, atrevido,
urso rouco
e morto de calor.

E se transforma
em um ser anterior,
pedaço de sol, distraído,
que caiu sobre as cordas,

cuspiu suas lavas
e nasceu renasceu
dos seus próprios dentros,
dedilhando o asteroide.

Você relembra, então,
ao vulcão desacordado
que é hora de sair.

Sentado, aqui,
você é um homem,

apenas um homem gordo
que sorve a cerveja,
cotovelos apoiados
numa mesa suja
do bar Oponente

esse logos decadente
onde você mora,
no escuro,
quase sem barulho.


VIII – Telefone


Sobre a ponte, a moça-fantasma
combate as dores da névoa.

No trinado do telefone,
uma mensagem,
acordo, digo
ele pode ressuscitar, de repente,
em plena madrugada,

de pé na mesa de um bar,
gravando os stories
ao sono das perdas.

E diz: Olá,            boa noite, moça,
por que não desce do aço da sua ponte?
                              Então
guardamos as máscaras, num lapso feliz
do cotidiano, como se ainda

se recebessem cartas.


IX – Polônio


Subimos as escadas
do farol
para ver a paisagem.
Os leões
ficaram lá embaixo.
Fazem xixi amarelo.
Ouvimos os gritos
soados
na era dos dinossauros.

Sua pele combina
com as pedras,
manchadas em alguns pontos
onde os leões
se aninham, nojentos.

Eu, você, sua pele combina
com o rugido dos bichos,
seus cabelos
se enredam
ao pé do vento

onde subimos
para ver a paisagem.

Você já viu tudo, e senta
no último degrau, me espera 
como uma criança
enquanto faço as fotos
que você nunca verá.

Sua face, assim, sentado
combina com o farol, no topo: 
combina o tempo todo
com esse medo de cair
se me alongo mais um pouco 
para fazer um close
no leão lá embaixo, um porco,
que urra e de repente é você 
que solta a gosma da boca
enquanto se move, um vagar,
e se ajusta na outra pedra.

Você e esse leão, tão amigos,
já viram tudo, já fizeram 
tudo o que quiseram
comigo,
já mijaram no vento amarelo,
dormiram no ponto
onde o sol se põe

e vocês combinam, sim,
já combinaram
de me ver cair,
o leão marinho
e você,
meu urso,
um urso apenas
de passagem.


X – O sonho

 

Você é o vestígio de um vinho bom,

         de um jazz, de um amanhecer
         na boca.

Os pássaros
sobrevoam o mar, lá embaixo
          e nós, nus,
          nos levantamos
para esticar os lençóis.

Você deixa
vestígios de um vento,
           um vento ameno
           vem da sua janela
e se instala na pele, como respiração.

Você é a luz de fora,
            o mar brilha, há um vento
amarelo e bom, o seu hálito,

há um pé de mamão maduro,
essas folhas
eu desenho com o olhar
quando dançam,

esgrimo-me e vejo o dia
a partir de você.

E é um rastro, um sol
sempre nascendo,
você adormece,
penso,
é isto
o que sobra do gozo
sobre os meus seios,
o amor, a sua solidão.

Você tem sonhos
       e suspiros variados,
sempre prontos para entorpecer.

E quando o dia ainda nascia
assim, sem jazz, sem você,
havia apenas folhagem,
miragem de amarelos
sobre o mar confuso.

Mas você melhorou os vinhos
com seu jazz, sua janela em cruz
sobre a manhã que nasce
              sempre que o mar secou,
e se foram todos os pássaros
para o meu passado.

Esticamos os lençóis,
e um peixe inerte
ainda salta da boca.

Não sinto o sono,
               você me contaminou
               com o abismo
de um eterno convalescer
               para piorar de novo.


XI – A ponte


Eu me ressuscitei
nas cartas do baralho 
Petit-Lenormand.

Já não sei amar urso, 
ainda mais
assim alto, sujo, tesudo, 
ferido de lindo —
                no fundo, também 
                um rato disparatado
no corre-corre sem revolução.

Eram pássaras demais 
as minhas intenções.

Então, no coração destroçado 
e tonto de tanto esperar, 
cavei caminhos de estrela 
através deste poema.

E a lua sussurrou 
desenhos do meu dentro
nas bordas do tapete 
em símbolos ancestrais.

A donzela e seus poderes.

Eu vejo
            todos os rios da Rússia 
            congelarem num sorriso
enquanto você vira as páginas 
mas não pode
folhear essas paredes.

Não se jogue da torre 
de mais de 500 anos, 
como Maiakóvski, como
o meu amor, que se alimenta 
de todos os desperdícios.

É certo que os poetas 
sobem nas mesas dos bares,
                 fazem escândalo, 
falam para as meninas
o que lhes vem, no seu russo,
                 e, na ira, choram 
a dor infinita da usura
que é ter ouvido, enfim, 
o estalar dos chicotes:

é o fim, entre nós, 
é o fim, de novo,
e não é novo, tudo isto,

vem a foice e me ceifa, apesar 
de termos feito trilhas, apesar 
de termos viajado juntos.

E entre os frêmitos dos frios 
de um telefone a tocar 
estica-se a corda que vai

de mim até o seu peito, tenta tocar
                um cachorro irrequieto, 
                fantasma para o qual 
                me dispo
de todos os problemas, perfil 
que eu vasculho
para tentar te entender.

E você vem me lamber, nas páginas 
pressupostas, sobre o rio,
depois da viagem
e entre mil luas, nas cidades esquisitas, 
nos sonhos
forrados de jardins.

                Mas acordo
                e não é nada assim:

faz frio, são apenas telas, 
fazem tantas armas, 
famílias, casais
igualam-se na busca.

Não dançam mais
o two-step, não se buscam num salão 
(dois pra lá, dois pra cá). São tantos
os perfis sempre iguais. Não saem das telas.

Eu me inundo
do choro        que criei para o rio frio, 
onde senti
a água suja
que sai do seu corpo
e não sabe fecundar.

Como um bloco de gelo, 
nadando no Nevá, as suas falas

                       vazias de gemido 
                       não existem mais 
                       no meu arquivo.

Tudo derrete
sob os sóis da pandemia.

Mas te encontro 
entre os leões fugidos
para a fauna das paredes, onde a dama 
segura o corno do unicórnio e diz: 
venha, vamos para Naufragados,
ainda uma vez, as vênias.

Você se violentou 
nos passos mudos
quando andávamos
                      como postes
                      atropelados 
                      pelos seus medos.

Você não quer, e não se pode ser livre
a não ser nos livros 
                      onde não há
                      vírus e vermes.

De nada valeu 
você ser assim alto,
e peludo
e desalmado

quando os fios de internet
estremecem
as páginas imprecisas.

Eu te atiro
na lixeira dos arquivos.

Você baba quando brame, 
trama essas transações
na sua pele de cobra, 
essa pistola.

Há um mundo de ilusões 
tão fáceis de silenciar, 
ocultar e bloquear
sempre que se quer
ser sem sonho.

Levo ao zoológico 
um gozo que perdi
quando te trouxe de novo 
à vida, poeta.

                      Deixo o urso 
salivar entre grades,
rondar as janelas, fazer falta.

E o urso polar chama a Ursa,
que chorou todo o Atlântico.

Os animais
já não sentem
esse torpor de asas,
meu poema. Você sangra
           e eu danço sem parar, assim, 
           monotemática,
           sem sequer balançar as jaulas.

Com a chave do tempo, 
ponho em movimento 
a minha devoção.

Da constelação, 
eu desço, ergo um picadeiro,
um castelo de cartas,
             meu reino 
             todo adornado
de fios de outro tempo,
             revestindo 
o frio do castelo 
onde me sento 
para ler Sobre isto 
e uma revolta
              assola 
todos os bichos 
que chegaram 
já congelados 
ao mar.


domingo, 22 de dezembro de 2024

"Ilustrar" Desconjunto, traduzi-lo em imagens


Entre os planos que ficaram para o próximo ano, além dos projetos de um livro de ensaios e vários textos investigativos, há um conjunto de ações similares às do Rumor da casa, em 2024: quero fazer as revisões e edições grátis, em pdf., dos livros mais antigos, discutir suas performances, revisitar seus pressupostos. 

Eu ia reiniciar pelo Depois da água, mas decidi me dedicar antes ao primeiro livro, o Desconjunto. Em relação ao Rumor, eu dispunha de muitas imagens, antigas e recentes, para acompanhar a série de postagens que fiz no meu Instagram, com os poemas em revisão. A mesma coisa com o Depois da água, que contém um caderno de fotografias e todo um trabalho de fotoperformances em lightpaiting, que também foi exposto. 



E o Desconjunto? Figurinos, objetos cênicos não existem mais. Registros de performances ao vivo tenho vários, mas me surgiu um desejo: (re)"ilustrá-lo", ou melhor, traduzir para novas imagens a atmosfera mais surrealista dos textos. Já disponho de um grupo de desenhos, os quais iria complementar, na mesma técnica usada (giz pastel sobre xerox de fotografias). Coisa da qual não me senti capaz. Tentei por um lado ou outro, durante o semestre passado, e tentarei novamente no próximo, assim que começar a série de postagens. Isso significa voltar ao formato A4 e ao fundo PB, depois de muitos meses de colagens sobre tela, com veladuras verdes (a série de 12 telas Pele & anexos, concluída).




Foi uma boa experiência postar os poemas do Rumor, conforme eu os ia revisando. Assim, fui elaborando com tempo as notas de processo, repensando os textos, conversando com amigagens que também são poetas sobre pormenores nada inferiores. Esse conjunto de postagens que antecede o fechamento das revisões para o livro digital foi o modo que escolhi de testar dimensões e limitações do meio/mídia, além de refletir sobre o que cabe e o que não cabe numa versão atual, voltada para leitura em dispositivos que, de alguma forma, aceleram muito a fruição, mesmo em contraste com a oralidade (e, com o impresso, nem se fala).

Um livro eletrônico é muito diverso de um livro encadernado, embora as versões e-book quase sempre acompanhem a linha dos materiais físicos, hoje. Creio que ainda surgirão muitas especificidades para debate, sobre essas coisas, no campo literário. Como a leitura de romances é a mais popular, tanto nos meios digitais como dos livros físicos, essa discussão tem sido tímida. Considero cada mídia, cada espaço, com seus desafios particulares.

Isso tudo é especialmente complexo quando se trata de um trabalho de poesia que investiga a performatividade dos suportes, e que teve na oralidade o seu registro de nascença. Esses três primeiros livros que publiquei, e mais ainda o Depois da água, foram maturados depois de um tantão de performances em público. Todos eles tiveram uma versão em livro muito posterior à sua elaboração conceitual. Sou grata por poder, hoje, refletir sobre essas questões de materialidades e suportes com muito vagar e honestidade, revisitando meus erros de juventude para elaborar questões de pesquisa.






Não tenho mais a primeira versão do Desconjunto. Ela data de 1998, quando entreguei no Instituto Estadual do Livro do RS o original do que seria minha primeira publicação. Chamava-se "Mundos possíveis" e tinha poemas mais breves. Foi selecionada para edição (o que, em si, já era uma glória), mas um conjunto de situações institucionais (entra governo, sai governo, muda a equipe, acaba a verba, etc.) fez com que esse prazo entre avaliação, seleção e publicação durasse 4 anos. Sorte a minha, que tive um primeiro livro mais maturado. E não me envergonho dele. Tanto que performei, ano passado, em Montevidéu, um poema que consta ali, uma espécie de homenagem à Ana C., na minha rápida passagem quase penetra pelo Mundial Poético de 2023. Isso me leva a outro dos planos para 2025: o de performar um pouco mais, seja ao vivo ou para áudio, vídeo, fotografia, redes sociais, e mesmo para trabalhos impressos.